Delegado Chico Palha, Censura à Cultura na Rua e o Samba na Praça Tiradentes

Primeiramente, Fora Temer, as casas de espetáculo e bares, EM GERAL, estão rebolando para se manter, assim como os artistas de rua, de bar de esquina e todos. É a tal da crise. Se tá difícil pra uma badalada casa de show, imagina pro mambembe pobre que ganha numa noite o que vai lhe garantir alimento, roupa e moradia apenas por alguns dias, se chegar a tanto. Eventos de rua não tiram o público das casas de show. Na verdade, na gestão anterior da mesma prefeitura da mesma cidade do Rio de Janeiro, a mesma manifestação cultural na mesma Praça Tiradentes, era tida como um dos maiores expoentes culturais da região (sem falar no retorno financeiro, né?).

 

Um lugar que, até alguns anos era horrendo de violência, insegurança, insalubridade, etc, tornou-se uma praça no sentido real, no bom sentido e abrigou eventos lindos, que movimentavam – e movimentam – muita gente e muita grana, empregos, socialização e cidadania. Como que isso tudo, em um ano, de repente, se torna inimigo público das casas de espetáculo da Lapa? Nos 8 anos anteriores, não tinha essa inimizade, não tinha essa ‘roubalheira’ de público e renda.

 

O que parece é que depois de se apropriar da arte dos outros, essa gente quer se fechar num cartel, onde a grana rola solta entre eles com exclusividade e a gente, os ‘neguim’ do morro que vem pra rua, fica com as migalhas dos trocados que não querem. Porque duvido muito que eles nos deem algum desses empregos que eles alegam que estamos ameaçando com nosso modo ‘de rua’. Aliás, nem vejo essa concorrência toda com ele. Parece aquele povo que acha que cota para negros está tirando vaga do branco que teve a vida e a grana toda pra estudar.

 

Voltando, se um bacana que frequenta a casa elitizada da Lapa para na Tiradentes apenas pra economizar um a mais, acho que não estamos falando do mesmo público. E outra, o camelô que circunda a praça também é concorrente da roda na Praça. É só frequentar algumas semanas seguidas os eventos ali que você nota o padrão de PM querendo embargar o evento e, quando tudo se acalma, integrantes da roda cansam de pedir que o público consuma no bar da própria festa, afinal, é dali que sai a grana pra pagar os músicos e sustentar a roda em si.

 

As incongruências começam no primeiro parágrafo, aliás, minto, no primeiro parágrafo, vem a opinião, quase isenta de ligações diretas, de que não é o caso de uma defesa assim gratuita do Polo Novo Rio Antigo (ainda que venha uma pequena carteirada afirmando os 20 anos e os tubarões que fazem parte da associação e a ampla relevante região que comandam comercialmente). Aquela intenção de parecer apenas uma opinião que tanto conhecemos. Nada tendencioso, né? Sigamos e prossigamos.

 

Vamos fingir, por um mísero instante, que as palavras não denunciam a enorme parcialidade da opinião do autor, já jogando em médio tom a ligação entre o comércio, a associação de comerciantes e a prefeitura que dá a palavra final. É como uma galera lojista atacar o camelô, mas sem querer nem saber pra onde esse camelô iria pra poder fazer algo de bom da vida pra sobreviver. Mas estamos falando de uma outra camada, de cultura popular, de um direito do cidadão.

 

Querem monopolizar, achando inocentemente que o público da Tiradentes iria procurar a Lapa e suas caras casas com o mesmo pique do playboy que pode bancar aquilo ali toda semana. Pobre também tem direito a diversão e não só na periferia. A cidade toda é de todos. Não à elitização e ao monopólio/cartel. Não adianta tentar parecer mediador alegando reconhecer o caráter agregador e democrático da roda de samba na Tiradentes, quando nem se sabe – ou nem se parece (querer) saber – que não é só uma roda de samba que acontece ali. Nem no mesmo dia.

 

O que se prega no texto do nobre colega é que a democracia seja feita restringindo a escolha do público entre essa ou aquela casa de show que, no fim, estão todas, sob o mesmo domínio. É o que isso? Uma milícia? Um poder paralelo sobre a cultura na cidade? Se for ver o perfil da maioria do público de samba, o que estão propondo é que eu me despenque pra uma casa cara (Centro ou Zona Sul, sendo que moro no subúrbio da Zona Norte), pague altos preços apenas pra passar na porta e ficar lá me sentindo um ser exótico, um preto pobre no meio dos empresários e consumidores classe média remediada e classe alta? Não, obrigado. Ostentação é pra artistas e subcelebridades (quem?). Eu tenho contas pra pagar e não me nego a um pouquinho de diversão descompromissada.

 

A visão empresarial e corporativa que o escriba deixa é que não é contra a roda de samba… desde que seja aquela que ele supervisiona e lucra forte em cima. Manifestação cultural é outra coisa, povo na rua, consumindo, cantando (e não fazendo protestos, às vezes até violentos) é o que interessa a todos. As casas de samba referidas no texto (Semente e Gafieira) fecharam as portas por qualquer motivo, mas duvido totalmente que tenha sido por ter rodas de samba na Tiradentes. Chega desse golpe hipócrita, de fingir a culpa do outro pra ataca-lo.

 

E, para completar, o samba nunca vai morrer, ele ‘agoniza’, na letra (irônica) de Nelson Sargento, é por causa de gente desse calibre, de gente que quer lucrar com o filão popular e sabe que sempre vai ter público. Mas pra eles não interessa o pobre, que fomenta a cultura desde que ela surgiu, nas mãos do próprio pobre. O que querem é pegar o que construímos, capitalizar e manter o poder em suas mãos. Quer comprar um pão? Tem, mas só nas padarias dele. O barraqueiro da esquina, eles querem detonar e jogar pra marginalidade, jogar pro quinto dos infernos, mas não quer ali, porque ele acha que seremos ‘concorrência’.

 

Se panelas, pelo lado artístico do samba, já é bem feio, e exclui quem não puxa saco ou se submete aos caprichos de uma galera fominha, imagina pelo lado corporativo que nem a desculpa esfarrapada do interesse na arte tem! Que papelão, hein, apelão? Se uma roda de rua e uns camelôs em torno são sua concorrência, já entendi que as 80 casas são todas da mesma galera… só não entendi porque com tanta casa, ninguém pensou em fazer um marketing legal pra abranger a todos. Não é acabando com a manifestação popular na rua que vocês vão lucrar.

Fontes:

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-29/policia-militar-impede-realizacao-da-roda-de-samba-pede-teresa.html

http://odia.ig.com.br/opiniao/2017-11-30/carlos-thiago-cesario-alvim-atravessaram-o-samba.html

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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