Mussum x Didi: Antigamente se aceitava melhor piada racista?

Renato Aragão, o Dr. Didi, terá publicada uma entrevista na Playboy agora de janeiro, na qual diz sobre seu incômodo com as críticas à Globo e ao Criança Esperança e sobre a “perseguição” ao humor ofensivo hoje em dia. Segundo o ex-trapalhão, Feios, gays e negros não se ofendiam porque entendiam que era uma zoação entre eles. Uma brincadeira.

Até concordo que era uma zoação entre amigos, mas que eram ofensivas, eram. Não é porque naquele tempo os ofendidos se calavam mais e não tinha internet pra sabermos os pensamentos de mais pessoas que a simples difusão disso na TV não gerasse preconceito. Afinal, como assim a TV não influencia tanto as mentes boas quanto as idiotas, não é? Existe aquele influenciado inocente que acha legal o que vê e aquele babaca que se aproveita da permissão da mídia pra ser preconceituoso “se tem na TV, então eu posso fazer”.

Eu mesmo não ouvia outra coisa na hora do faz-de-conta das brincadeiras de criança: “Filho do Mussum”, ouvi muito pra gargalhadas gerais. Não que não fosse uma honra a comparação ao artista, mas não era por talento, era por sermos minoria preta nos locais onde percorríamos (ele na TV e eu na classe média confortável). Não esquecendo de Tião Macalé e Jorge Lafond, que eram os outros 2 negros no elenco do falecido humorístico, mas que nunca deixaram o posto de elenco de apoio e escada para mais piadas ofensivas.

O argumento de que eram outros tempos não cola muito, pois, sendo assim, Hitler seria a nova Xuxa em carisma junto ao público, afinal, naqueles tempos podia e as vítimas aceitavam, não é? Não é? Não? Não. Acho que acontecia muito o arcaico ‘vou auto-ofender antes que alguém me ofenda’, assim eles riem COM você e não DE você, correto? CAÔ! Vão continuar te achando motivo de piada, só que você já fez o trabalho sujo para aquele que quer te humilhar. E isso não vale apenas para o racismo ou homofobia, óbvio que valia também para o próprio sambista da mangueira, quando debochava de traços físicos mais atribuídos ao povo do nordeste do Brasil (é bom falar, porque pra alguns, não falar de algo é como falar o contrário com os dentes trincados de ódio, então, é bom explicar sim).

Isso é como passar todos os dias batendo em alguém que não reage e dizer que ela só passou a reclamar de dor quando aprendeu que tinha o direito de não apanhar. Muito oprimido aceita a realidade adversa pelo simples motivo de não ter voz n meio em que vive. Agora temos. Agora, bateu em um, bateu em todos. A gente fala, faz barulho, divulga e se comunica. Não é seu humor que está ameaçado, é nossa mente que está iluminada.

Dignidade não está à venda e nem trocamos por seu sorriso. Se pra você sorrir eu tenho que chorar, você vai chorar e minha cara vai ser de uma revolta irônica que eu nem sei descrever direito.

 

 

Fonte: Notícias da TV UOL.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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