O teu cabelo não nega, mulata… mulata?

Animal híbrido: Mula

Você sabe o que é eugenia? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar Não, não é aquela tia da venda da esquina, essa pode ser, nada é impossível, EugÊnia. Eugenia é, basicamente, a “ciência” de controlar agentes ‘raciais’ na busca pela perfeição genética idealizada e coisas do tipo. Purificar, potencializar características de uma etnia, eliminar o que consideram ‘deficiências’ físicas/genéticas, etc. Pra ilustrar, é a ideia que nos remete à imagem acima: A mula. Mula é um animal híbrido, cruza de jumento com égua. Ela é mais obediente que um cavalo puro e mais inteligente que um jumento puro (dizem). Assim, ela pega duas vantagens para o bicho homem. Um animal de carga domesticado de nascença.

Já no caso do ser humano (rá, leia essa expressão e tente não lembrar da canção nova do Zeca Pagodinho), os híbridos que conhecemos são os miscigenados, ou seja, maioria no Brasil. E, ainda sobre a mula, vem o termo mulato, da teoria eugenista onde se vê o mestiço nem tão puramente intelecto e moral como o branco e nem tão puramente forte e resistente como o negro puro. Já viu onde isso vai dar, né? Sim, a boa e velha discriminação racial que ao mesmo tempo prega que somos todos mestiços, mas que não quer realmente branco e preto transando por aí (não pra procriar e apresentar pra família no almoço de domingo). Assim, defendem como se o negro tivesse nascido pra trabalho braçal enquanto o branco merece usar sua superioridade mental pra determinar os rumos da humanidade. Acredito que venha daí a ‘moral’ humana em se incomodar com bandidos e mendigos brancos, amenizando como ‘gatxs’ enquanto um negro ainda que médico, vai ter que ouvir alguma cavalgadura dizer que parece empregada doméstica ou que o cabelo crespo e a pele negra não combinam com cargos altos em empresas e diversos setores predominantemente privilegiados da sociedade. Aí, fica fácil dizer que é tudo questão de mérito pessoal.

Monteiro Lobato (sim, o mesmo do Sítio famoso) foi um grande entusiasta dessa teoria que, pasmem, chega a ser um conceito mais antigo que a própria genética (definida em sua teoria bem depois). Pois bem, voltando à vaca fria, o termo MULATO é uma indecência racista porque vem dessa teoria e não apenas uma palavra que nasceu do chão apontada por deus. Quer outro exemplo de eugenia? O nazismo proibia relacionamento entre judeus e não judeus (e no que deu as outras medidas, a gente sabe). O conceito dos ‘arianos’ é uma teoria eugenista que usou o povo judeu de todo tipo de violência pra testar armas, químicas e sabe-se lá mais o quê.

Era aparecer Tia Nastácia nos escritos de Lobato e o cara danava a descrevê-la como ‘a negra’, sempre seguido de algo que potencializasse a personagem como ‘defeituosa’, atribuindo-lhe trapalhadas de modo a ridicularizá-la… é só ver a ironia da vida, ela fazia tudo na cozinha e a dona do sítio, branca, é que virou nome de farinha de trigo. #donabenta #táerrado

Enfim, é isso. O termo mulato é babaca por que já nasceu maldoso e cinicamente violento. Ah, e existe ainda o higienismo, muito popular no Brasil, que é a ideia de ‘limpar a raça’. Vai dizer que você nunca ouviu/falou aquele papo palmiteiro ‘pego brancx pra clarear/afinar o nariz da família’? Bizarro, né? Mas como o papo é samba, vamos falar de Sargenteli, o ‘mulatólogo’. Esse senhor entrou para a cultura popular como o ‘capitão'(ou sargentão, rá!) de um time de ‘mulatas’ ‘tipo exportação’ pra dançar sensualmente de modo a impressionar a plateia masculina. Nada que qualquer dono de engenho não fizesse com suas escravas até o século retrasado.

Sim, é a Solange ‘Dona Jura’ Couto à direita. Ela, a maravilhosa Adele Fátima e até Gigi, uma conhecida da família, já foram ‘mulatas’ do show do Mr Potato Head aí.

Ilustração de Ziraldo para o bloco Que merda é essa. Ele retratou seu chégas, Lobato, abraçando uma ‘mulata’, o que, na cabeça de todo racista, é demonstração de não racismo, pois tratar como um ser inferior ainda vale pra eles, racismo, só se rolasse uma facada e um discurso de ódio… mas sabemos que se rolasse, ia vir o papo ‘mas não foi racismo…’. Enfim…

Vale lembrar que Sargenteli vinha a ser sobrinho de Lamartine Babo (ele mesmo, autor da maioria dos hinos de clubes esportivos mais famosos do Brasil – e do Bangu). E o que Lamartine tem com isso? Simples, foi autor também de marchinhas e, entre elas, aquela que faz uma verdadeira declaração racista de eugenia e higienismo: “o teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor / mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero teu amor”. Preciso dizer como ele olha pra mulher negra, ameniza sua negritude de modo a torná-la um objeto sexual sem identidade e ainda afirma que quer pegar a dona só pra divertir, pois sabe que a cor não pega, ou seja, pode ‘comer’ e partir pra outra que não deixa rastros genéticos por onde encosta.

A eugenia está muito mais presente do que se imagina, o problema é que a mídia não fala… e se falar, vai por a culpa no PT, que a crise tá aí no mundo todo, mas no Brasil ela é causada pelo governo federal e blá, blá, blá, pereré pão duro. Mas, estou divagando já… A questà é que o termo mulato vem de mula e não se deve usar pra distinguir os negros de pele mais clara, pois se existem brancos de vários tons e coisa e tal, então que se reconheça que negritude não é só genética (vale uns 90/100 de ideologia e reconhecimento de herança cultural).

Mas, também, um país invadido, explorado e usurpado por europeus interesseiros, como seria diferente, como não aprenderíamos desde cedo mentiras que a maioria acredita na escolinha da tia cocota e nunca mais vai parar pra pensar se faz sentido? Muito do problema social do Brasil é a falta de questionamento e reprodução automática dos preconceitos ultrapassados em forma de brincadeirinha. Ziraldo, o autor do desenho de Monteiro Lobato com negras seminuas, por exemplo, defende o colega de ofício argumentando que racismo tem ódio e não é o caso, já que Lobato não praticou violência contra o negro. Ledo engano, pois retratar a empregada negra com termos pejorativos em seus livros é o cúmulo da violência não física. Ou você nunca ouviu falar em gente processada por agressão verbal, xingamento, difamação, etc? E também não cabe defender que ele apenas reproduziu um pensamento de seu tempo, do contrário não haveria abolicionistas na escravidão, militantes na ditadura, nem outras religiões que não a católica. É só ler um pouco pra perceber isso.

 

Isso lembra Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, o livro onde a estrutura da nossa sociedade é analisada como se tudo tivesse ocorrido da forma mais harmoniosa e pacífica do mundo. Como se a miscigenação não tivesse ocorrido através de estupros de senhores e filhos sobre as negras escravizadas ou sobre como a colonização foi um bem para o Brasil… ou seja, pra te dar um dado, esse livro praticamente inspirou Ali Kamel (divindade mística do jornalismo da globo) a soltar aquele peido em forma de páginas ‘não somos racistas’. Vindo do diretor de uma emissora que não tem nem 10% de negros em funções de comando ou destaque (acesse o site de qualquer novela e clique em elenco pra ver só). Caio Prado percebeu algo errado nessa visão tipicamente do filhinho da mamãe que nunca passou um aperto na pele e acha que opinião é igual bunda cada um tem a sua só porque tem, acha que pode dar e que os outros vão aceitar.

Ali Kamel é desafeto certo do movimento Negro, com seus dizeres hipócritas e cínicos sobre como o negro é que provoca o racismo falando no assunto e colocar uma personagem negra pra exibir seu livro na novela foi mais um tiro errado deles lá. Vale lembrar que a personagem em questão, de Juliana Alves, ingressava na facul baseada na ‘meritocracia’. Novela Duas Caras.

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO, Divagações e marcado , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para O teu cabelo não nega, mulata… mulata?

  1. marta disse:

    Perfeito como sempre!

  2. Luiz disse:

    Tava legal, aí falaram do PT que faz, como os colonizadores fizerem, dando bugigangas em troca de riquezas, ou ao falar da globo, como se nas demais emissoras fosse diferente. Menos nhem, nhem, nhem. Apesar disso gostei do artigo.

    • Programas sociais já existiam desde outros governos anteriores, meu caro. só não eram tão abrangentes. O PT tem muitas faltas, mas definitivamente, pelo cenário que estava e como ficou, combater a pobreza não foi uma delas, afinal, se de 2002 pra cá foram dadas “bugigangas” em troca de votos, antes nem isso. Eu não sei o que é passar fome, mas imagino que deve ser uma m… além de empurrar pessoas pro desespero, isso reforça a ilusória ideia de que o mundo tem chances pra todos e não que o sistema privilegia quem já tem e esmaga os que não. É esse o teor da minha defesa. Adoraria que fosse apenas a pessoa se levantar e vencer na vida, mas não é, não tem educação de base por parte de estados e municípios e emprego é coisa que se arranje e se perca de uma hora pra outra. Seu comentário não deixa de ter sua razão, mas acho muito radical já compararmos ao colonizador, ainda, parece mais que aceitaram fazer o jogo deles, se vendendo um pouco, mas conheço quem saiu de situações perigosas por causa desses dispositivos sociais, então, não posso ir contra progressos dessas pessoas.

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