Axé! Onde se pinta o respeito, se apaga a intolerância

Pra começar, acho o termo tolerância/intolerância um tanto quanto bobo e desmotivador. Porque acho que ou você tem respeito ou você não respeita, independente de agir incisivamente contra o coleguinha ou apenas desprezá-lo. O tal desprezo até poderia ser mais lucrativo, já que não envolve apanhar ou ouvir besteiras de preconceituosos, mas vai chegar uma hora que a gente, enquanto sociedade, vai precisar interagir, como em ambientes de trabalho, estudo, lazer, comércios, etc. Então, acho que apenas tolerar não nos faz evoluir enquanto sociedade, apenas mantém as diferenças escondidas, criando julgamentos e isolando grupos. Como eu falei no outro texto, tolerar, você tolera um peido no coletivo, porque não tem jeito, mas respeitar é outra coisa. Exige humanidade e cidadania. Sou o idealista do bom convívio, guardadas particularidades de comportamento para os ambientes e grupos que estejam de comum acordo com isso ou aquilo. Por exemplo, eu não vou querer encher a cara de cerveja na sala de espera do médico assim como não vou achar muito adequado o vizinho passear com o cachorro na areia que eu deito na praia, e que já não é bem cuidada nem por pessoas. Cada coisa em seu momento, seu lugar, etc.

Kailane Campos, carioca de apenas 11 anos, já sofreu com essa selvageria covarde que chamamos bonitamente de ‘intolerância’. Como eu digo, você não vê igreja atacada, mas uma menina de 11 anos leva uma pedrada na cabeça, vinda de um fanático ‘cristão’. Segura no axé, Kai, estamos todos nessa luta.

Dito isto, gostaria de lembrar que já escrevi aqui mesmo, no ano passado, sobre o 21 de janeiro, o dia internacional contra a intolerância religiosa. Deram esse nome esquisito de intolerância, mas eu o tolero (eita!) porque já é um começo. E essa data nasceu de sofrimento e dor, quando, a 21 de janeiro, do ano 2000, a yalorixá Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda de Ogum, sofreu violência física e moral (chegou a ser matéria de uma Folha Universal como praticante de charlatanismo) por sua religião. Ela viria a falecer antes que o processo por ‘intolerância religiosa’ tivesse um desfecho e a data ficou como marco de combate ao preconceito religioso, já que a própria constituição federal nos permite liberdade de culto religioso. E nem adianta eles falarem cagando regra sobre o que é e o que não é religão. Isso é uma infantilidade tão besta que não dá vontade nem de rebater, apenas debochar. Mas, bem, esse sou eu, tem gente que é muito mais envolvida com as religiões de matriz africanas (sou umbandista, mas não sou filho de casa nenhuma, por orientações do lado de lá).

Sou do axé e ando com Seu Zé. Quem se esconde, justifica o preconceito.

Sou do axé e ando com Seu Zé. Quem se esconde, justifica o preconceito.

Agora, vamos falar de coisa boa, vamos falar de tekpix, não sei quem foi essa pessoa linda que criou essa campanha ‘Onde se pinta o respeito, se apaga a intolerância’, mas já quero abraçar e agradecer pela linda ideia – e atitude, lógico. Já tinha ouvido falar, mas vi com meus próprios olhos que algumas daquelas falácias fanáticas fundamentalistas cristãs foram cobertas com o mais puro amor à cultura, à ancestralidade africana e à cidadania. Onde havia “só Jesus expulsa demônios das pessoas”, agora tem ‘respeite o meu axé que eu respeito a sua fé’. Isso, naquele muro gigante de comprido que beira e cerca a linha férrea dos ramais Santa Cruz/Japeri. As que vi foram nos bairros de Bento Ribeiro, Marechal Hermes e Ricardo de Albuquerque (onde dei um click todo orgulhoso da façanha de não sei quem, mas sei que admiro).

É assim, eles criam seus fantasmas, bruxas e demônios desde a era medieval, profanam templos afro, quebram esculturas, apontam e julgam como se a religião afro fosse o inimigo. Automaticamente, presumo que na deles não há defeito, já que outra cultura é o que deveria ter ali. Como sempre falo, seria como Os X-men (Marvel Comics) fossem apontados pela DC Comics como os demônios inimigos do Superman, astro maior da editora. Percebe o absurdo? Então, eles se deixam orientar por seres humanos iguais a eles, que interpretam livros escritos por seres humanos iguais a eles atribuindo algum poder divino sobre essas pessoas, não questionam que não tem mulher iluminada pelo deus deles, além das que pariram seus homens divinos, mas é candomblé que é o mal sobre a Terra? Ah, vá, né? Eu respeito todo mundo – quem me conhece sabe, e até diz que eu sou bobo por isso – mas se me chamar de ‘macumbeiro’ com aquele tom de desprezo, vou chamar de crentelho e quero ver me fazer desdizer.

Muito orgulho dessa campanha. Adoro atitudes positivas e afirmativas.

Muito orgulho dessa campanha. Adoro atitudes positivas e afirmativas.

Feito o desabafo, vamos de conclusão porque se não a matraca virtual não para e você vai ter que ler uma bíbl… uma enciclopédia de tanta falação. Enfim, religiões de matriz africana são muito mais antigas que qualquer protestantismo, cristianismo ou fanatismo euro-descendente, então, já podemos concluir que essa de difamar nossa praia é pra que a deles ganhe público através do medo, saca, aquele lance de compensação/castigo. Quando você entra nessa, vai achar que um tropeço é um teste divino e que o tropeço do colega é punição por ele pensar diferente do que você achou que deveria ser, mas que não tem direito nenhum, nem de julgar, nem de tomar conta. Vamos que vamos e que essa atitude de pintar o amor próprio religioso seja botão de partida pra mais outras idéias, porque defender o nosso é resistência, é amor, é força, é poder e toda palavra de ordem que nos mantenha na direção da igualdade e do respeito.

Um site bem legal que achei enquanto procurava elementos pra agregar neste texto é o Dossiê Intolerância Religiosa. Lá tem bastante coisa sobre legislação, cultura, denúncia e até orientações, do site do Senado, sobre como agir diante da violência religiosa dos fanáticos, como esse quadro abaixo:

 

Axé!

 

ATUALIZAÇÃO

Pra quem quiser dar uma olhada mais detalhada, aqui está o álbum de fotos da iniciativa.

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO, Minha Fé e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s