Leci Brandão – Amor, São 300 Anos

A canção Amor, São 300 Anos, já no título, é uma preciosidade quando se fala em luta contra o preconceito, pois, o que me chamou à atenção, foi o tom com que eu li. Pareceu muito o tipo de resposta que eu daria (UIA!) diante daqueles casos pouco empáticos em que alguém fala aquele texto decorado: “Vocês veem racismo em tudo” ou “olha lá, tem um ou dois negros na faculdade/novela/capa de revista/etc, vocês reclamam à toa” ou ainda, o pior texto irracional decorado: “o racismo acabou, o problema é social e não racial”. Aí, você vira prx simpáticx e diz: Amor, são 300 anos. Faixa 9 do disco Anjos da Guarda (Gravadora RGE, 1995). Muita inocência achar que a escravidão acabou só no 13 de maio de 1888 e muita maldade achar que escravidão e racismo são sinônimos, que acabando um – perante a lei, mas não em sociedade – o outro se extinguiria também.


leci - amor são 300 anos

Aliás, 13 de maio de 1888 só se assinou uma lei, depois de algumas outras, que oficializava o fim da escravidão por motivos econômicos e não por uma evolução no pensamento político e social do brasileiro. A Inglaterra precisava ampliar seu mercado industrial em ascensão e o Brasil insistia em ir na corrente contrária, se mantendo preso ao que já lhe era confortável – como faz até hoje – para a pequena parcela dominante da nação. Assim que a Inglaterra botou pressão, o Brasil arregou e, via de regra, assinou a lei – que levaria muito tempo pra se fazer valer em todo o país – mantendo resquícios, vícios e hábitos até hoje. É como diz a canção, só estudando o assunto, só debatendo e não tentando se esquivar do assunto pra entendermos e bolarmos medidas que amenizem até que se tornem soluções. Ficar só negando pra despistar a própria ignorância é besteira.

Sendo assim, foram mais de 300 anos sangrando e lutando, com várias camadas sociais no apoio, uma luta lenta que deixou o legado do racismo, e você sabe porquê? Essa é outra questão que as pessoas não param pra pensar porque não costuma estar nos livros convencionais de história: O que foi feito daquele povo negro que foi “libertado”? Você aprende que a princesa branca, católica-apostólica e feminista veio, assinou e num passe de mágica libertou um bando de gente que trabalhava de graça passivamente e acomodada, mas não fica sabendo que os senhores já estavam tendo prejuízos com fugas apoiadas por políticos e fazendeiros, muito senhor teve propriedades incendiadas, saqueadas e até feitas de reféns. O medo foi transformado em resignação nos livros, porque não se escrevia livro de história nos quilombos.

Pensa bem, a mão-de-obra negra escravizada foi o que ergueu esse país, era abundante na região rural – que era a maior parte do país – e, no entanto, você não vê negros comandando fazendas. Já notou isso? Agora, nas favelas e subúrbios, você vê uma quantidade quase absoluta de negros/pardos, não é? Então, dever de casa de titio Saga pra ti:

Assinale a opção que mais se adequa à questão:

Mais de 50% da população brasileira é negra e mais de 50% da população vive nas camadas menos privilegiadas da sociedade ao passo que uma minoria eurodescendente habita, em sua maioria específica, as camadas mais abastadas e dominantes? Por quê ?

a) Preguiça do negro

b) Malícia do negro

c) Acomodação do negro

d) Azar do negro

e) Com a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, a população antes escravizada não foi integrada à sociedade por qualquer programa social do governo, ficando relegada às funções subservientes, de subsistência, de desemprego e/ou marginalizada e sem acesso a ambientes acadêmicos/culturais.

13 de maio não chega nem perto da significância do 20 de novembro para a luta contra o racismo, mas também podemos extrair uma boa reflexão pelo simples fato de se tocar no assunto.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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