Porque haver um Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

O negro foi escravizado e violentado em todos os níveis por séculos aqui no Brasil e pelo mundo, de maneira geral. Ninguém chora por isso. Agora, quando o negro de hoje lembra que a história foi desfavorável e tenta alguma forma de se afirmar como uma etnia perfeitamente igual a qualquer outra, aí, tem chiadeira. É assim quando algum negro ganha um prêmio, e as alegações de que foi por ‘pena’, ‘politicamente correto’ e essas baboseiras, demonstrando que a sociedade no geral não acredita que o negro tenha plena capacidade, ainda sendo dependente da ‘raça superior’. Vai por mim, muita gente esconde o racismo até ser questionada nesse sentido.

Bem, o mesmo acontece com ações afirmativas. Cotas? Tentam colocar no negro (UIA!) um complexo de culpa por supostamente estar sendo favorecido (gente que fala isso deve comer os livros de história em vez de lê-los). Afirmações ‘100% Negro’? Dizem que é ‘racismo inverso’ (ignoram que exista uma ideologia afirmativa por trás, porque é mais fácil vomitar essas besteiras do que dar um ‘google’ e fazer uma simples pesquisa). E por aí vai, até a cereja do bolo, que é a contestação do 20 de Novembro, como tentativa do negro de se destacar do branco. Até é, no sentido de que o negro não é uma raça atrelada ao branco, somos etnias diferentes e não dependentes pelo modelo social da escravidão. É como o patrão que tem de pagar direitos à empregada doméstica: Não parece certo pagar por algo tão “natural” pra ele.

Na carona da contestação do 20 de novembro (e aquelas aberrações que desqualificam Zumbi pra enaltecer a família real), vêm o questionamento clássico: “Se já tem o Dia Internacional da Mulher, ter um dia só para a mulher negra não é separatismo?”. Essa eu respondo fácil: NÃO! Principalmente porque mulheres são vítimas do sistema machista, mas entre as mulheres, as negras são as que ficam abaixo na pirâmide social. Pensa só, macanudo, se vivemos em meio ao racismo e ao machismo, logo, a mulher negra vai sendo jogada pra baixo na escala de ‘valor social’. Isso, desde a escravidão, quando as mulheres negras eram violentadas pelos senhores brancos e seus filhos e odiadas pelas sinhás, porque ‘desencaminhavam’ seus homens com seus ‘feitiços’ e ‘falta de pudor’. O juízo de valor do que é permitido a uma mulher é bem antigo.

Sendo assim, o dia da mulher negra (resumindo o comprido nome da data) é muito importante, não apenas para a mulher, mas por ser uma parte específica de nossa população que tem que ficar respondendo se seus filhos são todos do mesmo pai; que é hostilizada por homens quando mostra que não é objeto permanentemente aberto ao sexo sem compromisso; são aquelas pessoas que sempre ouvem ‘adoro uma preta’, mas nem metade “serve” pra ser assumida diante da família. A mulher branca, por exemplo, não tem que ficar explicando que não é a empregada da casa quando algum prestador de serviço bate à porta; a mulher negra é igualmente mulher, junto a uma branca, mas uma mulher branca pode ser racista, como uma Ana Maria Braga da vida que ri quando uma Cacau Protásio da vida fala sobre presilha de cabelos, porque cabelos crespos, na teoria da cozinheira global, não precisam.

Enfim, por essas e todas as outras situações excludentes que tentam forçar a mulher negra a ‘aceitar’ seu lugar de servidão, como as novelas adoram mostrar, mulheres negras sem família, nascidas para servir café e abrir a porta dos milionários protagonistas brancos, por todo esse contexto que muita gente acha natural (mostrando o racismo naturalizado), por tudo TUDO isso, é preciso de datas afirmativas como o Dia Internacional da Mulher Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho. Um adendo final: A data é, também, institucionalizada em São Paulo, autoria da Deputada Estadual Leci Brandão.

Não é separatismo, é afirmação.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Porque haver um Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

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