Resenha: Sambas-enredo Carnaval 2015 – Grupo A (RJ)

Nota do autor: Série A é pra futebol e eu não sou um globomaníaco pra generalizar carnaval e futebol como isca pra distraído pacote de entretenimento barato… muito embora “eles” façam de tudo pra pasteurizar a esse ponto. Prossigamos sem globices.

ESTÁCIO DE SÁ
Samba Enredo: DE BRAÇOS ABERTOS, DE JANEIRO À JANEIRO. SORRIO, SOU RIO, SOU ESTÁCIO DE SÁ!

(Compositores: Dominguinhos do Estácio, Tinga, Merica, Adriano Ganso, Dani Maroneze e Eduardo Martins)
Intérpretes: Leandro Santos e Dominguinhos do Estácio

A escola conta a própria história, desde a Deixa Falar, primeira escola e criada na mesma região do morro de São Carlos. Várias referências Às citações do bairro no cancioneiro popular e algumas jogadinhas da melodia me fazem pensar num desfile legal, divertido, nostálgico sem ser chato. E o samba tem uma cara de samba, mas sem muito o vício que faz muitos sambas parecerem demais entre si. Simples e direto. Gostei da proposta. Fez lembrar a beleza melódica e temática da Vila Isabel de 2013.

­UNIDOS DE PADRE MIGUEL

Samba Enredo: O CAVALEIRO ARMORIAL MANDACARIZA O CARNAVAL
Compositores: JR Beija-Flor, Toninho do Trailer, Ribeirinho, Lauro Silva, Diego Rodrigues, W. Correa, Carlinho do Mercadinho e Cabeça
Intérpretes: Marquinho Art’Samba

Uma bela melodia e uma letra redondinha. É assim que eu defino, e isso passa pela união entre letra e melodia. Ah, e o conteúdo também tá muito bem encadeado. É uma grande homenagem a Ariano Suassuna, um enredo bem lírico, diria até onírico… mas antes que eu comece a ficar chato como aquelas sinopses viajandonas, só digo isso: Lembro muito de cordel, não só pela óbvia referência ao Nordeste de Suassuna, mas os arranjos desse samba estão realmente belíssimos. Levo fé no bom desempenho da Unidos junto ao público.

IMPÉRIO DA TIJUCA
Samba Enredo: O IMPÉRIO NAS ÁGUAS DOCES DE OXUM
Compositores: Bola, Dudu, Marcão Meu Rei, Gallo e Alexandre Alegria
Intérpretes: Roosevelt Martins Gomes da Cunha (Pixulé)

Aqui a grande injustiçada do grupo Especial no ano passado, ela volta à África, dessa vez, falando de Oxum, orixá da riqueza, da jovem mãe, da beleza e da sensualidade. Melodia bem carnavalesca, mas com uns lances meio que à La ponto cantado, saca? Quem é da corimba sabe do que estou falando, daquele tom solene ‘sambado’, tipo oração musicada. Mais uma vez uma musica intensa e refrão de arrepiar.

PORTO DA PEDRA
Samba Enredo: HÁ UMA LUZ QUE NUNCA SE APAGA!
Compositores: Evaldo, Dr.Eduardo-Floriano do Caranguejo, Jedir Brisa, Miltinho, Manolo e Diego Tavares
Enredo sobre a luz. Caras, eu achei, primeiro, que era algo sobre a força da escola, comunidade e tals… mas estive dando uns googles na sinopse e vi que a coisa é pro lado da luz física mesmo, tipo, energia. Aí, tem um trecho que fala ‘a ampla visão do artista’ e não consigo mais pensar que esse enredo não tem participação da Ampla, concessionária de energia Elétrica em Niterói e São Gonçalo, região metropolitana, casa da escola… Sei lá, lembram-se do enredo sobre leite, patrocinado pela Parmalat? Não gosto, mas o samba é simpático.
A­CADÊMICOS DO CUBANGO
Samba Enredo: CUBANGO, A REALEZA AFRICANA DE NITERÓI!
Compositores: Sardinha, Gustavo Soares, Wagner Big, Diego Moura, Junior Fionda, Lequinho, Gabriel Martins e Igor Leal
Intérpretes: Preto Jóia

Preto Jóia de volta ao carnaval carioca, dessa vez pela Cubango, outra coleguinha de Região Metropolitana. Mais uma a falar de África com belo tom e linda melodia, cadenciada e um jeitão de samba de meio de ano. Aliás, a segunda parte dá uma força muito legal ao samba, quando entra a bateria. Se no começo o que envolve é a melodia forte, o que se segue é uma sucessão de possibilidades pro mestre de bateria brincar com a batucada que o tema e o carnaval permitem.

IMPÉRIO SERRANO
Samba Enredo: POEMA AOS PEREGRINOS DA FÉ!
Compositores: Arlindo Cruz, Lucas Donato, Alex Ribeiro, Rogê, Carlos Senna, Beto BR, Andinho Samara, Zé Glória, Wagner Rogério e Chico
Intérpretes: Clovis Pereira de Azevedo (Clóvis Pê)

Esse é meu Império querido e guerreiro. Tá, prometo ser imparcial. Vamos lá. Estou gostando muito dos sambas desse grupo A. Todos começam mostrando apenas a cadência, harmonia e melodia, pra depois mostrarem a força. Agora, vou te contar, Que melodia linda! Acho que é um dos favoritos, no que depender de samba, no desfile, só na hora na avenida, mas esse samba tá lindo, variações melódicas emocionantes e uma letra absurdamente encadeada e simples. Mais uma vez, vou lembrar da Vila Isabel 2013, não à toa, tinha também participação de Arlindo Cruz. Melodia rara pra um samba-enredo de hoje em dia e um dos melhores do Império nos últimos anos, e olha que estamos falando do recente sobre a Dona Ivone também, hein.

UNIAO PARQUE CURICICA
Samba Enredo: OS TRÊS TENORES… DO SAMBA!
Compositores: Arlindo Neto, Léo Guimarães, Ronaldo Nunes, Marcelinho Moreira, e João Diniz
Intérpretes: Ronaldo Ylê

Homenagem a Arlindo Cruz, Martinho da Vila e Monarco. Três justas homenagens e um tipo de enredo que permite muita referência às obras dos “tenores” citados. Posso imaginar um desfile maneiríssimo, cheio de alegorias ilustrando sambas e a minha mania nerd de procurar easter eggs (aquelas referências visuais que ficam espalhadas pelos cenários de filmes, como um escudo estrelado no laboratório de Tony Stark, o Homem-de-Ferro, saca?). Enfim, samba fácil de fazer, mas não fácil de concretizar, justamente pela infinidade de maneiras de se apresentá-lo. Mas o samba tá beleza.
PARAISO DO TUIUTI
Samba Enredo: CURUMIM CHAMA CUNHANTÃ QUE EU VOU CONTAR…
Compositores: Anderson Benson, Leandro Rc, Minueto, Flazil Câmara e Flavinho Segal
Intérpretes: Daniel Silva

Melodia que, não sei se pelo vozeirão de Daniel Silva, mas me passa uma força de intensidade incrível. Mas também, falando em índio, né? Mexe com minha emoção. Rá! Refrão bonito e um tema que rende bastante. Cultura brasileira empre rende, e quanto mais o pé no chão, melhor, pra mim, particularmente.

CAPRICHOSOS DE PILARES
Samba Enredo: NA MINHA MÃO É MAIS BARATO!
Compositores: Lee Santana, Geraldo Rodrigues, Marcelo Schimidt, Anderson Rodrigues, Queilo e Fernando de Lima
Intérpretes: Thiago Brito

Essa escola é marcante na minha infância, junto com União da Ilha e São Clemente, sempre me remete a sambas divertidos e desapegados. Esse vem falando de barganhas, escambo, camelôs e todo aquele papo de mercador informal. E chega a fazer uma denúncia ao carnaval “vendido”, lagando de mão o amor ao samba pelo vil metal. Um tremendo de um ‘Rrrratinho nho nho’ em Pilares. “Depois que o dinheiro comprou, a bendeira, o sambista rasgou”. Adorei. Se eu citar mais algo que achei maneiro nesse samba, vou ter que fazer uma postagem só sobre ele, mas, até aí, eu falo nisso o tempo todo. Hahaha.

INOCENT­ES DE BELFORD ROXO
Samba Enredo: NELSON SARGENTO – SAMBA, INOCENTE PÉ NO CHÃO!
Compositores: André Malheiros, Tico do Gato, Vinicius Ferreira, Juruna Zona Sul, Abilio M&S, Chiquinho do Bar, Altamiro e Sidnei Pinto
Intérpretes: Nino do Milênio
Inocentes… de pé no chão. Nelson Sargento e a óbvia referência a um dos maiores clássicos do compositor mangueirense e de nossa cultura em geral: “Agoniza, mas não morre”. Samba redondinho, bonito e minha sincera implicância com a voz meio ‘anasalada’ do cantor. Mas nada que comprometa, até porque a pulada dele pra uma harmonização vocal quando o coral canta compensa. De resto, é isso mesmo, uma declaração de amor a um grande sambista e muito apelo com o público, acho e espero.
RENAS­CER DE JACAREPAGUÁ
Samba Enredo: CANDEIA! MANIFESTO AO POVO EM FORMA DE ARTE!
Compositores: Cláudio Russo, Moacyr Luz e Teresa Cristina
Intérpretes: Diego Nicolau e Evandro Malandro

Ah, falou em Candeia, mexeu com minha sensibilidade. Ouvi a primeira vez há alguns dias na Feira das Iabás de janeiro, quando Selma, filha de Candeia – e uma das Iabás da feira – foi ao palco com Marquinhos de Oswaldo Cruz e vibrou com o o intérprete oficial e a presidente da Renascer, Kátia. É um samba lírico e mais um da série ‘faça referências à obra do homenageado que não tem erro’. Claro que não é uma fórmula perfeita, mas aqui foi muito bem executada. Contou-se a historia do artista através de suas músicas e postura irretocável de defensor de nossa cultura. Vendo o time estrelado de compositores desse samba, acho até um abuso (meu) reparar que não houve uma menção forte a Testamento de Partideiro, mas o samba está lindo e acredito que isso venha complementar no próprio desfile. Tá, já deixei de ser chato.

 

ACADE­MICOS DE SANTA CRUZ
Samba Enredo: UM PEQUENO MENINO SE TONOU UM GRANDE OTELO
Compositores: Zieco Santa Cruz, Roni Remandiola, De Araújo, Marquinho Beija-Flor, Zé Glória e Dudu Da Tijuca
Intérpretes: David do Pandeiro e Pavarotti

Enredo meio que linear sobre Grande Otelo. Pra mim, perto d oque sempre acompanhei como espectador, parece vir por aí um desfile linear. Sem invencionices de contar a história de um artista numa viagem organoléptica do homenageado nas costas de um pássaro feito de creme de chantily e essas viajandices. Parece vir por aí, uma biografia sincera e festiva sobre Grande Otelo, atrave´s de seus trabalhos famosos e seus reflexos. Ponto por lembrar de Seu Eustáquio, da Escolinha do Professor Raimundo, eu não sabia que estava vendo no meu cotidiano um gigante (com perdão da ironia da estatura dele) de nossa cultura e história artística. Mas, voltando, o samba tá certinho e muito bom.

EM CIMA DA HORA
Samba Enredo: NO CORAÇÃO DA CIDADE, UMA HISTÓRIA DAS MIL E UMA NOITES: O RIO DAS ARÁBIAS
Compositores: André Kaballa, Carlos Botafogo, Gláucio Guterres, Alexandre Gordão e Gilson
Intérpretes: Ciganerey

Importante enredo sobre a participação árabe na nossa cultura popular, na região ali da Saara e diversas referências externas. Tem um trecho que dá uma nítida impressão de que o fio condutor pode ter passado – nem que em curto – pela novela O Clone, não só pela interjeição daquela menina quando se falava em ouro, mas tem hora que parece mesmo narração da coisa. Eu não me surpreenderia se viesse alguma legoria ou participação daquele pessoal, mas voltando, o samba tá bonito e bem articulado.

ALEGRIA DA ZONA SUL
Samba Enredo: KARI’OKA
Compositores: Adelson, Thelmo Augusto, Wagnão e Beto Rocha
Intérpretes: Alexandre D’Mendes

Fala do carioca. Rá! Não falo nem nada. Spó discordo da parte do ‘tiro onda com paulista’, porque, afinal de contas, tenho muitos amigos paulistas e se ser carioca é um estado de espírito, são todos cariocas no meu coração e seria considerado paulista por eles numa boa, parecer com gente que a gente gosta é bonito. Rá!². No mais, o samba é a cara da escola, alegre, melodia bem de embalo e a letra descreve nosso jeitão folclórico mesmo. Aliás, eu não tinha percebido como sou folclórico no meu cotidiano, me identifico com quase tudo nessa música. Rá!³

UNIDOS DE BANGU
Samba Enredo: IMPERIUM
Compositores: Serginho Aguiar, Dudu Senna, Bruno Ferraz, Muido da Bahia, Walace Harmonia, Diego R., Leozinho Nunes e Allan Santos
Tem um estribilho bonito à beça e cada nova parte da canção é encadeada com uma virada de melodia envolvente. Enredo meio abrangente, uma coisa do tipo, ‘vamos fazer referência a todo mundo que se lançou a um desafio e fez história’, então, vou ter que usar um rock pra definir isso, se é que dá: “a história é escrita pelas grandes transgressões de quem mudou o mundo com suas inquietações” (Maurício Baia). Esse samba permite muito lirismo e alegorias de tons fortes e muita referência histórica. Tá bonito.

 

O que eu acho, no geralzão?

Tudo muito belo, novamente, gostei muito dessa divisão entre a primeira levada trazer melodias e letras com a harmonia sobressaindo, pra depois, na repetição, vir com a bateria mostrando uma prévia do que pode se esperar no dia D e na hora H. Também achei muito legal as várias homenagens em vida a grandes artistas. Homenagens póstumas são mais emblemáticas, mas homenagear os que estão ENQUANTO ESTÃO é bonito pelo reconhecimento e a possibilidade do homenageado de ver a admiração que provoca com seu talento.

Por fim, achei tudo bem equilibrado em termos de letras, algumas melodias sobressaem mais que outras, normal, e em questão de temática, muitos temas variados, mas todos com uma forte convicção. Nada aqui me soou comprado (mas ainda estou cismado com a Porto da Pedra falando em ‘ampla visão’ sobre luz, haha), então, no mais, é aguardar pra ver o desempenho e como isso será apresentado. Na gravação, tá tudo legal, pra mim. Nada que eu pense ‘nuss, já começou assim, na hora vai ser uma trozoba’. Não, não, tamo de bÔa.

 

P.s.: Ironicamente eu ouvi mais agogôs na gravação da Portela do que na do meu lindo Império (Rrratinho nho nho!).

Ah, e os sambas pra ti curtir:

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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