Quando grandes sambistas gravam outros grandes sambistas e você nem sabe

A partir da esquerda: Candeia, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Ufa, titulozinho safado de comprido, mas a ideia é um pouco complexa de se explicar, mas muito simples de se entender. Saca quando você tem um determinado compositor tão em alta conta que nem para pra pensar que aquela bela canção que ele gravou nem é dele, mas de outros? Pois é, lembre de alguns casos assim, um deles eu conversei nos coments de algum post relativamente recente daqui mesmo.

Dona Zica e Cartola.

Como acontece: Você tá lá e aprende as músicas do artista e vai se acostumando com sua voz, seus trejeitos, coisa e tal. Até que um dia, você para pra reparar nos créditos de um disco/dvd ou em alguma matéria e – ZAZ! – percebe que atribuiu a autoria ao conceituado artista e nem se ligou que poderia ser de outro, óbvio, pelo talento comprovado do ser humano.

 

Um grande exemplo é Preciso me encontrar. Muita gente ainda não sabe que a canção é de Candeia (igual Conto de Areia, eternizado por Clara Nunes), pois, sabemos, a versão mais famosa é de Cartola, outro monstro sagrado de nossa cultura. Também temos um outro exemplo envolvendo o mestre da Estação Primeira, dessa vez, com Meu Drama (Senhora Tentação), que é de autoria de Silas de Oliveira.

Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola.

Aliás, Silas de Oliveira passa por fenômeno parecido, mas em vez de ser creditado por algo dos outros (ou vice-e-versa), ele tem canções muito executadas até hoje em pagodes da vida (está uma modinha hoje em dia de cantar as mesmas três músicas relacionadas ao tema). Trata-se de Rádio Patrulha (“agora que eu quero ver/quem é malandro não pode correr…”), que muita gente acha que já nasceu ponto cantado de malandro na umbanda, mas é um samba. Mas estou divagando…

 

É que acho interessante como muita gente se acostuma com uma realidade e não a questiona por entender que ela é bem lógica pra se questionar. Eu mesmo me surpreendo o tempo todo, pois, adoro fuxicar em autorias e canções que a maioria nem conhece, só o que vem pelas rádios ou ondas de pagodes do momento. Vai dizer qeu não reparou que de tempos em tempos, escolhe-se apenas uma ou duas músicas antigas e só elas parecem despertar o interesse momentâneo, aí, passam uns meses e descobrem outra música. Imagine se cada um que segue a trilha do primeiro resolvesse ouvir um disco inteiro das antigas por conta própria e cada um resgatar a sua… pois é, teríamos tantos tesouros descobertos e valorizados que o espaço ia ficar curto na mídia. Mas confesso que gosto do núcleo cultural, não precisa quantidade, só o amor pela arte de quem se envolve nesse universo.

Da esquerda pra lá: Mano Décio, Silas de Oliveira, Noel Rosa de Oliveira, Dona Ivone lara e Cartola.

Enfim, esse texto nasceu de um pensamento e uma lembrança. O pensamento eu já falei, a coisa de ouvir ‘ué, essa não é daquele artista que gravou não?’. A lembrança é do ano de 2008, quando umas amigas ficavam enlouquecidas comigo, quando eu cantava minhas ‘músicas de velho’ enquanto elas queriam os grupos melosos da moda. Até que um dia elas me ouvem cantar uma canção e rapidamente pararam pra pegar no meu pé ‘ué, você não gostava disso!’. Eu disse que gostava sim. O que eu não sabia é que um desses grupos ‘new generation’ do pop de pandeiro tinha regravado a música, que, pra elas, era gravação original da tal garotada que realmente estava com mais mídia em cima do que o grupo original – e pioneiro – que a gravou (inclusive, sendo de autoria de alguns dos integrantes).

Fundo de Quintal na formação (clássica) que prevaleceu de início dos anos ’80 ao início dos ’90.

Elas tiveram que engolir que por um segundo, curtiram um ‘samba de velho’ e nem doeu, como elas faziam parecer pelas caras ao som dos meus pagodes da mais fina raiz, do puro suco. Rá!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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