Zeca Pagodinho – Zeca Pagodinho (1986)

 

Zeca-Pagodinho-front

 

Vamos falar de estatísticas não exatas aqui? (até porque eu sou de humanas… Rá!). A questão é que poucos artistas mantêm/mantiveram coerência em suas carreiras. Muitos começam de um jeito, passam a outro com o tempo, não que esteja errado, apenas ressalto que muitos o fazem por não ter uma autenticidade, fazendo apenas o que o mercado ‘pede’. Outros, acabam nunca mudando, o que também não é sinal exato de que tudo correu bem, pode ser falta de adaptação e muitos deles somem. Agora, estamos aqui falando de Zeca Pagodinho, um desses poucos artistas de grande destaque que consegue, ao mesmo tempo, mudar conforme os tempos e nunca perder a essência que fez dele ser, como diz Nei Lopes, uma das poucas representatividades artísticas a alcançar o patamar de celebridade, praticamente, unanimidade (praticamente e não absoluta, pois sabemos que toda unanimidade é burra, né, Nelson Rodrigues?).

 

zeca 1986 verso

 

 

Pois bem, depois dessa intro cheia de enrolação e babação de ovo, estou aqui hoje pra falar de Zeca Pagodinho. Não o artista, mas o disco homônimo, seu debut em carreira solo (antes, ele havia participado de Camarão que dorme a onda leva, num disco de Beth carvalho em 1983 e do disco ‘pau-de-sebo’ Raça Brasileira, de 1985). Zeca Pagodinho, de 1986, é um petardo, é uma pérola, é algo tão grandioso que, se pararmos pra pensar no contexto, um jovem sem técnica musical alguma, mas com um talento nato pra compor e interpretar o samba, era pra, na melhor das projeções, ele ser um esforçado sambista daqueles que a gente se agrada por falar nossa língua. Mas não, o cara ali já tinha plantado elementos que, na minha opinião, são das coisas mais bonitas de se ver na vida e obra de um artista. E eu já falo. Fique por aí.

 

Bem, um diferencial na carreira de Zeca é que além de um ótimo compositor, ele realmente é envolvido com a temática do povão, não aquela demagogia que se vê de dizer que adora pobre e favelado de dentro de seu castelo rico e enfeitado. Ele é o cara que pega o quadriciclo e corre Xerém após uma tempestade e abre a casa pra abrigar quem perdeu tudo na chuva. Agora, o que marca mesmo o artista Zeca, é sua generosidade também com seus compositores amigos. Não é segredo pra ninguém que ele abre mão até de suas próprias composições pra gravar um amigo e, se for sucesso, esse amigo acaba nem precisando entrar nas famosas disputas de repertório no ainda mais famoso ‘quintal do Zeca’. Exemplos não faltam: Monarco, Mauro Diniz, Arlindo Cruz, Nei Lopes, Serginho Meriti e vários outros.

E nesse disco de estréia, amigo sambista, tem toda essa galera aí que eu falei no parágrafo anterior. E não é só isso, tem essa galera toda e se você reparar bem no setlist do disco, é um daqueles exemplos de campeonato invicto, pois, todas TODAS as músicas são sucesso até hoje e não é raro você estar numa roda de samba arrumada e acabar ouvindo todas elas em algum momento, mesmo eu, obviamente, fora da ordem originalmente gravada. Se duvida, se não conhece, dê um confere no link ao final do texto, porque ficar aqui descrevendo seria a mesma coisa que te dizer como uma comida é gostosa sem te orientar onde fazer seu prato. Sim, prato, é um prato cheio, esse disco, é pra degustar com os ouvidos, seu cérebro te agradecerá e você vai ficar com vontade de correr pro samba mais próximo. A exemplo de Seja sambista também, do Fundo de Quintal e vários outros, esse disco é um daqueles que tem sucesso em todas as faixas e, talvez por isso, pareça que passa voando. Tenho esse aqui em casa na forma de vinil (não tava nem perto de termos CDs na época).

 

Veja só algumas das canções que o iniciante trazia: SPC, Coração em desalinho (que Monarco queria levar pra Martinho da Vila, mas Rildo Hora prometeu que o novato também dava conta do recado), Quintal do Céu, Quando eu contar (Iaiá), Casal sem vergonha, Brincadeira tem hora e… chega, só ouvindo. Nada mal pra um disco de estréia de um cara que mal pensava em ser profissional (lembrando que chegou a ser cogitado para o Fundo de Quintal, mas, segundo o próprio Zeca, ele teria ‘estragado’ tudo por não ser disciplinado). Hoje é general, tem uma sólida reputação que caminha lado a lado com sua fama de boêmio malandro, sendo pai de família e um representante do povo na nossa música. Bem, chega de falatório, curta o disco logo abaixo:

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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