Wilson Batista: O Malandro, o Bonde e o Trabalho

Wilson Batista foi um dos grandes do Samba, lá quando o Samba ainda não tinha o glamour que a indústria fonográfica se apropriou. Eram tempos em que um sambista era visto como vadio (existia prisão por esse motivo) e, como toda coisa nascida das classes mais populares, negras e essas bossas, só veio a despertar um interesse, minimamente, construtivo, quando Gegê (Getúlio Vargas pros íntimos – UIA!) botou em prática seu plano de governo, uma ideologia que tinha algumas premissas bem interessantes – e que vemos os reflexos até hoje como moldes sociais. Por exemplo, ele fundou o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda que nada mais era do que um órgão censor. Tudo que se propagava pelas ruas do país tinha que passar pelo crivo deles lá. Música? Principalmente, pois, Gê (fiquei mais íntimo agora – UIA!²) foi o primeiro a pegar o filão do Samba, usando sua popularidade pra atingir a massa popular, ganhando assim, sua simpatia. Lembre-se, ele ficou conhecido como ‘pai dos pobres’.

 

 

Acontece que em meio a essa nova cultura de ideologia voltada pro trabalho (muita gente, sobretudo ex-escravos e seus descendentes) viam com olhos desconfiados essa coisa de buscar um trabalho e realizar todos os seus sonhos, pois o negro era – e ainda é – maioria da população, sendo a camada mais atingida pela pobreza, justamente, por ter saído das senzalas para os cortiços e, logo depois, com a perseguição ao que não era bem visto pelo governo ‘Estado Novo’ de Vargas, foi empurrado para as favelas. Essa é a própria história do Samba. Perseguido por, até então, falar da vida do pobre e suas mazelas entre goles, cigarros e jogatinas, o Samba era a tradução do que ‘não prestava’, da selvageria que o governo queria esquecer, ou melhor, varrer pra debaixo do tapete. Lembre que Pereira Passos já tinha limpado as ruas com seus designs eurocentrados, botando abaixo muita moradia que lembrava o passado recente da escravidão, dependência rural e pouca industrialização.

 

 

 

Nesse varredor que fizeram, Getúlio foi esperto. Catou o Samba como quem abraça um amigo bêbado na festa e começou a censurar as letras que não enalteciam o trabalho, o brasileiro mestiço feliz, festeiro e conformado. Pura maquiagem, é daí que vêm os grandes sambas-exaltação como Aquarela Brasileira. Basicamente, tinha que falar que o Brasil era lindo e o povo era feliz. Essa era a batida do Estado Novo em 1937. Então, faça ideia de como eles reagiriam se isso tivesse sido instaurado uns 4 anos antes, quando Wilson Batista lançou, na gravação de Silvio Caldas, Lenço no Pescoço. A letra é uma direta apologia à malandragem, universo adorado por Batista, tanto que andava de terno branco e uma navalha no bolso, que nem usava, mas cumpria a indumentária de forma completa (rá, esse cara era demais!). Veja só:

 

Silvio Caldas.

 

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso


Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha andar no miserê
Eu sou vadio porque tive inclinação (…)

 

 

Perceberam, amigos? Na letra ele fala justamente do que o povo pobre e negro padeceu, fora das senzalas, dentro das cozinhas ricas: Falava-se tanto em trabalhar pra enobrecer, mas a pobreza não mudava. Bem, daí, seguiu a famosa “polêmica” com Noel Rosa (já falo dele num artigo próximo), aquele ‘duelo’ radiofônico e tals. Dizem que começou por causa de mulher e que os dois eram bem camaradas, mas estou divagando. Enfim, Wilson mandou a letra, fez sucesso, mas o Estado Novo, através do DIP já não deixava esse tipo de ‘valorização da criminalidade’ passar.

 

Eis que, em 1940, veja bem, quando a política do Presidente Vargas já estava estabelecida na nossa cultura social, Wilson teve problemas com a publicação de uma de suas letras. Modificações feitas pra se adequar à censura, saiu Bonde São Januário, em parceria com o grande Ataulfo Alves e gravada por este. A letra já é um discurso beeem diferente da composição passada de Wilson Batista. Confira antes, pra gente papear a respeito:

Ataulfo Alves.

 

Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar

O Bonde São Januário leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar

Antigamente eu não tinha juízo
Mas hoje eu penso melhor no futuro
Graças a Deus sou feliz, vivo muito bem
A boemia não dá camisa a ninguém

 

 

Repararam que é uma letra bem direta também? Aliás, característica artística de Batística… quer dizer, Batista era essa coisa sem rodeios de suas letras. É ouvir e saber do que, pra quem, porque ele escreveu. Não está nítido que o Bonde é uma alusão direta a ele mesmo? Senhorxs, nunca NUNCA que ele teria um Lenço no Pescoço publicado naqueles anos de 1940, e até dizem que a letra original dizia – ou diria – “O Bonde São Januário / leva mais um OTÁRIO operário / Sou eu que vou trabalhar”. O que se diz é que ele teve uma letra modificada pra caber na censura e, cabendo, foi aprovada. Então, em Bonde… Wilson demonstrou gratidão e compôs um pedido de ‘muito obrigado, desculpa qualquer coisa’.

 

 

Então é isso, amizade gente boa, vimos no episódio de hoje como se faz pra ser aceito no mainstream da sociedade. Fazer o jogo de quem tem a faca e o queijo na mão pra poder botar seu trabalho na praça. E, com ele mesmo teria dito ao pai, quando saiu de Campos e veio pro Rio tentar a vida, estourou seu samba na praça. Pena que quando o Samba amargou um certo ostracismo frente à bossa nova, jovem guarda e outras modas, o artista nunca mais se reergueu, morrendo em dificuldade financeira.

 

Em 1948, após o Estado Novo, Batista ainda escreveu, com Roberto Martins, o Pedreiro Waldemar, outra denúncia social.

 

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício e depois não pode entrar

 

Mas isso eu falo outra hora, porque sobre esse assunto eu já pincelei em algum outro texto.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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