Império Serrano e outras observações sobre o carnaval 2018

O Império Serrano cometeu erros grotescos na caminhada desde escolha de um enredo frio para a cultura brasileira, sobretudo no carnaval até o modo como se comportou na avenida no desfile do último domingo. Como assim, a escola de Silas e Mano, Molequinho e Fuleiro, Dona Ivone e Jovelina, Aluísio e Beto, Arlindo e Roberto e tantos outros gigantes do nosso samba… como assim, essa escola singular me passa dois minutos antes do tempo regulamentar na avenida? A Sinfônica não podia ficar fazendo umas bossas até cumprir o cronômetro? Ninguém olhou pro cronômetro, qualquer um dos vários na avenida? Enfim, já até saiu comunicado do conselho deliberativo anunciando que a diretoria de harmonia foi destituída e eu não vou entrar nesse tema, até porque a diretoria foi demitida, provavelmente, por quem a contratou lá atrás, ou seja, uma nova equipe escolhida pelas mesmas pessoas.

 

Sim, estou ciente que entre mancadas e tropeços, meu Império caiu. Não vou dar uma de componente revoltado que xinga a instituição, a diretoria ou a presidente. Que sirva de exemplo pra que se busque novos caminhos e políticas pra levar a escola ao seu lugar entre as melhores do carnaval de sambódromo, assim como já é na cultura popular e como já foi num passado distante. Também não vou falar de ninguém em específico de fora da minha escola, mas há que se fazer algumas observações sobre o carnaval 2018, me baseando na minha escola como exemplo de vítima, culpada, modelo, motivo e simbologia do que a festa do povo se tornou. São vícios irritantes que me deixam bem descontente com o evento. Só mesmo o costume e a memória afetiva me fazem ainda me envolver com a coisa.

 

Carnaval 2017

Você não leu erra e eu não me enganei com o ano do subtítulo. É que meu Império vacilou e levou tombo, mas não esqueçamos que a tão (merecidamente) festejada Paraíso do Tuiuti provocou grave acidente na avenida ano passado, aliás, ela e a Unidos da Tijuca foram responsáveis por uma verdadeira tragédia e a solução da liga foi que ninguém iria cair. Estou dizendo que se elas caíssem ano passado, estaria melhor pro Império? Não mesmo. Mas também não foi justo. Aliás, se falei da Tuiuti e da Tijuca com seus desfiles desastrosos sem punição (ao contrário, foram beneficiadas), o que dizer da Grande Rio, que por um momento, chegou a nem estar na ‘zona de rebaixamento’, tendo passado com um carro a menos, o óbvio buraco entre alas e 5 (disse CINCO) minutos de atraso do tempo regulamentar? Pois é.

 

Apuração

O Império ainda pegou o ranço de ser a ‘escola que acaba de subir’, ou seja, aquela que até se for perfeita, dificilmente levaria meia dúzia de notas 10. E foi o que aconteceu. Jurado dando 10 pra escolas com problemas visíveis e tirando décimos onde a minha foi bem. A verdade triste é que o Império é tratado, em termos de sambódromo, como escola pequena, aquela que, parece, pensam que vive confortável no acesso, portanto, sempre é empurrado pra lá. Não que a escola não tenha cavado o próprio buraco onde tropeçou, mas a apuração nitidamente não é justa. Se a escola é de expressão e rica, as notas são bem mais gentis do que as agremiações menos abastadas. Lembram-se da porta-bandeira que só tirou 10 numa escola grande e no ano seguinte, não tirou um 10zinho sequer, estando numa escola pequena? Pois é. Aliás, fica aquele monte de jurado com cara de que está mais analisando uma peça de museu contemporâneo do que um desfile numa festa popular. As notas nunca fazem sentido na comparação de umas com as outras.

 

Carnaval popular acabou

Meio forte falar isso, mas a festa popular é só na rua mesmo, porque no sambódromo, o que vemos é um monte de burocrata tomando decisões sobre as escolas, designers de belas artes com poder de diretor de cinema comandando shows pirotécnicos, sambas encomendados e enredos patrocinados e o sambista mesmo, o folião, vira apenas a peça no tabuleiro. O peão. Não é mais rei nem na folia. Alguém mais reparou que, talvez, com uma UMA exceção (não tenho certeza), TODOS os jurados são brancos? Em algum momento, como diria Candeia e Isnard Araújo, a escola de samba é uma árvore que esqueceu da raiz. Fez lembrar um protesto de Paulo César Caju, ex-jogador da seleção brasileira, que comenta que a maioria dos jogadores é preta, mas na hora de dar um cargo de comando, quase que só os brancos são contratados pra técnicos e dirigentes.

 

Então, Saga?

Bom, a queda é dura mas o Império é mais forte e minha escola verá dias melhores, só não sei quando ainda, mas tenho fé. Mas uma coisa é certa: Não dá pra nem pensar em voltar pro especial ano passado. E não é porque teremos a companhia ilustre da rica Grande Rio e sua sub-escola interna Unidos do Projac (Rá!), também não é porque o Império não tenha capacidade, mas ficou claro como cristal que ainda não temos estrutura pra subir e subindo, pra se firmar entre os cachorros grandes e ricos da madame Globo. Sobre o Império, ainda tem que ter uma revolução de atitudes e procedimentos pra sonharmos em voltar pro grupo especial fazendo jus ao nome do grupo.

 

Já sobre o carnaval em si… Parabéns à Beija-Flor, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Salgueiro por trazerem para a avenida, em rede nacional, novamente o protesto social. Carnaval não é só entretenimento, é cultura também e botar na tela da TV temas como crítica à corrupção, política de interesses, a luta do negro e exploração trabalhista é pra se emocionar. A apuração, aquela festa do arroz, o 10 já se desenha sozinho pra “quem de direito” e as frações já tatuadas e carimbadas no passaporte das menos ricas pra descer de grupo.

 

Ano que vem tem mais. Aliás, meu palpite é que a gente estique o carnaval até 2020, assim, o prefeito fica esperando a festa acabar pra voltar de seu retiro espiritual anual na Europa. Deixa com a gente, Criva, ‘nóix dá conta’. Rá!

 

Ps: Uma menção honrosa, minha solidariedade à Unidos do Jacarezinho, que não bastasse ter perdido seu presidente – nosso querido compositor e amigo Barbeirinho do Jacarezinho (Quintal do Zeca), ainda  amarga um rebaixamento, para o grupo C, da Intendente Magalhães. Força, Jaca! Esteja em bom lugar, Barbeiro!

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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