Então, Saga, o ‘pagode’ não presta mesmo?!

 

Bem, como tudo em volta do Samba cultural e seus derivativos comerciais, a resposta poderia ser um simples ‘sim’ ou até um ‘sim, mas…’, porém, exatamente pelo mesmo motivo, a resposta exige uma explicação, dada a profundidade de questões que aborda.

 

A primeira de todas é falar que, hoje em dia, o âmbito comercial está bem diferente. Era uma coisa quando Donga gravou o maxixe Pelo Telefone, era outra quando Wilson Batista fez Lenço no Pescoço e assim foi, passando pela linha do tempo do Samba, a cada, digamos, geração, a coisa mudava de modo significativo a ponto de ouvirmos e sabermos de que época era pelo tipo de linguagem ou até a qualidade da gravação. Então, chegamos à década de 1980, pegando a cauda de cometa do enorme sucesso comercial que o samba fazia nas mãos de Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara e outros, nos anos anteriores, veio a ‘onda do pagode’.

 

O termo pagode, não canso de bater na tecla, já era usado muito antes, dando contornos rurais ao que viria a ser o samba urbano. Esse termo explodiu comercialmente quando o Fundo de Quintal despontou para o grande público em fins de ’70, início de ’80. Daí, possivelmente, por uma jogada de marketing, aquela sonoridade e estilo diferente ganhou uma identidade toda própria. Uma inovação que não se encaixava na mesma prateleira que o bom e velho samba, mas que, como sempre, tinha tudo a ver, afinal, era a mesma raiz, só que tocada um pouco diferente.

 

E o termo pagode pegou, avançou, trouxe diversos nomes à superfície da mídia… Tanto que começou a virem uns caronas, uns pingentes e usurparam o nome pra si. O FDQ não é totalmente isento desse desdobramento, já que incorporou a seu estilo instrumentos que não eram comuns no samba, talvez, pra dar uma diluída disfarçada e atrair o público que poderia se afastar se falassem ‘olha, gente, é samba, aquilo que os mais velhos fazem’. Isso é um repelente de público jovem, o que mais consome jogadas comerciais de rádios e casas de espetáculo.

 

Bem, no embalo de pagodes e sucessos instantâneos, o termo pagode começou a empregar um outro tipo de sonoridade, já distante do samba e mais próximo do pop. Na virada da década de 1980 pra 1990, até Zeca Pagodinho, em torno de seus 30 anos de idade, já soava ‘coisa de velho’ pra juventude que curtia os dances estrangeiros e rocks remanescentes da explosão ‘ploc 80’ (rá!). Aí, os teclados, contra-baixos e baterias tomaram à frente de viloa de 7 cordas, tantãs e repiques. E isso ficou sendo chamado de pagode, ao passo que o FDQ e sua geração, virou ‘pagode raiz’ ou, o mais comum, ‘samba de raiz’. Nem preciso dizer a redundância, né? Se é samba, É raiz. Seria como dizer ‘planta vegetal’.

 

Mas, vamos lá, o termo pagode vendia como água no deserto e a nova geração que se apropriou, criou seu estilo próprio. Beeeem diluído se compararmos com o samba, mas até que merecia um OK, pela revolução comercial que causou. Ainda não tinha sido visto com frequência um tipo de música tipicamente brasileiro tomar as paradas de sucesso, invadir casas de show, programas de TV, rádio, matérias em jornais, revistas, produção de ídolos instantâneos e até de apelo ‘sexy symbol’. De música era bem nhé, mas no conjunto da obra, temos que admitir, levou muito ‘pagodeiro’ a ser introduzido (UIA!) ao verdadeiro samba.

 

Afinal, pra quem passou por aquela época e não se ligava em encartes de CDs, por exemplo, Arlindo Cruz e Jorge Aragão são apenas dois exemplos de gente da pesada que abastecia frequentemente o repertório daquela turma lá. E até músicas dos, então, garotos, foram adotadas por eles e outros. Em algum momento, havia essa ligação, pros mais velhos não se arriscarem a ficar relegados a nichos esquecidos da mídia, e pros mais novos ganharem um peso a mais no currículo. Como aquele coroa que anda com a galera e vira o tiozão legal, saca? Rá!

 

Então, sim, o ‘pagode’ presta, mas já passou. Foi uma moda. Hoje, alguns sobreviventes ainda faturam vivendo daquela febre e da nostalgia, estilo ‘ploc 80’, ou aquelas coletâneas da jovem guarda. O que veio depois do início dos anos 2000, melhor nem falar. Já era um outro desdobramento que nem a batida conseguia mais imitar e muito menos o teor das letras honrava. Aí, já começa uma outra coisa chamada, hoje, de pagodez/PG10, etc. O pagode 90, como chamam hoje, foi importante para a arte feita por pretos pobres e deu moral pra muita gente (pra você que pensa que a união Arlindo Cruz-Péricles-Esquenta é novidade). Um trabalho artístico de nicho popular dominou a mídia por anos.

 

O de hoje não, é uma batidinha aguada feita nos moldes do R&B estadunidense que, por um acaso, ainda insiste em botar um pandeiro, ou algo que pareça. Já não tem mais identidade ou mera semelhança com samba, não toca em rodas de samba nem de zueira e só serve pra adolescentes acharem que seus sentimentos conflitantes nos hormônios possuem uma vasta experiência em amores mal resolvidos. Ah, e levantar o copo pra elevar a voz nos refrões extremamente sofridos.

 

Se antes a poesia estava empobrecendo em nome das vendas instantâneas em massa, hoje, nem existe mais ‘pagode’. O último foi o Exaltasamba e, mesmo assim, acabou quando deixou sua própria identidade ‘pagode’ pra se tornar mais um meloso de vocal uivante trabalhado no grito e no falsete (sim, Thiaguinho, estou apontando pra você agora – Rá!). Caras de quase 50 cantando com gel adolescente no cabelo letras de jovens empolgados com cerveja e cantadas baratas não dá, né? Alô, Péricles! – Rá!²

 

Pagode 90 é legal pra mim, é nostálgico e pra quem não pegou aquela época, também cai bem… Vai cair melhor quando decidirem resgatar outras músicas além das mesmas já manjadas de sempre. Mas repertório é assunto pra um texto um outro dia. Por hora, pagode é legal e já tá virando ‘coisa da antiga’, como um amigo mais novo falou… Já fiquei velho. Eeeeitaaaa!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Então, Saga, o ‘pagode’ não presta mesmo?!

  1. Carlos MG disse:

    Muito bom. Posso usar sua ilustração sobre a Lapa em um vídeo musical.

  2. Carlos MG disse:

    Parabéns, pelo seu belíssimo trabalho cultural. Li e gostei de todos os seus comentário.

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