Exhibit-B: Não ao Zoo Humano

Ao final do texto, deixarei um link para uma petição que tá rolando de repúdio ao tal Exhibit B (cujo B deve ser de barbárie), uma exibição de atores negros em reproduções do que nossos ancestrais passaram aqui mesmo nessa linda terra hospitaleira chamada Brasil. E fui marcado por uma amiga numa postagem que trazia o link dessa petição em repúdio à ‘manifestação artística’ (já, já eu explico porque isso é tudo, menos artístico), mas queria começar falando sobre um caso particular. Estou há uns dias resolvendo assuntos pessoais, o que me impediu de escrever isso antes, mas há alguns dias, quando rolou a tal marcação, eu tinha acabado de assistir a A Sombra e a Escuridão, aquele filme com Val Kilmer e Michael Douglas, saca? Dos leões terríveis que devoraram dezenas, talvez centenas de trabalhadores da obra de construção da ponte sobre o rio Tsavo, Quenia.

O fato é que eu tenho uma mania de desocupado de ficar ‘google’ nas coisas que assisto ou ouço em meio a minhas leituras e pesquisas, e achei um site bem informativo sobre os leões da vida real, num site que também tem um amplo acervo de imagens e informações sobre guerras e diversos acontecimentos históricos. Neste site (que eu disponibilizo o link lá em baixo também, prometo), tem uma seção de ‘zoo humano’ e vocês vão entender o porquê do boicote a essa violência veladamente descarada que se chama ‘exhibit B’. Vejam algumas imagens do que se entende por cultura européia de zoo humano, ou seja, mostrar etnias diferentes do pseudo padrão euro caucasiano como animais, sub-espécies de humanos que não seriam gente de verdade (motivo real do xingamento ‘macaco’ e não um mero apelidinho aleatório, por exemplo). Veja umas fotos que vão dizer mais que palavras.

 

Pigmeus sendo expostos no Royal Aquarium em 1888

Nativos da África sendo levados para exibições etnográficas em Paris

 

Combater o racismo é algo bem complexo e intenso, porque envolve desconstruir uma série de costumes que a sociedade trata de forma íntima, quase como lei da natureza, em forma de piadas, expressões populares, forma de tratamento, padrões estéticos, religiosos, musicais e entre muitas coisas mais. E em nada acrescenta exibir o negro como uma peça exótica, um show de horrores com o apelo à curiosidade mórbida de se ver como começou esse tipo de tratamento. Isso não é denúncia, não é levantamento de assunto para debate… é apenas uma aberração. Algo que não se faz nem com a comunidade judaica, mesmo tendo tantos registros a mais sobre seu sofrimento durante a segunda guerra mundial. Páginas tão pesadas de nossa história não devem ser resgatadas para o público contemporâneo se não vier com uma carga densa de informação, história e lições que enquanto humanos devemos aprender, de consideração e respeito ao próximo e ao sofrimento que uma parte da sociedade inferiu sobre a outra.

Pôster de um zoológico humano

Enfim, exibir o sofrimento dos outros com tanto racismo ainda por aí, é uma drástica demonstração de insensibilidade racista, de expor o sofrimento alheio e jogar isso nas costas de seus descendentes, bem como as chibatas e demais instrumentos de tortura o faziam até menos de 130 anos, um período muito recente se pararmos pra analisar que uma sociedade, um corpo formado por milhões, levou uns 400 anos se estruturando sobre isso. Temos historicamente muito mais tempo de escravidão nas nossas costas do que “abolição” e o próprio fato de a vida do negro no Brasil ter começado como mercadoria, tendo “precisado” ser liberto séculos depois já é uma violência primordial, resgatar isso de modo a só atrair olhares e causar impressões chocantes é um desserviço. É regredir nossa luta em anos, é trazer de volta aquele ranço de distância, de possíveis pensamentos “olha como era terrível naquele tempo, agradeça à Isabel”.

Exposição no zoológico de Acclimation em Paris

A sociedade, que já se ocupa demais em fingir que não vê racismo em nada, aplicando o discurso reverso de que quem denuncia o crime é que é o culpado, não precisa desse retrocesso. Isso é o tipo de coisa que distancia a história corrente do país de seus reflexos atuais. Essa necessidade sanguinária sociopata precisa parar, muita gente ainda acha que o que aconteceu no passado ficou enterrado lá e não gerou frutos, ainda que estragados. E a escravidão é um dos mais presentes, ao lado do próprio famoso jeitinho brasileiro, ou seja, naturalizações do que o ser humano tem de pior para oferecer ao mundo. Dizemos não a essa bizarrice de zoo humano. Não é engraçado, não é informativo, não é denúncia… e, na eliminação de todas as possibilidades de utilidade pública, ficam apenas meus palpites de irresponsabilidade, psicopatia racista e má fé.

Segue a descrição do manifesto/petição:

Por que isto é importante

Cancelado em Londres e Paris e em grande parte da Europa após expressivas manifestações de repúdio, o espetáculo de Brett Bailey, Exhibit-B, recria as atrocidades sofridas na escravidão com atores negros, mudos, enjaulados, amordaçados, agredidos e torturados num zoológico humano. Acreditamos e defendemos o princípio de que a dignidade humana deve ser defendida e preservada, e que o povo negro, que ainda resiste às sequelas do crime de escravidão, que no Brasil podem ser vistas tanto a olho nu quanto através das estatísticas, não precisa ser retratado num “zoológico”, que reforçará a idéia covarde de que a história do negro começou na escravidão. O povo não precisa ver- se novamente agredido com a reprodução da covardia que foi um dia usada para dizimar milhares de seres humanos, que são assim como seus antepassados. Zoos humanos eram uma prática de entretenimento europeu que exibia negros como sendo uma espécie sub- humana. Cientes do apelo racista que levará curiosos à espiar “essa espécie” sob a (mascarada) licença artística, registramos nosso repúdio absoluto e esforços para impedir que o Brasil seja palco, financiado com dinheiro público, disso. Fora Zoo Humano! #ForaExhibitB #ForaZooHumano #Racismo #ContraExhibitB #ContraoZooHumano #BoicoteExhibitB #BoicoteZooHumano #BrettBaileyRacista
Agora o porquê de eu não gostar dessas manifestações ‘olha como seu cabelo é fofinho’, ‘olha que dente branquinho’, ‘olha que exótico’ e ‘olha que pessoas diferentes’;
Essa cultura de diferenciar padronizando pelo estadunidense médio/europeu é a maior piada para um país que deliberadamente fez sua população ser de ampla maioria negra/miscigenada e não quer assumir isso por um complexo de vira-latas infantilóide que o faz tentar a todo custo parecer uma coisa que não é e nunca foi. Vivemos entre trópicos, a diferença já começa aí, lide com isso e boicote exibições de pessoas em situações degradantes pra criar polêmicas imbecis e inúteis.
Citados no texto:
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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO e marcado , , . Guardar link permanente.

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