Para Além das Estrelas: Tia Maria do Jongo

É sempre triste ter que se despedir de alguém que se quer tanto bem e tanto bem fez a tantos, mas o momento é de consternação sim, resignação, pois a vida tem dessas coisas e uma hora todos iremos. Mas sempre tem algo mais. Maria de Lourdes Mendes, a Tia Maria do Jongo, se foi para além das estrelas hoje, 18 de maio de 2019, com 98 anos vividos de forma intensa, valente, completa e também com aquele olhar sereno de preta velha, semblante tranquilo de vó e sorriso de pura alegria. Ela era sabedoria, um conhecer cultural riquíssimo e uma humildade impressionante. Humildade mesmo, de saber do seu valor e mesmo assim trazer todo mundo pra um lugar especial só de abraçá-la (e eu abraçava, beijava suas mãos e pedia sua benção.

 

Era um orixá. Tenho certeza. Subiu pra terra de Aruanda quase que num sopro da natureza após sentar-se frente a um tambor de jongo e ensaiar uns toques. A última cofundadora do meu amado Império Serrano se foi. Mas deixou uma missão pra todos nós que amamos a cultura negra, imperianos sambistas jongueiros ou não: Levar a diante o valor cultural do samba e do jongo e da África em geral. Assim como Mestre Darcy fez com ela própria, depois de ele ter recebido a incumbência de sua mãe, Vó Maria Joana. Temos a missão e a noção de que o que se vai com Tia Maria é muito mais do que uma pessoa querida e carismática. Foi um livro que não se escreve, mas trazia um conhecimento ímpar. Em culturas de origem tão antiga, quando e onde não se registrava – apenas se repassava, se aprendia e se ensinava sendo e fazendo – uma griot do grau de Tia Maria era de valor inestimável. Coisas que só ela sabia através dos mais antigos e repassou. Era pra durar mais 200 anos, se a lógica da vida pudesse acompanhar a necessidade que temos de fazer nossa cultura sobreviver sempre. Mas, a vida tem dessas coisas…

 

“A emoção foi geral…”… sempre que um baluarte se vai, os versos iniciais de Silêncio de Bamba (Wilson Moreira), vêm à minha mente. O autor (que passou a ser homenageado também com sua obra, quando de sua partida recente) o fez em homenagem a Candeia, mas as primeiras palavras servem para momentos como este. Ainda um nó na garganta se formando, a ficha não caiu. Conheci Tia Maria pessoalmente quando trabalhava no guichê de informações do Sesc de Madureira e a matriarca da Serrinha entrou pelo portão principal para se apresentar junto ao Jongo da Serrinha num evento cultural na quadra da unidade. Eu que não sou dado a tietagens, pulei do meu cantinho e fui cumprimentá-la pela primeira vez. Ela foi tão atenciosa e gentil que em vez de desconcertado, me senti mais um sobrinho da tia. Pedi uma foto e foi nossa primeira selfie (quando nem se usava a expressão, há coisa de 8 anos). E seguiram-se outras ou na quadra do Império, ou na Serrinha, ou até em eventos mais pessoais da família Oliveira.

 

A velhinha era algo diferente. Quando o Samba na Serrinha não pode mais ser comportado na calçada do bar onde começou, devido ao grande contingente de público admirador que crescia, a roda foi transferida por um bom tempo para o alto da Rua Balaiada (hoje, Rua Tia Eulália, homenageando a ilustre dona, cofundadora e anfitriã da fundação do glorioso Império Serrano). E nunca mais me esqueço da imagem de Tia Maria subindo a rua a pé (quem conhece sabe que é uma ladeira bem íngreme e com uma escadaria depois de mais da metade da ‘rampa’).  Até nisso, ela me passou uma lição de vida. Que dificuldade eu tinha? O que eu podia reclamar do ladeirão que subia, pelo menos, uma vez no mês? Aquela senhora subia sorrindo e se aconchegava numa cadeirinha reservada só pra ela pela rapaziada do samba. E ficava lá como uma rainha em seu trono, acenando para seus súditos. Dava gosto de ver. Da última vez que a vi pessoalmente, nem o temporal que desabou a assustou. Calmamente se levantou da cadeira próxima à entrada da nova Casa do Jongo e, com algumas companhias de cuidadosos, foi amparada para a parte coberta do centro cultural.

 

Ah, o sorriso, o olhar, a energia boa que não conhecia idade, a sabedoria que não se ensina na escola e o conhecimento cultural de outro povo, outra época… A gente não pode ficar triste porque 98 anos é uma vida pra lá de rica e ela fez valer sua estada nesta terra. Assim como eu disse diante da passagem de Dona Ivone, é pra gente celebrar que tivemos aqui Tia Maria e não chorar por ela ter cumprido sua missão e agora, seguir para outra etapa da vida, em uma nação espiritual. Todo orixá tem que retornar à luz do pai maior. A palavra que fica quando lembrar dela sempre será gratidão.

Festa na família Oliveira e Tia Maria sendo saudada pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira do Império.

Por volta de 2015, com as Meninas do Jongo da Serrinha no evento de reinauguração do busto em homenagem a Silas de Oliveira, na quadra do Império Serrano (não era a melhor definição de câmera, mas o registro é importante).

Lá no alto da Rua Balaiada, gravação do clipe de Hamilton Fofão, também cria valorosa da comunidade.

Quando o Samba na Serrinha se ajeitava na Rua Balaiada.

A cadeirinha cativa que eu falei no texto.

Impossível não querer estar perto dela. Um axé só.

Olha o que eu falei. Na casa dos 90 e subindo o morro pra curtir um samba sem reclamar.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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2 respostas para Para Além das Estrelas: Tia Maria do Jongo

  1. Cristiano Abud disse:

    Olá, Fernando! Tudo bem? Como entro em contato com o blog e com você? Há algum e-mail? Obrigado.

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