Vitrola de Ficha – Antonico (Ismael Silva)

Ismael Silva.

Entre as décadas de 1950 e 1960, Ismael Silva vivia um momento complicado. Antes, uma ambientação. Ismael já havia entrado para a história de nossa cultura como um dos nomes à frente da Deixa Falar (falo nisso futuramente) e da conseqüente contribuição sonora/rítmica ao Samba, tendo trazido, junto à famosa turma do Estácio, surdos, cuícas e tamborins para os desfiles, até então, amaxixados. O famoso – palavras dele – bumbumpaticumbumprungurundum de nosso samba batucado.

Fez parcerias importantes como Se Você Jurar e Nem É Bom Falar (com Nilton Bastos) e Adeus e Para Me Livrar do Mal (com Noel Rosa), além de ter tido uma espécie de sociedade com o cantor e ‘compRositor’ Fracisco Alves (famoso por gravar as composições, desde que os verdadeiros compositores o incluíssem como parceiro – manobra muito comum da época e de hoje – Rrrratinho-nho-nho!). Enfim, Chico Viola era um vendedor de discos frenético e pareceu-lhe interessante aceitar o trato.

Francisco Alves, o compRositor que chamava Ismael de ‘preto de alma branca’ em seus shows, para agravar sua exploração da obra do bamba do Estácio.

Bem, acontece que Ismael se envolveu numa confusão. A versão mais recorrente é que um malandro chamado Edu Motorneiro mexeu com sua irmã, Orestina e o bamba do Estácio largou chumbo quente na traseira do valentão. Isso gerou uma etapa na prisão, ele foi condenado a 5 anos, mas cumpriu 3, saindo em 1938 por bom comportamento. Ismael saiu e sumiu. Ficou, talvez, envergonhado de encarar a sociedade de novo, já havia perdido o amigo Nilton Bastos (tuberculose, aos 31 anos, foto abaixo à esq.) e, enquanto esteve preso, foi a vez de Noel (tuberculose, aos 26, foto abaixo à dir.) partir para as estrelas. Ficou sem trabalhos, parcerias e seguiu quase que no anonimato.

Pois bem, em 1954, Alcides Gerardi gravou uma composição de Ismael: Antonico. Nela, o autor pede ao Antonico do título uma intervenção pra um tal de Nestor, que estava em dificuldades, mas, apesar de todo talento como sambista, não estava se dando muito bem em seu metiê. Há quem diga que a letra é autobiográfica, fato nunca confirmado por Ismael. Minha opinião? “Faça por ele como se fosse por mim”. Daí, tanto Antonico, quanto Nestor quanto Ismael, todos foram alavancados ao sucesso novamente.

Alcides Gerardi.

 

A grande curiosidade é que deu certo. Ismael ressurgiu das próprias cinzas com a gravação de Antonico e o momento que viria a seguir fora muito propício. Viria, na década seguinte, o movimento de contracultura pela revalorização do Samba, onde, além de Ismael, também despontariam pra um público mais abrangente Nelson Sargento, Cartola, Clementina, etc… Mas isso é outra história.

 

Inté e Axé!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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