A Lapa do Rio Antigo

Desenho de minha autoria, refletindo um saudosismo tanto de um tempo que não vivi quanto de quando frequentei. Além de ser uma bela ilustração para minha canção Ousadia de Malandro, quando 'esse José encontrou sua Maria'.

Desenho de minha autoria, refletindo um saudosismo tanto de um tempo que não vivi quanto de quando frequentei. Além de ser uma bela ilustração para minha canção Ousadia de Malandro, quando ‘esse José encontrou sua Maria’.

O que acontece? Fiz o desenho que ilustra o início deste texto e fiquei com saudades de uma região que freqüentei muito e hoje, só passo de forma eventual e aleatória, mas que fica sempre no meu coração. Mesmo com as mudanças de trânsito, de tratamento cultural e na própria geografia (quem não se lembra do clássico gramado em frente aos arcos?), mas enfim, foi isso, uma memória afetiva (que eu sei que andar naquelas bandas naqueles tempos não era tão romântico e envolvia esforço físico se locomover onde o transporte só é valorizado para a Zona Sul – moro na Zona Norte). Mas lá vai, vou tentar descrever alguns dos pontos mostrados na figura: Os Arcos e a história que passa em torno deles.

 

Lapa

Outrora, um bairro conhecido pela boemia (marginalizada e não essa explosão de cores e cultura pop de uns anos pra cá), o bairro da Lapa carrega muita história e personagens marcantes de nossa cultura. Pra se ter uma ideia, Wilson Batista morou ali, bem como Machado de Assis, Carmen Miranda, Manuel Bandeira, Villa-Lobos e outras figuras proeminentes de nossa cultura. Li, numa pesquisa, que Nei Lopes explica em um de seus livros que a Lapa não era esse bairro glamourizado e musical de hoje em dia, era barra pesada, cabarés, prostitutas, travestis, malandros, gigolôs, jogatinas e todo esse universo. Somente de uns anos pra cá é que o local passou a ser valorizado como efervescência da juventude, sobretudo, classe média, com diversas casas de shows, bares e restaurantes embaladas para consumo imediato.

 

Aqueduto da Carioca

Nome original do clássico ponto turístico Arcos da Lapa (1723), que servia, originalmente, para levar água do Morro do Desterro (hoje, o Morro de Santa Teresa) até o Morro de Santo Antônio (região no entorno do Largo da Carioca, que já praticamente ‘desmontada’ para dar lugar a outras construções urbanistas, como as avenidas República do Chile e do Paraguai, onde figura a Catedral Metropolitana de São Sebastião, por exemplo). Devido a modificações em sua estrutura, o aqueduto chegou a abastecer até navios na, hoje, Praça XV de Novembro, se utilizando do Rio Carioca, que passava pela lagoa de santo Antônio, hoje, Largo da Carioca.

 

A água vinha do Rio Carioca (que nascia no Morro do Corcovado), vinha pelo bairro de Laranjeiras até Santa Teresa, e alimentava o Chafariz da Carioca (depois, aterrado, onde hoje é o largo).  Mas, conforme outras fontes de abastecimento foram sendo utilizadas, o aqueduto, enquanto aqueduto (dah!) tornou-se obsoleto, sendo aproveitado, a partir de 1896, para viaduto de passagem do famoso bondinho de Santa Teresa, bondes elétricos que, por um tempo, foram o principal meio de transporte da cidade para acessar a região.

 

Malandragem

A figura do malandro ficou folclorizada como um clichê em diversas letras de samba, muita gente falando sem nem saber do que se trata. O malandro era aquele descendente dos negros escravizados que, empurrado a morar em casas irregulares, no que viria a se chamar favela – devido a reformas urbanas do governo – era avesso ao trabalho regular, por ter a noção de que saindo da senzala, não houve um esforço sequer do governo para tornar o ex-escravo em cidadão, logo, cair nessa de trabalho sem ter formação ou qualquer base, o manteria nas camadas mais baixas da sociedade em trabalhos braçais, domésticos, enfim, pouca mudança entre a realidade de poucas décadas antes.

 

Daí, o arquétipo do malandro passou mais a ser cantado em sambas do que vivido nas ruas, na Lapa, onde mais fosse. É daí que vem a famosa perseguição ao samba, que enaltecia essa figura, a boemia, a capoeira, a não subserviência ao Estado… tudo contra a política do Estado Novo de Getúlio Vargas, mas, na realidade, a malandragem é símbolo de resistência. Enquanto o governo projetou ideologicamente um american way of life tupiniquim, não ser amante do trabalho e da vida dura intercalada com carnaval era ser um verdadeiro contraventor, preso por vadiagem, por exemplo. As escolas de samba tiveram que se submeter e passaram a enaltecer as belezas e vantagens do Brasil em troca de aceitação. Até então, eram vistas como manifestações selvagens das classes ‘vulgares’.

 

Veja só como uma política produz um arquétipo ‘bom malandro’ e uma letra pode denunciar a realidade. Wilson Batista – que eu já mencionei aqui antes por este mesmo motivo – em duas letras distintas: Lenço no Pescoço e Bonde São Januário. Enquanto nessa última ele ‘se redime’ e diz ‘quem trabalha é quem tem razão’ (típica aderência pra poder publicar uma música), ele falava alguns anos antes ‘sei que eles falam desse meu proceder / eu vejo quem trabalha andar no misere’.

 

Agora, fiquem com a música que originou o desenho lá do começo.

 

Fontes: Revista Boitatá (artigo sobre malandragem de Marcos Hidemi de Lima)

O Rio de Antigamente

Rio Curioso

Marcílio

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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