Nei Lopes lança novo livro sobre Movimento Negro e o protagonismo do negro em sua própria história

Texto originalmente publicado por BOLÍVAR TORRES em 18/04/2015

Veja matéria original de O Globo aqui.

Nei Lopes, pesquisador afiado que é, está de trabalho novo. Trata-se de Rio Negro, 50, obra que mistura acontecimentos e personalidades reais e fictícios – imagino – com o preciosismo de sempre do autor que no verso mais corriqueiro de alguma composição sua consegue transmitir uma atmosfera muito própria, quase uma nostalgia de tempos que nem foram vividos por quem aprecia sua arte.

 

Em entrevista para o jornal O Globo, Nei fala de suas intenções com respeito ao livro, como o protagonismo do negro em sua própria cultura e a necessidade de abertura de espaço para o negro dentro da própria sociedade brasileira, para que seja mais justa com a maioria da população.

 

Seguem, abaixo, alguns destaques da matéria original. Notem que algumas respostas são tão diretas que dá vontade de sugerir ao escritor e compositor que um dia faça um livro só de impressões diante de suas pesquisas e vivências. Saca, algo não muito acadêmico, tenho certeza que seria visceral, mas estou divagando…

Segue a pequena coletânea de falas de um dos mais proeminentes representantes de nossa cultura, sobretudo pesquisador do subúrbio (“é isso aí, ê Irajá…”, como diz o próprio em uma de suas canções mais emblemáticas sobre o assunto).

Sobre porquê mostrar um Rio do ponto de vista do movimento de intelectuais negros:

“Porque foi a década em que aflorou o protagonismo do povo negro na cultura brasileira, em quase todos os setores, da religiosidade ao teatro musicado, passando pelo rádio, pela aglutinação política, sem falar no futebol e outros esportes (…) Começou-se a pensar a vida dos negros a partir de uma perspectiva própria, incentivando-se o orgulho pelas nossas peculiaridades e pela nossa História.

A ‘participação’ do Clube Renascença:

“O aspecto mais emblemático sobre esse ponto é a fundação do Clube Renascença, em 1951. Buscava-se criar um espaço sócio-recreativo para a classe média negra que se estruturava, e que era proibida de ingressar nos clubes de sua classe econômica.”

Leia uma matéria sobre participação do negro na cultura no site do ‘Rena’.

Sobre reduzir a importância do clube a um espaço de Samba:

“(…)Isso acontece em razão dos mesmos mecanismos que negam ao samba sua condição de elemento fundamental e definidor da cultura musical brasileira, colocando-o sempre no gueto espaço-temporal do carnaval. Dentro dessa engrenagem perversa, que obedece inclusive às regras da cultura de mercado, um clube “de negros”, como é ainda o perfil do Renascença, é mais aceitável como uma casa de samba (carnavalesca, enfim), jamais como uma “casa de cultura”, onde se pense as questões do povo afro (…)”.

A setorização do negro na política:

“Ela (política partidária) criou conselhos, assessorias etc, para a participação do povo negro na política. E, com isso, acomodou a situação de exclusão e dificultou a expansão da consciência dos afrodescendentes sobre seus interesses específicos, que precisam ser defendidos de verdade (…) Temos que ser representados na proporção exata de nossa presença na população brasileira (…)”.

A ameaça quase institucionalizada à cultura negra e apropriação cultural:

“Quem vive nas periferias das grandes cidades sabe do que estou falando (…) A ameaça tem vindo das chamadas “igrejas eletrônicas”, donas de poderosas concessões de radiodifusão, que demonizam a cultura afrobrasileira de todas as formas (…) Outra pedra no caminho é a “cultura negra sem negros”, gerada no âmbito da indústria cultural, do marketing, dos patrocínios…”

O acesso do negro a esferas culturais e acadêmicas diferentes do folcloricamente esperado pela sociedade:

“A sociedade brasileira continua extremamente estratificada e fechada: a entrada nos círculos de poder e decisão é muito difícil para o povo negro. E, para boa parte desse círculo, o que se espera sair da pena de um escritor afrodescendente é o espetáculo da miséria, da violência, da exclusão. Exatamente para que cada um fique “no seu lugar”.”

 

Bolívar Torres, autor da matéria em questão.

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Nei Lopes lança novo livro sobre Movimento Negro e o protagonismo do negro em sua própria história

  1. Tadeu Silva disse:

    Obrigada e parabéns! Tentarei compartilhar. Acabei de ler o novo livro do Nei Lopes. Que honra, que orgulho foi pra mim lê-lo! E olha que eu estava gripada e “sinusitada” em parte dos dias em que o li! Rio, Negro 50. Que delícia. Obrigada Nei Lopes! Obrigada à sua família, amigos, colegas, parceiros, … Obrigada!

  2. Ana Drumond disse:

    Ops, Sou Ana Claudia Drumond dos Reis. Escrevi e assino o comentário anterior. Tadeu Silva é meu querido marido.

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