O sambista que brilha no cotidiano

Houve um tempo em que, como todo jovem (UIA!) tive aquele devaneio infanto nerd músico juvenil de alçar-me ao estrelado e levar minha música a todos os lugares. Imaginava a galera vibrando, eu lá, sob holofotes (a única hora que não sou um constrangido tímido e cara de pau: músico modo ON) e todo aquele quais-quais-quais tchubiruba. Mas, pra encurtar a história, com o tempo, fui percebendo que muita coisa podia passar, só não podia deixar de ser músico. Digo, desde aquela adolescência sonhadora até a realidade de hoje, muita coisa mudou. Cheguei a desencanar de ser músico e desfiz de vários instrumentos, mantive só o banjo e meu velho violão mais velho que eu, “presente” de mamãe que desistiu das aulas.

 

E porque to contando essa lenga-lenga? Por causa de alguns fatores que – JURO – vão se interligar ali na frente. Acontece que quando fiz parte do grupo Fidalguia, o projeto sempre foi cultural, a valorização do Samba enquanto cultura contando sua própria história. O pai de um de nossos colegas de grupo assistiu a um ensaio e elogiou bastante, chegando a dizer ‘Já vi um garoto jogar mais que Pelé, mas não teve a mesma projeção’. O que ele quis dizer com isso? Ele mesmo explicou, pois, talento pode não te levar ao topo do universo, mas se você tem um dom, tem um talento, que tenha também um bom uso pra isso. E é aí que a coisa começa a fazer sentido.

Grupo Fidalguia. Novembro de 2013.

 

O ano era lá para 2008 e tive um colega de trabalho que me chamou à atenção por ser o único daquelas poucas dezenas de pessoas que falava em Samba. Colei logo com o cara e conheci alguns pagodes na vida que lembro até hoje. Seu nome, Marcelo José Adão, mais conhecido como Marcelo Negrão. Na época, eu era um estudante de jornalismo começando a conhecer a história do samba em minhas pesquisas acadêmicas (de onde surgiria este blog) e, como avaliação semestral, tive por tarefa buscar alguém para entrevistar que não fosse lugar-comum (tipo parente, amigo e essas pautas confortáveis de se achar). Apesar de já ter estabelecido um convívio social com Negrão, fiquei num dilema, pois, ali eu tinha visto um assunto muito interessante, mas fiquei cabreiro de a professora não dar muito valor. Mas eu sou teimoso e confiei no meu faro e na força das minhas idéias.

Marcelo Negrão. 

 

Entrevistei-o, pois confiei no assunto abordado: O músico do dia-a-dia, suas convicções para estar lá mantendo sua carreira, seu glamour artístico e… “vambora que tem que acordar cedo pra trabalhar amanhã”. Tipo, ser músico e ganhar com isso é normal, mas a mídia influencia demais o público que acaba achando que só Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho são artistas que deram certo, saca? Se você não vira milionário e adorado na TV e nas rádios, seu trabalho não tem tanta graça assim. Pois bem, conversamos, resultou num trabalho muito bem avaliado e se eu encontrar aqui entre meus guardados eu publico, mas temo que tenha ficado em algum HD re-formatado daqueles tempos.

Grupo Jaqueira: Lu, a única flor no meio do monte de cravos. (risos).

 

A tônica da conversa foi toda essa, a ‘moda’ de muita gente achar que é sambista de olho no público fiel que agrega, a realidade de trabalhar se divertindo, mas complementando renda com emprego regular pra não ser engolido pelas contas, as modificações comerciais no som do Samba nas gravadoras e um pouco mais. Essa conversa – depois reparei, cavucando na memória – teve muito a ver com uma que tive recentemente com Luzinete ‘Lu’ Fogaça, cantora, passista, rainha de bateria, etc, etc… O papo fluiu por esse lado também, veja só, anos depois. A Lu – que já participou do concurso-reality Ídolos em 2010, eu conheci na Feira das Yabás, eu lá na platéia bebericando e ela cantando junto ao grupo Jaqueira, há coisa de dois anos, acho. Pelo Facebook, nos falamos e eu perguntei sobre o Samba em sua vida. Ela me vem com:

O samba abastece minha alegria. Amo melancolia… Amo sua fuga de cantar… Transmitindo alegria.”

Fez idéia? Pois é. Então, aí – não antes, nem depois de aí – eu pergunto sobre sua profissão na área da estética e ela manda, taxativa: “A estética é trabalho, a música, missão”. Pronto, né? Cabô, meu pai, cabô e até amanhã, gente. Rá! Isso me fez lembrar aquela bela canção de Milton Nascimento ‘Nos Bailes da Vida’, de onde o cantor e compositor acerta em cheio essa vida de artista apaixonado pela arte:

 

Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão 

Todo artista tem de ir aonde o povo está 

Se foi assim, assim será 

Cantando me desfaço e não me canso de viver 

Nem de cantar

Depois disso, só pra arrematar, prefiro o meu pagode pulsando forte no fundo do quintal do que mil holofotes na cara, mas sem a cultura do samba na veia, na cabeça, na garganta e na ponta da palheta. Palmas aos artistas do dia-a-dia, porque muita gente tem mídia, mas não tem chão, saca? Esses artistas lapidados no próprio trabalho é que dão paixão ao Samba. Samba não é coisa que se construa sem ter o quê do Samba na veia. Sei lá, acho que nasce contigo. Raiz que é raiz vem do chão. Rá!²

 

Inté e axé!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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4 respostas para O sambista que brilha no cotidiano

  1. Laila Drumond disse:

    Lindo texto! Parabéns!!!

  2. Rodrigo Andrade disse:

    Cara… sou Sambista de SP e estou perplexo com o seu blog, pois não consigo para ler. Os seus pensamentos sobre o Samba são idênticos aos meus, onde até me atrevo a falar que aqui em São Paulo tem muito sambista bom de Raiz mesmo porém dar para contar nos dedos. Sou compositor mais infelizmente todos estão afim do famigerado Pagode (Não o de Raiz) e minhas letras falam que é coisa de velho. Lamentável. Mas na minha opinião Sambista não faz apenas nasce Sambista e Graças a Deus nasci assim e do Samba de pele negra filho de baiano de Nazaré das Farinhas terra do grande Roque Ferreira com muito orgulho. Se quiser te envio as minhas letras.

    • Rodrigo, muito obrigado pelas palavras. Valeu mesmo. E é isso mesmo que eu vejo aqui no Rio, uma avalanche de pagode/pop e eu fazendo papel de teimoso com um monte de gente por defender o samba de verdade. Se você tiver algum canal com seu trabalho, me passa que eu visito, divulgo… afinal, sambista tem que estar unido pra defender sua bandeira, né? haha. Grande abraço!

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