Marchinhas Preconceituosas: Banimento sim, Esquecimento não

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Recentemente tem se falado muito, já em contornos de polêmica, sobre o banimento de marchinhas de teor preconceituoso. Meu posicionamento sempre é CONTRA manifestações de comunicação em julgamento, crítica ou ridicularização de grupos já historicamente desfavorecidos. Ou seja, letra de música, piada, personagem de programa de TV, meme da internet, enfim, qualquer coisinha que gere um ‘politicamente incorreto’, vai me ter (UIA!) do exato lado oposto, lá, acenando negativamente com a cabeça e perguntando que m… é essa. Já dei meu papo, ok? Então, acabou, Tio Saga? NÃO! Sonoramente, gafanhoto.

 

Eu sou contra letras que ridicularizem gays, negros, pobres, etc…Daqui não saio, daqui ninguém me tira, por exemplo, é sobre despejo de uma família pobre. Viu como dá pra retratar um momento da história sem ridicularizar? Na verdade, ironizando a situação e o modo como a sociedade trata esse pobre? Tomara que chova é sobre falta de condições básicas – no caso, abastecimento de água – e, da mesma forma que a canção anterior, demonstra um quadro social da época e o autor soube tornar isso numa crônica do cotidiano. Agora, apontar um gay e falar de sua ‘cabeleira’ ou insinuar que uma mulher, por se relacionar romanticamente/sexualmente com mulheres vai se tornar, necessariamente, um homem… bem… aí, eu levanto a voz.

 

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Também tem o caso do racismo/machismo (raci-machismo ou machi-racismo, escolha o que lhe for aprazível ao uso). As pessoas que defendem O teu cabelo, não possuem nada mais que ‘ah, mas ela é antiga,eu já conheço desde pequeno’ ou o clássico ‘vocês veem racismo em tudo’. Tá, mas Mulata Bossa Nova é uma homenagem, apesar do termo ‘mulata’ ser usado ainda, o que por si já é bem incômodo e indigesto, mas vá lá, a letra enaltece a mulher negra. O teu cabelo não, essa diz que o cara pode chegar, dar um plá na moça e largar por aí, como se a mulher negra não tivesse outra serventia se não a de depósito de esperma para a masturbação assistida de algum fetichista. É como dizem, ‘comer uma mulsata, meu bem, não te faz menos racista’.

 

Bem, essa conversa toda de forma quase redundante com outros textos meus internets afora é pra quê? Porque surgiu uma novidade, um ponto de vista interessante que ouvi em conversa com amigos, recentemente. E se as marchinhas não fossem banidas, valendo o argumento de que se forem esquecidas, um dia, corremos o risco de surgirem novamente peças preconceituosas sem que as primeiras estejam lá pra usarmos de exemplo? Sacou a parada? É a máxima ‘aquele que não conhece seu passado, tende a repeti-lo’. Pense em exemplos como o museu da escravidão, lembranças da ditadura, do genocídio judeu, enfim… Como nos sairíamos se não tivéssemos lembranças desse passado? Ficaríamos mais vulneráveis, não é? Pois é isso.

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Em suma, sou a favor do banimento ainda? SOU (falei gritando com o punho erguido – rá!), afinal, há anos que me incomodo em estar num lugar para me divertir e acabo servindo de piada pros outros que não pararam pra pensar na profundidade do que estão cantando. Ninguém repete letra satanista ou funk proibidão com essa liberdade toda, entende? E a coisa piora quando os alvos são amigos meus. Como não vou sair distribuindo bolacha na face de todos os babacas do universo, imagina a frustração que é estar na festa e se aborrecer sem poder resolver, abrindo a cabeça de todos ali.

 

É isso, não sou a favor de essas marchinhas continuarem enchendo a paciência de quem já apanha – em vários sentidos – o ano todo. A gente que faz parte de grupos discriminados não gosta de ser molestado, muito menos em clima de festa, como se fosse engraçado. Faz lembrar que em 2016, meu cabelo estava compridão e escolhi não sair em dia algum de cabelo solto, pra não me indispor com qualquer palhaço de peruca Black fazendo piada do tipo ‘ei, somos irmãos’. Não somos fantasia de carnaval. Abaixo com fantasias de nega maluca, por exemplo. Mulher preta atura muito o ano todo, não tem que se ver em forma de caricatura. Vão se pintar de branco, de perucas loiras. Brancos não são caricaturas, né?

 

march3Mas a novidade é que sou a favor de que elas sejam usadas em escolas, faculdades, palestras de história e todo canto acadêmico ou não, para que, primeiro, as novas gerações aprendam a interpretar e não só reagir com ‘concordo, é o máximo’ ou ‘discordo, é a minha opinião’. Vale muito essas marchinhas serem usadas em aulas de sociologia, como exemplos de como se retratavam cenários antigamente e que hoje não cabe mais, pois os grupos afetados pelas letras têm mais voz, descobriu seu direito ao protesto, ao repúdio do que acha ofensivo ou agressivo. Assim como estudamos períodos violentos e traumáticos, essas marchinhas merecem isso, virar peças de museu pra olharmos/ouvirmos e pensarmos ‘nhé, esse é um passado que não tem que voltar, vamos ficar de olho’.

 

Vamos ficar de olhos e ouvidos bem atentos. E se der m… estaremos de línguas afiadas, pensamento reflexo modo ninja ON e sangue quente nas veias pulsando nossos direitos.

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Maria Sapatão e Zezé serão banidos do carnaval carioca

Marchinhas com conteúdo preconceituoso estão sendo banidas do repertório de alguns blocos e eu vou te dizer porque é importante esse tipo de atitude.

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Primeiramente, fora temer as letras tinham um contexto sim. Ponto. Mas não é por isso que vamos passar a  mão na cabeça. Já escrevi aqui, neste blog, que Lamartine Babo, além de compor os hinos famosos de quase todos os clubes aqui do RJ, era tio de Sargentelli. O que ambos tinham em comum? A “mulatologia”. Veja bem, um, chega com uma música que diz que o cabelo da ‘mulata’ não nega sua raça, e como a cor não ‘pega’, aí, ele pode chegar junto pra dar uns amassos sem compromisso. O outro ficou conhecido por ajudar a propagar a figura da ‘mulata’ como uma peça de exportação, aquele quase guia de turismo sexual e todo aquele lance lá.

 

“Ain, Saga, você tá sendo politicamente correto!”. Não estou não, gafanhoto. Politicamente correto é seguir alguma política dominante e, no momento, a política dominante é a preconceituosa que tira todo o contexto de preconceito pra deixar passar barbaridades como racismo, machismo, homofobia e tals. Politicamente correto seria se eu apoiasse toda essa babaquice em nome do senso comum e de tudo que os mais conservadores acham que é o normal só porque já estava lá quando nasceram e não tiveram competência racional de pensar se fazia sentido, se fazia bem ou não.

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Mas, voltando, tem as músicas machistas/racistas, como O Teu Cabelo Não Nega, mas também tem canções de cunho homofóbico, como Cabeleira do Zezé e Maria Sapatão. Defensores do preconceito alegam que na época que essas músicas foram compostas, o contexto era outro, que é carnaval, que não há maldade, apenas uma grande brincadeira durante a festa… Olha, É JUSTAMENTE por isso que é tão preconceituoso. Até hoje, pessoas são mortas só por serem gays e esses caras acham que precisam manter a tradição de reduzir a homoafetividade de alguém a um rótulo escroto de gêneros trocados.

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Seria como defender que a escravidão não foi tão ruim assim, porque antigamente era igual aos desenhos Disney, que eram coloridos, cantantes e… opa… Lembra que quando um personagem pegava fogo e explodia, logo ele ficava com nítidos traços afro? A pele preta, lábios grandes, cabelo crespo…? Lembra? Também não tinha maldade, porque você cresceu vendo isso e não entendia a ofensa velada, né? Pois é. Antigamente, foram compostas músicas falando em bater em mulher, como que num bicho de estimação malcriado, mulher era tratada como a empregada com obrigações de servir na cama e na mesa e essas coisas.

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Sou muito a favor dessa revisão. Se o Cordão do Bola Preta, a liga da Sebastiana ou da Folia Carioca não se mancam e acham que essa discussão não é importante, que continuem assim, com contas a pagar, perdendo espaço para blocos muito menos tradicionais que nem samba ou marcha tocam. Vão se afundando até caírem no ostracismo, até porque, seu público atual é bem novo, relativamente, é a galera que vai quase que atrás de uma micareta. Querem se apegar ao tradicional sem separar o que pode seguir e o que é pra ficar pra trás, que o façam. O que não falta é bloco pequeno e mais novo promovendo festas mais atuais, com cara do RJ de hoje e não do tempo que um cara podia bater numa mulher pra sustentar a pose de machão, ou agredir gays porque eles mostram que o mundo não é tão simplório quanto queria.

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Eles levantam sempre a questão do que é tradicional. Escolas de Samba há muito que já perderam a essência, gêneros musicais se modificaram por inteiro, tudo pra ir alcançando algum contato com o público, aí, vem essa gente pra dizer que tudo tem que ser como antigamente, quando os que são desrespeitados hoje, eram muito mais desrespeitados. Só falta botar um porta-estandarte na mão do idiota do Bolsonaro e Danilo Gentilli de musa com uma faixa dizendo “Carnaval é igual piada, a gente usa pra ofender e agredir como se fosse um salvo-conduto acima do bem e do mal”. NÃO, NÉ?! Piada, carnaval, letra de música, nada disso pode burlar a lei. São peças de comunicação e estão sendo usadas diretamente pra passar uma mensagem. Isso não é culpa nossa, não escrevemos isso… mas perpetuar é concordar.

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O curioso é que ninguém fala em como era legal e inocente o tempo em que casais faziam 15 filhos, mais oito fora de casa, curtindo carnavais sem iluminação, carros velhos, condução precária… Ah, e… Atenção defendedores do preconceito, lá vai um dilema pra reflexão: Antigamente, era tudo essa festa ou apenas as partes ofendidas não tinham voz pra responder? Pensa, desgraça, pensa!

Fonte: Extra Online

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Racismo no BBB 17

 

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Gabriela Flor é linda, seu cabelo é lindo e ponto. Ok? Ok! Mal começou aquele programa chato, mas que tem muita serventia como vitrine social. Tudo bem que enquanto você sabe que tem câmeras ligadas e vozes te orientando em off, não dá pra ser lá muito natural, mas chega uma hora que as pessoas desencanam e é aí que a onça sai pra beber água.

 

O BBB mal começou, teoricamente, não deu tempo pra ninguém se apaixonar, virar amigo ou inimigo, né? Pode acontecer sim, mas calma, exceções confirmam, mas não tomam o lugar de certas regras. Mas vamos ao que interessa. Eu sou Gabriela desde pequenininho! “UI, quê que isso, bee?!”. Não entendeu, gafanhoto? É que a menina Gabriela em uma semana de programa já foi xingada, motivo de deboche, animosidades, preconceito religioso e… quem adivinha? Racismo!

 

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Isso mesmo. Comecei o texto de forma leve, falando da linda participante, porque eu fatalmente cairia nessa parte pesada da história. É playboy com cara de babaca falando mal do cabelo crespo natural dela (até questionando sua sensualidade), é preta sarará achando que tem domínio sobre a colega crespa porque tem pele (nem tão) mais clara, operou o nariz e esticou os cabelos, é ofensa enquanto mulher, enquanto baiana… mas, bem, vamos à ficha técnica, porque eu não sou desses de poupar a cara do racista pra mostrar a vítima chorando. Nomes aos bois e às vacas agora.

 

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Segundo o site Meio Norte, a participante Mayara, então líder do grupo na competição, disse “Eu vou votar nela e se ela falar alguma coisa pra mim, vai ouvir que precisa alisar o cabelo”.

 

Antônio

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No Portal do Holanda, o relato é de que o tal do gêmeo assistia um monitor com imagens de outro cômodo da casa e ao ver Gabi (sim, esse evento nos aproximou, rá!) dançando (ela é bailarina), soltou a seguinte pérola: “Ela acha que vai seduzir quem? Está ridículo!”. Em outra ocasião, ainda afirmou que Gabi deveria ser ‘macumbeira’, por ser baiana.

 

Manoel

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O outro gêmeo, na ocasião do comentário em que o irmão debochava de Gabi com um pano na cabeça, complementou: “Ela parece o Valderrama”, em referência ao folclórico jogador colombiano, famoso nas décadas de 80 e 90.

 

Vivian

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Esteve ali com os racistas e não levantou um ‘a’ pra condenar os comentários criminosos. Ou seja, a sinhazinha que tem amizade pela mucama, enquanto a mucama demonstrar odiar a própria raça. Assim, ela ganha na superioridade, porque nada melhor pra auto-estima de um racista do que ver um negro sem auto-estima. Porque você acha que eles se incomodam tanto quando nos afirmamos? Saímos do lugar que eles queriam nos ver, de insegurança, auto-imagem danificada, cabelos deformados ou raspados, com vergonha…

 

Analisando

Dito tudo isso, vamos às análises: Antônio é retardado daqueles bem senso comum playboyzinho que diz que tem amigos negros e que ‘não quer parecer racista não, mas, ó, tinha que ser’, isso enquanto esfrega o indicador sobre o braço em óbvia referência à cor de pele. Conheço aos montes desses aí. Deve ser uma porra dum machistinha também porque já andei lendo coisas sobre ‘homens virando gays’, além do modo como tentou diminuir a sensualidade de uma mulher negra, com a maior pinta daqueles invasores de senzala/quarto de empregada, que admira em segredo, mas não assume pra família/amigos. Um babaca médio. Nem excepcional babaca ele consegue ser com esses comentários que a gente aprende a lidar ainda antes de crescerem pelos em lugares diferentes e sentirmos um comichão por coisas outrora desconhecidas. O irmão parece ser gêmeo nesse sentido também. O babaquinha da sexta série mental eterna. São dois que não valem um.

 

O outro caso é um pouco mais complicado. Seria melhor haver uma lavagem de roupa suja interna, porque ela é uma legítima preta da casa grande. Daquele tipo que sonha em ser a querida do sinhozinho (Antonio/Manoel) e, pra isso, desdenha das colegas da senzala, pensando em se parecer menos com uma negra pra causar a impressão de que odiando sua raiz, vai obter aceitação pelo racista. Veja como Mayara modificou o nariz, veja como o cabelo é cuidadosamente rtatado pra não ter qualquer desenho, mas se não tem o desenho crespo, pra ela, já é lucro, mesmo sabendo que nunca teria o liso natural, já que a biologia não permite. Enfim, esse não é um caso de babaquice pura, de falta de humanidade, é mais um caso de ignorância e uma resposta até covarde, mas muito comum frente ao racismo. Muitos de nós só querem evitar o confronto pra não confrontar, não o racista, mas o racismo em si.

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Conclusões

Gabriela é mais uma vítima de um sistema que teima em não se conformar com o fim da escravidão, tentando desesperadamente, manter o status quo social do branco em cima e do preto embaixo. O BBB 17 nem começou direito e já mostrou como é um microcosmo do Brasil global: Homens brancos se achando, mulheres se achando, raros negros que, provavelmente, vão ficar pelo caminho. Já vejo tudo, se Gabi ganhar, dirão que é por pena, por cotas e outras baboseiras merecedoras de apanhar com o próprio braço. Se perder, a globo vai ter abafado o assunto como sempre faz e a festa da branquitude continuará a iludir a população de que negro é minoria no Brasil.

 

Resumindo, acho que mudar o apresentador não adianta, quando não muda os selecionadores de elenco. Mas tenho a impressão de que é isso mesmo que querem. Do contrário, já teriam mudado a realidade dos elencos de novelas, com 5 ou 6 negros no meio de 90 atores brancos/não negros. Em todo caso, eu não assisto mesmo, não entro em festa dos outros pra ser tratado como mascote ou piada. Essas produções não são feitas pra mim. Não sou público deles e a coisa mais fácil do mundo foi “boicotar” a TV. E… na boa, só um racista pra não admitir que uma mulher negra é uma rainha.

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Fontes: Meio Norte
Portal do Holanda

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Resenha: Samba da Filosofia, Movimento Cultural

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O sentimento que resume é agradecimento. Mas se fosse pra ser resumido, não seria Samba. Seria só uma conversa de esquina, como quem esbarra com o amigo de longa data que há muito tempo não se vê. Não. Esse sentimento é o de gratidão por levarmos para uma região carente de eventos de cunho cultural e que acaba se tornando um ponto de encontro social.

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Famílias se reúnem ali, amigos que não se veem com freqüência se encontram, a vizinhança comparece, põe as cadeiras e banquinhos na calçada, criançada corre, tem pula-pula e essas coisas de subúrbio que a gente fica feliz em trazer, porque crescemos com isso e valorizamos o que nosso povo tem de bom.

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Preparativos e expectativas em dia de Samba da Filosofia é uma energia que quase pode ser tocada em pleno ar, é uma coisa que envolve, que já começa dias antes, durante a divulgação e vai crescendo, cada um vem chegando de um lado, é mesa pra arrumar, som pra testar, o bandeirão dando aquela carteirada: “Ó, é o Filosa que vem aí, hein!”.

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As pessoas vão aparecendo, duas, três, dez, um montão e quando vê, a gente não percebe mais a diferença, é todo mundo uma coisa só, uma só voz cantando Samba. Nem microfone tem, que é pra todo mundo cantar igual. Só não canta quem não sabe a letra ou quem parou pra dar um gole no meio do refrão.

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Ainda tem coisa muito boa pra acontecer, porque o intuito do nosso projeto é ser um movimento cultural de representatividade do Samba enquanto cultura. E isso não envolve apenas a música samba, mas a culinária, roupas, artesanato, adereços, lenços, turbantes, quiçá, palestras, um mini sarau, enfim… o Samba é muito vasto e ali ele é o rei.

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Todo último sábado de mês é essa energia e este mais recente não foi diferente. A cada encontro a coisa melhora e é muita felicidade ver que uma resenha de amigos que começou informalmente numa barraca durante o carnaval, hoje, às vésperas de completar 1 ano, já tenha esse contorno abrangente. Fica esperto que vem coisa boa por aí. Porquê? Porque isso é o Samba da Filosofia, morou, Maria?

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Samba da Filosofia

Quando: Todo último sábado de mês, a partir das 17h.

Onde: Rua Dr. Jaime Marques de Araújo, S/N, Campinho, Rio de Janeiro.

Quanto é o ingresso: GRATUITO

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Esses foram registros do encontro de janeiro. Até o do mês que vem!

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Racismo contra o filho é bater nos pais duas vezes

Vou pedir aquela licença especial neste espaço de samba, quilombismo e militância cultural/social/política/etc para falar de um assunto muito sério: O momento em que o racismo não nos pega diretamente, mas vai na fragilidade de uma criança, pra nos fazer sofrer duas vezes. Como vocês sabem, eu sou da Comunicação UNEGRO (União de Negros pela Igualdade), então… sem delongas, ao assunto.

 

Renata Santos, 30 anos, sofreu racismo duas vezes no último dia 24 (de novembro), pois sua filha, uma menina de apenas 12 anos, chegou em casa num estado de choque tamanho que não conseguia nem verbalizar o que teria ocorrido pra que estivesse naquele estado de nervos tão alterado. Chorando a ponto de a amiguinha que a acompanhou até em casa precisar relatar à sua mãe o acontecido, a pequena Duda fez sua mãe se ver nela, tudo o que tinha passado na mesma idade e em outras épocas e quando eu li, eu SAGA, me vi também em Duda e este é um momento pra fazermos uma reflexão.

 

Ou melhor, você que lê que faça a reflexão, eu vou desabafar mesmo, pois também fiquei emocionado com o texto de Renata. Não preciso ser mãe nem pai de ninguém (aliás, nem sou mesmo), mas tenho familiares e filhos de amigos em jovens idades que já me relatam esse estresse e esse crime de racismo vivido na pele. Aliás, como diz uma amiga, “se não tem história assim pra contar, não é preto” e eu concordei tanto que vivo mencionando essa pérola tão concisa quanto verdadeira de nossa realidade. Enfim, vou destacar alguns pontos do que Renata falou, pra eu passar minhas próprias impressões.

 

Assim, eu compartilho minhas próprias experiências e mostro que Renata e Duda estão longe, muito longe de estarem sozinhas nessa. Assim, sem querer cair no clichê, SomosTodosDuda, pois, não somos apenas solidários, na verdade, somos colegas nesse tipo de vivência. DudaVocêÉLinda. Vou fazer o cruzamento do que Renata expôs com o que eu mesmo vivo escrevendo, pois o que temos em comum é a voz da experiência gritando diante de um pequeno que repete o filme e precisa de todo nosso apoio. Vou discorrer sobre minha infância preta suburbana ’80 e depois largo aí a postagem na íntegra.

 

“…sei que tem muitas meninas negras de cabelo crespo como o dela que sofrem muito nessa fase…”

No meu caso, de menino, o sofrer é um pouco diferente, pois a um menino não é tão cobrado que o cabelo seja aceitável, já que tínhamos o artifício de raspar a cabeça. Eu mesmo fui adepto durante maior parte da adolescência. Mas no caso das meninas, o cabelo é diretamente ligado à autoestima, à materialidade que induz às figuras femininas da sociedade a se espelharem num modelo branco, magro, cintura fina e quadris largos, cabelos escorridos e se possível, de coloração clara (assim como os olhos, mas seria mero bônus). Dá pra imaginar o que sofre quem vai se distanciando desse padrão? Negra, cabelos crespos, etc? Pois é, agora imagine isso na pré-adolescência, quando a menina está se descobrindo, crescendo, desenvolvendo a autoestima e é atacada num dos elementos mais delicados para mulheres em geral, sobretudo para o negro que vive sendo alvo de ofensas como se fosse um ‘branco errado’. Pois é… Apenas comecei.

 

“…não posso esconder minha filha em casa com medo dela sofrer…”

Pegando carona no gancho da frase anterior, na fase da adolescência é quando estamos mais inseguros, pois a inocência da infância vai dando lugar à necessidade e percepção de um lugar social. É nessa fase que se intensificam as cobranças – dos outros e de si mesmo – diante de um modelo, seja familiar, seja na TV, cinema, etc. O tempo todo somos bombardeados com peles claras, cabelos escorridos e essas coisas (é só ver 95% dos atores e atrizes da TV e cinema, capas de revistas, comerciais, etc). Não custa pra uma adolescente dessa idade se deixar levar pelo “encanto” do esticamento dos fios na base da química ou do ferro quente.

 

“…tem muitos adolescentes cruéis que seus pais jogam na escola sem dar um pingo de educação…”

 

Crianças não nascem sabendo que todos merecem o mesmo respeito independente da aparência. Ninguém nasce bom nem mau, mesmo que sejam facetas existentes e latentes na nossa psique. Então, o que uma criança faz é reproduzir o ambiente à sua volta (inclusive muita gente cresce e não consegue sair desse sistema de dependência do fator externo, mas falo isso em outro texto). Seja por ver fazer/falar ou por fazer/falar e não ser repreendido, muitos maus hábitos são passados de pai pra filho assim. Muito pai se mostra racista ao repassar isso para o filho em forma de ‘é só uma piada’ e quando o filho reproduz, ou tem vergonha de admitir ou apenas concorda e não faz nada pra ensinar que isso é errado. Muito pai racista até se orgulha. E é aí que nascem, crescem e se reproduzem os discursos do tipo ‘o politicamente correto está acabando com a liberdade de expressão’, porque idiotas assim não sabem se comunicar sem ofender e passam a culpar o ofendido por sua ‘censura’. Racismo é crime, só pra lembrar.

 

“…pior ainda é saber que um dos adolescentes é negro e mesmo assim zoava ela…”

 

Essa é pros Pelés e Fernandos Holiday da vida. É um reflexo infeliz da cultura de um país que foi invadido, colonizado e roubado por uma minoria europeia, mas com maioria negra, devido à escravidão. O que acontece, o negro é ofendido, acusado e julgado como errado por tudo. “Nego isso, nego aquilo”, ‘nego é f…’, ‘quando nego não faz na entrada…’ e essas aberrações. Junte-se às críticas e ‘piadas’ com cabelos crespos, narizes, lábios, cores (sim, a etnia negra engloba vários tons) e ZAZ! Muito dos nossos fazem o contrário do pai racista do item anterior. São negros que acatam essas críticas e aceitam como realidade esse mundo onde somos o ‘branco que deu errado’, onde se aceita a crítica, o racismo, tipo os negros da casa grande na escravidão, que queriam se sentir menos escravos destratando os coleguinhas do campo e dos trabalhos mais pesados. Ou ainda, a síndrome do senzalismo e do capitão-do mato: Negros oprimindo negros pra se sentirem mais bem aceitos pelo senhor do engenho. Eu, particularmente, diante de uma situação racista no trabalho, ouvi de uma colega negra com cabelos esticados: ‘gosto de você aqui, porque assim eles zoam você e me deixam em paz’. A saber, a zoação vinha de uma outra colega negra de cabelos esticados que se sentia o Samuel L Jackson no filme Django Livre (o negro fiel ao racista em busca de ascensão social).

 

“…quantas dudas não chegaram em casa ontem, vão chegar hoje e amanhã…”

 

Quantas Dudas não chegaram em casa naquele estado emocional ao longo da história? Muita gente tenta nos convencer de que o racismo é fato isolado, porque não têm capacidade de buscar informações, então, ficam dependendo de alguma situação isolada que extrapole as manchetes dos sites especializados. Assim, não observam o convívio nosso, ficam dependentes dos jornais convencionais pra prestar atenção no assunto. Mas digo de carteirinha, essa trolha acontece o tempo todo. Mesmo eu que já passei da idade ‘suspeita’ pra um preto pobre, ainda sou abordado na rua por policiais, porque o Estado não entende como cidadão um preto andando na rua sem que tenha que revistar, exigir documentos e tals. Na cabeça deles, o preto é o suspeito eterno e incondicional… aliás, a condição é ser preto. É assim que funciona o racismo, ele vai violentando nosso psicológico ao ponto de acharmos que estamos errados ou sozinhos demais pra reagir.

“…eu ia me calar, mas eu me calando, mas eu me calando, minha filha ia sofrer de novo e isso eu não posso permitir, porque já sofri quando criança e me calei…”

 

Cheguei muito em casa pra baixo depois de ouvir coisas na escola, na rua e muitas vinham de colegas, inclusive. E a gente vai ficando quieto, tentando fazer isso desaparecer por esquecimento, vai se silenciando, ficando tímido, ou idiota, como aqueles que preferem ofender outros negros – e a si mesmos – na esperança de que doa menos se a ofensa partir de nós antes que deles. É o mesmo que tomar o chicote do feitor pra bater nas próprias costas. E quando a gente lembra que isso tudo machucava na gente, ver um dos pequenos passar por isso dói duas vezes. A sensação de impotência e a vontade de resolver tudo num grito de desabafo são maiores que tudo.

 

“minha filha não sofre de hoje. Desde o prezinho, quando uma menina falou: ‘Não brinca com ela porque ela é preta’…”

 

Essa eu já passei literalmente, exatamente assim como ela descreve. Já estive, um pouco maiorzinho, numa roda daquelas de ‘verdade ou consequência’ onde sendo o único negro, a coleguinha metida a princesa vira, aponta pra mim e fala ‘posso beijar qualquer um, menos ele’. Fiquei quieto, porque ou estaria ali com eles me fazendo de piada ou não estaria com ninguém. Hoje, já tenho anos de experiência de vida e sei que é melhor fazer amizade com três cobras venenosas no meio da mata sem água pra beber do que aceitar se submeter a essa laia, mas naquela época, doeu. E vendo a pequena Duda ser a vítima mais recente, sabendo que enquanto este texto é escrito outras dúzias estão passando por isso também, só faz doer mais. Mas é uma dor mais ‘herói de ação’ do que ‘coitados de nos’. A diferença? Já viu nos filmes de ação como um vacilo do vilão é motivo do herói lutar incansavelmente? Pois é…

 

“Quantas vezes vou ver minha filha com medo de fazer amigos por causa da sua cor de pele, medo de ser rejeitada e abaixar a cabeça quando passa num grupinho de garotas com cor de pele clara…”

 

Nós, pretos do Brasil, somos constantemente ligados ao que não se quer ser, nem ter, nem estar por perto. No fim da adolescência, dei em cima de uma menina branca que me falou ‘fica muito perto não que você queima meu filme’. Tá, né? Além de desejar que tenha tido uma vida de rejeições pra entender o que é desprezar o coleguinha, o que mais se faz? Já vi, na escola, meninas negras passarem e meninos falarem ‘olha, fulano, sua mina ali’ e o outro respondendo ‘tá maluco? É sua, quero não!’. Além disso, de sermos usados como caricaturas humanas, ainda corremos o risco de fazer amizades brancas onde somos o alívio cômico, aquele mascote que, no ruim de tudo, o amiguinho vai poder olhar, fazer sua piada e pensar ‘que bom que pelo menos não sou preto’. Além de todo o peso da construção do país, ainda levamos eles nas costas pra objeto de apoio moral. Não brigue com o negro que fica arredio, desconfiado ou defensivo diante de amizades brancas. Apanhamos muito pra adotarmos essa postura. Ninguém que leva uma porrada está pronto pra esquecer e dar a cara de novo pra apanhar outra vez. Entenda nosso lado e respeite. Com o tempo a gente aprende a valorizar as verdadeiras amizades, pretas ou brancas.

 

“Se eu ficasse escrevendo todos os preconceitos que minha filha passou, não ia caber aqui”

 

Duda tem apenas 12 anos e sua mãe já fala isso. Imagina quantas vezes Renata não se calou ou preferiu ter fé de que nunca ia chegar a esse ponto de desespero da menina? Sim, a gente tem essa fase de querer tanto que isso passe que não comunica a ninguém, até porque muita gente, próxima até, vai te desencorajar a reagir. Vai fazer o Pelé e dizer que é só sorrir, levar um tapinha nas costas e seguir em frente. Eu com 12 anos já tinha ouvido todas as piadas possíveis com meu cabelo, minha cor, meu nariz e o pior: Eu já fui um desses babaquinhas pretos metidos a animal de estimação de branco, reproduzindo racismo contra os meus pra ver se desviava as atenções. Tentei ser o “preto legal” nas poucas vezes que abria a boca ou fazia algum gesto mais brusco. Lembre-se, eu não queria chamar atenção e se não tivesse jeito, queria mostrar para os algozes que eu não era seu alvo, nem inimigo. Covarde? Covarde. Muito! Mas como eu disse antes, alguns de nós simplesmente não suporta a pressão e eu fui um desses. Mas hoje eu tenho base pra chegar pra um pequeno primo na idade de Duda e falar ‘responde isso e isso se te ofenderem’. A satisfação vem ao ver seu sorriso e a frase ‘olha, eu não tinha pensado nisso’. Isso é armar nossos pequenos pra essa guerra de terror psicológico e social que se chama racismo.

 

Conclusão

 

Renata é um exemplo e que incentive outras mães, outras adolescentes, crianças, líderes comunitários, padres, X-men e quem mais for a abrir o verbo. Racismo não é tipo fada Sininho que a gente faz sumir apenas ignorando a existência. Se fosse assim, já tinha sumido de muitos lugares onde racistas falam ‘racismo é coisa da sua cabeça’. É preciso confrontar, combater, responder, reagir… porque racismo, sendo franco, amigos, não acredito que vá acabar em menos de 2500 anos (se ainda tiver universo até lá), mas a gente pode se impor e fazer com que esse ixo seja a verdadeira vergonha e não nossa denúncia. Muito preto se intimida e não quer parecer o chato que estraga a brincadeira, mesmo estando coberto de razão em se defender de algo que é tão bizarro que é considerado crime previsto em lei, sem direito a fiança e nem extinção por tempo decorrido.

 

Duda é uma pequena guerreira que, com certeza, vai poder usar sua própria história como exemplo de luta para outros, mais novos ou mais velhos. Deixa esse trauma passar que com o tempo a gente vai ficando calejado e aprende a lidar com mais dureza essa verdadeira violência que se chama racismo. E que Renata cobre da escola e dos pais dos idiotinhas mirins providências e punições.

 

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Fonte: Extra Online

 

 

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Chico Santana – Compositor-Símbolo da Portela

chicosantanaFrancisco Felisberto Santana, o Chico Santana – também conhecido como Chico Traidor (aquele que já foi traído e não traiu jamais), segundo o próprio, por ter feito o “Samba da Traição” (chamado Existe um Traidor Entre Nós), nasceu em 22 de setembro de 1911 e se foi em 26 de março de 1988.

 

Entre o nascer e o partir, ele saiu de Campo Grande para Oswaldo Cruz e se tornou compositor-símbolo da escola da águia, a Portela (óbvio). Suas linhas melódicas têm todos os elementos característicos da co-irmã de Madureira/Oswaldo Cruz. Os versos diretos, mas de uma eloqüência ímpar são facilmente notadas em exemplos como Muito Embora Abandonado, Lenço, Vida de Fidalga, Corri Pra Ver, Noite Que Tudo Esconde, Vaidade de Um Sambista, Hino da Portela… enfim, em linhas gerais, a identidade artística da Velha Guarda da Portela passa muito francamente pelo jeitão Chico Santana de fazer Samba.

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Ainda bem. Eu que sou imperiano de fé, mas nunca alimentei uma rixa velada que alguns mantêm por aí de ‘Portela X Império Serrano’, nem tanto por hoje em dia não estarem no mesmo grupo disputando, mas porque sou da bandeira do Samba e rixa pode até ter um lado saudável, mas rivalidades só tendem a desunir, coisa que a gente já vê e não precisa ter na nossa cultura. No mais, essa união de simplicidade com fluência verbal e a clássica vaidade portelense fazem da Velha Guarda azul e branca, merecidamente, a mais proeminente das velhas guardas (em questão de conhecimento do grande público, pois todas são importantes para nossa cultura).

 

É só ouvir uma música de Chico Santana que dá uma vontade de correr pra um carnaval de rua de coreto, confete e serpentina e tudo… e depois voltar pra casa e ajeitar aquele rango, cerveja e um samba. Rá!

 

 

Fontes: Dicionário Cravo Albin

Portela Web

Cantora Sueli Gushi

 

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Cartola – 108 anos

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Artista nato de mão cheia, poeta dos mais sensíveis (que se dedicava a ler Camões, Olavo Bilac e outros para aprimorar e desenvolver seu vocabulário e poesia), Angenor de Oliveira, arengueiro por natureza que fundou a Estação Primeira de Mangueira, completaria 108 anos neste 11/10/2016.

 

Aliás, só descobriu que seu próprio nome tinha o N depois do A quando oficializou o casamento de 12 anos com Dona Zica, isso já aos 55 anos de idade.

 

Aliás, é uma questão curiosa, pois já vi vídeos do poeta falando se tivesse ‘estourado’ mais cedo, mais cedo teria se perdido, se referindo a seu jeito de ser. Ele dizia que seus vícios eram ‘beber, fumar, tocar violão e correr atrás de mulher’ (geralmente, as mais velhas, pra evitar de fazer filho).

cartola

Não à toa já tinha sido gravado por nomes grandes da nossa música como Carmen Miranda, Pixinguinha, Francisco Alves(o compRositor, mas sobre isso eu falo outra hora) e outros, mas nunca acumulou grana e viveu de empregos simples a vida toda. Só chegou ao sucesso individual como artista mesmo já com 65 anos, quando seu primeiro disco foi lançado.
cartola-04Morreu em 30 de novembro de 1980, de câncer, na pobreza, numa casa doada pela prefeitura.

 

Fonte: Infoescola

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