A beleza que não se vê, mas está lá

O texto a seguir foi publicado como legenda de uma foto no Facebook. O artista é José Maria Arruda e a modelo, ainda não se tem notícia do nome. O álbum onde ele exibiu a história e chama ‘SÉRIE PRETO É BONITO (BLACK IS BEAUTIFUL) e tem a descrição: Miscigenado, porém racista… Nossas contradições sociais’.

Foto: José Maria Arruda (Facebook). Modelo: Nome ainda não informado.

PEQUENA HISTÓRIA DESSA FOTO: Sábado passado fotografei meus amigos malandros da Mocidade na Lapa…

No meio do ensaio, descendo uma das ladeiras de Santa Teresa, essa jovem senhorita, acompanhada de suas tias, parou para nos observar fazendo o ensaio…

Pedi, então, para tirar uma foto dela… Ela ficou surpresa: “Eu, moço?… mas eu não sou bonita!”… Eu disse então que toda pessoa é uma estrela, tem seu brilho e sua beleza própria e que eu gostava de tentar captar o brilho de cada pessoa…

Disse a ela que ia provar como ela era bonita… Ela continuou incrédula e relutou até que uma das tias a encorajou… Fizemos essa foto… Perguntei se poderia enviar para ela por facebook ou mesmo e-mail… Ela disse que não precisava…

Acho que não tinha Facebook nem e-mail… É uma pena, pois pode ser que ela viva a vida toda sem perceber sua beleza própria… Queria que essa foto de alguma forma chegasse até ela, mas não sei como…

A foto com a descrição e comentários você vê aqui, agora, pense comigo: Isso é só uma questão de gosto que nasce do chão ou tem a ver com a cultura que faz o belo ser direcionado a modelos pouco comuns para nossa maioria populacional? Assim como a moça da foto, conheço muita gente que não se valoriza por achar que é comum demais, não tem graça, cabelos, traços, estaturas, tudo sem o brilho que o Photoshop mostra em tantas pessoas mais afortunadas.

Achei a história de uma singeleza tamanha que até relevei um comentário que li por lá se referindo a ela como ‘beleza de morena’. Poxa vida, a garota é negra! Mas, vá lá, isso não tira a beleza dela nem do momento, muito menos da sensibilidade do artista.

A essa altura, talvez ela tenha sido avisada sobre sua história na internet, até porque já eram 3442 compartilhamentos, 5162 curtidas e 248 comentários só até o momento em que escrevi este texto (em menos de um mês desde a publicação original). Caso ela não saiba, que algum conhecido dela possa lhe mostrar, pois se é um absurdo que a mulher negra seja condicionada a não se achar bonita, é um absurdo maior que ela tenha sua beleza reconhecida e não saiba disso. A auto-estima das nossas agradece.

ATUALIZAÇÃO (08/07/2014)

No desenrolar da história, os milhares de compartilhamentos da postagem de JM Arruda ajudaram a localizar a moça. Ela se chama Carolina Oliveira, estudante do Ensino Médio, filha de um eletricista e de uma farmacêutica, moradora da Zona Oeste carioca. Neste link, o fotógrafo informa sobre a moça e mantém seu incentivo para que ela se veja com o brilho no olhar e o semblante cheio de vitalidade que tem e que tantas pessoas notaram a partir da publicação. É isso aí, Carolina, cada um tem seu brilho e você tem tudo pra descobrir até onde vai com o seu.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO e marcado , . Guardar link permanente.

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