Aquela Música: SPC (Zeca Pagodinho)

Sabe aquela história de que tudo acaba em samba? Pois é, esse é um dos inúmeros exemplos. E todos os elementos clássicos para um bom partido alto moderno (como eu chamo a modalidade desde a revolução mercadológica desenvolvida por Martinho da Vila) estão aqui: A informalidade, o tema cotidiano, a experiência empírica (de pelo menos um) dos autores e um climão de festa no boteco da esquina que só aquele arranjo puro, batucado e valorizando o equipamento próprio do Samba consegue.

Note que não há um título oficial, mas onde você procurar, vai estar lá “Zeca Pagodinho – SPC”.

Estou falando de SPC (como se você já não soubesse disso desde o título, mas eu gosto dessas introduções – UIA! – dramáticas, Rá!). Essa canção é tão icônica na carreira de Zeca Pagodinho que, na época que as pessoas se importavam um pouco mais com isso, chegou a ser o nome informal, ou popular, do disco, que tinha o diferente nome de Zeca Pagodinho. É isso aí, a canção é uma parceria entre Zeca e Arlindo Cruz e começou a ser concebida num táxi fazendo trajeto entre o Centro (RJ) e Copacabana.

Segundo Luiz Fernando Vianna, em seu livro Zeca Pagodinho: A Vida que se Deixa Levar, Zeca tinha o costume de encontrar o amigo ‘Da Cruz’ no prédio da Caixa Econômica Federal – onde Arlindinho trabalhava – para irem juntos aos pagodes da vida. Arlindo chegava a ouvir os colegas encarnando neles, falando que eram namorados. Mas o caso é que pegaram um táxi e Arlindo contou a Zeca que uma ex-namorada do boêmio feliz o havia procurado por telefone cobrando, de forma impaciente, uma dívida. Você pode imaginar que dívida era essa, né?

Carinhosamente conhecidos como ‘o gordo e o magro’, os compadres Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho.

Pois é exatamente o que a música diz. A ex-amada abrira um crediário em seu nome para melhorar o guarda-roupas do distinto e ele não ressarciu a moça. Bem, Vianna não detalha, mas posso imaginar o nível de impaciência da mulher ao cobrar a grana de Zeca através de Arlindo, pois pra eles começarem a fazer a canção ali mesmo no táxi, deve ter sido uma tremenda de uma trollagem, ou um impulso de fúria e vingança contra um desaforo que visava difamar o rapaz do Irajá. A coisa fluiu tanto que antes de chegarem a seu destino em Copacabana, já tinham feito o primeiro bloco da música.

Precisei de roupa nova
Mas sem prova de salário
Combinamos, eu pagava
Você fez um crediário
Nosso caso foi pra cova
E a roupa pro armário

E depois você quis manchar meu nome
Dentro do meu metiê
Mexeu com a moral de um homem
Vou me vingar de você (porque)
Eu vou sujar seu nome no SPC (…)

Não sei vocês, mas quando lembro do resto da letra, fico pensando na cara da coitada quando ouviu isso. Duvido muito que ela tenha tido alguma dúvida de que ela não era o alvo do SPC da obra (e sua fúria consequente). Mas como não estou aqui para suposições com ilusões de verdade, só posso exercitar a imaginação e me divertir a cada audição ou quando estou tocando essa num pagode aí da vida. Ah, você é daquelas pessoas que só sabem o refrão? Sem problema, Titio Saga dá uma força:

A fonte para este texto foi um trecho do livro: Zeca Padoginho – A Vida Que Se Deixa Levar (2003 – Série Perfis do Rio), de Luiz Fernando Vianna.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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