Prêmio da Música Brasileira – Samba perdendo espaço?!

Em 2014, o Prêmio da Música Brasileira completa 25 anos e homenageará o Samba em sua próxima edição, em 14 de maio. Wilson das Neves é o mais cotado com 6 indicações e o Samba tá aí pra todo mundo ver nossa cultura popular, certo? Éééérrr…. mais ou menos, mais ou menos, pelo menos, segundo uma pesquisa estranha aê. E nem vou entrar no mérito de Neguinho da Beija-Flor ter se queixado por sua própria ausência no livro comemorativo de Antônio Carlos Miguel. O SESC (Serviço Social do Comércio) promoveu uma pesquisa entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2013, entrevistando 2,4 mil pessoas de 139 municípios de 25 estados brasileiros. Bem, os conflitos de informação estão em diversas camadas, mas o começo é o resultado: O Samba é apenas o sétimo colocado na preferência musical do brasileiro, ficando atrás do sertanejo, MPB e pagode, as três primeiras posições. Já era mais do que esperado que os bambas de verdade se doessem com tais resutados, mas eu tenho minhas teorias para essa pesquisa e prometo não usar argumentos protecionistas, do tipo ‘quem não gosta de samba, bom sujeito não é’. Vou expor alguns sinais de que a pesquisa pode até ser legítima, mas merece ressalvas. Pesquisas de opinião não confiáveis Primeiro de tudo, não confio em qualquer pesquisa de opinião em que o resultado é baseado em menos que o total do contingente, ou seja, nenhuma pesquisa, pra mim, é 100% confiável. Pensa bem, se você entrevistar 100 pessoas num lugar bem movimentado pra tirar sua conclusão, quem te garante que aquelas 100 pessoas, numa coincidência cósmica, são exatamente o espelho da opinião pública? Isso não é uma urna de eleição, onde a maioria vence, estamos falando de opinião, estatísticas, então, se você não pode falar com todos TODOS, você está produzindo um resultado que não condiz com a realidade. Como aquelas pessoas egocêntricas que acham que algo é bom ou ruim por que seu grupo social disse que sim/não. Não é assim, jovem, você precisa ter uma visão do todo pra opinar. O país é muito diversificado culturalmente Um sintoma básico também é que o Brasil é muito grande e muito diversificado. O Samba é uma cultura genuinamente brasileira e chegou a ser institucionalizado como nossa música oficial, mas isso foi pra inglês ver, uma política ufanista de Getúlio Vargas, não deu pra ir de casa em casa garantindo que todos virassem sambistas, além do que, já tem mais de 80 anos isso. E outra, existe o Samba e o samba, existe a cultura que tem matriz africana e veio agregando inúmeros elementos de modo antropofágico ao longo dos anos, e tem o gênero musical. A cultura, você não mexe, mas a música sofre influências. Grande público consumista Como eu adiantei no item anterior, a música sofre modificações, umas sutis e naturais, outras gritantes forçadas de barra pra embrulhar e achar um lugar na pratelheira da loja. Se você for perguntar coisas em uma pesquisa, vai se deparar com o famoso ‘top of mind’, aquele primeiro nome que você lembra em determinado assunto (tipo, Vila Isabel-Noel Rosa; Mangueira-Cartola, Xerém-Zeca Pagodinho, etc), nessa, é muito mais fácil a pessoa lembrar de sertanejo universitário (o de raiz está recluso) da rádio e da TV do que do Samba, pois quem curte o Samba não está em todo lugar, costuma ser um público muito fiel, apesar de sua cultura não ser exposta na grande mídia. Agoniza, mas não morre O Samba não precisa estar nas rádios (lembre-se, a geração atual que canta samba mais antigo é só mais uma face da mesma moeda comercializada que traz o pop de um lado e a pseudo-tradição do outro), o Samba está aí em todo lugar, em lugares que não são divulgados na TV porque não têm apeo comercial. Quem divulgaria sem poder manobrar a autenticidade da Roda de Samba da saudosa Tia Doca ou o Buraco do Galo, ambos em Oswaldo Cruz? Há muitos outros que quem é de verdade sabe o caminho, então perder espaço midiático para sertanejo pop ou o funk que não se admite funk, como Michael Jackson Anitta não é uma derrocada do Samba, olha há quantos anos o Samba tá aí e por si só move multidões onde se instala. Enquanto outros duram menos que a Lambada. Curiosidade Repararam que o Samba perdeu colocações para um tal ‘MPB’? Se isso não é a prova definitiva de que a pesquisa do SESC apenas visitou o lado industrializado da cultura em massa, nada mais é. Se não, em algum momento perceberiam que MPB significa Música Popular Brasileira, ou seja, qual é a música mais popular do que a cultura que nasceu aqui vindo das classes mais pobres e ganhou todas as camadas? É tão genérico que Legião Urbana também se encaixaria no rótulo. Aliás, se estiverem falando genericamente de caras como Chico Buarque, João Bosco e Caetano Veloso, sinto lhes informar, mas os três têm um pé muito fincado no Samba também, e a lista é enorme, vou ficar por aqui… Por enquanto, pois, você sabe, estamos de olho. Fonte: UOL.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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