Grupo Y-No – Pagode japonês

Naturalmente, eu não vou te indicar nada do site deles, porque afora katana, domo arigato e dengeki sentai changeman, meu repertório de palavras em japonês é limitadíssimo.

Naturalmente, eu não vou te indicar nada do site deles, porque afora katana, domo arigato e dengeki sentai changeman, meu repertório de palavras em japonês é limitadíssimo. Sobretudo ideogramas.

Vou falar agora de um assunto esdrúxulo, mas tão esdrúxulo que eu vi um tremendo de um sentido. A influência brasileira na música no exterior. O fio condutor e objeto de análise aqui será o grupo Y-no, um grupo de pagode formado por jovens japoneses. Mas observe bem, são jovens japoneses e não jovens descendentes de japoneses. E eu falo isso por mim mesmo, pois quando ouvi falar deles, à primeira vez, achei que fosse algum grupo de São Paulo (onde há a população japonesa e descendente mais conhecida). Enfim, vamos falar sobre o curioso fato de jovens do outro lado do mundo se interessarem por nossa música.

 

Antes, eu digo uma coisa: Eu entendo perfeitamente esses jovens. Afinal, eu gosto de música de lugares onde os próprios habitantes nem são tão chegados (lembrei de um casal alemão com quem fiz amizade na Lapa uma vez e achavam totalmente underground um som que eu gosto bastante e achava que bombava por lá). E o que me chama à atenção é que os japoneses do grupo Y-no são bons. Digo, tocam muito bem e captaram, na maior parte do tempo, a essência da nossa batucada. Claro, ainda são muito baseados no pagode que se popularizou na virada dos anos ’80 pra ’90, então são vários efeitos e uma levada mais pop do que um partido alto (mas aí, também seria exigir demais, já que muito brasileiro não sabe fazer isso, rá!).

Um ponto interessante é pensar no que eles passam e que muita gente aqui não valoriza. Pra eles lá, é raro encontrar lojas confiáveis com instrumentos bons, não falam nossa língua, então dependem dos amigos que eventualmente tenham estudado Português e a situação mais óbvia, se é inusitado que japoneses se encantem pelo nosso pagode, imagina encontrar um público que os acompanhe por lá, né? Pois se aqui, suas letras ficam meio enroladas (parece mistura de Português com Japonês, no melhor estilo “tema de abertura do Jaspion”) o que pode acabar dando um ar caricato a eles, por lá, deve ser estranho para a vizinhança, por exemplo. Eles devem ser os caras do underground de lá nesse ponto. Aliás, falei da letra, mas ainda vou falar mais.

 

Não sei se as legendas atribuídas aos clipes oficiais estão dizendo o que estão dizendo, acredito que até faça sentido na maioria, porque como eles não falam português, acredito que role aquele processo de quem aprende um idioma por letra de música e depois faça sua própria organização das letras e frases de modo a contar sua história. Típico de quem decora algo que não nasceu fazendo. Eu mesmo, aprendi inglês assim. Construía frases com o que conhecia e ia variando, andando com dicionário pra lá e pra cá e saía, nada muito elaborado, mas eficiente pra mim, à época. Eles alegam que escrevem e passam pros parceiros que traduzem, mas não têm muita certeza se alcançaram o que queriam, apesar de a essência estar ali. E você nota, se não notou, vai notar no vídeo abaixo, como você entende a essência ‘mela cueca’ de Querido meu amor, mas pra nós que falamos Português – e já temos esse estilo defasado aqui – nem foge tanto assim à proposta de um Exaltasamba da vida.

Aliás, as influências deles explicam um pouco seu estilo. Fundo de Quintal, Beth Carvalho, Alcione, Zeca Pagodinho, Art Popular, Pique Novo, Revelação, além de também curtirem hip hop e axé. Muito embora, sua sonoridade soe mais, pra mim, como aquelas músicas pop de séries dos anos 80 do Japão. Deve ser uma espécie de sotaque musical deles, sei lá, mas como aqui também tem essa variação que apenas pega a batucada, mas a música é pop, então, eu to de boas. E tem uma coisa que eles se encantaram, desde que se conheceram num clube especializado em música brasileira, em 2007, samba é acessível, não que seja fácil, mas eles são músicos, né? Então, se você tiver um chocalho e começar a chocalhar, já tá no andamento pra fazer um pagode. Juntando isso à beleza melódica que eles reconheceram e se identificaram, os fez dar esse passo de se tornar um grupo.

 

Enfim, é muito legal ver como uma coisa tão especificamente brasileira chega do outro lado do mundo e inspira pessoas de uma cultura completamente diferente. Apesar de achar a música deles um tanto quanto peculiar, não deixo de tentar captar o que eles estavam sentindo pra passar na música. Veja bem, a divisão verbal e rítmica deles é bem diferente da nossa, tem horas que as frases nem parecem o que está escrito na legenda, mas está muito bem tocado, só que com o sotaque nipônico. Essa mistura deixou o som deles soando tão alternativo pra mim, que acabei me identificando. Pelo menos eles fazem algo autêntico, mesmo que macarrônico, os elementos básicos estão ali, mas não caíram no clichê automático e sem inspiração de muita gente daqui. E ô refrãozinho grudento esse de ‘faz me moer, moer, moer’. Rá!

Analisando musicalmente, a levada é bem puxada pro samba rock, o cavaco elétrico dá uma ambientação meio música de filme oitentista. Estão muuuuito longe de nossa pegada pro samba, mas entenderam benzão as trocas entre tempos e contratempos – o que é mais difícil do que se pensa, pra quem é de fora, que dirá de países distantes. Na verdade, eles fizeram do jeito deles, afinal, samba não é um elemento cultural que eles estão vendo desde pequenos em todo lugar ao redor, né? Pra eles é uma questão de agregar por escolha, por gosto mesmo, coisa que pra muitos aqui é parte da própria vida. Afora algumas escorregas na letra (assim como estamos sujeitos com outros idiomas, eles usam palavras bem incomuns pra nós e em sentidos que agente até que entende). No geralzão, eu gostei, eles entendem de melodia, sacaram o espírito geral da empreitada. P.S.: O do banjo sacou os repiques com a palheta legalzin, meu nobre. Tive que puxar a sardinha, mas realmente, todos são bons (e reparem que num dos vídeos aprenderam um outro vício que já tínhamos importado dos EUAses e suas boy bands: As coreografias engraçaralhas).

No mais, vejam os vídeos deles aqui e tirem suas próprias conclusões.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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Uma resposta para Grupo Y-No – Pagode japonês

  1. Douglas disse:

    Já tinha visto no You Tube. Apesar das letras “surreais” os caras tocam melhor que muito grupinho de paga de daqui.

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