Escolas de samba não recebem mais a mesma grana de antes… E daí?

Há muitos anos, décadas, que o carnaval não é mais o mesmo. E não tô falando só do âmbito geralzão, do tipo, ‘as coisas sempre mudam’. Não. Estou falando do carnaval de sambódromo do Rio de Janeiro. Na rua, sempre vai ter a modinha e o tradicional e o tradicional que adere à moda e a moda que imita o tradicional. Enfim, é sempre aquela bagunça que a gente ama – ou odeia, depende do caso.

 

Agora, trocando em miúdos, vamos ao que interessa: Grana! As escolas do grupo especial não estão recebendo a mesma coisa de antes e as do grupo de acesso nem isso. O que eu acho? Acho bacana! Não, não sou nem de longe apoiador do atual prefeito-político-religioso, mas há uma vantagem irônica no fato de termos um prefeito líder religioso conservador. Ao passo que ele defende legalização de jogos de azar, ele limita demais a subvenção ao carnaval e a beleza nisso, pra mim, é que o gigantismo das escolas fica ameaçado. Não é de hoje que essa galera deita na sopa e só faz carnaval milionário pra turista e o povão mesmo que é a força de trabalho e põe o coração na escola o ano todo só serve de mão-de-obra e figuração na festa que ele mesmo construiu. É como dar uma festa na sua casa e por você pra servir as mesas e limpar o chão. Nada de errado com a função, mas, demonstra a falta de consideração e exploração por parte de quem vem de fora mandar e ficar com o dinheiro.

 

 

Agora, acho que vai ser interessante. Ainda tenho o sonho que as escolas de samba se tornem algo extremamente caro e pouco rentável, pra ver se os interesseiros, empresários, ‘patronos’ e profissionais da moda larguem o osso e devolvam a arte do samba e do carnaval na mão de quem o merece por direito: O povo! Seria um dilúvio, ou, nos moldes da festa da carne, seria Sodoma e Gomorra, algo tão perdido que o Olodum incendiaria pra trazer a reconstrução de um amanhã melhor. Com as escolas mais pobres e sem a mão grande de quem só quer faturar e tirar onda com a cara do pobre, eu sonho que voltaríamos aos tempos em que ninguém tinha dinheiro, mas fazia carnavais inesquecíveis. A maioria das escolas fez seu nome assim. Era um paetê aqui, uma tampinha de garrafa ali e os adereços iam ganhando forma e dando o tom da identidade visual e o simbolismo da festa de ilusão do preto pobre sendo rei por quatro dias onde era servente nos outros 361.

 

 

Não me desce na garganta quando vejo empresários do samba falando que com menos de não sei quantos milhões não se faz carnaval. Vontade de emoldurar uma foto de Paulo da Portela em ferro maciço e dar na fuça de um tipo desses. Antigamente se fazia instrumentos musicais com sucata e a cidade inteira corria pra ver, hoje tem malandro dizendo que não consegue andar pra frente se não tiver pena de faizão albino da indonésia venusiana? Ah, vá… O gigantismo, ou melhor, a megalomania chegou a um ponto que ou o carnaval acaba, pra poder se renovar, ou vamos cansar de ver essas invencionices sem fim. Agora, o papo é que a organização está para ser delegada à produção do Rock in Rio. Nada contra. Empresarial e industrializado como o carnaval de sambódromo está há tempos, nem ligo pra quem vai estar imprimindo os ingressos (ou vendendo online, né, novos tempos). Só sei que pra ter valor cultural de novo, só acabando e começando outra vez. Não dá pra voltar do ponto que está. É muita gente mamando sem ligar pra importância sócio-cultural. Ou vem um messias propriamente dito (cuidado ao usar essa palavra hoje em dia, hein!) e salva a todos nós da perdição insalubre ou começamos um movimento paralelo.

 

Lembrei agora que teve um lance desses que eu li há alguns anos, na Baêa. Se não me engano, era algo do Carlinhos Brown, que reuniria um carnaval num lugar próprio pra valorizar as raízes. Ainda falando de minha amada Bahia, a cantora Sara Jane também se dedica a cultivar o carnaval fora dos cordões caríssimos do carnaval de abadá. Como diria Natiruts em Palmares 1999, vivemos a realidade ‘apesar de ter criado o toque do agogô, fica de fora dos cordões do carnaval de Salvador’. Por mim, a gente faria um sambódromo em frente à Marquês de Sapucaí, só de sacanagem. Rá! Mas estou divagando, este texto é só pra expressar meu desejo sincero de ver tudo definhar como está para renascermos das cinzas do carnaval de pavão e voltarmos a sorrir pelo amor à arte e cultura negra e não porque tem câmera monopolizando desfile na TV. O carnaval é nosso e já deixamos os outros se apropriarem demais por muito tempo. Não precisamos de grana, precisamo de valores. Sacou a sutileza?

 

Bjs nos cérebros!

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Carnaval, Divagações e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s