Protesto: Império Serrano troca Samba de raiz por pagodete pop por dinheiro

Botequim, pra mim, é esse. Não um palco fake e som pasteurizado.

Não é por ter proximidade com a família (Silas) de Oliveira que admiro o Império Serrano. É por sua história (e porque imperiana Senhora Sagatiba mandou, rs, brincadeira! É sério). Uma história rica em compositores, composições e inovações, além da ligação visceral com a própria cultura negra, como é o caso do Jongo. As raízes do Samba, no Império, são muito diversificadas e isso me apetece. Aí, vindo da empolgação do último Botequim do Império que fomos (27 de setembro, eu sempre me lembro), já estava todo emperequetado para curtir o sabadão (8 de novembro) no Botequim, inclusive comemorando aniversário dentro da família Oliveira.

 

Amizade, chegamos na porta da escola e vimos que no lugar de mesas com músicos em volta formando a roda, havia um mini palco (desses estreitos e baixos com duas vigas cromadas nas laterais) e um grupo de jovens, talvez pouco mais de adolescentes, cantando, literalmente, um ‘tchubidatchubidada’. Amigos, tem que ser homem pra admitir: Broxei. Estava desértico, uma parte muito pequena da quadra, próximo à entrada era ocupada por mais mesas do que gente. Iluminação tosca e som esquisito. Na boa, me senti naqueles bares de muito pouca infra-estrutura, onde você não diferencia um músico de um bêbado de festa e um tantã de um prato caindo no chão. Fiquei mals.

Grupo Alta Pressão, do novo Botequim do Império. Nem lembro de seus rostos, não consegui entrar. Nada contra o grupo, mas o estilo não me atrai.

Olhei pra cara de minha senhora, ela olhou pra mim e disse “mas que m… é essa?”, ela não falava do grupo, ela falava da total transformação que o Botequim sofrera. Comparei nossa situação à de uma criança convidada a uma lanchonete fast food, recebe um prato de verduras e legumes. Tudo bem, sabíamos, por comunicado da página oficial, que  já não seria o grupo formado por Junior d’Oliveira, Luciano Bom Cabelo e outros talentos, mas daí a pagodete? Respeito os músicos que estavam ali na substituição, mas é inegável que eles precisam ser citados, não culpo um tubarão por morder, não vou culpar um músico por querer abrir seu espaço. Mas que não tem nada a ver, não tem nada a ver. Pensem comigo: É o Império Serrano, a escola de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Aniceto, Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz (tudo bem, o Arlindo flerta bastante com o mela-cueca, mas não é isso)… então, amizade, não tem como aceitar numa boa essa situação sem um protesto franco, direto e aberto.

A atual diretoria não respeita a história da escola e, o agravante, não entende muito de negócios (ou tendenciosamente já estava direcionada a fazer tal mudança). Não entende de negócios de entretenimento. Locais como Cacique de Ramos, Tia Doca, Terreiro de Crioulo e outros, simplesmente lotam em dias e noites de evento. E são raiz. Porque, raios, a quadra do Império Serrano, localizada num dos lugares mais frequentados da cidade, precisaria apelar para o pagode lelek de olho em faturamento? Dizer que o repertório de sambas clássicos é ultrapassado é coisa de menino de 13 anos assistindo ao Esquenta. Muito, mas muito chateado mesmo com essa atitude.

 

Senti-me tão ofendido com essa nova proposta que levei a dama até o outro lado de Madureira pra gente beber umas assistindo DVD do Quintal do Zeca, na Praça do Patriarca. Foi mais jogo… até que choveu, afinal, noite de diversão que começa daquele jeito, só podia terminar em chuva. Mas isso é poético, é o choro do próprio Samba diante do novo Botequim do Império. Ironicamente, em outubro, Rachel Valença, vice-presidente da escola, falou, em sua coluna no SDRZ (site do Sidney Razende), que não sabe porque o antigo Botequim (anterior ao que acaba de ser usurpado) acabou, ainda afirma que o Império parece não saber lidar com coisas que dão certo. Acho que é isso, Rachel. Não precisamos mais buscar explicações demais, é isso mesmo. Aliás, Rachel fala tão bonito sobre o verdadeiro espírito do Botequim do Império, que vale a pena ler o texto com bastante atenção, depois daqui, lógico (Rá!), pra se ter ideia do que estou falando e de minha decepção com os novos rumos (não por serem novos, mas deturpados).

Você consegue imaginar Tia Maria do Jongo cantando pagodete? Realiza Ivan Milanez, da velha guarda da escola, fazendo passinho lelek? Pois é, o evento não só afasta agora o público do samba, como baluartes dali.

Vi que hoje saiu um texto de Daniel Brunet, na coluna de Ancelmo Gois (ancelmo.com) dando essa informação e mostrando um manifesto de um integrante de um grupo imperiano no Facebook.

 

Acho que essa iniciativa parece demonstrar um certo desvio de objetivos de uma escola tão tradicional. Parece a G.R.E.S. Tradição, que cai vertiginosamente todo ano no carnaval, mas se descobriu uma casa de shows lucrativa com o som da moda. Parece uma atitude de fazer dinheiro e o resto não importa. Sei lá se ainda estou em choque com os rapazes de colete estilo guarda-costeira e pinta de boy band com os quais me deparei ou se é uma legítima especulação, mas fico muito pessimista quando não enxergam o valor cultural e comercial do Samba. Cito de novo os famosos Cacique de Ramos e Tia Doca pra mostrar que Samba sem poluição tem lugar sim, não é porque não aparece nos meios de comunicação interesseiros em vender suas produções próprias industrializadas que a arte perde espaço. Na boa, caras, parece aquela piadinha ‘não sou bom em história, são coisas de quando eu não tinha nascido’. Arlindo Cruz, você disse, no DVD Batuques do Meu Lugar ‘nossa maior alegria será quando retomarmos as glórias de antigos carnavais’. Nego, com essa visão que deram sobre o Botequim, tá muito longe disso. Lamento. Agora, fique com o bom do Império Serrano cultural de verdade.

 

Todo Botequim se encerrava assim. Uma mistura de hino com cântico religioso. Isso é a alma, a raiz do samba em foco.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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