NZINGA, a Rainha Jinga

Texto e imagem retirados da publicação da página Nomes Afro e Africanos e Seus Significados.

 

 

NZINGA MBANDI NGOLA KILUANJI, a legendária “Rainha Jinga”, até hoje presente na tradição afro-brasileira, nasceu em 1582, filha do rei Ngola Mbandi, foi rainha do povo Mbundus, um grupo do povo Bantu, que hoje pertence a República de ANGOLA, anteriormente conhecido como Ndongo-Ngola, depois de Reino de Angola. Com a morte de seu pai ,inicia uma luta sucessória entre Nzinga e seu irmão Ngola Kiluange,que já era rei, antes do pai morrer.A ambição do Ngola Kiluange, que deseja as terras da irmã, não mede meios e manda matar o jovem sobrinho para que não haja sucessão..Ao receber o corpo de seu filho jura morte-por-morte. NZINGA inicia o processo de vingança, vive num recanto escondido, longe do irmão truculento. Inicia um pequeno exército. Assalta fronteiras de Ngola Kiluange, apoderando-se de gados, mulheres, homens, semeando prestígio ameaçador. Por volta de 1618, os conquistadores portugueses, estavam com problemas no seu meio e a princesa NZINGA começa a revelar a grande figura histórica que seria logo depois. Em 1622, atende a um pedido de seu irmão rei, embora fosse sua inimiga, torna-se sua embaixadora em Luanda, junto ao governador geral de Angola, Congo e Benguela, o português João Correia de Souza, para negociar a paz. Para conseguir a confiança lusa NZINGA deixa-se batizar recebendo o nome de ANA DE SOUZA, e, com sua eloquência, fluência de raciocínio e propriedade de linguagem, impressiona de tal forma os portugueses que eles, depois de pensarem que se trata de algo sobrenatural, entendem que estão diante de üma pessoa excepcional com uma mente brilhante, uma revelação verdadeiramente talentosa de superioridade intelectual africana”,

De fato, NZINGA e sua corte, localizada na região de Cambo Camana, terra dos Hembe e Matamba, na fronteira norte de Angola com a atual República do Zaire, eram bem diferente do que os europeus julgavam. O palácio real era uma das áreas mais seguras em Matamba. Ninguém podia entrar ou sair sem o conhecimento e a permissão dos homens de segurança da soberana. NZINGA trabalhava, discutindo assuntos correntes do Estado e recebendo relatórios acerca da cada atividade significativa do reino. Para evitar qualquer erosão do poder, respeito e autoridade entre seus chefes, NZINGA nunca os castigava em público,

somente em particular, assim como seu pai costumava fazer. Aqueles chefes que combatessem ao lado do inimigo eram atacados impiedosamente. Em sua luta, ela dividia as pessoas ou como amigas ou como inimigas. A estrutura burocrática era acessível, tanto aos homens quanto às mulheres. O sistema de justiça fundamentava-se nos serviços de autoridades (tipo advogados) que ouviam as queixas de seus clientes e as apresentavam à corte regional. Através de todas essas instituições, NZINGA exercia um estreito controle sobre a burocracia de Matamba.

Voltando de sua missão diplomática, a ainda princesa desperta a inveja do irmão e rival que, então, manifesta aos portugueses o desejo de ser também batizado. Só que os portugueses mandam até Mbaka um padre negro e outro mestiço o que desencadeia a fúria do Ngola Kiluange e faz recomeçarem as hostilidades. Mas Ngola morre envenenado – dizem que a mando de NZINGA. Então NZINGA se torna a rainha do Ndongo e de Matamba em 1623.

O reinado de NZINGA MBANDI se caracteriza por uma guerra quase sem tréguas contra o colonialismo português. E, assim, ela governa de Matamba, as terras do Jagas, seus aparentados.

Os portugueses procuram neutralizar seu poder. Em 1625 NZINGA monta seu quartel general na Ilha Ndangi, no Cuanza – local de grande importância pois era ali que estavam sepultados os grandes ancestrais dos Mbundus e era ali que os soberanos trocavam com eles e os espíritos da natureza a força vital que move os homens e o Universo, como os Bantos acreditam.

Em sua luta contra os portugueses, se torna uma grande estrategista, muda bases de operações. E em 1628 sofre sério revés, juntamente com outros chefes. Suas irmãs, Cambe e Fungi, são presas e enviadas para Luanda. Mas reconstitui o Reino de Matamba. Em 1630 formam-se duas coligações contra os portugueses.

Quando os holandeses resolvem conquistar Angola, por volta de 1637, para incrementar cada vez mais a importação de mão-de-obra escrava para que se pudesse tirar cada vez mais açúcar, já que à época o Reino de Angola era o grande manancial abastecedor dos engenhos brasileiros. Nesse período os holandeses estavam no nordeste brasileiro e lutavam contra os portugueses.

Em 1641, os holandeses dominam várias províncias em Angola. E aí, participando do momento histórico a

Rainha NZINGA, – que em 1635 formara uma coligação guerreira reunindo ao seu reino de Ndongo-Matamba, o Congo, os Estados Livres da Quissama, o de Cassanje e o dos Dembos,-se alia aos holandeses. Em 1647 o domínio da coligação é total. Então, parte do Rio de Janeiro o português Salvador Correia de Sá e Benevides, que em 1648, depois de encarniçados combates, vence a tríplice aliança em Massangano, expulsa os holandeses e inaugura o período de dominação brasileira em Angola. A partir daí, a burguesia lusitana do Brasil toma o lugar dos portugueses de Lisboa e o tráfico de escravos experimenta um terrível incremento.

Em 1657, a Rainha NZINGA, em seu retiro de Matamba, ainda assina um tratado de paz com os portugueses, para finalmente falecer seis anos depois, aos 81 anos de idade. E em 1671 o velho Ndongo recebe o nome de “Reino Português de Angola”. Mas a resistência continua por mais de trezentos anos, vindo até 1975, quando Angola afinal se torna independente, em uma das mais sangrentas guerras pela independência no Continente Africano.

Enquanto, isto no Brasil, os povos africanos trazidos como escravos resistiam de todos as formas a opressão, fugiam , organizavam quilombos. A luta do maior quilombo do Brasil, o de Palmares, neste período, século XVII, vivia em luta, até sucumbir em 1695, com o assassinato de seu grande líder ZUMBI, em 20 de novembro de 1695.

 

Fonte: Afro N’zinga

 

 

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Samba pras moças e pras modas e pra todo mundo

 

Certa feita, assisti – em algum lugar que não lembro onde (faz uns 20 anos) – uma entrevista de Zeca Pagodinho. Era época de lançamento de Samba Pras Moças, um marco na carreira do cantor e do samba/pagode de um modo geral. Este pequeno trecho que eu lembro, a pessoa que o entrevistava perguntou algo dando a entender que aquele seria o momento de grande ressurgimento de Zeca, depois de ter estourado na sequência do trabalho que o Fundo de Quintal já vinha pavimentando alguns anos antes. A resposta, simples, porém direta, de Pagodinho, foi que ele, na verdade, nunca esteve sumido ou por baixo, pois nunca deixou de fazer seus shows na mesma proporção.

 

Bem, lembrei disso porque a grande mídia tende a turvar os olhos de quem só acompanha a ela. Meio que aliena mesmo, essa é que é a verdade. Porque, repare, se você freqüenta uma boa roda de samba, legítima, músicas que nunca tocam nas rádios são lembradas com a mesma naturalidade que muita modinha fica na cabeça de seu público, não é? Pois bem, nem todos percebem isso e geram frases como ‘temos que tocar o que o pessoal conhece mais’ ou – pior – ‘temos que tocar as músicas da moda porque é isso que atrai público’. Na boa, caras? Tudo mentira, né? Desculpa de quem quer retorno comercial imediato e a cultura é o que menos conta. Por coisas assim, Almir Guineto já declarou, há algum tempo, que evitou lançar discos, pois já não agüentava mais imposições e/ou cobranças para regravar sempre os mesmos sucessos. Isso, pra um compositor do gabarito de Dona Fia, cadê Ioiô, deve ser como estar acorrentado na areia movediça. Um enterro em vida, mas estou divagando.

 

CD mais recente de Guineto (2012), com inéditas. 11 anos depois do anterior, repleto de, adivinha, regravações.

 

 

O caso é que a pergunta inicial, que lembrei, de Zeca e a postura de Almir, junto a essa conjuntura atual que engessa o samba/pagode (comercialmente falando) também produz derivativos como Arlindo Cruz, que grava até com Patati e Patatá, se isso for ampliar seu mercado (Rá!), dizer que o que vale é a música. Nada mais “#somostodoshumanos” que isso, não é? Não que seja pecado ou crime, um tubarão morde e a gente não pode culpá-lo por buscar saciar suas necessidades, mas a questão neste blog é cultural, sempre. Então, culturalmente falando, o Samba nunca morre, como diz o clássico de Nelson Sargento (foi epígrafe de meu TCC nos tempos de facul e ainda falo especificamente dela futuramente). O que acontece é aquela distração de alguns e malícia de outros em esconder bem escondido nos fundos de quintais nossa arte popular, enquanto vendem seu peixe. Tipo o camelô que te empurra (UIA!) um produtinho mais barato e imediato te convencendo que na loja é mais complicado, sacou?

 

Só que moda é algo cíclico, né, brÓder? Então, como a maré, as modas vêm, vão e voltam com alguns detalhes diferentes e ficam se revezando nessa punhetação ciranda ad finem temporum. Nesse meio tempo, entre uma estação de moda e outra, o que fica, sempre, é a cultura, seja Samba, Rock, Forró e até umas vertentes pop. Nesse momento, aquele vendedor sagaz faz o quê? Vende o bom e velho Samba com um sensacionalismo exemplar, fazendo parecer que ele ressurgiu das cinzas, na tática mais batida, pra promover uma novidade que não está lá (não pro seu público fiel). É o mercado transferindo o olhar da moda para a raiz, como se fosse moda, entendeu? Aí, anunciam a grande volta dos grandes nomes e vai um monte de gente que fala de samba e não sabe o que diz se achando bom entendedor.

 

 

A moda vai e vem, e cada vez que volta, vai se mesclando mais. Já falei aqui como o (mercadologicamente falando) pagode (pop) está com cara de sertanejo universitário, que está com cara de funk e todos eles têm a mesma letra, revezando apenas a ordem, não é? É só evidenciar mais o cavaco, a sanfona ou uma batida eletrônica pra você decidir em qual prateleira você vai buscar seu bem de consumo imediato. Só que o Samba não se mescla. Ou melhor, ele ‘antropofagiza’, absorve de maneira muito própria, o que é interessante (desde sempre, se não fosse isso, nem cavaco tinha no Samba) e é aí que o mercado se desespera, porque não dá pra modificar a cultura e vender na estante. Daí que eu tiro essa minha teoria de ‘morte-e-vida’ do Samba. Quem é, sabe, freqüenta, acompanha, conversa, então não sente nada disso de ‘o samba está sumindo, temos que correr para a modinha’.

 

Só não há mais lugares com Samba porque a cultura do consumismo imediato se apropriou das mentes alheias. Aí, fazem como meu querido Império Serrano, que substituiu uma roda de respeito por um pagodete da moda apenas por apelo ao público imediato, no volta como era antes Botequim do Império. Público esse que vai correr de lá para outro canto na primeira mudança da moda. Já pensou, se em breve a moda do funk ostentação se instala em tudo quanto é lugar? O que vão fazer? Bailes funk ostentação em quadra de escola de Samba? Pensem nisso, bacanas. Antigamente, um samba não dependia só de inspiração, mas de um algo mais, uma força maior que nos guia ao papel e caneta, cavaco, violão, etc. Agora, só de anunciar com ‘samba’ no nome, todo mundo faz roda de samba, feijoada, e isso ou aquilo de samba e tals… Cuidemos pra que o termo Samba não se torne banalizado e seqüestrado pelo mercado, como aconteceu com o pagode.

 

 

Enfim, assim como Zeca Pagodinho, também acho que o Samba nunca esteve por baixo, exemplo disso é que o próprio Zeca, no máximo, sofreu uma certa geladeira na mídia, por não ter aderido ao mela-cueca, que estava tomando de assalto o mercado (e viria a ser conhecido hoje como ‘pagode ‘90’), o que o fez ser jogado na prateleira das velharias, mesmo ainda sendo um trintão de jeito moleque. Rolou uma pendenga com a gravadora, término melancólico de contrato e transição para outra, mas com o paradoxo de não lembrar a anterior, sem perder o que já havia construído, depois falo mais sobre isso. É dessa época um clássico obscuro de sua carreira, Cabelo no Pão Careca (que eu adoro, ao contrário da maioria que eu conheço que nem sabe que música é essa, mas eu lembro, das fitinhas samba&pagode), mas estou divagando de novo.

 

Enfim, renegar a moda por uma decisão artística – ou até intuitiva, como no caso de Zeca – pode parecer uma tentativa de suicídio mercadológico, mas se não fosse o filho de seu Jessé bater o pé e bancar sua personalidade musical, ele poderia ter se tornado algo genérico, mudando a cada onda nova, em vez de ser O Zeca Pagodinho, um dos poucos artistas queridos de forma realmente massiva até por quem nem o conhece direito (algo que me ocorre, ser parecido com Ivete Sangalo, mas sei lá, só acho). Ele aceitou não dar um passo afobado e ganancioso e é tão bom que fornece sucesso pra quem orbita em seu quintal em Xerém (alô, Quintal do Pagodinho). Aliás, Rildo Hora foi nome muito importante na produção do já citado Samba pras Moças que conseguiu – aí, sim – retomar a grande mídia, mas sem apelar para a moda. Nessa época foi acontecendo o fenômeno que eu chamo de ‘caraca, e agora, com a gente chama isso?’, porque era pagode (o nome do cara é Pagodinho, pô), mas não era como o pagode que “eles” estavam vendendo. Dali começou um tal de ‘samba’, ‘samba de raiz’ (redundância, já que o legítimo Samba É de raiz), ‘pagode’, ‘pagode de raiz’, ‘pagode de estúdio’ (gente que nem frequenta um samba e se acha) e outras nomenclaturas de mercado.

 

 

É isso, a moda é foda, mas não tem que dominar mentes, por mais que queiram. Daqui a pouco passa, vem outra e o Samba tá aí. Megalomaníacos de microfone podem anunciar que o Samba tá por fora, ficou velho e ultrapassado, mas é ele quem sustenta esse vozerio pop todo. Desafie aos modinhas a fazerem R&B, pra ver se se sustentam? Não, eles bebem é do Samba. Então, respeite quem pode chegar onde o Samba chegou e nada de ficar matando nosso velho malandro porque ele tem corpo fechado e vigor pra mais de séculos, ok? Pode não ter holofote sempre, mas tem cavaco, tantã e companhia tocando o tempo todo. O Samba nunca para.

 

Nota do autor: Fiz tantas referências a letras de sambas famosos, que quem achar todas, me manda que eu dou um prêmio. Mentira, não tenho prêmio nenhum aqui, mas valeu pela leitura!

 

 

Axé!

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Top 10 – Sambas Afirmativos (Consciência Negra)

Não vou me delongar muito, aqui estão 10 sambas que me fazem arrepiar os cabelos do… braço (Rá!) ao menor sinal de seus acordes iniciais. E, numa data como essa (20 de novembro, oras!) elenquei, não exatamente em ordem de importância ou gosto, mas de citação a elementos diretamente ligados não ó à negritude apenas, mas a Zumbi e seus ideais. Vamos À lista:

10 – Preto cor preta

“Preto que é preto, ilumina porque é preto (…)

Preto que tem resolvida sua cor, não tem que se impor, nem que se curvar”

 

9 – Força, fé e raiz

“Ninguém nega que o negro é muita força, fé e raiz

Tem quem negue o negro quer, liberdade é o que sempre quis

Mas, nem sempre alcança, e não perde a esperança

Solta o corpo e balança, dança pra ser feliz”

 

8 – Identidade

“Quem cede a vez não quer vitória, Somos herança da memória

Temos a cor da noite, filhos de todo açoite

Fato real de nossa história”

 

7 – Dia de graça

“Negro, acorda, é hora de acordar

Não negro a raça, torne toda manhã dia de graça

Negro, não humilhe, nem se humilhe a ninguém

Todas as raças já foram escravas também”

 

6 – Canto das três raças

“Negro entoou um canto de revolta pelos ares

Do Quilombo dos Palmares

Onde se refugiou (…)”

 

5 – Amor, são 300 anos

(Essa, não tem no Youtube, então CLIQUE AQUI e confira a faixa no CD online)

“Amor, são 300 anos, aqui continua a luta

Mas vejo por parte dos manos, valor por melhor conduta (…)

E quem quiser entender, melhor com um livro na mão

Pois sei que só com o saber a gente terá razão”

 

4 – Nosso nome resistência

“Palmares, Balaios, Malês, Alfaiates, fugas, guerrilhas, combates

Mão na cara, dedo em riste

Teatros, fundos de quintal, candomblés, blocos, jongos, afoxés

Assim também se resiste”

 

3 – Heróis da liberdade

“Já raiou a liberdade, a liberdade já raiou

Essa brisa que a juventude afaga, essa chama que o ódio não apaga

Pelo universo é a evolução em sua legítima razão”

 

2 – Kizomba, a festa da raça

“Ô, ô, nega Mina, Anastácia não se deixou escravizar

Ô, ô, Clementina, o pagode é o partido popular (…)

Vem a lua de Luanda para iluminar a rua

Nossa sede é nossa sede de que o apartheid se destrua”

 

1 – A Epopeia de Zumbi

Na versão do disco Canto Banto, ela tem uma introdução linda, onde se diz: “Alagoas, Pernambuco, século XVI, sob as asas azuis da liberdade, nascia o primeiro estado livre do Brasil”. A canção (como todas, em algum momento, já foi mostrada aqui mesmo no blog) conta a história de Palmares (o primeiro estado livre do Brasil) desde a criação até seu significado para a luta contra a opressão do racismo.

“(…) Ciente de que nenhum negro ia ser rei

Enquanto houvesse uma senzala

Ao invés de receber a liberdade

Zumbi preferiu conquistá-la (…)”

 

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Protesto: Império Serrano troca Samba de raiz por pagodete pop por dinheiro

Botequim, pra mim, é esse. Não um palco fake e som pasteurizado.

Não é por ter proximidade com a família (Silas) de Oliveira que admiro o Império Serrano. É por sua história (e porque imperiana Senhora Sagatiba mandou, rs, brincadeira! É sério). Uma história rica em compositores, composições e inovações, além da ligação visceral com a própria cultura negra, como é o caso do Jongo. As raízes do Samba, no Império, são muito diversificadas e isso me apetece. Aí, vindo da empolgação do último Botequim do Império que fomos (27 de setembro, eu sempre me lembro), já estava todo emperequetado para curtir o sabadão (8 de novembro) no Botequim, inclusive comemorando aniversário dentro da família Oliveira.

 

Amizade, chegamos na porta da escola e vimos que no lugar de mesas com músicos em volta formando a roda, havia um mini palco (desses estreitos e baixos com duas vigas cromadas nas laterais) e um grupo de jovens, talvez pouco mais de adolescentes, cantando, literalmente, um ‘tchubidatchubidada’. Amigos, tem que ser homem pra admitir: Broxei. Estava desértico, uma parte muito pequena da quadra, próximo à entrada era ocupada por mais mesas do que gente. Iluminação tosca e som esquisito. Na boa, me senti naqueles bares de muito pouca infra-estrutura, onde você não diferencia um músico de um bêbado de festa e um tantã de um prato caindo no chão. Fiquei mals.

Grupo Alta Pressão, do novo Botequim do Império. Nem lembro de seus rostos, não consegui entrar. Nada contra o grupo, mas o estilo não me atrai.

Olhei pra cara de minha senhora, ela olhou pra mim e disse “mas que m… é essa?”, ela não falava do grupo, ela falava da total transformação que o Botequim sofrera. Comparei nossa situação à de uma criança convidada a uma lanchonete fast food, recebe um prato de verduras e legumes. Tudo bem, sabíamos, por comunicado da página oficial, que  já não seria o grupo formado por Junior d’Oliveira, Luciano Bom Cabelo e outros talentos, mas daí a pagodete? Respeito os músicos que estavam ali na substituição, mas é inegável que eles precisam ser citados, não culpo um tubarão por morder, não vou culpar um músico por querer abrir seu espaço. Mas que não tem nada a ver, não tem nada a ver. Pensem comigo: É o Império Serrano, a escola de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Aniceto, Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz (tudo bem, o Arlindo flerta bastante com o mela-cueca, mas não é isso)… então, amizade, não tem como aceitar numa boa essa situação sem um protesto franco, direto e aberto.

A atual diretoria não respeita a história da escola e, o agravante, não entende muito de negócios (ou tendenciosamente já estava direcionada a fazer tal mudança). Não entende de negócios de entretenimento. Locais como Cacique de Ramos, Tia Doca, Terreiro de Crioulo e outros, simplesmente lotam em dias e noites de evento. E são raiz. Porque, raios, a quadra do Império Serrano, localizada num dos lugares mais frequentados da cidade, precisaria apelar para o pagode lelek de olho em faturamento? Dizer que o repertório de sambas clássicos é ultrapassado é coisa de menino de 13 anos assistindo ao Esquenta. Muito, mas muito chateado mesmo com essa atitude.

 

Senti-me tão ofendido com essa nova proposta que levei a dama até o outro lado de Madureira pra gente beber umas assistindo DVD do Quintal do Zeca, na Praça do Patriarca. Foi mais jogo… até que choveu, afinal, noite de diversão que começa daquele jeito, só podia terminar em chuva. Mas isso é poético, é o choro do próprio Samba diante do novo Botequim do Império. Ironicamente, em outubro, Rachel Valença, vice-presidente da escola, falou, em sua coluna no SDRZ (site do Sidney Razende), que não sabe porque o antigo Botequim (anterior ao que acaba de ser usurpado) acabou, ainda afirma que o Império parece não saber lidar com coisas que dão certo. Acho que é isso, Rachel. Não precisamos mais buscar explicações demais, é isso mesmo. Aliás, Rachel fala tão bonito sobre o verdadeiro espírito do Botequim do Império, que vale a pena ler o texto com bastante atenção, depois daqui, lógico (Rá!), pra se ter ideia do que estou falando e de minha decepção com os novos rumos (não por serem novos, mas deturpados).

Você consegue imaginar Tia Maria do Jongo cantando pagodete? Realiza Ivan Milanez, da velha guarda da escola, fazendo passinho lelek? Pois é, o evento não só afasta agora o público do samba, como baluartes dali.

Vi que hoje saiu um texto de Daniel Brunet, na coluna de Ancelmo Gois (ancelmo.com) dando essa informação e mostrando um manifesto de um integrante de um grupo imperiano no Facebook.

 

Acho que essa iniciativa parece demonstrar um certo desvio de objetivos de uma escola tão tradicional. Parece a G.R.E.S. Tradição, que cai vertiginosamente todo ano no carnaval, mas se descobriu uma casa de shows lucrativa com o som da moda. Parece uma atitude de fazer dinheiro e o resto não importa. Sei lá se ainda estou em choque com os rapazes de colete estilo guarda-costeira e pinta de boy band com os quais me deparei ou se é uma legítima especulação, mas fico muito pessimista quando não enxergam o valor cultural e comercial do Samba. Cito de novo os famosos Cacique de Ramos e Tia Doca pra mostrar que Samba sem poluição tem lugar sim, não é porque não aparece nos meios de comunicação interesseiros em vender suas produções próprias industrializadas que a arte perde espaço. Na boa, caras, parece aquela piadinha ‘não sou bom em história, são coisas de quando eu não tinha nascido’. Arlindo Cruz, você disse, no DVD Batuques do Meu Lugar ‘nossa maior alegria será quando retomarmos as glórias de antigos carnavais’. Nego, com essa visão que deram sobre o Botequim, tá muito longe disso. Lamento. Agora, fique com o bom do Império Serrano cultural de verdade.

 

Todo Botequim se encerrava assim. Uma mistura de hino com cântico religioso. Isso é a alma, a raiz do samba em foco.

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Para além das estrelas: Éfson

O cantor e compositor Éfson morreu, hoje, aos 69 anos, vítima de uma infecção pulmonar. Ele estava internado há 11 dias no CTI do Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, tratando pneumonia. Éfson é o nome artístico de Edison Ferreira, autor de sambas famosos e figura sempre presente nas rodas do Rio.

É autor, por exemplo, do samba “Brilha pra mim”, em parceria com Odibar, que virou sucesso na voz de Jorge Aragão, a partir de 1988.

Éfson fazia parte do Quintal do Pagodinho, o grupo de compositores de Zeca Pagodinho. Ao longo da carreira, o grande cantor do nosso samba gravou algumas músicas de Éfson e seus parceiros, como “Hoje é dia de festa”, “Cabloca Jurema” (c/ Nei Lopes) e “Quem passa vai parar” (c/ Carlito Cavalcanti e Marquinhos PQD).

No último DVD do Quintal do Pagodinho, lançado em 2012, Éfson participa cantando “Hoje é dia de festa” e “Firme e forte”. Arlindo Cruz e Beth Carvalho também gravaram alguns sambas de Éfson.

O bamba era frequentador assíduo do Samba do Trabalhador, no Renascença Clube, no Andaraí. A exemplo de outros sambistas que cresceram nas redondezas do clube, Éfson se sentia em casa quando cantava no quintal do Rena. As canjas dele eram sempre animadas e adoradas pelo público. Ele foi, de fato, um personagem do samba, cheio de performances.

Éfson, além de simpatia, demonstrava muita energia quando encarava o microfone. Foram muitas as vezes em que, no auge de uma apresentação no Rena, ele subiu na cadeira para chamar ainda mais atenção e levar a galera ao delírio.

Não à toa, Éfson participou da gravação dos dois CDS e DVDs do Samba do Trabalhador. No primeiro, de 2005, ele cantou “Brilha pra mim’. No segundo, de 2013, “Quem pensou?” (c/ Pedro Lopes). Além dele, só Toninho Gerais conseguiu o mesmo.

Éfson faleceu cerca de 40 dias antes de completar 70 anos. A celebração da data era muito aguardada por familiares, amigos e pelo “povo do samba”, como o próprio chamava seus seguidores das redes sociais. Ficou no sonho, na memória e já deixa saudade. Mas é como diz a letra de seu mais belo samba: “sonho bonito não tem fim”.

Agora, um momento “Efson” pra lembrarmos sempre de sua irreverência e talento:

 

Fonte: Movimento Cultural Roda de Samba do Barão “O Legítimo”

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Vitrola de Ficha – Antonico (Ismael Silva)

Ismael Silva.

Entre as décadas de 1950 e 1960, Ismael Silva vivia um momento complicado. Antes, uma ambientação. Ismael já havia entrado para a história de nossa cultura como um dos nomes à frente da Deixa Falar (falo nisso futuramente) e da conseqüente contribuição sonora/rítmica ao Samba, tendo trazido, junto à famosa turma do Estácio, surdos, cuícas e tamborins para os desfiles, até então, amaxixados. O famoso – palavras dele – bumbumpaticumbumprungurundum de nosso samba batucado.

Fez parcerias importantes como Se Você Jurar e Nem É Bom Falar (com Nilton Bastos) e Adeus e Para Me Livrar do Mal (com Noel Rosa), além de ter tido uma espécie de sociedade com o cantor e ‘compRositor’ Fracisco Alves (famoso por gravar as composições, desde que os verdadeiros compositores o incluíssem como parceiro – manobra muito comum da época e de hoje – Rrrratinho-nho-nho!). Enfim, Chico Viola era um vendedor de discos frenético e pareceu-lhe interessante aceitar o trato.

Francisco Alves, o compRositor que chamava Ismael de ‘preto de alma branca’ em seus shows, para agravar sua exploração da obra do bamba do Estácio.

Bem, acontece que Ismael se envolveu numa confusão. A versão mais recorrente é que um malandro chamado Edu Motorneiro mexeu com sua irmã, Orestina e o bamba do Estácio largou chumbo quente na traseira do valentão. Isso gerou uma etapa na prisão, ele foi condenado a 5 anos, mas cumpriu 3, saindo em 1938 por bom comportamento. Ismael saiu e sumiu. Ficou, talvez, envergonhado de encarar a sociedade de novo, já havia perdido o amigo Nilton Bastos (tuberculose, aos 31 anos, foto abaixo à esq.) e, enquanto esteve preso, foi a vez de Noel (tuberculose, aos 26, foto abaixo à dir.) partir para as estrelas. Ficou sem trabalhos, parcerias e seguiu quase que no anonimato.

Pois bem, em 1954, Alcides Gerardi gravou uma composição de Ismael: Antonico. Nela, o autor pede ao Antonico do título uma intervenção pra um tal de Nestor, que estava em dificuldades, mas, apesar de todo talento como sambista, não estava se dando muito bem em seu metiê. Há quem diga que a letra é autobiográfica, fato nunca confirmado por Ismael. Minha opinião? “Faça por ele como se fosse por mim”. Daí, tanto Antonico, quanto Nestor quanto Ismael, todos foram alavancados ao sucesso novamente.

Alcides Gerardi.

 

A grande curiosidade é que deu certo. Ismael ressurgiu das próprias cinzas com a gravação de Antonico e o momento que viria a seguir fora muito propício. Viria, na década seguinte, o movimento de contracultura pela revalorização do Samba, onde, além de Ismael, também despontariam pra um público mais abrangente Nelson Sargento, Cartola, Clementina, etc… Mas isso é outra história.

 

Inté e Axé!

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O sambista que brilha no cotidiano

Houve um tempo em que, como todo jovem (UIA!) tive aquele devaneio infanto nerd músico juvenil de alçar-me ao estrelado e levar minha música a todos os lugares. Imaginava a galera vibrando, eu lá, sob holofotes (a única hora que não sou um constrangido tímido e cara de pau: músico modo ON) e todo aquele quais-quais-quais tchubiruba. Mas, pra encurtar a história, com o tempo, fui percebendo que muita coisa podia passar, só não podia deixar de ser músico. Digo, desde aquela adolescência sonhadora até a realidade de hoje, muita coisa mudou. Cheguei a desencanar de ser músico e desfiz de vários instrumentos, mantive só o banjo e meu velho violão mais velho que eu, “presente” de mamãe que desistiu das aulas.

 

E porque to contando essa lenga-lenga? Por causa de alguns fatores que – JURO – vão se interligar ali na frente. Acontece que quando fiz parte do grupo Fidalguia, o projeto sempre foi cultural, a valorização do Samba enquanto cultura contando sua própria história. O pai de um de nossos colegas de grupo assistiu a um ensaio e elogiou bastante, chegando a dizer ‘Já vi um garoto jogar mais que Pelé, mas não teve a mesma projeção’. O que ele quis dizer com isso? Ele mesmo explicou, pois, talento pode não te levar ao topo do universo, mas se você tem um dom, tem um talento, que tenha também um bom uso pra isso. E é aí que a coisa começa a fazer sentido.

Grupo Fidalguia. Novembro de 2013.

 

O ano era lá para 2008 e tive um colega de trabalho que me chamou à atenção por ser o único daquelas poucas dezenas de pessoas que falava em Samba. Colei logo com o cara e conheci alguns pagodes na vida que lembro até hoje. Seu nome, Marcelo José Adão, mais conhecido como Marcelo Negrão. Na época, eu era um estudante de jornalismo começando a conhecer a história do samba em minhas pesquisas acadêmicas (de onde surgiria este blog) e, como avaliação semestral, tive por tarefa buscar alguém para entrevistar que não fosse lugar-comum (tipo parente, amigo e essas pautas confortáveis de se achar). Apesar de já ter estabelecido um convívio social com Negrão, fiquei num dilema, pois, ali eu tinha visto um assunto muito interessante, mas fiquei cabreiro de a professora não dar muito valor. Mas eu sou teimoso e confiei no meu faro e na força das minhas idéias.

Marcelo Negrão. 

 

Entrevistei-o, pois confiei no assunto abordado: O músico do dia-a-dia, suas convicções para estar lá mantendo sua carreira, seu glamour artístico e… “vambora que tem que acordar cedo pra trabalhar amanhã”. Tipo, ser músico e ganhar com isso é normal, mas a mídia influencia demais o público que acaba achando que só Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho são artistas que deram certo, saca? Se você não vira milionário e adorado na TV e nas rádios, seu trabalho não tem tanta graça assim. Pois bem, conversamos, resultou num trabalho muito bem avaliado e se eu encontrar aqui entre meus guardados eu publico, mas temo que tenha ficado em algum HD re-formatado daqueles tempos.

Grupo Jaqueira: Lu, a única flor no meio do monte de cravos. (risos).

 

A tônica da conversa foi toda essa, a ‘moda’ de muita gente achar que é sambista de olho no público fiel que agrega, a realidade de trabalhar se divertindo, mas complementando renda com emprego regular pra não ser engolido pelas contas, as modificações comerciais no som do Samba nas gravadoras e um pouco mais. Essa conversa – depois reparei, cavucando na memória – teve muito a ver com uma que tive recentemente com Luzinete ‘Lu’ Fogaça, cantora, passista, rainha de bateria, etc, etc… O papo fluiu por esse lado também, veja só, anos depois. A Lu – que já participou do concurso-reality Ídolos em 2010, eu conheci na Feira das Yabás, eu lá na platéia bebericando e ela cantando junto ao grupo Jaqueira, há coisa de dois anos, acho. Pelo Facebook, nos falamos e eu perguntei sobre o Samba em sua vida. Ela me vem com:

O samba abastece minha alegria. Amo melancolia… Amo sua fuga de cantar… Transmitindo alegria.”

Fez idéia? Pois é. Então, aí – não antes, nem depois de aí – eu pergunto sobre sua profissão na área da estética e ela manda, taxativa: “A estética é trabalho, a música, missão”. Pronto, né? Cabô, meu pai, cabô e até amanhã, gente. Rá! Isso me fez lembrar aquela bela canção de Milton Nascimento ‘Nos Bailes da Vida’, de onde o cantor e compositor acerta em cheio essa vida de artista apaixonado pela arte:

 

Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão 

Todo artista tem de ir aonde o povo está 

Se foi assim, assim será 

Cantando me desfaço e não me canso de viver 

Nem de cantar

Depois disso, só pra arrematar, prefiro o meu pagode pulsando forte no fundo do quintal do que mil holofotes na cara, mas sem a cultura do samba na veia, na cabeça, na garganta e na ponta da palheta. Palmas aos artistas do dia-a-dia, porque muita gente tem mídia, mas não tem chão, saca? Esses artistas lapidados no próprio trabalho é que dão paixão ao Samba. Samba não é coisa que se construa sem ter o quê do Samba na veia. Sei lá, acho que nasce contigo. Raiz que é raiz vem do chão. Rá!²

 

Inté e axé!

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