Para Além das Estrelas: Ivan Milanez Maneiro

Já tem muitos anos que conheço Seu Ivan. Exu milanez, como alguns chamam, pela versatilidade incrível que tinha ao se deslocar entre rodas de samba nesse Rio de Janeiro. Tu via o mais velho na Lapa e pegava o busão até Madureira e o cara já tava lá no quintal da Tia Doca e de roupa trocada. Coisas de Seu Ivan. Seu Milanez. Seu Mila.

Eu poderia ficar enumerando seus grandes feitos, muitos dos quais nem reconhecidos pela maioria que achava que ele era só um velhinho simpático e sorridente a perambular pelos pagodes da vida. Desde a Banda Molejo, grupo que acompanhava artistas numa gravadora, aos vários eventos e situações que se não idealizou, estava lá nas origens, ele fez de um tudo. Fez até música.

Mas eu queria falar de um ponto um pouco mais íntimo e pessoal. Ele vivia me chamando de filho e nem preciso dizer o quanto isso estará na minha biografia não autorizada daqui a sei lá quando, né? “Chega pra cá, você é meu, rapaz”. Cria da Serrinha, integrante da segunda formação da Velha Guarda do Império Serrano, compositor, músico e por aí vai… E ainda assim, era fácil encontra_lo aqui por Madureira, Cascadura e lhe pagar um pastel antes de encaminha-lo pra seu ônibus até em casa. Se não, ele ia andando mesmo. E a gente só ia saber que chegou bem na próxima pagodeira, porque não tinha celular.

Aliás, Pés de Caminhador é o nome de uma canção minha e uma noite, no Movimento Cultural Samba na Fonte, ele me viu cantar e me chamando lá fora depois, me recomendou não ficar afobado, pois eu sendo jovem, ainda tinha muito a caminhar nos sambas e na vida. Pausa para as lágrimas.

Ele disse que sempre foi bon vivant e não pensava muito no futuro, que eu tinha que respeitar meu caminhar pra evitar tropeços. Claro, os evitáveis. Enfim…

Na despedida, não há tristeza. Só gratidão e saudades. Meu paizão de samba. Quando a fonte é boa, a gente só tem referencia e reverência. Maneiro, maneiro e chora, malandro.

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Para Além das Estrelas, Tesouros do Samba e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s