Almir Guineto

Essa foto tem uma curiosidade sobre minha própria história com o banjo, pois, assim como a foto, meu interesse pelo instrumento vem lá dos idos de 1980 pra 1990, quando justamente numa praia, eu ouvi aquele som e pirei.

Biografia

Nascido em 12 de julho de 1946, Almir de Souza Serra (o Guineto) é filho de Iraci de Souza Serra, violonista do grupo Fina Flor do Samba, e de Nair de Souza Serra, a Dona Fia (aquela mesma). Do Morro do Salgueiro corria por aí tocando cavaquinho no grupo Originais do Samba (aquele mesmo, de Mussum e companhia). O grupo, que tem como um dos fundadores Chiquinho (Francisco de Souza Serra), irmão de Almir chegou a gravar sua primeira composição, Bebedeira do Zé.

Originais do Samba, com Mussum, ao centro, grupo de debut de Almir Guineto, ainda bem garoto.

Excelente cavaquinista e violonista (comparado a Baden Powell por Beth Carvalho), a frustração de não se fazer ouvir nos pagodes da vida. Foi quando ele e Mussum adaptaram o banjo country ao braço de um cavaco (produzindo um som todo característico e bem mais alto até quando ficava sem microfone), instaurando uma nova era no Samba. Depois que ele popularizou o instrumento nos pagodes do Cacique de Ramos, nunca mais faltou banjo pelas rodas de Samba do Brasil. Nessa mesma época, Almir ainda foi um dos fundadores do Fundo de Quintal (junto a Neoci, Jorge Aragão, Sombrinha, Bira Presidente, Ubirany e Sereno), mas só gravou o primeiro disco com o grupo, Samba é no Fundo de Quintal (1980), depois, partiu para carreira solo.

Esse é um cap de um vídeo da década de 1980, na quadra do cacique de Ramos. Ao centro, Guineto tocando um banjo com cara muito mais satisfeita do que se não fosse bem ouvido. Aqui, á direita, temos Jorge Aragão também e, no vídeo completo, ainda dá pra ver Mussum tocando seu inesquecível reco-reco.

Por quê está aqui?

O Samba é uma cultura muito rica, apesar de ser relativamente recente (pô, a primeira gravação oficial, Pelo Telefone ainda não tem nem 100 anos), sem contar o longo período em que nossa bela arte popular era perseguida como ‘coisa de preto’, ‘coisa de vagabundo’, etc. Tendo esse cenário complicado, Almir Guineto conseguiu participar de dois grandes nomes do Samba (Fundo de quintal e Originais do Samba), diretor de bateria do Salgueiro (cedendo o lugar a seu irmão mais novo, o saudoso Mestre Louro), tornou-se, ele próprio, uma referência em composição, como instrumentista e na singela arte de versar no partido alto.

Formação inicial do Fundo de Quintal. Pensando bem, tanta fera junta só poderia dar em brilhantes carreiras solo e parcerias que multiplicaram o fenômeno do pagode nos anos ’80 a ponto de ser um capítulo próprio em nossa história cultural.

Curiosidade

“Banjo no Samba, só existem dois: Almir Guineto e Arlindo Cruz.” – Zeca Pagodinho. A frase é uma verdade popular, apesar de vários nomes terem surgido com talento para o banjo desde aqueles idos dos anos ’70 pra cá, mas um equívoco muito comum é atribuírem a INVENÇÃO desse tipo de banjo a Almirzão, quando ele só o POPULARIZOU. O banjo original é uma criação de povos africanos, que, assim como tudo, trouxeram para as Américas grande parte de sua própria cultura. Registros anteriores, como da jornalista Oneida Alvarenga, datam da década de 1930 o uso do banjo-cavaco, assim como já li sobre Zezinho do Banjo, um dito pioneiro anterior a Guineto, lá em São Paulo e até do próprio pai de Guineto, que teria utilizado também o protótipo, mas a verdade é que Almir Guineto levou o instrumento para o lugar certo no momento certo e não tem pagode que não se veja banjo repicando a toda.

Recomendações:

Mãos – (Almir Guineto, Carlos Sena e Simões PQD)

Lama nas ruas – (Almir Guineto, Zeca Pagodinho)

Insensato destino – (Maurício Lins, Chiquinho Vírgula, Acyr Marques)

Superman – (Almir Guineto, Adalto Magalha)

Dalila, cadê Guará? – (Almir Guineto, Arlindo Cruz)

 

Publicado originalmente na page do grupo Calçada D’Samba.

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Reinaldo, O Príncipe do Pagode

Vou inaugurar aqui uma nova seção, ‘Calçada D’Samba’, o grupo do qual faço parte e que mantém uma page no Facebook. Além de apresentações, o grupo também se interessa em falar de Samba e as influências que temos. Chega de delongas, leia por aqui, dê uma olhada na página e um like pra acompanhar nossas novidades.

“O Calçada D’Samba presta, neste espaço, uma singela homenagem aos que influenciaram tanta gente, inclusive a nós. E, para inaugurar a coluna, vamos falar de Reinaldo, grande presença em nosso repertório.

Não confunda o termo ‘pagode’, enquanto modalidade de festejo popular com o rótulo mercadológico pop de hoje em dia, ok?

Biografia

Reinaldo Gonçalves Zacarias nasceu em 9 de novembro de 1954, no Rio de Janeiro, onde cresceu frequentando muito a escola de samba G.R.E.S. Em Cima da Hora (famosa por imortalizar o samba-enredo Os Sertões), no bairro de Cavalcante, onde morava.

Criou o grupo O Samba Nosso de Cada Dia para alegrar festas até que começou a acompanhar gente de peso no Samba como Dona Ivone, João Nogueira e Roberto Ribeiro. Isso até largar o belo emprego no Citibank, em 1982, para se mandar para São Paulo, onde se tornaria precursor do movimento do ‘pagode’, que já estava fervendo no Rio de Janeiro.

Por quê está aqui?

Sendo daquela geração ‘Cacique de Ramos’, levou para Sampa o desejo de estabelecer lá uma roda de samba nos moldes das que ocorriam aqui, como o próprio Cacique,(Ramos), o Pagode do Arlindo (Cascadura) e outros. Não só foi bem sucedido, como lá ainda gravou seu primeiro disco ‘Retrato Cantado de um Amor’ (1986) e se tornou conhecido no Brasil inteiro.

Por anos, Reinaldo amargou o distanciamento de sua cidade natal, o que aponta como fator determinante a saída da gravadora em que estava e o conseqüente afastamento da mídia. Mas sua carreira sempre seguiu firme e ele continua mais do que na ativa sendo talentoso cantor, de voz inconfundível e poderosa e, também, o responsável pelo desenvolvimento mercadológico do Samba em São Paulo (inclusive alcançando bares de classe média e afins), junto de outros nomes como Leci Brandão e Fundo de Quintal.

Curiosidade

Apesar de ter ‘Rei’ no nome, Reinaldo é conhecido como ‘O Príncipe do Pagode’ e esse apelido veio quase que por acaso, em 1987. Um locutor de uma rádio FM da época costumava dar títulos aos artistas anunciados, então, um dia, o cara mandou ‘Reinaldo – O Príncipe do Pagode’. Bateu, ficou.

Músicas recomendadas

Retrato cantado de um amor (Adilson Bispo / Zé Roberto)
Coisa de amante (Adilson Bispo / Zé Roberto)
Pra ser minha musa (Arlindo Cruz / Chiquinho Vírgula / Marquinho PQD)
Agora viu que perdeu e chora (Arlindo Cruz / Franco / Jorge David)
Oya (Carica / Prateado)
Trapaças do amor (Cabo Velho / César Rodrigues)
Sou de arerê (Nelson Rufino / Paulo Daltro)
Vem pra ser meu refrão (Arlindo Cruz / Zeca Pagodinho)
Nos Pagodes da Vida (Guilherme Nascimento / Roberto Serrão)
Batuque de Crioulo (Claudinho de Oliveira / Luizinho SP)”.

Fonte: Calçada D’Samba.

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Porque haver um Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

O negro foi escravizado e violentado em todos os níveis por séculos aqui no Brasil e pelo mundo, de maneira geral. Ninguém chora por isso. Agora, quando o negro de hoje lembra que a história foi desfavorável e tenta alguma forma de se afirmar como uma etnia perfeitamente igual a qualquer outra, aí, tem chiadeira. É assim quando algum negro ganha um prêmio, e as alegações de que foi por ‘pena’, ‘politicamente correto’ e essas baboseiras, demonstrando que a sociedade no geral não acredita que o negro tenha plena capacidade, ainda sendo dependente da ‘raça superior’. Vai por mim, muita gente esconde o racismo até ser questionada nesse sentido.

Bem, o mesmo acontece com ações afirmativas. Cotas? Tentam colocar no negro (UIA!) um complexo de culpa por supostamente estar sendo favorecido (gente que fala isso deve comer os livros de história em vez de lê-los). Afirmações ‘100% Negro’? Dizem que é ‘racismo inverso’ (ignoram que exista uma ideologia afirmativa por trás, porque é mais fácil vomitar essas besteiras do que dar um ‘google’ e fazer uma simples pesquisa). E por aí vai, até a cereja do bolo, que é a contestação do 20 de Novembro, como tentativa do negro de se destacar do branco. Até é, no sentido de que o negro não é uma raça atrelada ao branco, somos etnias diferentes e não dependentes pelo modelo social da escravidão. É como o patrão que tem de pagar direitos à empregada doméstica: Não parece certo pagar por algo tão “natural” pra ele.

Na carona da contestação do 20 de novembro (e aquelas aberrações que desqualificam Zumbi pra enaltecer a família real), vêm o questionamento clássico: “Se já tem o Dia Internacional da Mulher, ter um dia só para a mulher negra não é separatismo?”. Essa eu respondo fácil: NÃO! Principalmente porque mulheres são vítimas do sistema machista, mas entre as mulheres, as negras são as que ficam abaixo na pirâmide social. Pensa só, macanudo, se vivemos em meio ao racismo e ao machismo, logo, a mulher negra vai sendo jogada pra baixo na escala de ‘valor social’. Isso, desde a escravidão, quando as mulheres negras eram violentadas pelos senhores brancos e seus filhos e odiadas pelas sinhás, porque ‘desencaminhavam’ seus homens com seus ‘feitiços’ e ‘falta de pudor’. O juízo de valor do que é permitido a uma mulher é bem antigo.

Sendo assim, o dia da mulher negra (resumindo o comprido nome da data) é muito importante, não apenas para a mulher, mas por ser uma parte específica de nossa população que tem que ficar respondendo se seus filhos são todos do mesmo pai; que é hostilizada por homens quando mostra que não é objeto permanentemente aberto ao sexo sem compromisso; são aquelas pessoas que sempre ouvem ‘adoro uma preta’, mas nem metade “serve” pra ser assumida diante da família. A mulher branca, por exemplo, não tem que ficar explicando que não é a empregada da casa quando algum prestador de serviço bate à porta; a mulher negra é igualmente mulher, junto a uma branca, mas uma mulher branca pode ser racista, como uma Ana Maria Braga da vida que ri quando uma Cacau Protásio da vida fala sobre presilha de cabelos, porque cabelos crespos, na teoria da cozinheira global, não precisam.

Enfim, por essas e todas as outras situações excludentes que tentam forçar a mulher negra a ‘aceitar’ seu lugar de servidão, como as novelas adoram mostrar, mulheres negras sem família, nascidas para servir café e abrir a porta dos milionários protagonistas brancos, por todo esse contexto que muita gente acha natural (mostrando o racismo naturalizado), por tudo TUDO isso, é preciso de datas afirmativas como o Dia Internacional da Mulher Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho. Um adendo final: A data é, também, institucionalizada em São Paulo, autoria da Deputada Estadual Leci Brandão.

Não é separatismo, é afirmação.

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Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha Ganha Evento de Beleza no Clube Renascença

Próximo dia 25, comemora-se – mais uma vez (graças a Deus) – o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e eu destaco aqui o evento Encrespando, no Clube Renascença, por conta do coletivo Meninas Black Power.   Antes, vamos falar do atual cenário crespo social no Brasil. Ou melhor, antes do antes (tá complicando, hein, Saga!), preciso falar que, em 1982, quando Sandra de Sá cantou ‘(…) meu cabelo enrolado, todos querem imitar (…) você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo, você ri da minha pele, você ri do meu sorriso (…)’, ainda eram tempos em que o racismo era muito mais naturalizado do que hoje. Pra se ter uma ideia, dois anos depois, em 1984, a novela global Corpo a Corpo trazia um romance entre Sônia (Zezé Motta) e Cláudio (Marcos Paulo). A recepção pelo público não poderia ser pior. A atriz chegou a ser abordada na rua pra ouvir um comentário de que ‘aquilo’ era nojento, além de pessoas falarem que Marcos Paulo deveria estar muito a fim de grana pra aceitar beijar uma negra e outras aberrações verbais morais. Tempos difíceis.

Digo isso porque, mais de 30 anos depois, temos Taís Araújo – uma das poucas atrizes negras a receber papéis que fogem ao combo ‘empregada/objeto sexual/alívio cômico’ – entre as três mais requisitadas pelo público, no que diz respeito a cabelos. Ironicamente, a novela em que ocorre se chama Geração Brasil, mas estou divagando. Parece pouca coisa, mas a representatividade para a mulher negra é importantíssima, sobretudo para a menina negra. Para a atriz Jéssica Barbosa, que alisou os cabelos até os 17 anos, a referência de beleza era a Xuxa (ou você lembra de alguma apresentadora infantil negra?), Adriana Bombom, que foi assistente de palco (não ‘condecorada’ com o título de paquita) da referida apresentadora, mas muitos anos depois, sendo a primeira negra (e única, se não me engano), o coro é o mesmo da atriz Lica Oliveira: “Sempre tem aquela pressão para alisar. E, às vezes, ela não é falada. Sentimos pelo olhar. O segredo é não ceder”.

Por esses dias eu assisti a um comercial de produto de beleza, para cabelos, acho, e vinham dois frascos na tela, um com uma atriz branca e uma atriz negra – mais importante, negra de cabelos crespos. Achei lindo. Como diz a atriz Cacau Protásio: “Quando me maquio, ou eu fico branca ou fico cinza. É como se a mulher comum, aquela que não pertence à ditadura da beleza, que não está nos padrões, não existisse.”. Sacou o que eu quero dizer? Não há referências para a mulher negra. Ela que é a maior parte da população, não se vê na telinha. E não adianta a grande mídia explicar que não vende, pois, já vi pesquisas que mostram que a população adoraria se ver mais na tela, como não se vê, continua assistindo meio que por inércia. Por essas e outras que continuamos buscando novos caminhos para a evolução da sociedade. Só assim vem a justiça social e o tratamento igualitário. Em tempos em que um sistema é acusado de se instalar sozinho na Polícia Federal pra proibir uma mulher de cabelo Black de tirar passaporte, precisamos mais do que nunca desse tipo de iniciativa.

A jornalista baiana Lília de Souza teve problemas para tirar um passaporte, pois, segundo a PF, a tecnologia estabelece padrões e os cabelos black da moça não seriam aceitos pelo sistema. Bem, o sistema foi desenvolvido por pessoas e se a desculpa é o cabelo cobrindo parte do rosto, me mostra que cabelo liso não o faz.

Eu me lembro, por exemplo, de ser um pequeno infanto nerd juvenil e, nas brincadeiras de faz-de-conta, não poder ser ninguém. Ou melhor, antes que eu me manifestasse, já vinha alguém e falava ‘você é o Mussum!’. Nada contra, sempre fui fã e ainda o acho o melhor ‘trapalhão’ (sobretudo quando assisti a uma apresentação dele com Os Originais do Samba e pirei na minha infância suburbana), mas a questão era a referência para uma criança negra. Ou era o Mussum, ou era o Tião Macalé, ou era o Jorge Lafond. Se fosse algum outro, teria que ter a ressalva da cor, tipo ‘Homem-Aranha queimado’, ‘He-man depois do incêndio’ e qualquer outra coisa que transformasse uma brincadeira de criança num trauma racial. Meninas não escaparam, pois o que fizeram com as mentes das meninas negras que cresceram sonhando em ser paquitas e tinham que abaixar a cabeça quando ouviam ‘e você já viu paquita preta?’. A coisa é muito mais complexa do que o negro apenas querendo aparecer. Dá um chega lá no Rena, ok? Axé!

Xuxa e todas as suas gerações de paquitas. Diga-me como uma menina negra poderia se ver representada na TV. Fácil entender porque o caucasiano é bonito e o negro é o feio, não é? Adivinha qual parcela da sociedade não se vê na TV/revista? Sim, a maior. Mulher e negra.

Representatividade é uma menina negra poder brincar com bonecas que se pareçam com ela. Isso sim é afirmativo e não um padrão caucasiano/rosado como se umas se identificassem e outras apenas ‘cuidassem’ do que é dos outros.

PROGRAMAÇÃO

16h – Abertura dos portões

17h – Palestra: A autoestima da mulher negra com a Associação de Mulheres Ação e Reação

18h – Workshop de cabelo crespo

19h – Dança Afro – Valéria Monã

19h30 – Dança – Femme Beats

20h – Show do rapper Mr. Ronney

21h – Show – Consciência Tranquila

Clube Renascença fica na Rua Barão de São Francisco, 54. Andaraí.

Mais informações no e-mail mbpcarioca@gmail.com

FONTE: O Dia.

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Cabelo liso, ideias enroladas

Certa feita, uma colega, negra de cabelos chapados, chegou, se olhou no espelho e disse: “Ain, meu cabelo tá uma palha!”.

Eu disse: Claro, fia, você não respeitou a textura dele, vai ter que manter seu tratamento ad finem temporum (mentira, não usei a expressão em latim). Falando em mentira, quando você conta uma, tem que inventar mais umas 20 pra manter a falsa realidade que você criou… escovas e chapinhas também, não dá pra levar uma vida normal mais, você terá que sustentar sua convicção de remodelar sua textura natural. Boa sorte.

Se você não respeita a natureza de algo, vai ter que se esforçar bastante pra se achar bonita com artifícios. Não se coloca coleira num guepardo querendo uma vida normal, não é?

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Neguinho da Beija-flor, As Críticas e a Copa 2014

Esses momentos de comoção, como na derrota do Brasil, ontem (8 de julho), pelas semifinais da Copa 2014 me fazem buscar uma explicação bem simples sobre o fato de sermos criados a base de leite, pão e ufanismo futebolístico. É só um esporte. Mas, calma, que existem muitas implicações nessa simples frase.

Pois bem, brasileiro não aceita perder no futebol, aprende desde cedo que somos os melhores e o resto é figuração em nossas festas. Achamos, por exemplo, uma tremenda graça na atual campeã do mundo, Espanha, levando uma sonora goleada da Holanda, mas quando é em nossas redes, aí, não, aí, é uma humilhação que só pode ter sido combinada. Caras, nem vou detalhar o tanto que precisaria pra se combinar um resultado num jogo de grandes proporções assim e como isso não faria diferença alguma no cenário político e social (tem gente achando que um resultado favorável na Copa faria o brasileiro esquecer de seus problemas). Mas tem mais.

Pra dar uma explicação que amarra bem a necessidade que o brasileiro tem de se sentir superior no futebol, a conseqüente rejeição à ‘normalidade’ de sua seleção e como teorias conspiratórias não se sustentam. Vamos de Samba pra isso. Ou melhor, vou me basear numa impressão dada por Neguinho da Beija-Flor, diante das críticas sobre a vitória da escola em 2011, quando homenageou Roberto Carlos. A questão foi que a agremiação de Nilópolis foi alvo de comentários insinuantes que ficavam entre  combinação de resultado, influência da Globo e do homenageado e um certo vício dos jurados de favorecerem o nome da escola (e os nomes influentes de lá).

Antes de mais nada, eu não gostei daquele enredo, acho uma preguiça estrondosa você se prestar a homenagear um artista na situação de Roberto Carlos e sim, concordo que o próprio cantor vira caminho fácil pra um desfile sem ousadia, sem ensejo cultural carnavalesco ou histórico e muito pouco assunto a se desenvolver, dado o luxo e gigantismo que o carnaval de sambódromo alcançou. Mas, uma coisa eu preciso reconhecer, dito por Neguinho numa entrevista ao RJTV, que infelizmente não achei link ou vídeo pra pelo menos transcrever, mas lembro vividamente do teor de sua resposta sobre ser alvo de falatório quando se está ganhando, mas não ter sua luta reconhecida, enquanto perdia.

O cantor da princesa nilopolitana defendia sua escola dizendo que muitos se incomodavam com a hegemonia atual da Beija-Flor (6 títulos dos disputados entre 2001 e 2011), mas ninguém acusou de armação todos os anos que a escola ficou pra trás. Procede, pois a Imperatriz também foi alvo de tais críticas nos anos que teve Rosa Magalhães e seus desfiles chatos técnicos vencedores. Holofotes trazem mais exposição. Óbvio. Então, fica a lição para os torcedores que ainda não aprenderam a observar, o futebol não é nosso, o mundo inteiro aprendeu a jogar de forma objetiva e compacta, enquanto o Brasil fica feliz com dribles desconcertantes, mas que não defendem e nem fazem gol. Era só uma questão de tempo até a Seleção atual se deparar com um real desafio, pois já não vinha convencendo, mas como estava ganhando, ninguém achou melhor falar, pra não parecer o chato da galera, talvez.

Se foi por armação que o Brasil perdeu de 7, então só posso achar que esse povo da alta roda combina muito descaradamente as coisas, pois seria um resultado improvável pro povo engolir, não? Outra, perdeu em 1998 e teve quem gritasse que foi armação também, mas ninguém achou armação a vitória ano passado sobre a campeã mundial Espanha, pela Copa das Confederações. Aliás, Se ganhar ou perder, vai ter gente achando armação. Então porque insistem em torcer, oras? Acho tudo uma mania de não saber perder simultânea ao ‘roubado é mais gostoso’. Amadorismo pra jogar e pra torcer. Achou-se um tremenda graça da Espanha e de Portugal levando surras memoráveis (chupem, colonizadores!!! Rá!), aí, quando chegou nossa vez de mostrar que aprendemos direitinho… Povo chora? Esse ufanismo infantil é besteira, o carnaval é que é a festa democrática, tem festa no salão, na rua e você faz o que quiser com alegria. Futebol não, gente, futebol depende de um lado vencedor e outro derrotado. Desta vez, o Brasil foi derrotado. Não se faz Copa com derrotas. Não?

Agora, no pior ensejo irônico do mundo, vamos cantar: Domingo, eu vou ao Maracanã…

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Wanderley Monteiro – Vida de Compositor

Compositor desde os 20 anos, funcionário do Banco do Brasil e um dos mais jovens da antológica geração Cacique de Ramos, que explodiu o mundo em alegria da década de 1980 pra cá, falar sobre esse compositor já estava nas minhas intenções há tempos, desde que um leitor sugeriu seu nome num comentário. Antes de mais nada, pra você se ligar em quem é o homenageado deste texto, ele é um dos autores de Água de Chuva no Mar (A gente se fala no olhar (no olhaaar) / É água de chuva no mar (nooo maaar) / Caminha pro mesmo lugar / Sem pressa, sem medo de errar / É tão bonito / É tão bonito nosso amor (…)).

Como eu não poderia apenas julgar a carreira e o talento de alguém apenas por um sucesso, fui ouvir direto da fonte, então, apreciei os dois discos lançados: Vida de Compositor (2004) e Consagração (2012) e, caras, assim como faz o samba de Wanderley Monteiro, meu comentário não faz alarde, mas é certeiro: Bom gosto. Não no sentido genérico, é que é uma arte tão refinada, tão cuidadosa, que você vai ouvindo até perceber que a música acabou e ficar com cara de ‘ué, acabou a luz?’. De um disco para o outro, nota-se uma diferença de estrutura na parte instrumental, com o segundo disco tendo mais presença do banjo, por exemplo, e a coisa está mais batucada. Já no debut, os arranjos são mais clássicos, dando um ar de coisa antiga feita hoje – o que, em se tratando de samba, é bem positivo. Sem contar as linhas melódicas que ele põe nas canções.

As melodias e o próprio modo de cantar de Wanderley, a princípio, me fizeram lembrar Monarco ou Paulinho da Viola. Com uma alma de samba, mas uma doçura que mescla muito bem tanto um clima de quintal de chão cimentado com o de um almoço dançante no salão de festas. Mas, depois de pensar nisso, os próprios ícones portelenses fazem o som da Velha Guarda, então, concluí que é isso, é aquele jeitão dos sambas de antigamente, mas ele é da geração que revolucionou o samba mais recentemente, a que eu chamo geração-cacique. Só posso dizer que é uma arte cuidadosa, na produção de Paulão 7 Cordas. Uma feliz configuração de boas parcerias, letras e melodias caprichadas e uma bela produção nas gravações.

É isso, rapeize, pra embalar seu churras ou pra passar o tempo com um fone de ouvido no transporte coletivo, recomendo Wanderley Monteiro pra te deixar leve com um samba competente e transcendental.

Fonte: Dicionário Cravo Albin.

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