Roberto Ribeiro – Arrasta Povo (1976)

 

Demerval, aquele que você conhece como Roberto Ribeiro, é um dos artistas populares mais valiosos de nossa cultura. E digo é, mesmo sabendo que já passa de 20 anos o tempo de saudade daquele talento nato. E, na minha inútil, porém embasada, opinião, o disco que descrevo a seguir tem todos TODOS os motivos para explicar não só o talento, como o sucesso do artista. Antes, só digo que este não é o único, é apenas o que tenho mais carinho por N motivos, como disse, mas ainda falarei em outras oportunidades de outros, sobretudo da década de 1970, quando o guri tava enjoado de tão produtivo. Comparo à década seguinte com Fundo de Quintal e metade dela para frente com Zeca Pagodinho. Mas calma, que se não a gente destoa e perde a toada. Rá! O papo neste momento é Roberto Ribeiro e seu Arrasta Povo.

Primeiramente, Ribeiro era compositor, em bem menor escala do que cantor/intérprete, óbvio, mas neste disco, ele só participa de UMA canção na parte da escrita, mas você vai ver que isso não traz o menor prejuízo, pois outro motivo de glorificar a arte de Robertão era sua ótima escolha de time. Falei em time só porque queria mencionar que por pouco ele não foi jogador profissional. Mas a questão é que, como é típico de muitos grandes, ele se cercou de gente muitíssimo boa pra compor seu repertório. Vamos dar só uma passada naquelas que tem algum diferencial?

 

Tempo Ê abre o disco como quem vai se chegando num ambiente num misto de preguiça e uma falsa cautela, do tipo que quando se soltar, vai fazer a festa acontecer. Palmas pra Zé Luis do – Glorioso – Império e Nelson Rufino, dupla sempre afinada na caneta nervosa. Então, a segunda música não deixa fôlego a tomar (UIA!), pois é simplesmente Acreditar, da outra dupla pólvora pura na escrita, Dona Ivone e Delcio Carvalho. Não precisa falar muito dessa, né? Aí, vem O Quitandeiro de outra dupla clássica: Monarco e o lendário Paulo da Portela. A quarta obra é Samba do Irajá, de Nei Lopes, no estilão do autor quando gosta de declamar versos sobre algo. E que refrão gostoso de cantar para o subúrbio bem representado. Tá bom pra você só esse time? Dá chilique não que ainda tem mais peso pesado pra eu citar neste singelo disco, neste pequeno objeto do entretenimento popular. Calma aê que eu volto no próximo parágrafo.

Daniel de Santana e Comprido são as fontes de uma das minhas mais preferidas da discografia do cantor: Podes Rir. Essa, particularmente, eu junto com outros petardos de outros discos pra compor uma série de canções em tons e temáticas parecidas (por exemplo: Propagas, Triste Desventura e Favela). Música triste, mas em tom de e desabafo desaforado. Então, vem, na sequência, a tal única composição a compor (hein?!) o álbum por parte de Roberto como compositor (chega de usar derivados dessa palavra por enquanto).  Em tempo, Império Bamba é parceria de Roberto com Joel Menezes e é uma belíssima homenagem à escola de nossos corações (Roberto Ribeiro, meu e de um monte de gente aí, rá! ;p ). Falando em Império, lá vem o próprio Império Serrano e na canetada do maior de todos: Silas de Oliveira, em parceria com Joacyr Santana, com Glórias e Graças da Bahia, enredo da própria escola, como imaginam. João de Aquino e Paulo Frederico trazem Lua Aberta, outra daquelas que eu digo sobre Podes Rir. Clima resignado e um repique-de-anel (instrumento comum nas gravações de Ribeiro) inspirado e cadenciado.

Rose, de Nelson Rufino e Ederaldo Gentil, é uma música diferente das que eu já tinha ouvido, pelo menos quando a ouvi pela primeira vez, pois ela é uma reflexão/divagação sobre a tal Rose e que vira uma declamação por alguém, notavelmente, querida. O solo que inicia e encerra a canção é lindo. E que refrãozinho cativante! Na reta final do disco, vem a obra de dois malandros da composição irreverente: Geraldo Babão e Dicró. Eles são criadores do sagaz Samba do Sofá, que papai Sagatiba até hoje cita quando nos deparamos com situações em que alguém toma uma atitude idiota pra resolver um problema mais sério:

“Ontem, eu a encontrei beijando outro em meu sofá

Veja que raivas eu senti

Hoje bem cedo, peguei o sofá e vendi

 

Tipo, se vem um furacão, você se preocupa em pegar o tapete pra não molhar? Rá! Enfim, impagável no mesmo nível que Só pra Chatear, também gravada pelo intérprete imperiano. Meu Pranto Continua é densa, melódica, mas com uma cadência até pra cima, se reparar. Viola de 7 cordas que o diga. A cozinha eu nem falo nada, que é redondo demais. Cama perfeita pra Roberto deitar seu vozeirão e a letra? Melodia com poesia na filosofia de Jorge Lucas e Walter de Oliveira. Então, pra dar um gran-finale pra um disco de 12 canções, mas que parecem 200 de tanta riqueza que possui, vem Wilson Moreira na autoria de Moda-ruê. Roberto canta África, nossa ancestralidade, nossa contemporaneidade que seguiu com bases nas raízes do samba, lá desde quando brotaram as origens de nossa cultura aqui. É pé no chão no chão duro de terra e cheiro de mato, parceiro. Nada mais a falar, ouve aí que música a gente pode explicar um lance ou outro, mas só ouvindo pra degustar em todos os nossos sentidos.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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3 respostas para Roberto Ribeiro – Arrasta Povo (1976)

  1. Luz Luciana disse:

    Que reportagem mais linda sobre um dos meus álbuns preferidos da vida. Que doçura na escrita. Adorei! Parabéns! Não consigo nem ter uma preferida rrsrs

  2. Por favor, alguém teria as fichas técnicas dos discos do Roberto Ribeiro? Com os nomes dos músicos que gravaram com ele!? Se tiverem, poedriam enviar pro meu e-mail: rafaelferrarirs@gmail.com
    Muito grato! Roberto Ribeiro é meu ídolo no samba e é o maior intérprete de todos os tempos, na minha opinião!
    Parabéns pelo post!

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