Prêmio da Música Brasileira – Samba perdendo espaço?!

Em 2014, o Prêmio da Música Brasileira completa 25 anos e homenageará o Samba em sua próxima edição, em 14 de maio. Wilson das Neves é o mais cotado com 6 indicações e o Samba tá aí pra todo mundo ver nossa cultura popular, certo? Éééérrr…. mais ou menos, mais ou menos, pelo menos, segundo uma pesquisa estranha aê. E nem vou entrar no mérito de Neguinho da Beija-Flor ter se queixado por sua própria ausência no livro comemorativo de Antônio Carlos Miguel.

O SESC (Serviço Social do Comércio) promoveu uma pesquisa entre 31 de agosto e 8 de setembro de 2013, entrevistando 2,4 mil pessoas de 139 municípios de 25 estados brasileiros. Bem, os conflitos de informação estão em diversas camadas, mas o começo é o resultado: O Samba é apenas o sétimo colocado na preferência musical do brasileiro, ficando atrás do sertanejo, MPB e pagode, as três primeiras posições.

Já era mais do que esperado que os bambas de verdade se doessem com tais resutados, mas eu tenho minhas teorias para essa pesquisa e prometo não usar argumentos protecionistas, do tipo ‘quem não gosta de samba, bom sujeito não é’. Vou expor alguns sinais de que a pesquisa pode até ser legítima, mas merece ressalvas.

Pesquisas de opinião não confiáveis

Primeiro de tudo, não confio em qualquer pesquisa de opinião em que o resultado é baseado em menos que o total do contingente, ou seja, nenhuma pesquisa, pra mim, é 100% confiável. Pensa bem, se você entrevistar 100 pessoas num lugar bem movimentado pra tirar sua conclusão, quem te garante que aquelas 100 pessoas, numa coincidência cósmica, são exatamente o espelho da opinião pública? Isso não é uma urna de eleição, onde a maioria vence, estamos falando de opinião, estatísticas, então, se você não pode falar com todos TODOS, você está produzindo um resultado que não condiz com a realidade. Como aquelas pessoas egocêntricas que acham que algo é bom ou ruim por que seu grupo social disse que sim/não. Não é assim, jovem, você precisa ter uma visão do todo pra opinar.

O país é muito diversificado culturalmente

Um sintoma básico também é que o Brasil é muito grande e muito diversificado. O Samba é uma cultura genuinamente brasileira e chegou a ser institucionalizado como nossa música oficial, mas isso foi pra inglês ver, uma política ufanista de Getúlio Vargas, não deu pra ir de casa em casa garantindo que todos virassem sambistas, além do que, já tem mais de 80 anos isso. E outra, existe o Samba e o samba, existe a cultura que tem matriz africana e veio agregando inúmeros elementos de modo antropofágico ao longo dos anos, e tem o gênero musical. A cultura, você não mexe, mas a música sofre influências.

Grande público consumista

Como eu adiantei no item anterior, a música sofre modificações, umas sutis e naturais, outras gritantes forçadas de barra pra embrulhar e achar um lugar na pratelheira da loja. Se você for perguntar coisas em uma pesquisa, vai se deparar com o famoso ‘top of mind’, aquele primeiro nome que você lembra em determinado assunto (tipo, Vila Isabel-Noel Rosa; Mangueira-Cartola, Xerém-Zeca Pagodinho, etc), nessa, é muito mais fácil a pessoa lembrar de sertanejo universitário (o de raiz está recluso) da rádio e da TV do que do Samba, pois quem curte o Samba não está em todo lugar, costuma ser um público muito fiel, apesar de sua cultura não ser exposta na grande mídia.

Agoniza, mas não morre

O Samba não precisa estar nas rádios (lembre-se, a geração atual que canta samba mais antigo é só mais uma face da mesma moeda comercializada que traz o pop de um lado e a pseudo-tradição do outro), o Samba está aí em todo lugar, em lugares que não são divulgados na TV porque não têm apeo comercial. Quem divulgaria sem poder manobrar a autenticidade da Roda de Samba da saudosa Tia Doca ou o Buraco do Galo, ambos em Oswaldo Cruz? Há muitos outros que quem é de verdade sabe o caminho, então perder espaço midiático para sertanejo pop ou o funk que não se admite funk, como Michael Jackson Anitta não é uma derrocada do Samba, olha há quantos anos o Samba tá aí e por si só move multidões onde se instala. Enquanto outros duram menos que a Lambada.

Curiosidade

Repararam que o Samba perdeu colocações para um tal ‘MPB’? Se isso não é a prova definitiva de que a pesquisa do SESC apenas visitou o lado industrializado da cultura em massa, nada mais é. Se não, em algum momento perceberiam que MPB significa Música Popular Brasileira, ou seja, qual é a música mais popular do que a cultura que nasceu aqui vindo das classes mais pobres e ganhou todas as camadas? É tão genérico que Legião Urbana também se encaixaria no rótulo. Aliás, se estiverem falando genericamente de caras como Chico Buarque, João Bosco e Caetano Veloso, sinto lhes informar, mas os dois têm um pé muito fincado no Samba também, e a lista é enorme, vou ficar por aqui… Por enquanto, pois, você sabe, estamos de olho.

Fonte: UOL.

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Aquela Música: SPC (Zeca Pagodinho)

Sabe aquela história de que tudo acaba em samba? Pois é, esse é um dos inúmeros exemplos. E todos os elementos clássicos para um bom partido alto moderno (como eu chamo a modalidade desde a revolução mercadológica desenvolvida por Martinho da Vila) estão aqui: A informalidade, o tema cotidiano, a experiência empírica (de pelo menos um) dos autores e um climão de festa no boteco da esquina que só aquele arranjo puro, batucado e valorizando o equipamento próprio do Samba consegue.

Note que não há um título oficial, mas onde você procurar, vai estar lá “Zeca Pagodinho – SPC”.

Estou falando de SPC (como se você já não soubesse disso desde o título, mas eu gosto dessas introduções – UIA! – dramáticas, Rá!). Essa canção é tão icônica na carreira de Zeca Pagodinho que, na época que as pessoas se importavam um pouco mais com isso, chegou a ser o nome informal, ou popular, do disco, que tinha o diferente nome de Zeca Pagodinho. É isso aí, a canção é uma parceria entre Zeca e Arlindo Cruz e começou a ser concebida num táxi fazendo trajeto entre o Centro (RJ) e Copacabana.

Segundo Luiz Fernando Vianna, em seu livro Zeca Pagodinho: A Vida que se Deixa Levar, Zeca tinha o costume de encontrar o amigo ‘Da Cruz’ no prédio da Caixa Econômica Federal – onde Arlindinho trabalhava – para irem juntos aos pagodes da vida. Arlindo chegava a ouvir os colegas encarnando neles, falando que eram namorados. Mas o caso é que pegaram um táxi e Arlindo contou a Zeca que uma ex-namorada do boêmio feliz o havia procurado por telefone cobrando, de forma impaciente, uma dívida. Você pode imaginar que dívida era essa, né?

Carinhosamente conhecidos como ‘o gordo e o magro’, os compadres Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho.

Pois é exatamente o que a música diz. A ex-amada abrira um crediário em seu nome para melhorar o guarda-roupas do distinto e ele não ressarciu a moça. Bem, Vianna não detalha, mas posso imaginar o nível de impaciência da mulher ao cobrar a grana de Zeca através de Arlindo, pois pra eles começarem a fazer a canção ali mesmo no táxi, deve ter sido uma tremenda de uma trollagem, ou um impulso de fúria e vingança contra um desaforo que visava difamar o rapaz do Irajá. A coisa fluiu tanto que antes de chegarem a seu destino em Copacabana, já tinham feito o primeiro bloco da música.

Precisei de roupa nova
Mas sem prova de salário
Combinamos, eu pagava
Você fez um crediário
Nosso caso foi pra cova
E a roupa pro armário

E depois você quis manchar meu nome
Dentro do meu metiê
Mexeu com a moral de um homem
Vou me vingar de você (porque)
Eu vou sujar seu nome no SPC (…)

Não sei vocês, mas quando lembro do resto da letra, fico pensando na cara da coitada quando ouviu isso. Duvido muito que ela tenha tido alguma dúvida de que ela não era o alvo do SPC da obra (e sua fúria consequente). Mas como não estou aqui para suposições com ilusões de verdade, só posso exercitar a imaginação e me divertir a cada audição ou quando estou tocando essa num pagode aí da vida. Ah, você é daquelas pessoas que só sabem o refrão? Sem problema, Titio Saga dá uma força:

A fonte para este texto foi um trecho do livro: Zeca Padoginho – A Vida Que Se Deixa Levar (2003 – Série Perfis do Rio), de Luiz Fernando Vianna.

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Por uma alforria das escolas de samba!

Texto originalmente publicado no site www.sidneyrezende.com pelo meu camarada sempre pertinente Hélio Rainho e, por dizer exatamente a filosofia deste blog e essencialmente tudo o que penso sobre a cultura que originou as escolas de samba, não tive coragem nem de me basear, vai na íntegra mesmo, com o aval e o crédito, lógico.

Por uma alforria das escolas de samba!

Semanas após o carnaval, o enredo é o silêncio.
Pronto. Acabou.
Os erros, os descasos, as injustiças, as justificativas veementemente acéfalas passaram.
E o que fazemos de tudo isso?
Calamos, silenciamos?!
Não. Ah…não mesmo!!!

Não estudei Comunicação Social para tão somente dominar a técnica, manusear a ferramenta, executar os recursos. Meu interesse foi pela Comunicação como ciência social. Ou seja, antes mesmo de aprender a utilizá-la, minha alma me impulsionou a questioná-la, “filosofá-la”, pensar sobre a ética em seu uso.

Aqui me intitulam “blogueiro”, e confesso que ainda acho esse termo pejorativo. Parece que ser “blogueiro” é sair por aí irresponsavelmente escrevendo o que se quer onde se pode. Mas entendo que o uso desse termo em um site profissional e dedicado como este seja justamente para reforçá-lo como profissional sério, consciente, e distingui-lo de ser apenas “alcunha”, a ser usada por qualquer um. Uma professora de Antropologia ensinou-me que os comunicadores sociais seriam os “feiticeiros eletrônicos do século XXI”. Juntei a isso a frase-símbolo do personagem Homem-Aranha: “grandes poderes, grandes responsabilidades”. Penso assim: não adianta exercer sem servir.

Ora, se não quero ser “qualquer um”, não posso me dar ao silêncio e me igualar aos agentes de comunicação monopolistas e seus mancomunados que absorvem o carnaval como festa sazonal e, dentro dela, atiram a escola de samba, subjugada a produto de uma festa, como uma laranja podre dentro de um saco.

Não é!

A escola de samba “acontece” o ano todo; ela “apenas” desfila no carnaval. Me desculpem, senhores vendedores de laranja podre! Não queiram nos igualar a seus seus restos de xepa! A escola de samba é alma, é resistência, é quilombo cultural, é ancestralidade. Temos muito mais a dizer do que um enredo fala! A escola de samba “já viu você chorar na hora do seu desfile encerrar”; a escola de samba “é patente, só demente que não vê”…”atrás da escola de samba só não vai quem já morreu”! Insensíveis, dementes e mortos são vocês! Nós, a escola de samba, estamos vivos!

A forma burra, interesseira e usurpadora com que a grande mídia trata a escola de samba tenta nos convencer de que estamos assistindo a uma coisa pequena e oportuna, sem referência nem “representamen”, como um objeto de consumo. É o que Guy Debord chamava de “Sociedade do Espetáculo”. E é por isso que, dentro dessa lógica, a mídia se cala e consente a insuficiência mental e ética dos nossos jurados: porque ambos – mídia e jurados – são, por consenso, distantes e alheios daquilo que exibem e julgam. Estrangeiros de sua própria festa, acreditam que bundas e carroças de cachorro-quente são figuras mais imponentes do que a águia, a coroa, a estrela, o pavão.

Para eles, o dono do carnaval é o piloto, não o crioulo! Eles querem Michael Jackson, não Nélson Sargento! Assim como, um dia, tentaram envelopar o samba africano, crioulo e favelado num modelito americanizado, jazzístico, zona sul, “pra inglês (branco) ver”, substituindo o grito de Zumbi pelo “canto baixinho” de joões&gilbertos sem graça nenhuma, sem respeito por público nenhum, endeusados até hoje por intelectuais burgueses e baba-ovos da vez que cultuam grosserias e destratos.

Reparem como reinventam nossos sambistas aprisionando suas formas em seus conteúdos: o sambista que comenta os desfiles é o animador de auditório do “Esquenta”, nunca o compositor célebre de sambas-enredos dignificadores do ofício. Porque a grande mídia faz a escola de samba estar na TV dos brancos e abastados da mesma forma que a favela, os crioulos e pobres estão no cinema e na novela das oito: com a concessão de só ocuparem o espaço se puderem ser retratados como seres primitivos, inferiores, exóticos, extra-sociais. Ou somente após serem redefinidos e redesenhados segundo seu diapasão.

Certa vez contemplei, num desses camarotes de avenida que me dão náusea, disputados a tapa por alguns colegas de ofício, uma cena desoladora. Um passista negro sambando numa nuvem de brancos abastados, sendo abordado como quem solta um bicho de uma jaula e diverte-se ao vê-lo sacolejar em meio aos nobres. Uns queriam tocar-lhe como quem se acha no direito (tipo “paguei por isso”); outros evitavam o contato físico porque admiravam o “profano” sem almejar “corromper-se” tocando.

Pois assim vejo, genericamente falando, a postura de submeter nossos artistas de escola de samba ao crivo desses jurados: é uma reinvenção de nosso antigo ritual de expor os negros escravos à revelia do gosto peculiar dos senhores de engenho, que lhes davam “nota” por uma boa arcada dentária, “premiando” apenas aquilo que lhes serve ou interessa, sem respeitar a individualidade e o valor intrínseco daquele que está se exibindo.

Com o passar dos anos, o negro afirmou seus direitos, reiterou suas lutas. Mas ainda não se conscientizou de que, na escola de samba, está escravo e cativo ao senhorio dos “emissores de nota”, numa postura subserviente, sendo obrigado a cortejar e cativar uma bancada de nativos estranhos ao seu meio, na situação degradante de implorar uma nota que não vem. Porque os donos do engenho castigam quem eles querem, engrandecem quem lhes convém, e tripudiam da justiça e da sociedade com justificativas que debocham da racionalidade de todo mundo, gargalhando como hienas em seu abusivo exercício de poder.

Não é de se admirar a sua repulsa “à batucada que se espalha nesse chão”!

Lembrei-me do ritual de lavagem do Sambódromo. Embora não sendo agnóstico, me oponho ao misticismo exagerado que privilegia o ritual em detrimento do rito. A avenida não precisa de descarrego com litros de cachaça, nem de lavagem da passarela com terreiros antes dos desfiles.

A verdadeira lavagem de que se precisa é o descarrego da subserviência, das estruturas de burrice, do monopolismo, do desrespeito e da ignorância desses falsos senhores de engenho que chibatam a nossa cultura e a reduzem a números fracionados e notas burras escondidas num papel, cuspidas na nossa cara ano após ano numa quarta-feira de cinzas…

Facebook Hélio Ricardo Rainho
Twitter @hrainho

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Maracangalha: A história de um mentiroso

Eu sempre gosto de falar alguma coisa pertinente à data da publicação de um texto, ligar seus conceitos ao contexto histórico e tals, me faz sentir que o conteúdo ganha mais corpo. Foi assim com inúmeros textos, você pode comprovar só olhando ali no arquivo por meses e anos.

Agora, não mais que agora, me aparece uma história que eu sempre tive curiosidade pra saber (dah, entre todas no mundo, né?) e quando descubro, percebo que ela acontece numa data muito pertinente. Vou explicar no próximo parágrafo.

É que eu fui procurar, na verdade, a letra cifrada de Maracangalha, do sempre admirável Dorival Caymmi e vi que a data em que isso aconteceu foi muito conveniente. Justo no dia da mentira, eu vejo a questão.

Maracangalha

Primeiro, vamos explicar uma coisa, Maracangalha existe mesmo (tipo Tangamandápio, Rá!). É um distrito do município de São Sebastião do Passe e ponto turístico onde há a Praça Dorival Caymmi (em forma de violão, 1972), a Capela de Nossa Senhora da Guia (1963) e a Usina Cinco Rios (1912), e que chegou a produzir 300 mil sacas de açúcar por ano. Guarde essa informação final.

Dorival e Zezinho

Dorival tinha um amigo de infância, Zezinho, que costumava dizer “Eu vou pra Maracangalha…”. O assunto todo surgiu, porque Zezinho contou a Dorival que tinha uma amante, Áurea, em Itapagipe, e com ela, ele tinha 4 filhos. Só que Zezinho era casado com Damiana e ‘tinha’ que arrumar um jeito pra ver sua outra família. Para isso, ele bolou todo um esquema para ter o motivo de saída de casa e a prova, na volta, de que havia sido ‘sincero’ (aham, Cláudia!).

O disfarce

Zezinho se abriu com o amigo compositor, explicou que ele enviava um telegrama a si mesmo onde dizia que sua atenção era necessária em negócios no vilarejo. A partir daí, ele avisava em casa que precisava viajar e estava coberto pela própria lorota. Na volta, ele trazia um saco de açúcar, para comprovar que tinha ido a Maracangalha, pois a Usina Cinco Rios era uma das maiores fontes de movimentação econômica da região. Pronto, o ‘álibi perfeito’.

A música

O samba foi feito num fôlego só, assim, de uma vez, só porque, naquela tarde de julho de 1955, Dorival tinha transformado em palavras seu encanto pela sonoridade do nome do pequeno distrito, assim como a inusitada história que o levou a ficar com essa ‘fixação’ por Maracangalha. O resto, como diz o clichê, é história e a canção toca em carnavais, rodas de samba e, assim como muitas do compositor baiano, parecem que sempre existiram tamanha a naturalidade com que nos faz viajar em seu universo. Ah, a Anália era uma musa inspiradora pela veia musical e cultural, mas isso foi liberdade criativa do autor.

Conclusão

Dorival agradece a Zezinho pela ideia e eu agradeço a Dorival pelo ensejo do artigo. Em homenagem ao dia 1º de abril, um grande abraço a Zezinho, por ter motivado uma das canções brasileiras mais conhecidas com uma história verdadeiramente de agente de vida dupla.

Fique com uma pala da história e da canção do próprio autor.

Fonte: Caymmi, Stella. Dorival Caymmi. O mar e o tempo, São paulo, Ed. 34, 2001, p. 329.

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Desmanche das Equipes de Escolas de Samba

Paulo barros saiu da Unidos da Tijuca para a Mocidade Independente de Padre Miguel.

Mestre (de bateria) Ciça está fora da Grande Rio (possível contratação de Mestre Casagrande, da Unidos da Tijuca). Andei lendo que a presidência da escola de Caxias não gostou de Ciça ter feito a bateria se virar de costas para a cabine de onde saíram seus ‘não 10′, mas deixa quieto.

Comissão de frente da Unidos da Tijuca indo para a Grande Rio.

Comissão da Grande Rio direto para a Mocidade.

Diogo Jesus da Portela (mestre-sala) foi para a Mocidade fazer par com Lucinha Nobre.

MS e PB Squel e Raphael são substituídos por Marquinho e Giovana, que retornam da Vila Isabel.

Wander Pires fora da Imperatriz (por ter cantado rouco, após ter cantado em uma escola de São Paulo e outras confusões – como sempre). Talvez, esteja voltando para a Mocidade.

Rosa magalhães fora da Mangueira (possível aposentadoria) e, cogita-se por alto, uma chance de retorno de Cid Carvalho.

Alex Souza, carnavalesco, permanece na ilha (ao contrário do que foi noticiado antes).

Assim como elementos que marcavam a identidade de escolas (como a marcação de resposta da Portela ou os agogôs no Império Serrano), o que dá certo em um ano com um, outros querem usar no ano seguinte e isso não é julgado como falta de criatividade, mas deveria. Pois o mérito de uma escola deveria ser só dela, as outras que acompanhem, assim enriquece o processo e o carnaval é que ganha.

Agora, transformar a fÓrma de desfilar de cada escola em uma fÔrma, fica como está, tudo engessado, com cara de mais do mesmo e quando buscam algo fora, é algo que descaracteriza o carnaval. Parece a banalização do futebol, por exemplo. Beijadores de camisa que lambem escudos diferentes e juram amor eterno a mais de um clube por temporada. Tem algo errado com isso e o destino só pode ser a pasteurização… digo, continuar a ser a pasteurização.

É comum, sempre foi, pessoas trocarem de agremiações, mas, me parece, que isso era meio que exceção e não regra, há anos. Hoje, é só acabar um carnaval e as escolas se desmancham mais rápido que seus carros após a dispersão. Nem preciso falar na bacunça que fica, como já pudemos ver, só falando em ‘puxadores’, como Dominguinhos do Estácio na Viradouro ou Imperatriz, Paulinho Mocidade na Imperatriz e essas coisas.

Sempre vai ter a galera do ‘pô, mas a pessoa tem que ir mesmo atrás de melhores salários e prestígios’, mas vou te dizer o perigo cultural que esse pensamento esconde: Você quer apostar que ano que vem as pessoas vão confundir Mocidade com Unidos da Tijuca? Ou Mocidade com Portela? Não, não pelas cores ou pelo samba cantado, tô falando do dia seguinte ao desfile, aquela hora que você lembra de alguma figura emblemática de uma escola e não vai associar logo à escola nova que essa pessoa está.

Esse é o perigo, a descaracterização. Já dramatizo o dia em que vão colocar guitarras no carro de som e vão dizer ‘desde que não mexa na estrutura do ritmo, tá valendo’. Não deixo de ficar curioso com a direção pra onde o gigantismo e pasteurização das escolas do carnaval de sambódromo vão levar o modo de se produzir um desfile. Sempre falo aqui, ironicamente, os turistas vêm pra ver um espetáculo genuíno, mas acabam vendo algo que até eles fariam, pois não tem mais samba nessas escolas.

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Desaforos geniais: Amor Proibido (Cartola)

Não estou aqui pra julgar ninguém e está muito longe de mim fazer especulações sobre o que não tenho conhecimento, mas, vá lá… Preciso fazer um exercício de divagação acerca de uma das frases mais sutis que já ouvi numa canção. Digo, sutil porque ela é um tremendo de um desaforo, um desabafo, mas com um veneno potente inversamente proporcional à doçura da melodia.

 

Começam as conjecturas

Amor Proibido, de Cartola é daquelas canções que não dão muita evasiva, é um relacionamento que acaba pela descoberta, do próprio – ou melhor, do personagem que ‘conta a história’ na música – e parece ter sido enganado por uma mulher que, pelo jeito, se refestelou em seus amassos enquanto fazia o mesmo com algum camarada do poeta de Mangueira. Ponto. Agora, se ele errou inocente, se isso esconde um cinismo de colocar a culpa na mulher tentadora e o escambau, eu não sei, vamos nos ater ao que ele diz e não ao que ele pode ter dito, ok? E é nessa hora que eu chego à cereja do bolo.

A poesia que ofende pela beleza

O rapaz vai se lamuriando por ter sido enganado, magoado e usado, diz que sempre vai lembrar da besteira que foi levado a cometer até explicar com palavras mais etéreas como se sentiu. Observe o trecho que segue:

Fácil demais
Fui presa
Servi de pasto
Em tua mesa

Depois, ele complementa:

Mas fique certa que jamais
Terás o meu amor
Porque não tens pudor

Ou seja, ”pasto” e “pudor”… Caras, palmas pro Cartola, ele soube chamar uma mulher dissimulada de vaca e sem vergonha de uma forma tão bonita que parece até que não lhe doeu, mas serviu de propósito para destilar sua acidez em mais uma canção, com o talento que lhe era peculiar em falar bonito.

Confira a canção e toda a beleza inerente à obra.

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Paulo Barros na Mocidade Independente de Padre Miguel: O que isso significa?

Paulo Barros deixa a zona de conforto em busca de novos desafios e maior liberdade. Quem nunca?

O que já estava no ar se concretizou. Depois de algumas especulações e respostas vagas, Paulo Barros saiu mesmo da Unidos da Tijuca. Mas, ao contrário do que aconteceu com Rosa Magalhães na Vila Isabel, 2013, não houve algo que parecesse uma situação de insatisfação. Paulo já havia afirmado em entrevistas durante esse carnaval que não sabia qual seria seu próximo passo, sua próxima surpresa, mas queria sair da zona de conforto. Isso já ele conseguiu, saiu da escola que ele mesmo ajudou a transformar numa grande e competitiva agremiação (e que projetou seu nome, em simbiose), para uma que já foi uma gigante, mas que vem amargando resultados inexpressivos, quando não na temível ‘briga pra não cair’.

Uma ele já conseguiu, a liberdade por parte da escola, para desenvolver enredos autorais, desejo antigo do designer de desfiles. Além de enredos patrocinados, Paulo também conseguiu se desguiar de outro desconforto, mas a médio e longo prazo: Os truques tecnológicos que já não surpreendem mais como antes, pois você já sabe que ele vai importar alguma gracinha pra comissão de frente ou carro de alegoria viva. Ou seja, corria o risco de ficar manjado (UIA!). Tá certo que seu nome já traz uma espécie de ‘puxação-de-saco’, elogiar o genial Paulo Barros é fashion, quem o faz é legal e entende das coisas. Mas agora, as coisas estão caminhando pra uma mudança interessante.

 

Renato Lage, já de alguns anos pra cá tem feito grandes trabalhos no Salgueiro, sempre entre as campeãs.

Se por um lado a Unidos da Tijuca vai ter que se reinventar depois de tantos anos tendo a estrela dos designers, Paulo também vai ter que renovar seu repertório, pois, não tem nada a ver levar o estilo tijucano para Padre Miguel, embora a própria Mocidade tenha sido pioneira com desfiles tecnológicos no início dos anos 1990s, quando Renato Lage era a estrela da vez com seus carros iluminados, muito neon, muita água e todo medo que isso trazia quando havia o menor risco de a Mocidade entrar na avenida de manhã, perdendo muito de seus efeitos visuais. Aquela também foi uma fase que prometia, tinha toda aquela coisa de ‘aguardando novo milênio’.

 

Bem, acho interessante que um nome de destaque do carnaval saia de sua zona de conforto em busca de novos desafios e novos ares. Por curiosidade, o já citado Renato Lage – que já passou pela Unidos da Tijuca, sendo campeão em 1980 – foi muito bem sucedido na Mocidade (campeão em 1990, 1991 e 1996) e hoje está no Salgueiro, já tendo levado o título de 2009. Ou seja, os holofotes deixam de lado o nome da moda, mas ele acaba se saindo bem. Lage, desde que voltou para o Salgueiro (após ter sido campeão no Império Serrano, Acesso 2008), nunca esteve fora do sábado das campeãs.

O inesquecível Chuê, Chuá, As Águas Vão Rolar, Mocidade 1991, de Renato Lage.

Particularmente acho muito interessante essa mudança, e torço pra que novos rumos sejam adotados, descobertos, pois aquela coisa decorada de já saber que vai aparecer, só não sabendo de que jeito é meio chato. O desfile passa e você se preocupou tanto em achar algum detalhe capcioso que não curtiu o momento. Digo você, porque eu mesmo nunca estou em casa nessas horas, geralmente estou lá pelo Centro no calor do carnaval de rua. Em tempo, Unidos da Tijuca anuncia Alex de Souza para carnavalesco. Alex acaba de deixar a União da Ilha. Tá que nem técnico de futebol, né? Acaba a temporada, todo mundo renegocia e vão fazendo essa dança das cadeiras ad finem temporum.  

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