E o Samba sambou… de novo

Tirando um minuto antes do fim do mundo só pra refletir sobre a triste ironia do enredo que ilustra este depreciável texto.

 

Agora, reflita você aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

E mais uma virada de mesa. Já é parte do calendário oficial da cidade, pra quem não sabe. No desfile oficial do carnaval carioca de sambódromo, o espetáculo passa correndo pela dispersão e não terá apoteose, só assinaturas, plenárias e um parco de dinheiro. Tamborim que é bom, pra quê? O samba no carnaval oficial carioca não tem nada a ver com música, quiçá, com cultura. A cultura, os instrumentos e o principal, o sambista, aquele de verdade que trabalha pela arte, esse está, há muito, atochado entre alegorias e adereços sob as botas caríssimas dos coronéis. Não coronéis do samba, mas das negociatas.

 

É um jogo de interesses tão ferrenho, que fico até constrangido em apontar essa ou aquela escola pelo posicionamento que tem hoje, sendo que, provavelmente, olhando em outros momentos similares, verei que o posicionamento pode ter sido (e em vários casos foi de fato) oposto do que se mostrou agora. Eu sei que a ironia do ano vai para a escola reeditou o enredo de 1990, ‘E o Samba Sambou’, sobre a industrialização do carnaval, inclusive, com uma criativa comissão de frente encenando/ironizando as tais viradas de mesa que desacreditam o carnaval carioca. Será que foi uma ironia, ou um cavalo de Tróia, se passando de denunciante pra disfarçar passos opostos no futuro? Reflita aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

Bem, pra quem não correu lá no final do texto pra ver os links de referência pra tanto, eu explico: Uma reunião – com a maior cara(-de-pau) de séria – foi feita na última segunda-feira, 3 de junho e, saindo de lá, tivemos a grande nova pro carnaval 2020: A Imperatriz Leopoldinense – rebaixada junto com meu amado Império Serrano – ficará no grupo especial ano que vem. Confesso que fui pego de surpresa, como aquele seu amigo distraído que pergunta ‘que Mário?’, mesmo cansado de conhecer a piada desde tenra infância. Pois é, abstraí da realidade por um instante e quando vi, a dignidade do carnaval carioca foi carcada atrás do armário. E o Império, bem, o Império continua lindo, a Serrinha continua celeiro de bambas, mas tá lá… Nem reclamo, porque mesmo sabendo que minha escola é um boi de piranha carnavalesco há anos, fui contra a virada de mesa.

 

O resultado, vimos, foi o rebaixamento por dois anos seguidos do mesmo grupo por pura vaidade e média política com quem não tem e nem se dá o respeito. Não adiantou alguns dos meus compatriotas ‘arroz-com-couve’ alardearem que a tal virada passada (retrasada, depois de segunda) seria uma espécie de paliativo para todos os anos de injustiças e descaso com a agremiação de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Beto Sem Braço, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz, Dona Ivone, Tia Maria, Roberto Ribeiro e muitos outros que, parafraseando a co-irmã de Madureira, se eu for falar, meu tempo não dá. Mas isso não é sobre Império. Veja bem, minha coroa imperial já tem problemas demais pra administrar e, felizmente, não participou deste circo de horrores. E a mulher barbada veio que veio com os papéis, no final da avenida da regulamentação, pra assinar.

 

Falando em papéis, não ofi ano passado mesmo que se assinou um tratado proibindo as viradas de mesa? Esse deus ex-machina já tá tão banalizado que ninguém nem fez barulho. Apenas os protestos dos mesmos lados, algumas escolas repudiando por escrito e a vida segue. Como eu falei, calendário oficial. Ano que vem a gente já espera, após o ano novo, a abertura dos blocos de rua, ensaios técnicos, desfiles, apuração, virada de mesa e aí, sim, o começo do ano, já que “o ano só começa mesmo depois do carnaval”. A ideia de que o carnaval seria mais uma ferramenta dos poderosos para iludir o povo e adiar o choque de realidade, pobreza, insegurança, violência, falta de saúde, etc, acaba se modificando…

 

Sem citar nomes, cinco grandes escolas se opuseram à virada e as que apoiaram a jogada escusa, provavelmente o fizeram por benefícios anteriores ou visando o mesmo a posteriori. Isso já dá um panorama, por alto, de cinco escolas que podem estar entre as prejudicadas ano que vem, pois, já percebemos que umas três foram impedidas de cair diretamente e uma outra que correu por fora, agora está, da noite para o dia, dando o que falar a cada carnaval recente. Tem outra que não foi salva de rebaixamento, mas ganhou troféu de campeã meses depois da apuração dividindo o pódio com a vencedora de fato. A pergunta é infame: Quem a apura a apuração? Ela ainda vale? Vai valer? Voltará a valer? Ok, muitas perguntas para muitos desdobramentos. Insisto, reflita aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

O lance é que reitero minha opinião idealista radical: Que se explodam de tanta grana e privilégios políticos os coronéis e que a prefeitura invista cda vez menos. Ou a iniciativa privada vai assumir a patuscada em absoluto e o empresariado do carnaval que brinque com seus camarotes pagofunk/pagonejo entre a marcha dos robôs explorados e falidos ou largam de vez o osso. Sempre digo que o dia que o carnaval perder sua vida mansa de trinta milhões de moedas, os urubus interesseiros abrem mão e o povo reemerge da poeira pra fazer um carnaval digno. Vaidade sempre tem, mas quando o dinheiro abastece, o poder corrompe. Nesse ponto, apoio a prefeitura atual. Só nesse e não por preferência, mas por estratégia sócio-cultural idealizada. Um sonho, um devaneio, um delírio, uma viagem na maionese, mas que tem fundamento na paixão pela cultura de um povo rico em história.

 

No mais, torço é pra que o Império desfile toda semana em Madureira e que outras escolas abandonem esse modelo falido de gestão. Até o presidente da Liesa deu no pé por não concordar com as decisões de onde já não apita nada. É cíclico, apocalíptico, as coisas sempre mudam em momentos de grande comoção e acontecimentos absurdos sem controle. A sangria vai estancar e quero estar aqui pra ver que bicho vai dar. Estou curioso. Quem diria que o outro lá faria sentido associando carnaval a golden shower? Aliás, como última reflexão para o momento: Onde certos jogadores fanfarrões são ídolos, uma racista vence o mais famoso reality da TV aberta e o presidente é… bem… você pode estar desesperado com o mundo, mas não pode dizer que não tem sua esdrúxula coerência, né?  Mas, como eu já disse, reflita ae…

Olodum nos proteja, batuquemos, axé!

Fontes: https://www.srzd.com/colunas/rachel-valenca/luto-e-vergonha-por-rachel-valenca/

Luto e vergonha, por Rachel Valença

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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