Raça Brasileira (Vol.1) – 30 anos

Raça Brasileira (1985, Gravadora RGE) foi mais que um simples projeto, ou coletânea, foi um marco fonográfico e cultural. O que acontecia, o Samba, em sua forma popularmente conhecida como Pagode, ganhava mais e mais espaço na indústria fonográfica, desde a década de 1970, e virou febre no início dos ‘1980 com a profissionalização do Fundo de Quintal, que trouxe aquela dinâmica inovadora que a gente bem conhece. Então, os afluentes começaram a transbordar também, os ‘dissidentes’ como Almir Guineto e Jorge Aragão e crias como Reinaldo, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra. Aliás, estes últimos dois citados, mais Mauro Diniz, Elaine Machado e Pedrinho da Flor é que representaram a Raça Brasileira.

Pra falar de Raça Brasileira, tem que se falar de Milton Manhães, o produtor. Conhecendo essa galera de perto já há um tempo, usou seus contatos com a RGE (além de Som Livre – também grupo Globo – e outros que eu já falo) pra pegar um estúdio emprestado, com disponibilidade para quatro horas por dia, aliás, dia não, madrugada. A coisa foi sendo feita na base do ‘1, 2, 3 e já’. “Aquele trabalho foi muito legal. A gente fazia muita coisa na hora. Às vezes entrava no estúdio com duas musicas e improvisava o resto. Era tudo um aonda”, lembra Zeca Pagodinho. Zeca que, de certa forma, capitaneou na quantidade de composições (participou de 6 das 12 faixas), ficando com uma participação a mais que Mauro Diniz, este, o capitão dos arranjos e do grupo depois, na divulgação e apresentações.

Novamente, Manhães usou seus conhecimentos e o disco teve uma boa repercussão nas rádios do Rio de Janeiro e São Paulo, o que lhe garantiu 100 mil cópias vendidas, um número absurdamente bom para a pouca divulgação que teve por parte da gravadora e a forma quase informal com que foi produzido. Pra se ter ideia da citação ao Zeca no parágrafo anterior, Garrafeiro (Mauro Diniz e Zeca Pagodinho) foi concebida durante o trabalho, como forma de tirar uma com a cara de Garrafa, então técnico do estúdio, depois de os autores terem riscado um fósforo na parte do jornal que o distraído lia. Mas, voltando, o disco deu muito certo e foi dali que saíram petardos de nosso cancioneiro, como Leilão (Beto Sem Braço e Zeca Pagodinho), Feirinha da Pavuna (Jovelina Pérola Negra), A Vaca (Ratinho e Zeca Pagodinho), Bagaço da Laranja (Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho) e a linda canção título Raça Brasileira (Elaine Machado, Mathias de Freitas e Zé do Cavaco).

Um lance que surgiu como um pau-de-sebo (disco de aposta em vários talentos pra ver qual se sobressai pra investimentos futuros) acabou virando uma peça simbólica de toda uma época, tanto que todos, mais ou menos expostos na mídia, estão na ativa (até Jovelina, que já partiu pro lado de lá, depois do disco, seguiu uma sólida carreira que alimenta rodas de samba de forma massiva até hoje e sempre vai). E foi assim, depois do ‘Raça…’, o samba acabou por ganhar mais uma leva de reforço em sua defesa, caminho que veio sendo aberto por Martinho, na década anterior, deu reviravolta com o Fundo de Quintal e, parafraseando o verso de Ubirany em Coisa de Partideiro “seguindo o mesmo caminho, Zeca Pagodinho e a nova geração, na hora do samba versado, quem ficou de lado aprendeu a lição…”. Chega de onda, ouve aí.

 

 

Fonte: Zeca Pagodinho – A vida que se deixa levar (VIANNA, Luiz Fernando. 2003, Ed. Relume Dumará).

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Falando Nisso..., Tesouros do Samba e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s