O futuro do carnaval de sambódromo carioca

Candeia escreveu um livro chamado Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz. Isso lá na década de 1970, há quase 40 anos. Naquela época ele já tinha mandado uma carta-manifesto junto de outros integrantes da Portela denunciando a comercialização das escolas de samba e a descaracterização cultural que as mesmas já vinham sofrendo. Então, com base nessa ideia – que é a própria ideia do blog, não é segredo pra ninguém minha admiração por Candeia e seu ativismo cultural negro – vou fazer um exercício de divagação sobre o futuro do carnaval no que se fala em questão de sambódromo, já que falando de rua, a coisa é mais livre e mais independente. Enfim, vamos ao papo.

Primeiro, temos que falar sobre a raiz do samba em foco: Escolas de samba eram para servir de resistência cultural diante da sociedade que exigia que o negro manifestasse sua cultura de maneira controlada pelo governo. Assim, para não ser mais perseguido ou agredido, o negro precisava de uma licença pra colocar seu bloco na rua e esse tipo de manifestação foi se desenvolvendo até que Ismael Silva e a turma do Estácio, criaram um rancho, Deixa Falar, e este serviu como escola de samba. Não só por ser próximo a uma escola ‘de verdade’, mas pra ser o reduto onde se passaria o conhecimento dos mais velhos pros mais novos, dos mais conhecedores para os mais novatos. Faço, particularmente, até a piada de que a Deixa Falar foi a primeira escola de samba, em termos de conceito cultural, mas na verdade era um rancho. E nesse ponto, escolas de samba já não o são. Até algumas possuem esse viés educativo, mas as maiores mesmo só se preocupam com patrocínios e arrecadações. Não vou julgar isso, assim como o tubarão precisa nadar, o ser humano no capitalismo precisa pagar as contas. O problema é que isso está sendo feito de maneira desordenada, ironicamente.

Veja bem, sempre cito aquele episódio de Os Simpsons pra ilustrar: Um dia, a família amarela montou uma quadra de tênis no quintal e virou piada na cidade por terem tudo, mas não saberem jogar. Em um determinado momento, Homer e Lisa contra Marge e Bart, ficam tão obcecados com a competição que substituem parceiros por tenistas profissionais, até que eles mesmos não participam mais, deixando tudo muito competitivo, mas nada divertido ou didático. Só no final, percebem que deixaram pra trás a graça do que os fez montar a quadra. Escolas de samba são assim. O negro era o artista, tinha até a ideia de que ele tinha 4 dias pra ser rei na cidade, até os ricos paravam pra ver. Aí, a intervenção do governo obrigou o sambista a se registrar, condicionou suas letras ao ufanismo e puxação de saco de um país utópico que tinha escravizado nossa gente até algumas décadas antes e o samba ‘vagabundo’ mesmo, tinha virado clandestino

 

O negro deixou de ser o artista nas décadas seguintes, pois em busca de cada vez mais espetáculo pra agradar turista, foram chamando profissionais de outras áreas. Por exemplo, a expressão carnavalesco até que faz sentido, mas se você parar pra pensar, não tem lógica. Carnavalesco é algo relacionado ao carnaval, ou seja, qualquer coisa feita para a festa é carnavalesca. É o mesmo que chamar um técnico de futebol de ‘desportivo’. O que esses profissionais fazem é design. Os designers agem como diretores de cinema, comandam tudo, trazem o tema, a sinopse e vão comandando todo mundo para realizar seu projeto do jeitinho que desenhou. Assim, o negro não toma mais decisões, pois os designers, 99% brancos, vêm de outra classe social pra realizar seu sonho de espetáculo, mas o negro, o artista, a costureira, o passista que criou isso tudo, vira só uma mão-de-obra, só uma ferramenta no meio da engrenagem. Você consegue imaginar? Não? Pense assim: E se colocassem um japonês pra governar a Espanha? Não faria sentido e sempre pareceria que ele iria puxar a sardinha pro seu próprio lado a qualquer momento, né? Pois é.

Tem a questão também da qualidade. Não é porque uma coisa é vendida e industrializada como um produto na prateleira que ela tem que ser necessariamente ruim. Mas é. Ficou. As melodias corridas dentro de um andamento quase dance, acabou a cadência e todos parecem o mesmo. De um ano pro outro, você nem lembra mais a música. Não se canta mais o samba de terreiro pra esquentar a escola, só sambas dos anos anteriores, aqueles que você só lembra se freqüentar a escola, porque nem os intérpretes devem lembrar. Se uma sacada dá certo em uma, todas fazem igual. É o jogo de futebol que de tanto medo de partir pra cima dos times, acaba todo mundo naquele joguinho burocrático de empate, sem arriscar por medo do outro sair na frente. Chato.

 

Nisso, também entra a mídia, a globo detém os direitos exclusivos de transmissão, mas só pra tirar a vez de outras emissoras, pra blindar a audiência. Esse era o motivo de a emissora não passar mais o desfile das campeãs, cedendo para outra emissora, geralmente, pra concorrer com a que estivesse no segundo lugar. Não dando certo ultimamente, a emissora nem cede, nem usa a transmissão. Simplesmente passa num canal fechado do mesmo grupo. Até as escolas nos desfiles oficiais já estão limadas, pra não deixar de passar sua grade gessada, a platinada só passa a partir da terceira escola de cada dia, passando as duas primeiras em forma de compacto quando o dia amanhece. Tá pouco respeito ou dá pra perder mais?

Então, amizades, fica assim, banaliza-se a cultura, vende-se a mão-de-obra, usurpa-se o protagonismo do dono da cultura e a cereja do bolo é aquela bizarrice de exibição de cada samba na programação da globo. Poucos segundos de samba, demonstrando o quanto se importam com o produto que transmitem. O futuro do carnaval de sambódromo – e todas as suas frentes – é a anulação da cultura, é se plastificar tanto que ser cabide de emprego de subcelebridades vai ser a única função com alguma real valia pra alguém. É como servir lasanha congelada requentada no microondas pra um italiano e achar que ele não vai perceber a diferença disso pra um prato legítimo feito ao natural.

 

Carnaval era confete e serpentina, hoje, virou espuma química.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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