Jogo do Bicho, Carnaval e Natal

Origem do jogo

Foto antiga do antigo zoo, em Vila Isabel.

Pra falarmos de origem do jogo do bicho, precisamos falar primeiro de João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond (sim, o que virou nome da famosa praça 7, ali de frente para o Morro dos Macacos). Aliás, tudo ali é parte dessa história. Drummond comprou um pedaço de terra da Imperial Quinta do Macaco, colado ali no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Tornou ali um pequeno pedaço da França, depois que ficou impressionado com o estilo arquitetônico de Paris. Seu gosto por animais o levou a montar um zoo e como tinha a amizade do imperador D.Pedro II, importava seus espécimes numa boa. Numa boa, mas…

Barão de Drummond

Veio a cambalhota da monarquia, os militares da vez, capitaneados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, derrubaram a família imperial do poder e proclamaram a república. Perdendo o apoio do governo, Drummond se viu com pouca verba pra manter seu Jardim Zoológico e bola a ideia de uma loteria. Essa tal loteria visava entregar um bilhete a cada freqüentador do zoo. Cada bilhete tinha um bicho e um número e às 17h dos dias, um pano era descido revelando o ‘bicho do dia’. Quem tivesse o tal bicho em seu bilhete, ganhava vinte vezes o valor da entrada. Tipo, paga 1$ pra entrar e sai com 20$, tipo uma rifa, saca?

Exemplar de bilhete da mania que começou junto com a república.

Veja o que documentou o Jornal do Brasil em 04/07/1892:

“(…) a empresa (Jardim Zoológico) organizou um prêmio diário que consiste em tirar à sorte dentre 25 animais do Jardim Zoológico o nome de um, que será encerrado em uma caixa de madeira às 7 horas da manhã e aberto às 5 horas da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com bilhete que tiver o animal figurado tem o prêmio de 20$. Realizou-se ontem o 1o sorteio, recaíndo o prêmio no Avestruz, que deu uma recheiada poule de 460$000 (…)”.

 

Contravenção

Apenas duas semanas. Foi esse o período na história em que o jogo do bicho não foi considerado contravenção. Na verdade, a coisa saiu do controle, pois, no início, diversos comerciantes usavam esse artifício de trocar vantagens com os clientes, como brindes, descontos, etc. Para driblar a crise que veio na transição da monarquia para a república (hoje, chamada de velha). O jogo do bicho veio nesse embalo, mas logo mudou o esquema de um bilhete por pessoa para quantos as pessoas quisessem comprar. Assim, as pessoas já estavam indo ao zoo apenas pelo jogo. Esse misto de misticismo de sorte, interpretação de sonhos e a ilusão de se ganhar dinheiro fácil fez a polícia considerar a pequena loteria um jogo de azar, coisa proibida no Brasil. Aí, começou o bicho pegar pro jogo do bicho. Mas como o bicho é danado, ele escapou pelo muro do zoológico (hoje chamado de antigo zoológico, desde que a atividade foi transferida para a Quinta da Boa Vista, no bairro imperial de São Cristóvão) e ganhou as ruas. Mais de 120 anos de contravenção. Pense em como o negócio deu certo, amigues.

Crescimento

 

Com a proibição do jogo em 1895, os bilhetes passaram a ser revendidos pela cidade e não demorou a ocorrerem sorteios fora do zoo, por conta própria de várias bancas pela, então, capital de recém instaurada república. O crescimento do jogo se deu porque ele é a cara da população mais pobre. Veja bem, o jogo fomenta o imaginário da sorte, a ilusão de que uma hora você ganha “só ganha quem joga”, aquela esperança de pobre de que a vida está aguardando o momento certo para sorrir brilhante e o misticismo de interpretação de sonhos, como o próprio samba da Beija-Flor (de 1976, falo mais dele lá na frente) ‘sonhar com rei dá leão’. Isso criou uma ligação muito próxima entre o jogo e a população, essa informalidade, a coisa do apontador, muitas vezes, ser um amigo da vizinhança e tals… E ainda viria a relação quase marital entre jogo do bicho e carnaval.

 

Origem da ligação com o carnaval

Eu me lembro que eu era menino e do seu Natalino, já ouvia falar” (Malandros Maneiros – Zé Luiz do Império e Nei Lopes)

Se a origem do jogo do bicho remonta os tempos do Barão de Drummond, a aproximação do bicho com o carnaval vem um pouco depois, na década de 1930 com Natalino José do Nascimento. Natal da Portela, o homem de um braço só da escola de Paulo, Rufino e Caetano, teve infância pobre, mas chegou a ser funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil. Devido a um acidente nos trilhos, onde perdeu o braço direito, foi demitido por invalidez depois de seis anos de serviços prestados. Isso o levou a viver de alguns biscates até começar como apontador do bicho. Sua escalada foi rápida e notória até chegar a banqueiro do jogo do bicho em Madureira.

A ligação com o samba vem aí, com a proximidade de Natal com a Portela, estando presente nas rodas de samba – praticamente em sua rua – no então bloco (ou rancho, sei lá) chamado Vai como Pode, que mais tarde viria a se chamar Portela. Em homenagem ao amigo Paulo da Portela, Natal injetou grandes investimentos na escola de Oswaldo Cruz/Madureira, tornando-se pioneiro no que hoje é prática comum nas escolas do grupo especial: A figura do bicheiro patrono de escola de samba. E Natal fez isso muito bem, levou a Portela a lugares que uma escola de samba não estaria acostumada até então. Chegou a ser convidado pelo, então, ministro das relações exteriores, Negrão de Lima (aquele mesmo que nomeia o viaduto mais famoso do subúrbio, em Madureira, onde rola o clássico baile Charme) para apresentar sua escola no Palácio do Itamaraty em 1959 (à época, a sede oficial de seu ministério era no Rio de Janeiro, então capital federal).

Essa postura de herói contraventor não só elevou Natal a um status de benfeitor da região de Madureira como mostrou a outros bicheiros que poderiam ganhar a população pelo mesmo filão. A partir de Natal, vários outros bicheiros pegaram o grande ‘fica a dica’ deixada no ar por ele e começaram a tradição de escolas profissionalizadas, super escolas de samba s/a escondendo gente bamba em prol de mais e mais gigantismo, espetáculo pra turista e orgia desatada de dinheiro injetado. É uma pena que tanta grana tenha vindo pra justamente afastar a raiz da escola de samba.

 

Do porão pra apuração

Na época da ditadura, essa prática de aliar bicho com escola de samba cresceu exponencialmente. Não é por coincidência que Candeia tenha se afastado da Portela e do carnaval em geral, no circuito oficial, pois avaliava que as escolas de samba estavam crescendo muito em dinheiro, mas perdendo – ou seria vendendo barato – sua raiz, o sambista, o compositor, o passista, a costureira. Nem precisa ser estudioso do assunto pra perceber o quanto se valoriza o designer chamado de carnavalesco e como os componentes viraram meãs peças e não foliões num carnaval. O livro Os Porões da Ditadura fala exatamente sobre isso.

E a ditadura fez mais, pois, muito político e militar veio dos porões da repressão pra lado do bicho, tornando a coisa numa verdadeira guerra. Uma mão lavando a outra, as escolas institucionalizadas em porta-vozes das famílias dos bicheiros e da ideologia ufanista do governo, o que resultou na não coincidência de brotarem tantos sambas de exaltação a um país que estava matando adoidado nas câmaras de tortura. Carnaval, futebol e jogo do bicho. Ainda te parece uma feliz mistura de esporte e lazer? Humpf… vai lendo mais que você vai sabendo mais… e eu vou te acompanhando. Rá! Agora você já pode parar com a ideia de que as coisas acontecem por debaixo dos panos por incompetência de político, né? A coisa acontece exatamente porque eles têm interesses ali. Sabe quando, em menor escala, alguém consegue fazer algo ilegal por vista grossa, arrego e tals? É tipo isso.

Criticaram a Beija-Flor por ganhar um carnaval com apoio e homenagem a um país sob regime de ditadura, mas esquecem que todo o esquema da liga, do carnaval oficial é baseado nisso. Sem contar que os bicheiros não fazem nem questão de se esconderem, aliás, vira e mexe as escolas até os estampam em carros, esculturas, como destaques, diretoria, etc. O primeiro carnaval da Beija-Flor como campeã foi justamente o Sonhar com rei dá leão, como eu mencionei lá no começo.

 

Conclusão

 

Um jogo que começou como um jeitinho, quase inocente, de driblar uma dificuldade financeira, hoje se tornou uma verdadeira loteria, com sorteios regulares e até com referência no circuito oficial. Movimenta uma grana violenta, sustenta o carnaval do grupo especial no braço e já entrou para o subconsciente popular como uma espécie de ‘poderoso chefão’ dos trópicos. Enfim, o jogo do bicho já é parte da cultura brasileira, seja pro bem, seja pro mal. Ironicamente o jogo do bicho entrou para o carnaval através do Natal. Rá! #sagairônico.

Fontes:

http://www.ojogodobicho.com/historia.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogo_do_bicho

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista_Viana_Drummond

http://www.pedromigao.com.br/ourodetolo/2014/01/historias-brasileiras-natal-da-portela-a-beija-flor-e-o-jogo-do-bicho/

http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-a-origem-do-jogo-do-bicho

https://pt.wikipedia.org/wiki/Natal_da_Portela

http://www.jogodobicho.net/novidades/o-carnaval-e-o-jogo-do-bicho

https://livreopiniao.com/2015/11/26/os-poroes-da-contravencao-livro-revela-ligacoes-entre-bicheiros-e-agentes-da-ditadura/

http://jornalggn.com.br/noticia/os-poroes-da-contravencao-um-livro-essencial

http://oglobo.globo.com/brasil/bicho-cresceu-no-rio-com-ajuda-de-torturadores-10267365

http://blogs.odia.ig.com.br/leodias/2015/11/23/livro-polemico-garante-ligacao-do-jogo-do-bicho-com-a-ditadura-militar/

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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