Top 10 – Sambas Afirmativos (Consciência Negra)

Não vou me delongar muito, aqui estão 10 sambas que me fazem arrepiar os cabelos do… braço (Rá!) ao menor sinal de seus acordes iniciais. E, numa data como essa (20 de novembro, oras!) elenquei, não exatamente em ordem de importância ou gosto, mas de citação a elementos diretamente ligados não ó à negritude apenas, mas a Zumbi e seus ideais. Vamos À lista:

10 – Preto cor preta

“Preto que é preto, ilumina porque é preto (…)

Preto que tem resolvida sua cor, não tem que se impor, nem que se curvar”

 

9 – Força, fé e raiz

“Ninguém nega que o negro é muita força, fé e raiz

Tem quem negue o negro quer, liberdade é o que sempre quis

Mas, nem sempre alcança, e não perde a esperança

Solta o corpo e balança, dança pra ser feliz”

 

8 – Identidade

“Quem cede a vez não quer vitória, Somos herança da memória

Temos a cor da noite, filhos de todo açoite

Fato real de nossa história”

 

7 – Dia de graça

“Negro, acorda, é hora de acordar

Não negro a raça, torne toda manhã dia de graça

Negro, não humilhe, nem se humilhe a ninguém

Todas as raças já foram escravas também”

 

6 – Canto das três raças

“Negro entoou um canto de revolta pelos ares

Do Quilombo dos Palmares

Onde se refugiou (…)”

 

5 – Amor, são 300 anos

(Essa, não tem no Youtube, então CLIQUE AQUI e confira a faixa no CD online)

“Amor, são 300 anos, aqui continua a luta

Mas vejo por parte dos manos, valor por melhor conduta (…)

E quem quiser entender, melhor com um livro na mão

Pois sei que só com o saber a gente terá razão”

 

4 – Nosso nome resistência

“Palmares, Balaios, Malês, Alfaiates, fugas, guerrilhas, combates

Mão na cara, dedo em riste

Teatros, fundos de quintal, candomblés, blocos, jongos, afoxés

Assim também se resiste”

 

3 – Heróis da liberdade

“Já raiou a liberdade, a liberdade já raiou

Essa brisa que a juventude afaga, essa chama que o ódio não apaga

Pelo universo é a evolução em sua legítima razão”

 

2 – Kizomba, a festa da raça

“Ô, ô, nega Mina, Anastácia não se deixou escravizar

Ô, ô, Clementina, o pagode é o partido popular (…)

Vem a lua de Luanda para iluminar a rua

Nossa sede é nossa sede de que o apartheid se destrua”

 

1 – A Epopeia de Zumbi

Na versão do disco Canto Banto, ela tem uma introdução linda, onde se diz: “Alagoas, Pernambuco, século XVI, sob as asas azuis da liberdade, nascia o primeiro estado livre do Brasil”. A canção (como todas, em algum momento, já foi mostrada aqui mesmo no blog) conta a história de Palmares (o primeiro estado livre do Brasil) desde a criação até seu significado para a luta contra a opressão do racismo.

“(…) Ciente de que nenhum negro ia ser rei

Enquanto houvesse uma senzala

Ao invés de receber a liberdade

Zumbi preferiu conquistá-la (…)”

 

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Protesto: Império Serrano troca Samba de raiz por pagodete pop por dinheiro

Botequim, pra mim, é esse. Não um palco fake e som pasteurizado.

Não é por ter proximidade com a família (Silas) de Oliveira que admiro o Império Serrano. É por sua história (e porque imperiana Senhora Sagatiba mandou, rs, brincadeira! É sério). Uma história rica em compositores, composições e inovações, além da ligação visceral com a própria cultura negra, como é o caso do Jongo. As raízes do Samba, no Império, são muito diversificadas e isso me apetece. Aí, vindo da empolgação do último Botequim do Império que fomos (27 de setembro, eu sempre me lembro), já estava todo emperequetado para curtir o sabadão (8 de novembro) no Botequim, inclusive comemorando aniversário dentro da família Oliveira.

 

Amizade, chegamos na porta da escola e vimos que no lugar de mesas com músicos em volta formando a roda, havia um mini palco (desses estreitos e baixos com duas vigas cromadas nas laterais) e um grupo de jovens, talvez pouco mais de adolescentes, cantando, literalmente, um ‘tchubidatchubidada’. Amigos, tem que ser homem pra admitir: Broxei. Estava desértico, uma parte muito pequena da quadra, próximo à entrada era ocupada por mais mesas do que gente. Iluminação tosca e som esquisito. Na boa, me senti naqueles bares de muito pouca infra-estrutura, onde você não diferencia um músico de um bêbado de festa e um tantã de um prato caindo no chão. Fiquei mals.

Grupo Alta Pressão, do novo Botequim do Império. Nem lembro de seus rostos, não consegui entrar. Nada contra o grupo, mas o estilo não me atrai.

Olhei pra cara de minha senhora, ela olhou pra mim e disse “mas que m… é essa?”, ela não falava do grupo, ela falava da total transformação que o Botequim sofrera. Comparei nossa situação à de uma criança convidada a uma lanchonete fast food, recebe um prato de verduras e legumes. Tudo bem, sabíamos, por comunicado da página oficial, que  já não seria o grupo formado por Junior d’Oliveira, Luciano Bom Cabelo e outros talentos, mas daí a pagodete? Respeito os músicos que estavam ali na substituição, mas é inegável que eles precisam ser citados, não culpo um tubarão por morder, não vou culpar um músico por querer abrir seu espaço. Mas que não tem nada a ver, não tem nada a ver. Pensem comigo: É o Império Serrano, a escola de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara, Aniceto, Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz (tudo bem, o Arlindo flerta bastante com o mela-cueca, mas não é isso)… então, amizade, não tem como aceitar numa boa essa situação sem um protesto franco, direto e aberto.

A atual diretoria não respeita a história da escola e, o agravante, não entende muito de negócios (ou tendenciosamente já estava direcionada a fazer tal mudança). Não entende de negócios de entretenimento. Locais como Cacique de Ramos, Tia Doca, Terreiro de Crioulo e outros, simplesmente lotam em dias e noites de evento. E são raiz. Porque, raios, a quadra do Império Serrano, localizada num dos lugares mais frequentados da cidade, precisaria apelar para o pagode lelek de olho em faturamento? Dizer que o repertório de sambas clássicos é ultrapassado é coisa de menino de 13 anos assistindo ao Esquenta. Muito, mas muito chateado mesmo com essa atitude.

 

Senti-me tão ofendido com essa nova proposta que levei a dama até o outro lado de Madureira pra gente beber umas assistindo DVD do Quintal do Zeca, na Praça do Patriarca. Foi mais jogo… até que choveu, afinal, noite de diversão que começa daquele jeito, só podia terminar em chuva. Mas isso é poético, é o choro do próprio Samba diante do novo Botequim do Império. Ironicamente, em outubro, Rachel Valença, vice-presidente da escola, falou, em sua coluna no SDRZ (site do Sidney Razende), que não sabe porque o antigo Botequim (anterior ao que acaba de ser usurpado) acabou, ainda afirma que o Império parece não saber lidar com coisas que dão certo. Acho que é isso, Rachel. Não precisamos mais buscar explicações demais, é isso mesmo. Aliás, Rachel fala tão bonito sobre o verdadeiro espírito do Botequim do Império, que vale a pena ler o texto com bastante atenção, depois daqui, lógico (Rá!), pra se ter ideia do que estou falando e de minha decepção com os novos rumos (não por serem novos, mas deturpados).

Você consegue imaginar Tia Maria do Jongo cantando pagodete? Realiza Ivan Milanez, da velha guarda da escola, fazendo passinho lelek? Pois é, o evento não só afasta agora o público do samba, como baluartes dali.

Vi que hoje saiu um texto de Daniel Brunet, na coluna de Ancelmo Gois (ancelmo.com) dando essa informação e mostrando um manifesto de um integrante de um grupo imperiano no Facebook.

 

Acho que essa iniciativa parece demonstrar um certo desvio de objetivos de uma escola tão tradicional. Parece a G.R.E.S. Tradição, que cai vertiginosamente todo ano no carnaval, mas se descobriu uma casa de shows lucrativa com o som da moda. Parece uma atitude de fazer dinheiro e o resto não importa. Sei lá se ainda estou em choque com os rapazes de colete estilo guarda-costeira e pinta de boy band com os quais me deparei ou se é uma legítima especulação, mas fico muito pessimista quando não enxergam o valor cultural e comercial do Samba. Cito de novo os famosos Cacique de Ramos e Tia Doca pra mostrar que Samba sem poluição tem lugar sim, não é porque não aparece nos meios de comunicação interesseiros em vender suas produções próprias industrializadas que a arte perde espaço. Na boa, caras, parece aquela piadinha ‘não sou bom em história, são coisas de quando eu não tinha nascido’. Arlindo Cruz, você disse, no DVD Batuques do Meu Lugar ‘nossa maior alegria será quando retomarmos as glórias de antigos carnavais’. Nego, com essa visão que deram sobre o Botequim, tá muito longe disso. Lamento. Agora, fique com o bom do Império Serrano cultural de verdade.

 

Todo Botequim se encerrava assim. Uma mistura de hino com cântico religioso. Isso é a alma, a raiz do samba em foco.

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Para além das estrelas: Éfson

O cantor e compositor Éfson morreu, hoje, aos 69 anos, vítima de uma infecção pulmonar. Ele estava internado há 11 dias no CTI do Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, tratando pneumonia. Éfson é o nome artístico de Edison Ferreira, autor de sambas famosos e figura sempre presente nas rodas do Rio.

É autor, por exemplo, do samba “Brilha pra mim”, em parceria com Odibar, que virou sucesso na voz de Jorge Aragão, a partir de 1988.

Éfson fazia parte do Quintal do Pagodinho, o grupo de compositores de Zeca Pagodinho. Ao longo da carreira, o grande cantor do nosso samba gravou algumas músicas de Éfson e seus parceiros, como “Hoje é dia de festa”, “Cabloca Jurema” (c/ Nei Lopes) e “Quem passa vai parar” (c/ Carlito Cavalcanti e Marquinhos PQD).

No último DVD do Quintal do Pagodinho, lançado em 2012, Éfson participa cantando “Hoje é dia de festa” e “Firme e forte”. Arlindo Cruz e Beth Carvalho também gravaram alguns sambas de Éfson.

O bamba era frequentador assíduo do Samba do Trabalhador, no Renascença Clube, no Andaraí. A exemplo de outros sambistas que cresceram nas redondezas do clube, Éfson se sentia em casa quando cantava no quintal do Rena. As canjas dele eram sempre animadas e adoradas pelo público. Ele foi, de fato, um personagem do samba, cheio de performances.

Éfson, além de simpatia, demonstrava muita energia quando encarava o microfone. Foram muitas as vezes em que, no auge de uma apresentação no Rena, ele subiu na cadeira para chamar ainda mais atenção e levar a galera ao delírio.

Não à toa, Éfson participou da gravação dos dois CDS e DVDs do Samba do Trabalhador. No primeiro, de 2005, ele cantou “Brilha pra mim’. No segundo, de 2013, “Quem pensou?” (c/ Pedro Lopes). Além dele, só Toninho Gerais conseguiu o mesmo.

Éfson faleceu cerca de 40 dias antes de completar 70 anos. A celebração da data era muito aguardada por familiares, amigos e pelo “povo do samba”, como o próprio chamava seus seguidores das redes sociais. Ficou no sonho, na memória e já deixa saudade. Mas é como diz a letra de seu mais belo samba: “sonho bonito não tem fim”.

Agora, um momento “Efson” pra lembrarmos sempre de sua irreverência e talento:

 

Fonte: Movimento Cultural Roda de Samba do Barão “O Legítimo”

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Vitrola de Ficha – Antonico (Ismael Silva)

Ismael Silva.

Entre as décadas de 1950 e 1960, Ismael Silva vivia um momento complicado. Antes, uma ambientação. Ismael já havia entrado para a história de nossa cultura como um dos nomes à frente da Deixa Falar (falo nisso futuramente) e da conseqüente contribuição sonora/rítmica ao Samba, tendo trazido, junto à famosa turma do Estácio, surdos, cuícas e tamborins para os desfiles, até então, amaxixados. O famoso – palavras dele – bumbumpaticumbumprungurundum de nosso samba batucado.

Fez parcerias importantes como Se Você Jurar e Nem É Bom Falar (com Nilton Bastos) e Adeus e Para Me Livrar do Mal (com Noel Rosa), além de ter tido uma espécie de sociedade com o cantor e ‘compRositor’ Fracisco Alves (famoso por gravar as composições, desde que os verdadeiros compositores o incluíssem como parceiro – manobra muito comum da época e de hoje – Rrrratinho-nho-nho!). Enfim, Chico Viola era um vendedor de discos frenético e pareceu-lhe interessante aceitar o trato.

Francisco Alves, o compRositor que chamava Ismael de ‘preto de alma branca’ em seus shows, para agravar sua exploração da obra do bamba do Estácio.

Bem, acontece que Ismael se envolveu numa confusão. A versão mais recorrente é que um malandro chamado Edu Motorneiro mexeu com sua irmã, Orestina e o bamba do Estácio largou chumbo quente na traseira do valentão. Isso gerou uma etapa na prisão, ele foi condenado a 5 anos, mas cumpriu 3, saindo em 1938 por bom comportamento. Ismael saiu e sumiu. Ficou, talvez, envergonhado de encarar a sociedade de novo, já havia perdido o amigo Nilton Bastos (tuberculose, aos 31 anos, foto abaixo à esq.) e, enquanto esteve preso, foi a vez de Noel (tuberculose, aos 26, foto abaixo à dir.) partir para as estrelas. Ficou sem trabalhos, parcerias e seguiu quase que no anonimato.

Pois bem, em 1954, Alcides Gerardi gravou uma composição de Ismael: Antonico. Nela, o autor pede ao Antonico do título uma intervenção pra um tal de Nestor, que estava em dificuldades, mas, apesar de todo talento como sambista, não estava se dando muito bem em seu metiê. Há quem diga que a letra é autobiográfica, fato nunca confirmado por Ismael. Minha opinião? “Faça por ele como se fosse por mim”. Daí, tanto Antonico, quanto Nestor quanto Ismael, todos foram alavancados ao sucesso novamente.

Alcides Gerardi.

 

A grande curiosidade é que deu certo. Ismael ressurgiu das próprias cinzas com a gravação de Antonico e o momento que viria a seguir fora muito propício. Viria, na década seguinte, o movimento de contracultura pela revalorização do Samba, onde, além de Ismael, também despontariam pra um público mais abrangente Nelson Sargento, Cartola, Clementina, etc… Mas isso é outra história.

 

Inté e Axé!

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O sambista que brilha no cotidiano

Houve um tempo em que, como todo jovem (UIA!) tive aquele devaneio infanto nerd músico juvenil de alçar-me ao estrelado e levar minha música a todos os lugares. Imaginava a galera vibrando, eu lá, sob holofotes (a única hora que não sou um constrangido tímido e cara de pau: músico modo ON) e todo aquele quais-quais-quais tchubiruba. Mas, pra encurtar a história, com o tempo, fui percebendo que muita coisa podia passar, só não podia deixar de ser músico. Digo, desde aquela adolescência sonhadora até a realidade de hoje, muita coisa mudou. Cheguei a desencanar de ser músico e desfiz de vários instrumentos, mantive só o banjo e meu velho violão mais velho que eu, “presente” de mamãe que desistiu das aulas.

 

E porque to contando essa lenga-lenga? Por causa de alguns fatores que – JURO – vão se interligar ali na frente. Acontece que quando fiz parte do grupo Fidalguia, o projeto sempre foi cultural, a valorização do Samba enquanto cultura contando sua própria história. O pai de um de nossos colegas de grupo assistiu a um ensaio e elogiou bastante, chegando a dizer ‘Já vi um garoto jogar mais que Pelé, mas não teve a mesma projeção’. O que ele quis dizer com isso? Ele mesmo explicou, pois, talento pode não te levar ao topo do universo, mas se você tem um dom, tem um talento, que tenha também um bom uso pra isso. E é aí que a coisa começa a fazer sentido.

Grupo Fidalguia. Novembro de 2013.

 

O ano era lá para 2008 e tive um colega de trabalho que me chamou à atenção por ser o único daquelas poucas dezenas de pessoas que falava em Samba. Colei logo com o cara e conheci alguns pagodes na vida que lembro até hoje. Seu nome, Marcelo José Adão, mais conhecido como Marcelo Negrão. Na época, eu era um estudante de jornalismo começando a conhecer a história do samba em minhas pesquisas acadêmicas (de onde surgiria este blog) e, como avaliação semestral, tive por tarefa buscar alguém para entrevistar que não fosse lugar-comum (tipo parente, amigo e essas pautas confortáveis de se achar). Apesar de já ter estabelecido um convívio social com Negrão, fiquei num dilema, pois, ali eu tinha visto um assunto muito interessante, mas fiquei cabreiro de a professora não dar muito valor. Mas eu sou teimoso e confiei no meu faro e na força das minhas idéias.

Marcelo Negrão. 

 

Entrevistei-o, pois confiei no assunto abordado: O músico do dia-a-dia, suas convicções para estar lá mantendo sua carreira, seu glamour artístico e… “vambora que tem que acordar cedo pra trabalhar amanhã”. Tipo, ser músico e ganhar com isso é normal, mas a mídia influencia demais o público que acaba achando que só Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho são artistas que deram certo, saca? Se você não vira milionário e adorado na TV e nas rádios, seu trabalho não tem tanta graça assim. Pois bem, conversamos, resultou num trabalho muito bem avaliado e se eu encontrar aqui entre meus guardados eu publico, mas temo que tenha ficado em algum HD re-formatado daqueles tempos.

Grupo Jaqueira: Lu, a única flor no meio do monte de cravos. (risos).

 

A tônica da conversa foi toda essa, a ‘moda’ de muita gente achar que é sambista de olho no público fiel que agrega, a realidade de trabalhar se divertindo, mas complementando renda com emprego regular pra não ser engolido pelas contas, as modificações comerciais no som do Samba nas gravadoras e um pouco mais. Essa conversa – depois reparei, cavucando na memória – teve muito a ver com uma que tive recentemente com Luzinete ‘Lu’ Fogaça, cantora, passista, rainha de bateria, etc, etc… O papo fluiu por esse lado também, veja só, anos depois. A Lu – que já participou do concurso-reality Ídolos em 2010, eu conheci na Feira das Yabás, eu lá na platéia bebericando e ela cantando junto ao grupo Jaqueira, há coisa de dois anos, acho. Pelo Facebook, nos falamos e eu perguntei sobre o Samba em sua vida. Ela me vem com:

O samba abastece minha alegria. Amo melancolia… Amo sua fuga de cantar… Transmitindo alegria.”

Fez idéia? Pois é. Então, aí – não antes, nem depois de aí – eu pergunto sobre sua profissão na área da estética e ela manda, taxativa: “A estética é trabalho, a música, missão”. Pronto, né? Cabô, meu pai, cabô e até amanhã, gente. Rá! Isso me fez lembrar aquela bela canção de Milton Nascimento ‘Nos Bailes da Vida’, de onde o cantor e compositor acerta em cheio essa vida de artista apaixonado pela arte:

 

Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão 

Todo artista tem de ir aonde o povo está 

Se foi assim, assim será 

Cantando me desfaço e não me canso de viver 

Nem de cantar

Depois disso, só pra arrematar, prefiro o meu pagode pulsando forte no fundo do quintal do que mil holofotes na cara, mas sem a cultura do samba na veia, na cabeça, na garganta e na ponta da palheta. Palmas aos artistas do dia-a-dia, porque muita gente tem mídia, mas não tem chão, saca? Esses artistas lapidados no próprio trabalho é que dão paixão ao Samba. Samba não é coisa que se construa sem ter o quê do Samba na veia. Sei lá, acho que nasce contigo. Raiz que é raiz vem do chão. Rá!²

 

Inté e axé!

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Salve a Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel

“Lá vem a bateria da Mocidade Independente
Não existe mais quente
Não existe mais quente
É o festival do povo
É a alegria da cidade”

 

Bateria Nota 10 de Mestre André, Bateria Nota 1000, Não Existe Mais Quente… alguns são os nomes que designam uma bateria de vanguarda de uma escola de samba de vanguarda.E eu vou te dizer por quê.

 

“A alma de uma escola é a bateria 
E para o povo toda alma é imortal
Por isso é que se diz 
Que a Mocidade reinará
Na eternidade do divino carnaval”

 

Primeiramente, nela, foram criados elementos do carnaval que são verdadeiros paradigmas de um desfile hoje em dia. O surdo de terceira, invenção de Tião Miquimba e Mestre André, chocalho de platinela, uma afinação própria e o mais curioso: Uma bateria que trazia 27 integrantes (muito pouco, comparado aos costumeiros 180, 200 ritmistas das outras). Para compensar, a bateria inovava com simplicidades como baquetas de três varetas para tamborins (invenção de Canhoto), fazendo, na soma, com que alguns soassem como muitos na hora de tocar. Ainda há o clássico comentário da época, lá de meados dos anos de 1950, que destacavam a bateria da Mocidade como uma bateria que trazia uma galera sambando atrás, ou a bateria que tinha uma escola em volta, ou ainda, a bateria que carregava a escola nas costas. Enfim…

 

Mestre André

 

“Falando de bateria 
Muitos dirão quem tu és
Na galeria do samba 
Melhor bateria que é nota dez
Desde a famosa parada
Do tempo de mestre André 
Que ela incendeia a moçada
E vem da arquibancada
Esse grito de: olé!”

 

Esse é um elemento de nosso carnaval pra vida toda. José Pereira da Silva, lendário Mestre André (*7/2/1932 – + 4/11/1980), era galante em suas apresentações, enérgico em seu comando na bateria e exigente em seu metiê. Sobrou ‘baquetada’ na cabeça para todos que tocaram sob sua batuta, inclusive seu próprio filho, Andrezinho (ex-Molejo, atual diretor de bateria da Mocidade).

Mestre André e Andrezinho.

 

“Mestre André sempre dizia
“Ninguém segura a nossa bateria”
Padre Miguel é a capital
Da escola de samba
que bate melhor no carnaval!”

 

Mas, sem dúvida, o que torna o exímio maestro uma lenda, além do conjunto da obra, é a folclórica invenção da ‘paradinha’ durante uma performance de escola de samba. Conta Andrezinho que durante a apresentação do enredo ‘Os Três Vultos que Ficaram na História’, Mestre André escorregou e caiu em plena avenida. A bateria parou e ninguém entendeu nada. Logo, Mestre André levantou, deu um rodopio e apontou para o repique, que entrou encaixado no samba, trazendo toda a bateria de volta para delírio do povo que assistia e passou a gritar ‘olé!’. Um show à parte. Em retribuição, Mestre André tirava o chapéu e acenava para a plateia e, a partir dali, inventava uma das bossas mais periclitantes em todo desfile de carnaval. É só ver como, dentre outas curiosidades, as inovações das baterias atraem olhares e ouvidos atentos. Todo mundo querendo se superar e Mestre André começou isso com a Bateria que não existe mais quente.

 

“Salve a Mocidade!

Salve a Mocidade!”

 

Fonte: Mestre André Oficial.

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Almir Guineto

Essa foto tem uma curiosidade sobre minha própria história com o banjo, pois, assim como a foto, meu interesse pelo instrumento vem lá dos idos de 1980 pra 1990, quando justamente numa praia, eu ouvi aquele som e pirei.

Biografia

Nascido em 12 de julho de 1946, Almir de Souza Serra (o Guineto) é filho de Iraci de Souza Serra, violonista do grupo Fina Flor do Samba, e de Nair de Souza Serra, a Dona Fia (aquela mesma). Do Morro do Salgueiro corria por aí tocando cavaquinho no grupo Originais do Samba (aquele mesmo, de Mussum e companhia). O grupo, que tem como um dos fundadores Chiquinho (Francisco de Souza Serra), irmão de Almir chegou a gravar sua primeira composição, Bebedeira do Zé.

Originais do Samba, com Mussum, ao centro, grupo de debut de Almir Guineto, ainda bem garoto.

Excelente cavaquinista e violonista (comparado a Baden Powell por Beth Carvalho), a frustração de não se fazer ouvir nos pagodes da vida. Foi quando ele e Mussum adaptaram o banjo country ao braço de um cavaco (produzindo um som todo característico e bem mais alto até quando ficava sem microfone), instaurando uma nova era no Samba. Depois que ele popularizou o instrumento nos pagodes do Cacique de Ramos, nunca mais faltou banjo pelas rodas de Samba do Brasil. Nessa mesma época, Almir ainda foi um dos fundadores do Fundo de Quintal (junto a Neoci, Jorge Aragão, Sombrinha, Bira Presidente, Ubirany e Sereno), mas só gravou o primeiro disco com o grupo, Samba é no Fundo de Quintal (1980), depois, partiu para carreira solo.

Esse é um cap de um vídeo da década de 1980, na quadra do cacique de Ramos. Ao centro, Guineto tocando um banjo com cara muito mais satisfeita do que se não fosse bem ouvido. Aqui, á direita, temos Jorge Aragão também e, no vídeo completo, ainda dá pra ver Mussum tocando seu inesquecível reco-reco.

Por quê está aqui?

O Samba é uma cultura muito rica, apesar de ser relativamente recente (pô, a primeira gravação oficial, Pelo Telefone ainda não tem nem 100 anos), sem contar o longo período em que nossa bela arte popular era perseguida como ‘coisa de preto’, ‘coisa de vagabundo’, etc. Tendo esse cenário complicado, Almir Guineto conseguiu participar de dois grandes nomes do Samba (Fundo de quintal e Originais do Samba), diretor de bateria do Salgueiro (cedendo o lugar a seu irmão mais novo, o saudoso Mestre Louro), tornou-se, ele próprio, uma referência em composição, como instrumentista e na singela arte de versar no partido alto.

Formação inicial do Fundo de Quintal. Pensando bem, tanta fera junta só poderia dar em brilhantes carreiras solo e parcerias que multiplicaram o fenômeno do pagode nos anos ’80 a ponto de ser um capítulo próprio em nossa história cultural.

Curiosidade

“Banjo no Samba, só existem dois: Almir Guineto e Arlindo Cruz.” – Zeca Pagodinho. A frase é uma verdade popular, apesar de vários nomes terem surgido com talento para o banjo desde aqueles idos dos anos ’70 pra cá, mas um equívoco muito comum é atribuírem a INVENÇÃO desse tipo de banjo a Almirzão, quando ele só o POPULARIZOU. O banjo original é uma criação de povos africanos, que, assim como tudo, trouxeram para as Américas grande parte de sua própria cultura. Registros anteriores, como da jornalista Oneida Alvarenga, datam da década de 1930 o uso do banjo-cavaco, assim como já li sobre Zezinho do Banjo, um dito pioneiro anterior a Guineto, lá em São Paulo e até do próprio pai de Guineto, que teria utilizado também o protótipo, mas a verdade é que Almir Guineto levou o instrumento para o lugar certo no momento certo e não tem pagode que não se veja banjo repicando a toda.

Recomendações:

Mãos – (Almir Guineto, Carlos Sena e Simões PQD)

Lama nas ruas – (Almir Guineto, Zeca Pagodinho)

Insensato destino – (Maurício Lins, Chiquinho Vírgula, Acyr Marques)

Superman – (Almir Guineto, Adalto Magalha)

Dalila, cadê Guará? – (Almir Guineto, Arlindo Cruz)

 

Publicado originalmente na page do grupo Calçada D’Samba.

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