G.R.E.S. Quilombo – Arte e cultura em festa

07/07/07 – É fundada, no bairro da Saúde, São Paulo, a G.R.E.S. Quilombo, por um grupo de trabalhadores, operários, bacharéis, mas, antes de tudo, sambistas de fato. Sambistas de coração.

 

A fundação de uma agremiação não é coisa fácil e nem se faz de uma horapara a outra. Muito menos sozinho. Mas, graças ao deus Samba, Thiago Praxedes – Mestre Thiago – recebeu o chamado e fundou a escola. Junto de amigos e familiares, começaram o Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo.

 

As origens da ideia foram inspiradas no G.R.A.N.E.S. Quilombo – aquele mesmo grêmio recreativo de arte negra, fundado por Candeia, Wilson Moreira, Nei Lopes, Zé Luiz do Império, Martinho da Vila e tantos outros. Inspiração no Quilombo do bairro de Acari/Coelho Neto da capital carioca e aspirações também semelhantes. Visto que, a escola não participa dos desfiles oficiais. Neste ponto, o nome Quilombo é muito mais que uma singela homenagem, é um elo da corrente que defende a verdadeira cultura popular negra através de uma espécie de contracultura. Por exemplo, as duas escolheram não desfilar no calendário oficial dos órgãos mandatários dos eventos oficiais.

 

O Quilombo-SP (chamar assim fica mais simples, né?) desfila uma semana antes dos desfiles oficiais e sempre com temas afro. Igual uma certa escola homônima aqui do RJ, certo? Certo. Outra inspiração forte para a escola de São Paulo é a carioca Império Serrano (ai, meu Império, vou chorar aqui, mané). A escola de Silas, Mano Décio, Tia Maria e cia é referência para Quilombo-SP na sua estrutura de escola de Samba unida à comunidade e que perpetua os ideais que foram motivo de sua fundação. O Samba, o Jongo, o ensinamento da história e da cultura do mais velho para o mais novo. Pode parecer coisa simples, mas não é. Nem toda escola mantém isso de forma orgânica como o Império (vai por mim, conheço a coisa por dentro). O Império apadrinhou o Quilombo. Olha que simbólico, olha que justo.

 

É justo mencionar que vários fundadores e apoiadores do Quilombo-SP são imperianos, sendo o próprio Mestre Thiago ritmista do meu Reizinho de Madureira desde 2002. As cores verde e branco na bandeira do Quilombo também são referência aberta ao Império. Tanto por serem as cores da escola da Serrinha quanto por não serem cores comuns para uma escola de samba na região onde foi fundada. Representatividade e originalidade. Sempre bom. Não é à toa que o pavilhão do Quilombo-SP seja, justamente, uma coroa dourada cercada de verde e branco, né? Existe todo um simbolismo em diversos itens da bandeira, como folhas de mariô (tipo de palmeira), búzios, todos em quantidades que remetem ao número 7.

 

Aliás, o número 7 carrega muitos significados para a escola. É o número de Ogum, padroeiro da agremiação (em paralelo com seu “alterego” sincretizado, que batiza o glorioso Império Serrano), outros fatores resultam numa numerologia que traz o número 7, além de a fundação da escola ter se dado num dia 7, do mês 7 do ano 7 da década de 2000. Ah, e era um sábado, o dia 7 da semana. Preciso mencionar que IMPÉRIO tem 7 letras e SERRANO também. Pode isso, Arnaldo? Pra você que tem admiração pelo sobrenatural ou só tem mania de Zagallo mesmo, fique aí refletindo. Aliás, a escola completa 13 anos esse ano. Rá!

 

Brincadeiras à parte, este é um grande exemplo de que o samba não morreu, nem está agonizando. Uma agremiação fundada nos nossos dias, com aspirações de 300, 500 anos atrás e se mantém sendo o que o nome se propõe a ser, aquilo que o Quilombo de Candeia e o Império Serrano se propuseram a ser desde o começo: Escola de Samba. Aliás, deixa eu retificar uma informação: Não é ‘desde o começo’, é ‘desde o princípio’, porque tem um conceito envolvido, um compromisso com a ancestralidade, se não, só seria uma aglomeração de gente pra batucar e beber. Mas não, ali é um Quilombo, ou seja, um abrigo pros refugiados do sistema que oprime se apropria e devasta a verdadeira cultura do povo.

Nosso nome é resistência, olha nosso povo aí e parabéns ao G.R.E.S. Quilombo, por ser foco de luta pelo que é nosso por direito: Cultura!

Fonte:

Mestre Thiago

https://perifatividade.com/category/gres-quilombo/

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Imperiano de fé praticante. Filiado à UNEGRO-RJ.
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Uma resposta para G.R.E.S. Quilombo – Arte e cultura em festa

  1. marra Sant Anna disse:

    excelente matéria !

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