Resenha: Sambas-enredo Carnaval 2015 – Grupo Especial (SP)

Mocidade Alegre

Nos Palcos da Vida, Uma Vida no Palco… Marília!

Samba legal, refrão fácil e direto já lançando a homenageada sem cerimônias… Talvez porque o restante da melodia venha justamente mais à vontade apenas esmiuçando a biografia da atriz Marília Pera (como curiosidade, é a terceira atriz homenageada por uma escola, depois de Dercy e Bibi Ferreira (ambas homenagedas pela Viradouro). Gostei da cara de ‘samba’ que esse samba tem (hein?!). É que hoje em dia existe uma tendência grande a sambas-enredo ficarem viciados nos mesmos lances, viradas e melodias… clichês. Mas este é um que foge pro lado oposto. Linha reta e com mudanças melódicas pertinentes. Não tem cara de colcha de retalhos, saca? Samba pra carnaval tem que ser assim. Já imaginei na avenida.

 

Rosas de Ouro

Depois da Tempestade, O Encanto!

Falando em contos de fadas que envolvem superação (dah, praticamente todos, né?). Gostei muito da linha melódica. A harmonia tem umas dissonâncias que gosto muito em qualquer música, mas em se tratando de samba, dá uma emoção pela música em si. Sei lá explicar, não tenho formação técnica, mas acho que valoriza muito a canção. Samba curto, hein! Falando de chuva, temporal… hmm, em termos de carnaval, sempre dá um medo de falar em chuva… haha. Brincadeira. Como eu disse, samba curto, mas envolvente. Achei tão direto que nem dá pra sentir (UIA!), mas é legal que não enjoa. Se vai ter esse efeito durante todo o desfile, não sei, mas está muito bom.

 

 Águia de ouro

Brasil e Japão – 120 anos de União

Normalmente, eu não sou chegado nesses enredos com cara de guia turístico, ainda mais quando fala de lugares fora do Brasil, mas, em se tratando de São Paulo, acho mais do que natural a cultura do país ser abordada. É parte da própria identificação Brasil-Japão. Gostei do samba, tem uma melodia sólida e me faz lembrar de alguns sambas dos anos ‘90s, quando a alegria das melodias ainda era mais importante do que as politicagens.

 

Acadêmicos do Tucuruvi

Entre confetes e serpentinas: Tucuruvi relembra as marchinhas do meu, do seu, do nosso Carnaval’

Samba homenageando as marchinhas de carnaval clássicas. Já mencionei isso nas outras duas resenhas que fiz (RJ), pode parecer meio deitão, mas eu adoro esses sambas que usam a própria letra pra citar outras letras. Quase uma metalinguagem. Estilão União da Ilha, a diversão leve do carnaval. Tomara que no desfile, a escola saiba aproveitar, porque sempre tem o risco de não ter fôlego pra manter um tema tão simples, mas a canção, pra mim, tá maneira.

 

Dragões da Real

Acredite se puder

Antes, uma observação específica da gravação: Se o esquenta tiver essa longa introdução, vai estourar o tempo. Rá! Brincadeira, pra mim, que não conheço muito do carnaval de Sampa, fiquei esperando o refrãozinho acabar pra saber de que escola se tratava… mas enfim… Samba motivacional falando em acreditar nos sonhos. Sei lá, não que eu achasse fraco, mas acho que o tema tá muito em aberto, sem um fio condutor. Até faz sua menção ao sonho de gritar ‘é campeão’, mas não me diz muito sem ver o desfile pra ilustrar. Enquanto música, achei meio genérico.

 

Acadêmicos do Tatuapé 

Ouro, símbolo da riqueza e ambição

Intro feita por Leci Brandão e pelo encrenqueiro do Wander Pires. Enredo sobre ouro (inshalá!), já começa citando a mãe africana do ouro, o orixá Oxum. A curiosidade fica por conta da frase “o sonho de gritar ‘é campeão’”, dita também no refrão da Dragões da Real (tipo, não estão contendo o desejo pelo título, né?). E outra, boa parte do samba está em tom menor, o que, pra mim, é muito lindo, ainda falando em orixá, folclore e assuntos que abordam cultura em geral.

 

Tom Maior 

Adrenalina

Samba falando de adrenalina já me promete (mesmo que ninguém se importe, rá!) um desfile empolgado e com alegorias bem diretas no que diz respeito à comunicação com o público, e enquanto música, até gostei, mas achei a melodia meio comunzona em alguns momentos. Nada que atrapalhe e as viradas da bateria dão uma quebrada nessa retidão melódica. Talvez seja apenas uma expectativa inconsciente que eu tenha criado entre o enredo e a música, mas gostei sim, não critico negativamente não.

 

Império de Casa Verde

Sonhadores do mundo inteiro: uni-vos!

Ok, eu já superei a ironia do verde no nome e o azul no pavilhão. Mais uma escola com tema lírico de sonhos e tals… Tô reparando um padrão ou é só paranóia minha? Bem, pelo menos, a abordagem aqui tem uma direção. Cita Bob Marley, Zumbi, Mandela, então, já percebemos que o sonho não é apenas uma espécie de delírio e sim as inspirações artísticas, sociais, culturais e essas bossas. A melodia também subverte certas expectativas que ela mesma lança, levando a melodia para outro caminho, fazendo com que a música tenha uma maior intensidade, já que lances diferentes não dão de cara o destino da canção. E outra: Mais uma a falar em ‘sonho de ser campeão’. Minha paulistada querida tá com sangue nos zóio pra levantar o troféu. Rá!

 

Vai-Vai 

Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo

Samba de homenagem biográfica a Elis Regina. Não precisa falar mais nada, né? A história da pimentinha dá muito enredo. Nota: A intro de Maria Rita citando trecho de Maria, Maria deve ter exigido uma força que a cantora não faz nem em suas próprias músicas… Deve ter dormido três dias descansando a voz. Rá! Melodia simples e bonita. E toda gravação que mete (UIA!) um banjo na levada de samba-enredo me causa admiração (porque eu não sou de fazer, então reconheço a beleza da atitude, haha). Esse samba e esse tema não tinham como dar errado, pelo menos na música, e não deu. Agora é correr pra avenida e valorizar a bela canção.

 

Gaviões da Fiel 

No jogo enigmático das cartas, desvendem os mistérios e façam suas apostas, pois a sorte está lançada!

É, vai falar de baralho (tipo a Grande Rio, aqui no Rio de Janeiro), então, mais do que esperado falar em apostar, jogar, ganhar e… er… curinga, né? Enfim, o samba tá legal, tem umas nuances maneiras de outras melodias deste ano, mas cada uma fazendo do seu jeito. Não soa como imitação, talvez uma tendência otimista de vários compositores tentando fugir dos clichês. Tô gostando.

 

X-9 Paulistana 

Sambando na chuva, num pé d’ água ou na garoa. Sou a X-9 numa boa

Gosto muito quando os caras pegam um tema e metem nossa cultura lá no meio (UIA!). Fala de chuva, vai ter Iansã (eparrei!), no mínimo, né? Rá! Tem trovão, tem água, vem orixás afro e eu gosto muito, porque sempre enriquece muito nosso carnaval, nosso samba. Tem uma parte lá no refrão que é impossível ficar alheio à melodia, acho que é porque meio que invoca a ancestralidade, falando em orixá, a bateria fazendo uma levada de afoxé… Enredo muito rico e melodia bonita.

 

Nenê de Vila Matilde 

Moçambique – A Lendária Terra do Baobá Sagrado

Tem banjo na intro dessa, o que dá um colorido diferente, mas isso é só observação de um aficcionado. Nenê vem com África, especificamente, Moçambique. Adoro enredo afro. Abordagem histórica, valorizando nossos ancestrais, mas também leva – numa melodia envolvente – até a contemporaneidade e faz projeções de um futuro de desenvolvimento para o país. Não preciso falar muito, melhor ouvir direto o samba, porque tá tudo ali. Muito bonito!

 

Unidos de Vila Maria 

Só os diamantes são eternos na química divina

A exemplo da Tatuapé, vem falando em riqueza, mas não tanto pro lado folclórico, aqui, a Vila Maria fala do diamante, o samba é legal, mas achei comunzão. A melodia não me oferece grandes desafios pra se ‘degustar’ com os ouvidos, tem lá seus momentos bonitos, mas acho que me chamou mais à atenção a letra um tanto quanto genérica. Frases muito diretas, mas sem muita referência, meio que se garante demais no título pra ir falando o que veio na pesquisa e tals… Não gostei, nem desgoetei. Foi mais um ‘nhé’. Como destaque, cito que é mais uma escola a falar em ‘é só acreditar!’.

 

Mancha Verde

 Quando surge o Alviverde Imponente… 100 anos de lutas e glórias

Outra que veio homenageando o clube esportivo que a originou. Outra que fala no desejo de gritar ‘é campeão’.  E já foi traçado o perfil da disputa este ano na terra da garoa. Aqui é o cenário do Palmeiras. Acho legal, esses refrões de exaltação. A melodia chama a escola a cantar de coração. Nada mais que isso. De letra, é uma homenagem ao Palmeiras, em melodia tem uma retidão que não chega a enjoar, mas também não é um achado, é uma música competente no que se propõe.

 

 

Afora a regularidade, estão todas bem equilibradas, com uma ou outra destoando pra cima ou pra baixo, acho que o grande traço deste carnaval em São Paulo vai ser um grupo especial com muita vontade de levar o título na base do sonho de possibilidade de ser campeão. Muitos sambas falam isso diretamente. Bem, até aí, ninguém disputa um carnaval só pra competir, tem muita coisa envolvida, mas se declarar assim, sonhadores, guerreiros, e esse desabafo direto na letra… Sei não, acho que quem ganhar, vai precisar tomar um maracujá, porque a galera parece bem inflamada pra esse carnaval.

E, é claro, os sambas:

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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