Cadê o samba na festa ploc ’80?

Não tem. Se fosse só responder o título, já bastaria isso, mas tem mais (aff, sempre tem mais, Saga, você fala pra caramba). Sim, vamos lá, houve um tempo em que o meio de comunicação mais extenso e imediato era o rádio e em seus primórdios, a programação mirava nas classes sociais mais ricas, que poderiam adquirir rádios e usufruir de sua programação erudita e cultural (cultura “deles”). Mas, chegou uma hora que as rádios foram abertas ao grande público com a vinda das inserções comerciais na programação. Com isso, a malandragem foi o quê? Colocar na programação o que atraísse o maior público possível e aí, o Samba já vinha se consolidando até que Pelo Telefone se tornou o primeiro a ser gravado (apesar de ser um maxixe, admitiu o próprio Donga, por ser a moda da época). Conforme se formava o mercado fonográfico, o Samba foi ganhando o gosto de classes mais ricas, até que foi sendo ‘morto’ a cada nova leva de novidades.

Por exemplo, o Samba de verdade ainda era discriminado fora do carnaval, então o samba-canção vinha (também com o apelido de ‘samba de meio de ano’, por motivos óbvios) com sua levada de bolero, cantores brancos de classe média faziam a festa trocando mixarias por obras de arte porque o negro do morro não sabia o valor de sua própria arte, além de ser ludibriado pelos ‘comprositores’ (Francisco Alves, estou falando de você principalmente). Depois, viria a bossa nova (nada mais que um samba sem pegada feito por filho de rico e super-estimado, na minha opinião enquanto músico), Jovem guarda e, finalmente, o tal do movimento Rock 80. Admito que gosto muito de muita coisa dessa época, foi o meu tempo de aproximação com am úsica então muita coisa dali eu cresci ouvindo. Beleza? Beleza. E para por aí.

Se repararmos bem, o movimento ficou datado, tanto que virou uma festa temática, depois, DVD com o maior clima nostalgia ‘saudade não tem idade’. Pouquíssimos representantes daquela geração sobreviveu com algum gás depois da moda e muitos dos que ficaram não mantiveram nem metade do brilho. Foi uma febre, coisa de jovem. O filão cansou, quem não morreu não virou lenda e até a festinha já perdeu a força no maisnstream. Mas eu sempre me perguntei porque não entrava nada além de pop rock. Antes eu era inocente, agora, eu tô malandrinho. É porque além de a festa ser datada, o Samba teve também seu momento moda com Fundo de Quintal encabeçando o movimento do ‘pagode’ (hoje chamado pagode de raiz, depois daquela usurpação pop que chamamos de pagodete mela-cueca).

Mas ao contrário do som datado das guitarras adolescentes dos filhos de empresários, tínhamos aqui operários não pegando carona em portas abertas pelos contatos influentes, tínhamos gente influente aparecendo pra ver o que era aquele lance que fervia nos subúrbios cariocas. Foi um movimento espontâneo que cresceu por si só, independente se teria apoio de artistas de outras vertentes ou gravadoras olhando pra eles e vendo cifrões. A moda do pagode começou muito underground ao contrário da geração coca-cola e, como natural nasceu, natural permaneceu, tanto que não se toca samba daquela época em momentos específicos. São músicas que nunca saíram de evidência. Se você parar pra pensar, tem samba aí que parece recente porque não nasceu nos anos 80, mas já têm mais de 20 anos. Quando se faz o tempo todo, a gente não vê o tempo passar.

 

Etão, foi isso, uma divagaçãozinha clássica minha, das antigas mas que só agora eu parei rpa poder usar argumentos sólidos pra explicar – a mim mesmo também, rá! – porque de não haver necessidade pra meu antigo projeto ‘Ploc 80 Samba’. Quando uma cultura é fluída como o Samba, fica difícil separar um período só pra fazer reverência. Muita coisa surgiu nos anos ’80 no Samba que estão até hoje e/ou eram elos da mesma corrente que já vinha do final de 1960, com alguns artistas que já eram veteranos de décadas antes, ou seja, separar uma década só do samba é só homenagear uma pequena parte do todo que representa e não um tema fechado e datado como o pop rock no Brasil, que, já percebemos, não é um gênero musical propriamente, mas uma emulação do que se faz lá fora. Rebarba da jovem guarda, talvez? Talvez.

A questão é que se a JG pegou carona no princípio do Rock ‘N Roll clássico da década de 1950, o rock ’80 vinha mais na rabeta do punk de 1970, mas Samba é samba. Não tem como falar de Samba em um só local ou período. E como as letras do samba geralmente falam de coisas do cotidiano do sambista, então a identificação atemporal é maior. Não rola a simples memória afetiva de um tempo marcado de uma geração, isso é pouco perto da possibilidade de se viver essas emoções a toda semana pelos quintais, clubes, quadras e praças da vida. Canta-se samba até hoje em qualquer lugar com a maior naturalidade. Ninguém ouve Seja Sambista Também e fala ‘caraca, que velha, do meu tempo/quanto tempo não ouço’.

 

E pra você que tem saudades dos anos ’80 pop:

 

Gente, o mundo estava muito errado quando a apresentadora infantil era uma mulher de maiô über decotado e uma criatura grande e peluda trazia ‘abrace-me’ com cara de… sei lá o que aquilo tá sentindo.

 

Ah, e tinha Jaspion, o herói japonês representativo de black power…

 

Até passarem ferro quente pra esticar seu estilo… aff…

 

Até a Anri estranhou. Rá!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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