Tia Doca: A incrível história do Samba que virou Pagodez

pagode da Tia Doca

 

Já levantei a questão lá na minha timeline do facebook, mas ainda quero discorrer sobre o assunto. Desde sempre eu conhecia o Pagode da Tia Doca, primeiro de nome, depois de faixas gravadas e histórias contadas por conhecidos e, por fim, fui lá. Já tem anos isso, mas por ser aos domingos, eu nem sempre ia pra poder acordar minimamente apresentável, então fui me contentando em passar pela porta, ficar um pouquinho e bastava… Até que por volta de 2013, passei lá em frente (morar perto tem dessas frequências) e vi um letreiro anunciando a abertura do espaço aos sábados para assistir aos jogos da Copa das Confederações e ainda rolava um projeto “acústico”, segundo o próprio letreiro, servia para deixar a ‘comercialidade’ do domingo correr com o comando do Nem (filho da pastora que fundou o clássico pagode) enquanto o da véspera viria com a proposta de se aproximar mais da raiz da coisa, dos tempos que começou, no quintal e tals…

 

A brincadeira acontecia no terceiro sábado de cada mês e ficava realmente boa. Sequências que até hoje têm resquício em muitas outras rodas (aquele CD de 2002 é empolgante demais #saudades) e um repertório bacana, resgatando muita coisa esquecida/ignorada pela grande mídia. Tipo, aquela que o Zeca gravou no lado B de um disco de 1987, ou aquela do Fundo de Quintal ainda com Almir Guineto cantando, músicas ainda anteriores à fase ‘cacique’ e convidados bem legais, que estão fora do circuito business (uma vez, um integrante do Exportasamba cantou ‘Se gritar pega ladrão’, faça a ideia!). Bons tempos.

Aí, não sei se por crescer o olho na rentabilidade da novidade ou se por algum planejamento mais profundo (UIA!), a visibilidade provocou mudanças meio salgadas, como o preço da cerveja (trocou de garrafa por latão 473ml, mas manteve o preço), o tradicional macarrão com carne moída (porque à bolognesa é frescura, rá!) passou a sair já lá pro final, o horário legal de 18h (com fim pontual à 0h) passou a concentrar faixas mais tardias até que hoje, está praticamente a mesma coisa de domingo. Ou seja, Nem canta o tempo todo na ordem que quiser, o trecho da música que quiser, o acústico que já era bem plugado pra ter esse nome no início, agora tem até microfones divididos nos vocais, o local sofreu uma reforma monstro (a única vantagem, não é mais um aperto se locomover) e, por fim, chegamos à cereja do bolo: O repertório.

 

Não só o repertório, como o modo como ele é conduzido. Um lugar com aquela aura de raiz, aquele pé no passado, na cultura que originou tudo isso e os caras cantam cada um uma frase, deixam a galera pra cantar o resto, ficam apelando pra músicas que já são repetitivas até em rodas mais afobadas (cof pagodez cof) e a velocidade alucinante com que se canta ali. Parece um cavaleiro do zodíaco sob efeito de red Bull. Cadência? Descanse em paz. Canta-se com a mesma pressa de acabar tanto músicas românticas de Jorge Aragão quanto o clássico ‘É hoje’, da União da Ilha de 1982. O insulto geral era o que estivesse ao microfone na vez, acelerando, perdendo o tempo da métrica, atravessando pior que tomates naquela piadinha infame e ainda mandando, com o pouco fôlego que dava, uns ‘canta aí, gente’. Não dava NÃO DA-VA! As poucas pessoas que cantavam ,só agüentavam o refrão ou algum verso mais animado (mesmo porquê muitas músicas nem chegam ao final, mudando do nada, como se todos os compositores do mundo só tivessem escrito refrões), depois, era dar um gole, dar um beijo, porque acompanhar mesmo tava tenso. E nem falei dos que cismavam de sambar. Metade daquele povo deve ter acordado com câimbras.

Teve também um problema muito pontual que já me fez me ‘demitir’ de grupos e recusar propostas de outros: A falta de uma personalidade musical. Oras, se o lugar é o famoso Pagode da Tia Doca, porque haveria a necessidade de se misturar num só set canções de cunho meloso (cof pagodez cof), versões modernosas de sambas antigos e Djavan? É o Soul Mais Samba? E parecia meio que um desespero de manter a galera antenada no mestre de cerimônias – que antes mal dava as caras aos sábados, no máximo puxando umas 5 e seguindo no controle administrativo antes de partir – mas o efeito era o contrário. Pra que serve um pagode que você não consegue cantar e dançar? Cansa mais cedo e pede pra ir embora, né. O intervalo com charme/hip hop/R&B continua… continua longo até vir gente te perguntar se já acabou o evento. Vara madrugada (UIA!²) e você morrendo de cansaço no meio das escolhas batidas e/ou fora de contexto da rapaziada. Enfim, parecia uma festa particular que os donos queriam que nós, penetras, fossemos embora pra ficarem mais à vontade.

 

Enfim, dá uma dor no coração pensar que um lugar que poderia ser cada vez mais um pólo cultural, numa região que além de ser historicamente um berço do samba, também é muito carente desse tipo de visão cultural ancestral, tenha se rendido ao business barato dessa maneira. Não julgo você querer ver o lado lucrativo do comerciante, assim como não julgo um tubarão por morder, mas se fosse qualquer outro lugar fuleiro, desesperado pra não fechar, eu entenderia de coração, mas um lugar que já foi freqüentado pela nata do samba, que ainda tem tantos contatos pra agitar as noites por ali, tenha ficado assim, comum. O que vi ali no último fim de semana, eu já vi em bares ou quintais pequenos, feito por gente que está tão sedenta por dinheiro e espaço que até justifica, afinal, vive de música e de cultura é complicado, mas não queria ver isso na Tia Doca, afinal, o nome do lugar chegou a ser ‘complementado’ como ‘Centro Cultural Tia Doca’.

 

Tá parecendo o Botequim do Império, que se desfez de uma roda firme de exaltação aos baluartes pra fazer seu ‘lelelê’ e tentar arrumar uns caramingués. Na boa, caras, eu costumo falar sempre (e já lancei essa ideia no Samba da Filosofia, roda que estamos começando entre Campinho e Valqueire), público de Samba é fiel. Pode não vir aos milhões da juventude, mas quem chega, gostando do que vê, vai sempre guardar um espaço no coração e na agenda pra dar um pulo aqui e ali. Apelar pro modismo é perigoso, pois o público da moda vai pra onde a moda mandar, o do samba vai onde o samba estiver.

Por isso que chamam qualquer coisa de samba, desde que tenha um pandeiro e alguém com um chapéu imitação de Panamá e roupas coloridas falando gírias que aprendeu nas músicas e ignora na hora de formular sequências musicais. Pô, o que não faltam são tons e temas riquíssimos pra se levar uma roda por uma noite inteira. No último Filosofia, acabaríamos lá pela meia-noite, acabamos indo até quase 1h, e ainda tivemos tempo pra cantar nossas autorais do movimento Aos Novos Compositores, do qual alguns de nós fazemos parte também. Onde, aliás, nosso padrinho, Chiquinho Vírgula, já cansou de cantar sua autoria que nos inspirou o nome do movimento: “…para acabar com o argumento de quem diz que o samba não frutificou, só tem raiz…“.

 

É isso, enquanto chamam Luís Carlos (Raça Negra), Alexandre Pires (Só Pra Contrariar) e Belo (Soweto) de Gigantes do Samba, o Pagode da Tia Doca vai caindo no poço fundo do pagodez. Armadilha auto-imposta, pois uma vez que você se prende a essa necessidade de agradar a todos os gostos imediatistas, restringe seu repertório, diversifica o público, mas perde a identidade.

 

Agora fique com o verdadeiro clima do Pagode da Tia Doca neste link, onde a própria pastora fala sobre como começou e qual era o clima da coisa:  https://www.youtube.com/watch?v=ca1AAFZCWms#t=39

 

E dê uma ouvida naquele lance legal e mágico que a roda tinha:

 

Samba agoniza, mas não morre? A gente se esforça, mas é cada neura que aparece. A plastificação do samba começa assim, um mistura aqui, outra mistura ali e já se foi o caminho mudado.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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