Maria Sapatão e Zezé serão banidos do carnaval carioca

Marchinhas com conteúdo preconceituoso estão sendo banidas do repertório de alguns blocos e eu vou te dizer porque é importante esse tipo de atitude.

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Primeiramente, fora temer as letras tinham um contexto sim. Ponto. Mas não é por isso que vamos passar a  mão na cabeça. Já escrevi aqui, neste blog, que Lamartine Babo, além de compor os hinos famosos de quase todos os clubes aqui do RJ, era tio de Sargentelli. O que ambos tinham em comum? A “mulatologia”. Veja bem, um, chega com uma música que diz que o cabelo da ‘mulata’ não nega sua raça, e como a cor não ‘pega’, aí, ele pode chegar junto pra dar uns amassos sem compromisso. O outro ficou conhecido por ajudar a propagar a figura da ‘mulata’ como uma peça de exportação, aquele quase guia de turismo sexual e todo aquele lance lá.

 

“Ain, Saga, você tá sendo politicamente correto!”. Não estou não, gafanhoto. Politicamente correto é seguir alguma política dominante e, no momento, a política dominante é a preconceituosa que tira todo o contexto de preconceito pra deixar passar barbaridades como racismo, machismo, homofobia e tals. Politicamente correto seria se eu apoiasse toda essa babaquice em nome do senso comum e de tudo que os mais conservadores acham que é o normal só porque já estava lá quando nasceram e não tiveram competência racional de pensar se fazia sentido, se fazia bem ou não.

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Mas, voltando, tem as músicas machistas/racistas, como O Teu Cabelo Não Nega, mas também tem canções de cunho homofóbico, como Cabeleira do Zezé e Maria Sapatão. Defensores do preconceito alegam que na época que essas músicas foram compostas, o contexto era outro, que é carnaval, que não há maldade, apenas uma grande brincadeira durante a festa… Olha, É JUSTAMENTE por isso que é tão preconceituoso. Até hoje, pessoas são mortas só por serem gays e esses caras acham que precisam manter a tradição de reduzir a homoafetividade de alguém a um rótulo escroto de gêneros trocados.

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Seria como defender que a escravidão não foi tão ruim assim, porque antigamente era igual aos desenhos Disney, que eram coloridos, cantantes e… opa… Lembra que quando um personagem pegava fogo e explodia, logo ele ficava com nítidos traços afro? A pele preta, lábios grandes, cabelo crespo…? Lembra? Também não tinha maldade, porque você cresceu vendo isso e não entendia a ofensa velada, né? Pois é. Antigamente, foram compostas músicas falando em bater em mulher, como que num bicho de estimação malcriado, mulher era tratada como a empregada com obrigações de servir na cama e na mesa e essas coisas.

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Sou muito a favor dessa revisão. Se o Cordão do Bola Preta, a liga da Sebastiana ou da Folia Carioca não se mancam e acham que essa discussão não é importante, que continuem assim, com contas a pagar, perdendo espaço para blocos muito menos tradicionais que nem samba ou marcha tocam. Vão se afundando até caírem no ostracismo, até porque, seu público atual é bem novo, relativamente, é a galera que vai quase que atrás de uma micareta. Querem se apegar ao tradicional sem separar o que pode seguir e o que é pra ficar pra trás, que o façam. O que não falta é bloco pequeno e mais novo promovendo festas mais atuais, com cara do RJ de hoje e não do tempo que um cara podia bater numa mulher pra sustentar a pose de machão, ou agredir gays porque eles mostram que o mundo não é tão simplório quanto queria.

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Eles levantam sempre a questão do que é tradicional. Escolas de Samba há muito que já perderam a essência, gêneros musicais se modificaram por inteiro, tudo pra ir alcançando algum contato com o público, aí, vem essa gente pra dizer que tudo tem que ser como antigamente, quando os que são desrespeitados hoje, eram muito mais desrespeitados. Só falta botar um porta-estandarte na mão do idiota do Bolsonaro e Danilo Gentilli de musa com uma faixa dizendo “Carnaval é igual piada, a gente usa pra ofender e agredir como se fosse um salvo-conduto acima do bem e do mal”. NÃO, NÉ?! Piada, carnaval, letra de música, nada disso pode burlar a lei. São peças de comunicação e estão sendo usadas diretamente pra passar uma mensagem. Isso não é culpa nossa, não escrevemos isso… mas perpetuar é concordar.

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O curioso é que ninguém fala em como era legal e inocente o tempo em que casais faziam 15 filhos, mais oito fora de casa, curtindo carnavais sem iluminação, carros velhos, condução precária… Ah, e… Atenção defendedores do preconceito, lá vai um dilema pra reflexão: Antigamente, era tudo essa festa ou apenas as partes ofendidas não tinham voz pra responder? Pensa, desgraça, pensa!

Fonte: Extra Online

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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