Pode isso? Mocidade Independente co-campeã 2017

 

 Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Mocidade Independente de Padre Miguel é nomeada campeã, ou melhor, co-campeã do carnaval de 2017, junto da Portela. Isso poderia ser só um adendo na história do carnaval de sambódromo pra turista ver e não deveríamos levar tão a sério, pois sabemos que esse universo que orbita a LIESA se importa com tudo, menos com a festa popular de onde se apropriaram, não é verdade? Pois é… não é assim.

Acontece que essa decisão da LIESA mexe com alguns fatores a mais doque simplesmente um não que virou um sim, ou, no caso, um décimo que virou campeonato. Todo mundo sabe que sou imperiano de fé e também, quem esteve em Madureira naquela quarta-feira de cinzas, 1º de março, viu que o papo geral era como depois de tanto tempo, Madureira estava em festa pelo Império e pela Portela e um dos comentários legais era que a escola de Paulo e Claudionor não ganhava sozinha já há quase 50 anos. Bem, isso acaba de ser revogado e tem coisas mais sérias envolvidas além do que diz respeito diretamente à escola da águia altaneira.

Primeiro, ficou uma impressão enorme daqueles momentos que uma criança chora, a tia vai lá e tira o brinquedo da mão de uma pra outra brincar. Sei que a Portela não perde o campeonato com isso, mas tirou muito da graça de ganhar ali na hora. Afinal, quantas vezes já aconteceu de uma decisão posterior alterar um resultado já sacramentado? Não estou discutindo os méritos da Mocidade, mas a verdade é que já vimos demais outras bizarrices no passado que ninguém juntou numa reunião um mês depois pra arbitrar mudanças. Não se volta atrás numa decisão assim. Quantos anos e quantas escolas não se deram bem ou mal por resultados assim e ninguém se importou voltar atrás? Porque agora?

Veja bem, sem qualquer menção de que o tempo voltaria pra mudar uma decisão de jurados, já vimos bastante:

  1. Escola ‘pequena’ dar show, levantar a avenida e ser rebaixada;
  2. Escola grande e desfilar com ala incompleta e sem fantasias acabadas ficando longe dos últimos lugares;
  3. Jurado dar dez pra quesitos defeituosos só porque não precisava justificar a nota máxima;
  4. Pontos tirados por birra de jurado contrariado…

E por aí, vai… Eu citaria aqui pelo menos um exemplo pra cada um desses itens por ano, mas como já escrevi sobre o assunto (dá uma passeada pela seção ‘falando nisso’ e ‘carnaval’ que tu vê), vou apenas lembrar casos como Lucinha Nobre, uma verdadeira baluarte na arte de porta-bandeira, sempre 10 na Mocidade, há alguns anos, defendeu a Inocentes de Belford Roxo e não levou um 10 sequer. Ao passo que Vila Isabel já desfilou com a bateria quase de bermudão e nem suou pra ficar no grupo especial.

Justificativa tosca sobre condições da cabine do jurado, alguns anos atrás.

Já que entrei nessa seara, vamos falar sobre as conseqüências dessa atitude da LIESA. Em primeiro lugar, abriu um precedente perigoso, como a reavaliação de pontos e critérios. Pensa só, é mole dar uma alegria à Mocidade por causa de um décimo… mas será que foi só esse décimo? Digo, se a escola mandou um livro errado pra depois mandar um correto (ou a escola ou a LIESA vacilou) e isso resultou numa nota ‘ruim’, quem garante que a falta desse 0,1 é que decidiu o certame? E se algum outro jurado alterasse a nota com o livro certo? Será que só isso seria alterado? Será que o jurado não acharia algum outro defeito? Enfim… é na base do ‘E se’ que essas divagações funcionam.

 

Você já viu juiz de futebol voltar atrás e decidir por votação dos outros clubes que um gol foi mal anulado ou ilegalmente validado? Já viu final de campeonato voltar porque quem perdeu, de repente, ganhou? E voltam as mesmas indagações: Será que seria só o lance do gol? Será que uma falta antes não marcada não atrapalhou…? E lá vamos nós de novo… Falo isso porque um mísero décimo retroagiu pra beneficiar, por votação e tals… mas este ano também vimos duas escolas provocarem acidentes e uma decisão do tipo ‘vamos juntar e tirar uma presidenta legitimamente eleita porque queremos’. Simplesmente, decidiram que ninguém cairia e agora, que duas são campeãs. Quer dizer… regras e justiça são como a paz mundial: Você até sabe que poderia ter, mas não dá a mínima porque acostumou a viver sem.

 

Novamente, não é contra a Mocidade, pois quem me conhece desde pequeno sabe dos anos em que fui encantado pela Mocidade e sua vanguardista bateria nota 10 (Salve, salve, Mestre André!), não é defendendo a Portela, por bairrismo e aquelas coisas de Paris… a questão é que quando começa a alterar resultados de forma arbitrária, qualquer coisa pode acontecer. E eolha que eu achava que a LIESA estava buscando um caminho justamente ao contrário, em prol de transparência, reaproximação com o povão… mas já vi que vai continuar esse carnaval de sambódromo nutella mesmo, huh?

 

Sim, é um negócio milionário que já ignora há muitos severos anos a cultura de onde se apropriaram pra faturar com turistas e direitos de imagem na TV, mas talvez seja esse tempo, ou é o fim do mundo chegando ou até, quem sabe, a volta de Darth Vader, mas o fato é que a sociedade tem setores que estão descaradamente demonstrando como sunciona o sistema sócio-político geral: Eles podem, eles fazem e você (nós, o povão) que chupe o dedo.

 

No mais, Alladin tinha direito a 3 desejos… quais serão os outros dois?

 

E… Portela, fica de olho, se não, alguém vem e liesa você.

*lesa

Corretor ortográfico safado.

Rá!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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3 respostas para Pode isso? Mocidade Independente co-campeã 2017

  1. Mário M. d'Oliveira Vilela disse:

    NÃO VOU ENTRAR NO CONTESTO TÉCNICO DA VOTAÇÃO, ATÉ PORQUE EXISTEM COISAS BEM MAIS IMPORTANTES NA VIDA E NESTE (PAÍS) PARA SEREM FALADAS E DE PERTINENTE PREOCUPAÇÃO QUE O CARNAVAL.
    MAS SERVE ESTA MINHA OBSERVAÇÃO, PARA INFORMAR QUE MAIS UMA VEZ AS COISAS SÃO FEITAS COM A TAL LIGEIREZA A QUE TANTO NOS ACOSTUMARAM OS BRASILEIROS.
    FAZER E FALAR DE ALGO SEM PRIMEIRO SE INFORMAREM, OU ESTUDAREM UM POUCO SOBRE ALGO E ALGO QUE MUITO EMBORA SEJA UMA LENDA, SE TORNOU HISTÓRICO NO UNIVERSO DA ILUSÃO E NO IMAGINÁRIO DAS CRIANÇAS. MAS VAMOS LÁ, MEUS SENHORES A HISTÓRIA DO ALADDIN, NÃO TEM EM ABSOLUTO NADA QUE VER COM MARROCOS, PELO MENOS SEJAM SÉRIOS E ESTUDEM UM POUQUINHO MAIS, ESTA HISTÓRIA PASSA-SE NO MÉDIO ORIENTE!.
    (AQUI FICA ALGO QUE PODE SERVIR PARA APRENDEREM QUALQUER COISA)
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Aladim

  2. Cris disse:

    Esse texto apoia as injustiças dos jurados e da liesa!!!! Discordo completamente!!!! A escola trabalha sério um ano inteiro e isso merece respeito!!! Parabéns a MOCIDADE pela iniciativa!!! Faço votos que isso seja o início d uma mudança favorável ao carnaval carioca e principalmente aos profissionais q se dedicam p colocar na Sapucaí o maior espetáculo dá terra!

    • Não apóio injustiça. E voltar atrás pra beneficiar UMA enquanto por anos a fio – e neste também – ninguém voltou nem pra rebaixar, nem subir escola nenhuma. Foi, no mínimo, estranho que a escola defendesse que houvesse rebaixamento usando o argumento de que o regulamento fosse cumprido, mas na hora de enviar dois livros, aí, aceita que voltem atrás no próprio regulamento.

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