Samba pras moças e pras modas e pra todo mundo

 

Certa feita, assisti – em algum lugar que não lembro onde (faz uns 20 anos) – uma entrevista de Zeca Pagodinho. Era época de lançamento de Samba Pras Moças, um marco na carreira do cantor e do samba/pagode de um modo geral. Este pequeno trecho que eu lembro, a pessoa que o entrevistava perguntou algo dando a entender que aquele seria o momento de grande ressurgimento de Zeca, depois de ter estourado na sequência do trabalho que o Fundo de Quintal já vinha pavimentando alguns anos antes. A resposta, simples, porém direta, de Pagodinho, foi que ele, na verdade, nunca esteve sumido ou por baixo, pois nunca deixou de fazer seus shows na mesma proporção.

 

Bem, lembrei disso porque a grande mídia tende a turvar os olhos de quem só acompanha a ela. Meio que aliena mesmo, essa é que é a verdade. Porque, repare, se você freqüenta uma boa roda de samba, legítima, músicas que nunca tocam nas rádios são lembradas com a mesma naturalidade que muita modinha fica na cabeça de seu público, não é? Pois bem, nem todos percebem isso e geram frases como ‘temos que tocar o que o pessoal conhece mais’ ou – pior – ‘temos que tocar as músicas da moda porque é isso que atrai público’. Na boa, caras? Tudo mentira, né? Desculpa de quem quer retorno comercial imediato e a cultura é o que menos conta. Por coisas assim, Almir Guineto já declarou, há algum tempo, que evitou lançar discos, pois já não agüentava mais imposições e/ou cobranças para regravar sempre os mesmos sucessos. Isso, pra um compositor do gabarito de Dona Fia, cadê Ioiô, deve ser como estar acorrentado na areia movediça. Um enterro em vida, mas estou divagando.

 

CD mais recente de Guineto (2012), com inéditas. 11 anos depois do anterior, repleto de, adivinha, regravações.

 

 

O caso é que a pergunta inicial, que lembrei, de Zeca e a postura de Almir, junto a essa conjuntura atual que engessa o samba/pagode (comercialmente falando) também produz derivativos como Arlindo Cruz, que grava até com Patati e Patatá, se isso for ampliar seu mercado (Rá!), dizer que o que vale é a música. Nada mais “#somostodoshumanos” que isso, não é? Não que seja pecado ou crime, um tubarão morde e a gente não pode culpá-lo por buscar saciar suas necessidades, mas a questão neste blog é cultural, sempre. Então, culturalmente falando, o Samba nunca morre, como diz o clássico de Nelson Sargento (foi epígrafe de meu TCC nos tempos de facul e ainda falo especificamente dela futuramente). O que acontece é aquela distração de alguns e malícia de outros em esconder bem escondido nos fundos de quintais nossa arte popular, enquanto vendem seu peixe. Tipo o camelô que te empurra (UIA!) um produtinho mais barato e imediato te convencendo que na loja é mais complicado, sacou?

 

Só que moda é algo cíclico, né, brÓder? Então, como a maré, as modas vêm, vão e voltam com alguns detalhes diferentes e ficam se revezando nessa punhetação ciranda ad finem temporum. Nesse meio tempo, entre uma estação de moda e outra, o que fica, sempre, é a cultura, seja Samba, Rock, Forró e até umas vertentes pop. Nesse momento, aquele vendedor sagaz faz o quê? Vende o bom e velho Samba com um sensacionalismo exemplar, fazendo parecer que ele ressurgiu das cinzas, na tática mais batida, pra promover uma novidade que não está lá (não pro seu público fiel). É o mercado transferindo o olhar da moda para a raiz, como se fosse moda, entendeu? Aí, anunciam a grande volta dos grandes nomes e vai um monte de gente que fala de samba e não sabe o que diz se achando bom entendedor.

 

 

A moda vai e vem, e cada vez que volta, vai se mesclando mais. Já falei aqui como o (mercadologicamente falando) pagode (pop) está com cara de sertanejo universitário, que está com cara de funk e todos eles têm a mesma letra, revezando apenas a ordem, não é? É só evidenciar mais o cavaco, a sanfona ou uma batida eletrônica pra você decidir em qual prateleira você vai buscar seu bem de consumo imediato. Só que o Samba não se mescla. Ou melhor, ele ‘antropofagiza’, absorve de maneira muito própria, o que é interessante (desde sempre, se não fosse isso, nem cavaco tinha no Samba) e é aí que o mercado se desespera, porque não dá pra modificar a cultura e vender na estante. Daí que eu tiro essa minha teoria de ‘morte-e-vida’ do Samba. Quem é, sabe, freqüenta, acompanha, conversa, então não sente nada disso de ‘o samba está sumindo, temos que correr para a modinha’.

 

Só não há mais lugares com Samba porque a cultura do consumismo imediato se apropriou das mentes alheias. Aí, fazem como meu querido Império Serrano, que substituiu uma roda de respeito por um pagodete da moda apenas por apelo ao público imediato, no volta como era antes Botequim do Império. Público esse que vai correr de lá para outro canto na primeira mudança da moda. Já pensou, se em breve a moda do funk ostentação se instala em tudo quanto é lugar? O que vão fazer? Bailes funk ostentação em quadra de escola de Samba? Pensem nisso, bacanas. Antigamente, um samba não dependia só de inspiração, mas de um algo mais, uma força maior que nos guia ao papel e caneta, cavaco, violão, etc. Agora, só de anunciar com ‘samba’ no nome, todo mundo faz roda de samba, feijoada, e isso ou aquilo de samba e tals… Cuidemos pra que o termo Samba não se torne banalizado e seqüestrado pelo mercado, como aconteceu com o pagode.

 

 

Enfim, assim como Zeca Pagodinho, também acho que o Samba nunca esteve por baixo, exemplo disso é que o próprio Zeca, no máximo, sofreu uma certa geladeira na mídia, por não ter aderido ao mela-cueca, que estava tomando de assalto o mercado (e viria a ser conhecido hoje como ‘pagode ‘90’), o que o fez ser jogado na prateleira das velharias, mesmo ainda sendo um trintão de jeito moleque. Rolou uma pendenga com a gravadora, término melancólico de contrato e transição para outra, mas com o paradoxo de não lembrar a anterior, sem perder o que já havia construído, depois falo mais sobre isso. É dessa época um clássico obscuro de sua carreira, Cabelo no Pão Careca (que eu adoro, ao contrário da maioria que eu conheço que nem sabe que música é essa, mas eu lembro, das fitinhas samba&pagode), mas estou divagando de novo.

 

Enfim, renegar a moda por uma decisão artística – ou até intuitiva, como no caso de Zeca – pode parecer uma tentativa de suicídio mercadológico, mas se não fosse o filho de seu Jessé bater o pé e bancar sua personalidade musical, ele poderia ter se tornado algo genérico, mudando a cada onda nova, em vez de ser O Zeca Pagodinho, um dos poucos artistas queridos de forma realmente massiva até por quem nem o conhece direito (algo que me ocorre, ser parecido com Ivete Sangalo, mas sei lá, só acho). Ele aceitou não dar um passo afobado e ganancioso e é tão bom que fornece sucesso pra quem orbita em seu quintal em Xerém (alô, Quintal do Pagodinho). Aliás, Rildo Hora foi nome muito importante na produção do já citado Samba pras Moças que conseguiu – aí, sim – retomar a grande mídia, mas sem apelar para a moda. Nessa época foi acontecendo o fenômeno que eu chamo de ‘caraca, e agora, com a gente chama isso?’, porque era pagode (o nome do cara é Pagodinho, pô), mas não era como o pagode que “eles” estavam vendendo. Dali começou um tal de ‘samba’, ‘samba de raiz’ (redundância, já que o legítimo Samba É de raiz), ‘pagode’, ‘pagode de raiz’, ‘pagode de estúdio’ (gente que nem frequenta um samba e se acha) e outras nomenclaturas de mercado.

 

 

É isso, a moda é foda, mas não tem que dominar mentes, por mais que queiram. Daqui a pouco passa, vem outra e o Samba tá aí. Megalomaníacos de microfone podem anunciar que o Samba tá por fora, ficou velho e ultrapassado, mas é ele quem sustenta esse vozerio pop todo. Desafie aos modinhas a fazerem R&B, pra ver se se sustentam? Não, eles bebem é do Samba. Então, respeite quem pode chegar onde o Samba chegou e nada de ficar matando nosso velho malandro porque ele tem corpo fechado e vigor pra mais de séculos, ok? Pode não ter holofote sempre, mas tem cavaco, tantã e companhia tocando o tempo todo. O Samba nunca para.

 

Nota do autor: Fiz tantas referências a letras de sambas famosos, que quem achar todas, me manda que eu dou um prêmio. Mentira, não tenho prêmio nenhum aqui, mas valeu pela leitura!

 

 

Axé!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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