Nei Lopes e a industrialização da cultura negra

nei utopia

Em fevereiro de 2013, Nei Lopes (ele de novo, o homem não sossega, graças a Olorum!) concedeu entrevista a Ricardo Rabelo, para o site do Bafafá On Line onde, dentre outras coisas, falou de sua infância, trajetória profissional até chegar a ser o músico e escritor que conhecemos.

Aí, chega um momento em que ele menciona o eterno preconceito que o Samba sofre (assim como todos os elementos da cultura afro quando é exercida pelo seu povo ‘nativo’, o negro, não por coincidência). Ele diz assim:

“Samba era coisa de “crioulo do morro” – o que não era o nosso caso, lá em casa. A rua tinha uma subidinha, mas não chegava a tanto. Então, imagina o quê que eu tive que fazer pra assumir esse gosto. Mas consegui.”

Nessa hora não posso estar mais feliz em ser um dos administradores da página facebookeana Nego do Morro, pois o objetivo lá é justamente esse, o quilombismo, não com o sentido de fuga de flagelado da escravidão, mas como espaço livre para a manifestação cultural e política do negro, uma irmandade, um refúgio no sentido de quartel-general, ou filial, o que é mais cabido aqui.

Nei também traça um perfil do que o mercado fonográfico e indústria cultural entendem por público de Samba:

“(…) eles (gravadoras, mídia e a turma da “cultura”) acham que Samba é coisa de preto, velho e pobre (…) Eles não sabem o que estão perdendo!”

E é verdade, até parece que é só velho que dá camisa ao Samba, isso acontece porque o Samba é uma cultura e não só um gênero musical pra se vender na prateleira da lojinha ou da megastore (só um adendo: não cabe ficar especificando ‘de raiz’ ou ‘de verdade’, porque Samba é Samba e ponto. O resto nem merece esse nome). Samba é passado para os mais novos, só que você não vê no mercado a menos que seja filho de artista da mídia. Sem falar em apropriação – ainda – note os locais de samba como vivem cheios, inclusive de pagodeirinhos-modinha que querem tirar selfie e pagar de deXXXcolado (imagine meu sotaque carioca mais carregado agora).

Fique agora com uma ilustração do público sambista para o mercado ‘cuscuz de geladeira’:

E como a gente vê essa ‘coisa de velho’:

E uma piadinha muuuuito infame:

Como se chamaria a escola de Laíla se Nei fosse o dono?

R: Beija-Flor de Nei Lopes.

Rá!

Não me odeiem.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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