Porquê haver uma parada do orgulho crespo?

Essa questão é fácil de explicar, mas como a internet permite que qualquer um tenha acesso, então é preciso que usemos nossos argumentos de forma preventiva aos ‘mimimi’ dos racistas que podem – e vão – se contorcer e mover meio mundo de falácias bestas pra tentar parecerem bons cidadãos, na tentativa de jogar a culpa pra cima da vítima do racismo. Assim como muitos defendem que mulher não merece respeito se usar roupa curta, mas estou divagando. Vamos lá: O orgulho crespo, assim como orgulho LGBTTT, por exemplo, é uma medida que visa valorizar e mostrar orgulho por algo que somos/temos por natureza e não recebe o mesmo valor pela sociedade como um todo. Simples assim. A sociedade ignora que descende, em suas classes mais altas, de escravocratas, gente que está se sucedendo em diversas frentes políticas, empresariais e midiáticas perpetuando os preconceitos que criaram há séculos.

Se há menos de 130 o Brasil era o último a largar o osso negro da escravidão perante o mundo, como alguém pode achar que já eliminamos o racismo numa realidade que teve uns 400 anos de escravidão, violência e conceitos culturais deturpados? Eu te falo como: Naturalizando. Quer um exemplo? Trabalhei, há quase um ano, numa empresa terceirizada do Ministério da Educação e, a moça que ministrava o treinamento, junto com uma colega que era admitida junto comigo – ambas brancas de cabelos entre o liso e o ondulado – conversavam sobre como causavam inveja em negras de cabelos crespos em filas de mercados ao ponto de ouvirem ofensas. Uma falou isso e a outra completou dizendo que consolava sua sobrinha pequena por ela ser complexada em ter o cabelo ‘assim, ruinzinho’ (descrevia passando a mão em seus fios com cara de nojo). Dá pra imaginar de onde vem o complexo dessa sobrinha, né? Lembrei agora da pouca representatividade na TV.

Veja o exemplo de Anitta, mal ganhou espaço na mídia, já tratou de fazer um whiteface, embranquecendo, alisando, afinando nariz… É tipo isso que a sociedade faz com nossas meninas, buiscam um modelo que não pertence à maioria da população. Cria uma população de insatisfeitos.

Camila Pitanga está num personagem enérgico, vai onde quiser pra discutir, defender seus pontos, acusar a vilã e… quando sua filha está triste por sofrer racismo na escola, ela a abraça e chora em frente ao espelho… say WHAT?!?!? Não uma visita invocada na escola? Não uma conversa acalorada com a mãe da criança que ofendeu (onde provavelmente a criança aprendeu)? Deixa pra depois pra eu não fugir muito do foco. Voltando à questão da condescendência racista, outro dia, eu buscava sites de dicas para hidratação de cabelos crespos e achei um que insistia em dizer coisas como ‘cuide bem do cabelo ruim de seus filhos’. Na terceira que li isso, abandonei aquela m… e no impulso esqueci até de pegar o nome pra botar na boca do povo (da minha campanha pessoal ‘exponha um racista ainda hoje’). Enfim, sempre tem gente com alguns argumentos bem vazios e eu vou derrubá-los agora:

“Paradas de orgulho de qualquer coisa só servem para separar a sociedade, somos todos humanos”.

Essa é uma bem básica e geralmente usada por quem não sofre na pele determinado preconceito (homem, branco, hétero). Mas, anote aí, não é porque você não leva um tiro, que o coleguinha baleado tenha que sair saltitando ao seu lado pra você não ter que mostrar que não se importa com seu ferimento, ok? Somos todos humanos, mas é o cabelo crespo que é xingado de ‘ruim’ e não o liso. Lembra do Silvio Santos perguntando ‘Com esse cabelo?’ para a atriz Julia Oliver, após a menina dizer que pensava em ser cantora quando crescer? A menina escreveu em seu Twitter que ama seu cabelo e que não é isso que determinará ela alcançar seus objetivos.

“Essas paradas são demonstrações de complexo de inferioridade”.

Novamente, costuma ser dito por quem não sofre na pele. Até porque, por incresça que parível (hein?!), chega bem perto, mas não compreende a causa. É como comer um Big Mac e achar que ficou bem alimentado (Rá!). É por uma questão de inferioridade sim, mas não por sentirmos e sim por demonstrarmos não aceitar isso. É a sociedade dizendo ‘vocês tem o cabelo ruim, o nariz feio, a cor engraçada, a religião do mal e a música barata’ e nós aqui dizendo “não, nós somos lindos, temos nossa própria identidade e sambamos na sua cara. LIDE COM ISSO!”.

Não vou mais enumerar essas frases porque todas redundam muito nesses dois temas, que já são bem ligados. Vou partir para exemplos de efeitos que esses ignorantes não percebem porque não se importam. Tipo, quando resolveram lembrar que há gente passando fome a qui e lá fora só porque uma galera coloriu o avatar de facebook em arco-íris. Só querem reclamar que alguém está se mexendo pra mudar um mundo errado que essas pessoas apenas se deram ao trabalho de se conformar em existir.

Meninos ouvem desde cedo que o cabelo tem que ser curto pra parecer certinho, bonitinho e limpinho. Se é homem e tem cabelo crespo, raspe. Já meninas, essas têm mais trabalho, pois, mulher de cabelo curto, se não for liso, são vistas como menos femininas, então deixam crescer, mas é crespo e é absurdo, mas o pente é um instrumento de tortura para mulheres. Já imaginou isso. A qualidade de um cabelo ser determinada de acordo com a aprovação do pente? Pois é, acontece. Se o pente desliza pelo cabelo, é bom, se não desliza de ponta a ponta, é ruim. Só eu acho isso mais que infantilóide, e sim babaca? Além de injusto, já que pra haver um padrão (o pente, no caso), deveriam ser avaliados todos os tipos diferentes de cabelos e não um só pra ser o ‘certo’.

Novamente, determinar cabelo como ruim por que ele cresce em outra direção é babaca. E cria complexo em nossas meninas, achando que pra serem aceitas, precisam esticar no ferro e na química, pois daí, surgem um problema: O cabelo perde o brilho, perde a textura, fica na cara que é artificial e sem vida logo no dia seguinte à ‘recauchutagem’. Daí, ou a gatinha desembolsa uma grana ferrada pra ficar mantendo esse status ‘não vou aceitar minha textura’, ou o cabelo começa a crescer natural por baixo da parte deformada, criando um aspecto ‘capacete’. E porque usei apelidos grosseiros? Pra ilustrar uma frase que diz exatamente como a sociedade vê esse auto-ódio. Uma conhecida, a mesma da inveja na fila do mercado, descreveu uma ex-colega de trabalho assim: “Ela fazia escova, mas não podia lavar sempre. Realizou o sonho do cabelo liso, mas antes ficasse com o cabelo escroto, mas lavando sempre, limpinho”. É isso, minha gente, você se odeia e eles acham isso legal. Não te respeitam por se odiar, só reforça a certeza deles de que você nunca será como eles.

E porque eu digo isso? Bem, porque sendo sociedade comandada por uma minoria branca e rica, o negro, que traz o ranço do racismo nas costas, reflexos da escravidão, acaba sendo o exótico. Como se fossemos turistas. Assim, o branco é o normal, o cabelo liso é o normal, e olhos claros são lindos. Então, se aparece uma pessoa negra, ela ‘até que é bonita pra uma negra’, ‘tem que abaixar esse volume no cabelo’ e essas coisas. Ou seja, te orientam a desfazer de suas características, mas sabem que não vai ser igual a eles. O problema mesmo é que o dito normal não tem porque se rebelar, ele já está no topo da pirâmide social. Só que quando a parcela ‘de baixo’ reivindica seu direito a figurar lá em cima também, aí incomoda, porque o que esse normal tem? O topo, mas o que nós temos? Temos orgulho do que ele aprendeu a vida toda que é ruim, feio, demoníaco, exótico e caricato. Isso cria um complexo na pessoa que ela não entende como podemos ter orgulho de cabelos crespos, como é o tema desse texto, entre outras diversas características culturais e étnicas de matriz afro.

Muito ‘’amigo’’ aí se revela racista quando resolve abrir a boca sobre o assunto. Essa é minha teoria de porque tantos evitam falar no assunto, pois sabem que vão se revelar, então ficam desconfortáveis com isso. É por isso que muito negro também evita, alivia o coleguinha porque não pensa num mundo em que ele é a pessoa por quem vão fazer de tudo pra ficar ao lado, quiçá, abrindo mão de suas próprias opiniões, como esses negros complexados fazem, defendendo com unhas e dentes o racista. Mas isso é papo pra outra hora, por enquanto, vamos ficar com a motivação real do orgulho crespo: A afirmação de que mesmo diante de todo preconceito racial, estamos aqui pra nos amar e admirar como criações divinas da natureza e que todo racista que se contorcer feito vampiro em água benta venha pra sorrirmos juntos de suas caras.

 

Minha teoria e sugestão é a estratégia Black: Valorize o cabelo crespo, sobretudo na mulher. Porque só uma mulher negra sabe o que é passar pesados fardos sociais sob o machismo e racismo, logo, só uma mulher negra vai ter força pra embasar seus argumentos na mais pura sabedoria, como um diamante que surge depois de uma extrema pressão. Solte o crespo, prenda o racista. Um exemplo é a estadunidense Angelicxa Sweeting, que criou uma boneca com as características de sua filha, Sophia, por passar pelo auto-ódio. “Sophia queria cabelo liso e longo e ela até começou a expressar uma forte antipatia por suas características faciais e tom de pele”, disse Angelica em matéria d’O Globo.

E lembre-se, temos que ter voz, toda vez que a gente se esconde, justifica o preconceito. Não esperemos que esse valor venha das classes mais abastadas, pois estão preocupadas demais garantindo seus privilégios.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s