O sambista que brilha no cotidiano

Houve um tempo em que, como todo jovem (UIA!) tive aquele devaneio infanto nerd músico juvenil de alçar-me ao estrelado e levar minha música a todos os lugares. Imaginava a galera vibrando, eu lá, sob holofotes (a única hora que não sou um constrangido tímido e cara de pau: músico modo ON) e todo aquele quais-quais-quais tchubiruba. Mas, pra encurtar a história, com o tempo, fui percebendo que muita coisa podia passar, só não podia deixar de ser músico. Digo, desde aquela adolescência sonhadora até a realidade de hoje, muita coisa mudou. Cheguei a desencanar de ser músico e desfiz de vários instrumentos, mantive só o banjo e meu velho violão mais velho que eu, “presente” de mamãe que desistiu das aulas.

 

E porque to contando essa lenga-lenga? Por causa de alguns fatores que – JURO – vão se interligar ali na frente. Acontece que quando fiz parte do grupo Fidalguia, o projeto sempre foi cultural, a valorização do Samba enquanto cultura contando sua própria história. O pai de um de nossos colegas de grupo assistiu a um ensaio e elogiou bastante, chegando a dizer ‘Já vi um garoto jogar mais que Pelé, mas não teve a mesma projeção’. O que ele quis dizer com isso? Ele mesmo explicou, pois, talento pode não te levar ao topo do universo, mas se você tem um dom, tem um talento, que tenha também um bom uso pra isso. E é aí que a coisa começa a fazer sentido.

Grupo Fidalguia. Novembro de 2013.

 

O ano era lá para 2008 e tive um colega de trabalho que me chamou à atenção por ser o único daquelas poucas dezenas de pessoas que falava em Samba. Colei logo com o cara e conheci alguns pagodes na vida que lembro até hoje. Seu nome, Marcelo José Adão, mais conhecido como Marcelo Negrão. Na época, eu era um estudante de jornalismo começando a conhecer a história do samba em minhas pesquisas acadêmicas (de onde surgiria este blog) e, como avaliação semestral, tive por tarefa buscar alguém para entrevistar que não fosse lugar-comum (tipo parente, amigo e essas pautas confortáveis de se achar). Apesar de já ter estabelecido um convívio social com Negrão, fiquei num dilema, pois, ali eu tinha visto um assunto muito interessante, mas fiquei cabreiro de a professora não dar muito valor. Mas eu sou teimoso e confiei no meu faro e na força das minhas idéias.

Marcelo Negrão. 

 

Entrevistei-o, pois confiei no assunto abordado: O músico do dia-a-dia, suas convicções para estar lá mantendo sua carreira, seu glamour artístico e… “vambora que tem que acordar cedo pra trabalhar amanhã”. Tipo, ser músico e ganhar com isso é normal, mas a mídia influencia demais o público que acaba achando que só Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho são artistas que deram certo, saca? Se você não vira milionário e adorado na TV e nas rádios, seu trabalho não tem tanta graça assim. Pois bem, conversamos, resultou num trabalho muito bem avaliado e se eu encontrar aqui entre meus guardados eu publico, mas temo que tenha ficado em algum HD re-formatado daqueles tempos.

Grupo Jaqueira: Lu, a única flor no meio do monte de cravos. (risos).

 

A tônica da conversa foi toda essa, a ‘moda’ de muita gente achar que é sambista de olho no público fiel que agrega, a realidade de trabalhar se divertindo, mas complementando renda com emprego regular pra não ser engolido pelas contas, as modificações comerciais no som do Samba nas gravadoras e um pouco mais. Essa conversa – depois reparei, cavucando na memória – teve muito a ver com uma que tive recentemente com Luzinete ‘Lu’ Fogaça, cantora, passista, rainha de bateria, etc, etc… O papo fluiu por esse lado também, veja só, anos depois. A Lu – que já participou do concurso-reality Ídolos em 2010, eu conheci na Feira das Yabás, eu lá na platéia bebericando e ela cantando junto ao grupo Jaqueira, há coisa de dois anos, acho. Pelo Facebook, nos falamos e eu perguntei sobre o Samba em sua vida. Ela me vem com:

O samba abastece minha alegria. Amo melancolia… Amo sua fuga de cantar… Transmitindo alegria.”

Fez idéia? Pois é. Então, aí – não antes, nem depois de aí – eu pergunto sobre sua profissão na área da estética e ela manda, taxativa: “A estética é trabalho, a música, missão”. Pronto, né? Cabô, meu pai, cabô e até amanhã, gente. Rá! Isso me fez lembrar aquela bela canção de Milton Nascimento ‘Nos Bailes da Vida’, de onde o cantor e compositor acerta em cheio essa vida de artista apaixonado pela arte:

 

Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão 

Todo artista tem de ir aonde o povo está 

Se foi assim, assim será 

Cantando me desfaço e não me canso de viver 

Nem de cantar

Depois disso, só pra arrematar, prefiro o meu pagode pulsando forte no fundo do quintal do que mil holofotes na cara, mas sem a cultura do samba na veia, na cabeça, na garganta e na ponta da palheta. Palmas aos artistas do dia-a-dia, porque muita gente tem mídia, mas não tem chão, saca? Esses artistas lapidados no próprio trabalho é que dão paixão ao Samba. Samba não é coisa que se construa sem ter o quê do Samba na veia. Sei lá, acho que nasce contigo. Raiz que é raiz vem do chão. Rá!²

 

Inté e axé!

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Salve a Bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel

“Lá vem a bateria da Mocidade Independente
Não existe mais quente
Não existe mais quente
É o festival do povo
É a alegria da cidade”

 

Bateria Nota 10 de Mestre André, Bateria Nota 1000, Não Existe Mais Quente… alguns são os nomes que designam uma bateria de vanguarda de uma escola de samba de vanguarda.E eu vou te dizer por quê.

 

“A alma de uma escola é a bateria 
E para o povo toda alma é imortal
Por isso é que se diz 
Que a Mocidade reinará
Na eternidade do divino carnaval”

 

Primeiramente, nela, foram criados elementos do carnaval que são verdadeiros paradigmas de um desfile hoje em dia. O surdo de terceira, invenção de Tião Miquimba e Mestre André, chocalho de platinela, uma afinação própria e o mais curioso: Uma bateria que trazia 27 integrantes (muito pouco, comparado aos costumeiros 180, 200 ritmistas das outras). Para compensar, a bateria inovava com simplicidades como baquetas de três varetas para tamborins (invenção de Canhoto), fazendo, na soma, com que alguns soassem como muitos na hora de tocar. Ainda há o clássico comentário da época, lá de meados dos anos de 1950, que destacavam a bateria da Mocidade como uma bateria que trazia uma galera sambando atrás, ou a bateria que tinha uma escola em volta, ou ainda, a bateria que carregava a escola nas costas. Enfim…

 

Mestre André

 

“Falando de bateria 
Muitos dirão quem tu és
Na galeria do samba 
Melhor bateria que é nota dez
Desde a famosa parada
Do tempo de mestre André 
Que ela incendeia a moçada
E vem da arquibancada
Esse grito de: olé!”

 

Esse é um elemento de nosso carnaval pra vida toda. José Pereira da Silva, lendário Mestre André (*7/2/1932 – + 4/11/1980), era galante em suas apresentações, enérgico em seu comando na bateria e exigente em seu metiê. Sobrou ‘baquetada’ na cabeça para todos que tocaram sob sua batuta, inclusive seu próprio filho, Andrezinho (ex-Molejo, atual diretor de bateria da Mocidade).

Mestre André e Andrezinho.

 

“Mestre André sempre dizia
“Ninguém segura a nossa bateria”
Padre Miguel é a capital
Da escola de samba
que bate melhor no carnaval!”

 

Mas, sem dúvida, o que torna o exímio maestro uma lenda, além do conjunto da obra, é a folclórica invenção da ‘paradinha’ durante uma performance de escola de samba. Conta Andrezinho que durante a apresentação do enredo ‘Os Três Vultos que Ficaram na História’, Mestre André escorregou e caiu em plena avenida. A bateria parou e ninguém entendeu nada. Logo, Mestre André levantou, deu um rodopio e apontou para o repique, que entrou encaixado no samba, trazendo toda a bateria de volta para delírio do povo que assistia e passou a gritar ‘olé!’. Um show à parte. Em retribuição, Mestre André tirava o chapéu e acenava para a plateia e, a partir dali, inventava uma das bossas mais periclitantes em todo desfile de carnaval. É só ver como, dentre outas curiosidades, as inovações das baterias atraem olhares e ouvidos atentos. Todo mundo querendo se superar e Mestre André começou isso com a Bateria que não existe mais quente.

 

“Salve a Mocidade!

Salve a Mocidade!”

 

Fonte: Mestre André Oficial.

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Almir Guineto

Essa foto tem uma curiosidade sobre minha própria história com o banjo, pois, assim como a foto, meu interesse pelo instrumento vem lá dos idos de 1980 pra 1990, quando justamente numa praia, eu ouvi aquele som e pirei.

Biografia

Nascido em 12 de julho de 1946, Almir de Souza Serra (o Guineto) é filho de Iraci de Souza Serra, violonista do grupo Fina Flor do Samba, e de Nair de Souza Serra, a Dona Fia (aquela mesma). Do Morro do Salgueiro corria por aí tocando cavaquinho no grupo Originais do Samba (aquele mesmo, de Mussum e companhia). O grupo, que tem como um dos fundadores Chiquinho (Francisco de Souza Serra), irmão de Almir chegou a gravar sua primeira composição, Bebedeira do Zé.

Originais do Samba, com Mussum, ao centro, grupo de debut de Almir Guineto, ainda bem garoto.

Excelente cavaquinista e violonista (comparado a Baden Powell por Beth Carvalho), a frustração de não se fazer ouvir nos pagodes da vida. Foi quando ele e Mussum adaptaram o banjo country ao braço de um cavaco (produzindo um som todo característico e bem mais alto até quando ficava sem microfone), instaurando uma nova era no Samba. Depois que ele popularizou o instrumento nos pagodes do Cacique de Ramos, nunca mais faltou banjo pelas rodas de Samba do Brasil. Nessa mesma época, Almir ainda foi um dos fundadores do Fundo de Quintal (junto a Neoci, Jorge Aragão, Sombrinha, Bira Presidente, Ubirany e Sereno), mas só gravou o primeiro disco com o grupo, Samba é no Fundo de Quintal (1980), depois, partiu para carreira solo.

Esse é um cap de um vídeo da década de 1980, na quadra do cacique de Ramos. Ao centro, Guineto tocando um banjo com cara muito mais satisfeita do que se não fosse bem ouvido. Aqui, á direita, temos Jorge Aragão também e, no vídeo completo, ainda dá pra ver Mussum tocando seu inesquecível reco-reco.

Por quê está aqui?

O Samba é uma cultura muito rica, apesar de ser relativamente recente (pô, a primeira gravação oficial, Pelo Telefone ainda não tem nem 100 anos), sem contar o longo período em que nossa bela arte popular era perseguida como ‘coisa de preto’, ‘coisa de vagabundo’, etc. Tendo esse cenário complicado, Almir Guineto conseguiu participar de dois grandes nomes do Samba (Fundo de quintal e Originais do Samba), diretor de bateria do Salgueiro (cedendo o lugar a seu irmão mais novo, o saudoso Mestre Louro), tornou-se, ele próprio, uma referência em composição, como instrumentista e na singela arte de versar no partido alto.

Formação inicial do Fundo de Quintal. Pensando bem, tanta fera junta só poderia dar em brilhantes carreiras solo e parcerias que multiplicaram o fenômeno do pagode nos anos ’80 a ponto de ser um capítulo próprio em nossa história cultural.

Curiosidade

“Banjo no Samba, só existem dois: Almir Guineto e Arlindo Cruz.” – Zeca Pagodinho. A frase é uma verdade popular, apesar de vários nomes terem surgido com talento para o banjo desde aqueles idos dos anos ’70 pra cá, mas um equívoco muito comum é atribuírem a INVENÇÃO desse tipo de banjo a Almirzão, quando ele só o POPULARIZOU. O banjo original é uma criação de povos africanos, que, assim como tudo, trouxeram para as Américas grande parte de sua própria cultura. Registros anteriores, como da jornalista Oneida Alvarenga, datam da década de 1930 o uso do banjo-cavaco, assim como já li sobre Zezinho do Banjo, um dito pioneiro anterior a Guineto, lá em São Paulo e até do próprio pai de Guineto, que teria utilizado também o protótipo, mas a verdade é que Almir Guineto levou o instrumento para o lugar certo no momento certo e não tem pagode que não se veja banjo repicando a toda.

Recomendações:

Mãos – (Almir Guineto, Carlos Sena e Simões PQD)

Lama nas ruas – (Almir Guineto, Zeca Pagodinho)

Insensato destino – (Maurício Lins, Chiquinho Vírgula, Acyr Marques)

Superman – (Almir Guineto, Adalto Magalha)

Dalila, cadê Guará? – (Almir Guineto, Arlindo Cruz)

 

Publicado originalmente na page do grupo Calçada D’Samba.

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Reinaldo, O Príncipe do Pagode

Vou inaugurar aqui uma nova seção, ‘Calçada D’Samba’, o grupo do qual faço parte e que mantém uma page no Facebook. Além de apresentações, o grupo também se interessa em falar de Samba e as influências que temos. Chega de delongas, leia por aqui, dê uma olhada na página e um like pra acompanhar nossas novidades.

“O Calçada D’Samba presta, neste espaço, uma singela homenagem aos que influenciaram tanta gente, inclusive a nós. E, para inaugurar a coluna, vamos falar de Reinaldo, grande presença em nosso repertório.

Não confunda o termo ‘pagode’, enquanto modalidade de festejo popular com o rótulo mercadológico pop de hoje em dia, ok?

Biografia

Reinaldo Gonçalves Zacarias nasceu em 9 de novembro de 1954, no Rio de Janeiro, onde cresceu frequentando muito a escola de samba G.R.E.S. Em Cima da Hora (famosa por imortalizar o samba-enredo Os Sertões), no bairro de Cavalcante, onde morava.

Criou o grupo O Samba Nosso de Cada Dia para alegrar festas até que começou a acompanhar gente de peso no Samba como Dona Ivone, João Nogueira e Roberto Ribeiro. Isso até largar o belo emprego no Citibank, em 1982, para se mandar para São Paulo, onde se tornaria precursor do movimento do ‘pagode’, que já estava fervendo no Rio de Janeiro.

Por quê está aqui?

Sendo daquela geração ‘Cacique de Ramos’, levou para Sampa o desejo de estabelecer lá uma roda de samba nos moldes das que ocorriam aqui, como o próprio Cacique,(Ramos), o Pagode do Arlindo (Cascadura) e outros. Não só foi bem sucedido, como lá ainda gravou seu primeiro disco ‘Retrato Cantado de um Amor’ (1986) e se tornou conhecido no Brasil inteiro.

Por anos, Reinaldo amargou o distanciamento de sua cidade natal, o que aponta como fator determinante a saída da gravadora em que estava e o conseqüente afastamento da mídia. Mas sua carreira sempre seguiu firme e ele continua mais do que na ativa sendo talentoso cantor, de voz inconfundível e poderosa e, também, o responsável pelo desenvolvimento mercadológico do Samba em São Paulo (inclusive alcançando bares de classe média e afins), junto de outros nomes como Leci Brandão e Fundo de Quintal.

Curiosidade

Apesar de ter ‘Rei’ no nome, Reinaldo é conhecido como ‘O Príncipe do Pagode’ e esse apelido veio quase que por acaso, em 1987. Um locutor de uma rádio FM da época costumava dar títulos aos artistas anunciados, então, um dia, o cara mandou ‘Reinaldo – O Príncipe do Pagode’. Bateu, ficou.

Músicas recomendadas

Retrato cantado de um amor (Adilson Bispo / Zé Roberto)
Coisa de amante (Adilson Bispo / Zé Roberto)
Pra ser minha musa (Arlindo Cruz / Chiquinho Vírgula / Marquinho PQD)
Agora viu que perdeu e chora (Arlindo Cruz / Franco / Jorge David)
Oya (Carica / Prateado)
Trapaças do amor (Cabo Velho / César Rodrigues)
Sou de arerê (Nelson Rufino / Paulo Daltro)
Vem pra ser meu refrão (Arlindo Cruz / Zeca Pagodinho)
Nos Pagodes da Vida (Guilherme Nascimento / Roberto Serrão)
Batuque de Crioulo (Claudinho de Oliveira / Luizinho SP)”.

Fonte: Calçada D’Samba.

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Porque haver um Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

O negro foi escravizado e violentado em todos os níveis por séculos aqui no Brasil e pelo mundo, de maneira geral. Ninguém chora por isso. Agora, quando o negro de hoje lembra que a história foi desfavorável e tenta alguma forma de se afirmar como uma etnia perfeitamente igual a qualquer outra, aí, tem chiadeira. É assim quando algum negro ganha um prêmio, e as alegações de que foi por ‘pena’, ‘politicamente correto’ e essas baboseiras, demonstrando que a sociedade no geral não acredita que o negro tenha plena capacidade, ainda sendo dependente da ‘raça superior’. Vai por mim, muita gente esconde o racismo até ser questionada nesse sentido.

Bem, o mesmo acontece com ações afirmativas. Cotas? Tentam colocar no negro (UIA!) um complexo de culpa por supostamente estar sendo favorecido (gente que fala isso deve comer os livros de história em vez de lê-los). Afirmações ‘100% Negro’? Dizem que é ‘racismo inverso’ (ignoram que exista uma ideologia afirmativa por trás, porque é mais fácil vomitar essas besteiras do que dar um ‘google’ e fazer uma simples pesquisa). E por aí vai, até a cereja do bolo, que é a contestação do 20 de Novembro, como tentativa do negro de se destacar do branco. Até é, no sentido de que o negro não é uma raça atrelada ao branco, somos etnias diferentes e não dependentes pelo modelo social da escravidão. É como o patrão que tem de pagar direitos à empregada doméstica: Não parece certo pagar por algo tão “natural” pra ele.

Na carona da contestação do 20 de novembro (e aquelas aberrações que desqualificam Zumbi pra enaltecer a família real), vêm o questionamento clássico: “Se já tem o Dia Internacional da Mulher, ter um dia só para a mulher negra não é separatismo?”. Essa eu respondo fácil: NÃO! Principalmente porque mulheres são vítimas do sistema machista, mas entre as mulheres, as negras são as que ficam abaixo na pirâmide social. Pensa só, macanudo, se vivemos em meio ao racismo e ao machismo, logo, a mulher negra vai sendo jogada pra baixo na escala de ‘valor social’. Isso, desde a escravidão, quando as mulheres negras eram violentadas pelos senhores brancos e seus filhos e odiadas pelas sinhás, porque ‘desencaminhavam’ seus homens com seus ‘feitiços’ e ‘falta de pudor’. O juízo de valor do que é permitido a uma mulher é bem antigo.

Sendo assim, o dia da mulher negra (resumindo o comprido nome da data) é muito importante, não apenas para a mulher, mas por ser uma parte específica de nossa população que tem que ficar respondendo se seus filhos são todos do mesmo pai; que é hostilizada por homens quando mostra que não é objeto permanentemente aberto ao sexo sem compromisso; são aquelas pessoas que sempre ouvem ‘adoro uma preta’, mas nem metade “serve” pra ser assumida diante da família. A mulher branca, por exemplo, não tem que ficar explicando que não é a empregada da casa quando algum prestador de serviço bate à porta; a mulher negra é igualmente mulher, junto a uma branca, mas uma mulher branca pode ser racista, como uma Ana Maria Braga da vida que ri quando uma Cacau Protásio da vida fala sobre presilha de cabelos, porque cabelos crespos, na teoria da cozinheira global, não precisam.

Enfim, por essas e todas as outras situações excludentes que tentam forçar a mulher negra a ‘aceitar’ seu lugar de servidão, como as novelas adoram mostrar, mulheres negras sem família, nascidas para servir café e abrir a porta dos milionários protagonistas brancos, por todo esse contexto que muita gente acha natural (mostrando o racismo naturalizado), por tudo TUDO isso, é preciso de datas afirmativas como o Dia Internacional da Mulher Latino-Americana e Caribenha, comemorado em 25 de julho. Um adendo final: A data é, também, institucionalizada em São Paulo, autoria da Deputada Estadual Leci Brandão.

Não é separatismo, é afirmação.

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Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha Ganha Evento de Beleza no Clube Renascença

Próximo dia 25, comemora-se – mais uma vez (graças a Deus) – o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e eu destaco aqui o evento Encrespando, no Clube Renascença, por conta do coletivo Meninas Black Power.   Antes, vamos falar do atual cenário crespo social no Brasil. Ou melhor, antes do antes (tá complicando, hein, Saga!), preciso falar que, em 1982, quando Sandra de Sá cantou ‘(…) meu cabelo enrolado, todos querem imitar (…) você ri da minha roupa, você ri do meu cabelo, você ri da minha pele, você ri do meu sorriso (…)’, ainda eram tempos em que o racismo era muito mais naturalizado do que hoje. Pra se ter uma ideia, dois anos depois, em 1984, a novela global Corpo a Corpo trazia um romance entre Sônia (Zezé Motta) e Cláudio (Marcos Paulo). A recepção pelo público não poderia ser pior. A atriz chegou a ser abordada na rua pra ouvir um comentário de que ‘aquilo’ era nojento, além de pessoas falarem que Marcos Paulo deveria estar muito a fim de grana pra aceitar beijar uma negra e outras aberrações verbais morais. Tempos difíceis.

Digo isso porque, mais de 30 anos depois, temos Taís Araújo – uma das poucas atrizes negras a receber papéis que fogem ao combo ‘empregada/objeto sexual/alívio cômico’ – entre as três mais requisitadas pelo público, no que diz respeito a cabelos. Ironicamente, a novela em que ocorre se chama Geração Brasil, mas estou divagando. Parece pouca coisa, mas a representatividade para a mulher negra é importantíssima, sobretudo para a menina negra. Para a atriz Jéssica Barbosa, que alisou os cabelos até os 17 anos, a referência de beleza era a Xuxa (ou você lembra de alguma apresentadora infantil negra?), Adriana Bombom, que foi assistente de palco (não ‘condecorada’ com o título de paquita) da referida apresentadora, mas muitos anos depois, sendo a primeira negra (e única, se não me engano), o coro é o mesmo da atriz Lica Oliveira: “Sempre tem aquela pressão para alisar. E, às vezes, ela não é falada. Sentimos pelo olhar. O segredo é não ceder”.

Por esses dias eu assisti a um comercial de produto de beleza, para cabelos, acho, e vinham dois frascos na tela, um com uma atriz branca e uma atriz negra – mais importante, negra de cabelos crespos. Achei lindo. Como diz a atriz Cacau Protásio: “Quando me maquio, ou eu fico branca ou fico cinza. É como se a mulher comum, aquela que não pertence à ditadura da beleza, que não está nos padrões, não existisse.”. Sacou o que eu quero dizer? Não há referências para a mulher negra. Ela que é a maior parte da população, não se vê na telinha. E não adianta a grande mídia explicar que não vende, pois, já vi pesquisas que mostram que a população adoraria se ver mais na tela, como não se vê, continua assistindo meio que por inércia. Por essas e outras que continuamos buscando novos caminhos para a evolução da sociedade. Só assim vem a justiça social e o tratamento igualitário. Em tempos em que um sistema é acusado de se instalar sozinho na Polícia Federal pra proibir uma mulher de cabelo Black de tirar passaporte, precisamos mais do que nunca desse tipo de iniciativa.

A jornalista baiana Lília de Souza teve problemas para tirar um passaporte, pois, segundo a PF, a tecnologia estabelece padrões e os cabelos black da moça não seriam aceitos pelo sistema. Bem, o sistema foi desenvolvido por pessoas e se a desculpa é o cabelo cobrindo parte do rosto, me mostra que cabelo liso não o faz.

Eu me lembro, por exemplo, de ser um pequeno infanto nerd juvenil e, nas brincadeiras de faz-de-conta, não poder ser ninguém. Ou melhor, antes que eu me manifestasse, já vinha alguém e falava ‘você é o Mussum!’. Nada contra, sempre fui fã e ainda o acho o melhor ‘trapalhão’ (sobretudo quando assisti a uma apresentação dele com Os Originais do Samba e pirei na minha infância suburbana), mas a questão era a referência para uma criança negra. Ou era o Mussum, ou era o Tião Macalé, ou era o Jorge Lafond. Se fosse algum outro, teria que ter a ressalva da cor, tipo ‘Homem-Aranha queimado’, ‘He-man depois do incêndio’ e qualquer outra coisa que transformasse uma brincadeira de criança num trauma racial. Meninas não escaparam, pois o que fizeram com as mentes das meninas negras que cresceram sonhando em ser paquitas e tinham que abaixar a cabeça quando ouviam ‘e você já viu paquita preta?’. A coisa é muito mais complexa do que o negro apenas querendo aparecer. Dá um chega lá no Rena, ok? Axé!

Xuxa e todas as suas gerações de paquitas. Diga-me como uma menina negra poderia se ver representada na TV. Fácil entender porque o caucasiano é bonito e o negro é o feio, não é? Adivinha qual parcela da sociedade não se vê na TV/revista? Sim, a maior. Mulher e negra.

Representatividade é uma menina negra poder brincar com bonecas que se pareçam com ela. Isso sim é afirmativo e não um padrão caucasiano/rosado como se umas se identificassem e outras apenas ‘cuidassem’ do que é dos outros.

PROGRAMAÇÃO

16h – Abertura dos portões

17h – Palestra: A autoestima da mulher negra com a Associação de Mulheres Ação e Reação

18h – Workshop de cabelo crespo

19h – Dança Afro – Valéria Monã

19h30 – Dança – Femme Beats

20h – Show do rapper Mr. Ronney

21h – Show – Consciência Tranquila

Clube Renascença fica na Rua Barão de São Francisco, 54. Andaraí.

Mais informações no e-mail mbpcarioca@gmail.com

FONTE: O Dia.

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Cabelo liso, ideias enroladas

Certa feita, uma colega, negra de cabelos chapados, chegou, se olhou no espelho e disse: “Ain, meu cabelo tá uma palha!”.

Eu disse: Claro, fia, você não respeitou a textura dele, vai ter que manter seu tratamento ad finem temporum (mentira, não usei a expressão em latim). Falando em mentira, quando você conta uma, tem que inventar mais umas 20 pra manter a falsa realidade que você criou… escovas e chapinhas também, não dá pra levar uma vida normal mais, você terá que sustentar sua convicção de remodelar sua textura natural. Boa sorte.

Se você não respeita a natureza de algo, vai ter que se esforçar bastante pra se achar bonita com artifícios. Não se coloca coleira num guepardo querendo uma vida normal, não é?

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