Para Além das Estrelas – Wilson das Neves

Certa vez, assistindo a um documentário, se não me engano – há alguns anos – lembro que Das Neves era um dos homenageados naquela oportunidade e dizia – com seu característico humor refinado, sutil, porém afiado – que gostara da situação, pois depois que você não está mais aqui, que vira nome de avenida, de viaduto, não adianta, que não vai poder curtir a festa que fazem por você. E é verdade, nada melhor que homenagear alguém que se admira enquanto essa pessoa está aqui pra sentir esse carinho. Mas tem horas que não tem jeito, ninguém sabe ao certo a hora derradeira, quando a sina da natureza vai nos chamar, então, presto minha homenagem junto com minhas condolências, peito ainda apertado e resignado.

Acho que uma das primeiras vezes que ouvi o som quente é o Das Neves foi numa gravação com Beth Carvalho, aliás, regravação de Degraus da Vida, de Nelson Cavaquinho, quando, humildemente, ele termina o fonograma dizendo que Beth teria arranjado mais um afilhado, arrematando com descontração a faixa com seu clássico ‘Ô sorte!’. Depois, passei a reparar que eu já tinha ouvido sua arte de forma involuntária por aí, até reconhecer que conhecia algo de seu trabalho mas sem saber que era trabalho dele. Era um gingado diferente, uma coisa cautelosa e ao mesmo tempo impetuosa, livre, bem como o mestre demonstrava ser. Não convivi com ele, mas as vezes que estivemos no mesmo ambiente, pareceu ser assim, um comedido de personalidade marcante. Até o momento em que o vi emocionado e chorei, na quadra do Império Serrano (escola de samba da nossa paixão), em homenagem durante o evento Resenha Imperial.

“Ô sorte!”. Das neves contava que Roberto Ribeiro não sabia que ele era imperiano também até vê-lo tocar tamborim na Sinfônica do Samba (bateria do Império, da qual Das Neves era padrinho) e, percebendo sua presença, exclamou ‘Ô sorte!’. Em entrevista radiofônica há anos, ele explicava, se bem lembro, à MPB FM, ele disse algo como ‘Aí, a gente ficava ‘Ô sorte’ pra lá, ’ ‘Ô sorte’ pra cá, ele morreu, eu fiquei’. A explicação jocosa ganhava ares mais sérios e mais solenes quando ele também falava que sua expressão famosa era uma forma de agradecer à natureza, aos orixás, por tudo que tinha em sua vida. Dizia que não tinha nada de mais, que por ser mais antigo, acabava gerando a ideia de referência, humilde que só, e apenas considerava que estava apenas fazendo seu trabalho.

E que trabalho! Mais de 60 anos de carreira, de talento prestando serviço aos mais variados artistas de diversas gerações do Brasil e do mundo. Foi músico de estúdio, de orquestra, de conjunto pra show, turnê, participou de filme, compositor rico e cantor de estilo altamente próprio (quem nunca cantou suas músicas imitando aquelas notas prolongadas que ele fazia que me atire uma pedra! Rá!). Além disso, já foi motivo de homenagem em documentários, enredo de escola de samba e referenciado por muitos dos artistas que tiveram a honra de ter suas baquetas à sua disposição. Aliás, baquetas essas que sempre estarão em suas mãos, como diz seu mais famoso samba.

Tem sido um ano difícil pro Império Serrano, pro Samba e pra música em geral, mas, como se diz, só morre quem tá vivo e todo dia há despedidas, mas não é pra desanimar. Pelo contrário, por um lado, o céu tá numa cadência linda pra dizerem por lá ‘Ô sorte!’, aqui também temos a honra de ter recebido de graça um dos maiores talentos já vistos nesse país… Ô Sorte! É uma responsabilidade, honrar esse legado e reverenciar o provedor desse legado. Temos sorte de ter tido Wilson das Neves entre nós. Se estamos chorando hoje, é de saudade, de emoção, gratidão, mas nunca de tristeza, pois cumpriu sua missão aqui o samba é essa família reunida. Choramos os que partem, mas depois ficam as histórias, a alegria de sua presença mesmo que não física. Ô Sorte! Vá em paz, mestre!

Fontes:

https://samba.catracalivre.com.br/geral/samba-na-net/indicacao/wilson-das-neves-fala-sobre-biografia-memorias-de-um-imperador-o-sorte-em-entrevista-exclusiva/

http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/baterista-que-cantava-wilson-das-neves-sai-de-cena-no-rio-aos-81-anos.html

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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Uma resposta para Para Além das Estrelas – Wilson das Neves

  1. Luciane Vieira disse:

    Texto belíssimo e tão cheio de emoção! Parabéns.

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