A mídia é excludente com o negro

Reparou que o título não tem interrogação? Então, não é uma pergunta. A tal da polêmica do Oscar só estourou agora, mas é uma queixa do povo preto há tempos. Tudo bem, eu sei que a cultura racista de lá é diferente daqui, mas só por dados que não influenciam o fato de ser a mesma m… na essência fétida. Quer ver um exemplo? Independente das pessoas que vêm dar seu parecer raso, idiota e debochado do tipo ‘negro reclamar de racismo é racismo reverso’, temos várias outras evidencias pra informar, minimamente, aquele coleguinha que é racista por inércia do senso comum. Já aqueles que se contentam com o racismo porque conseguem se esquivar, se auto-declarando não negros ou o próprio branco que está contente em fazer parte da minoria que domina/se parece com quem domina.

 

Ainda vale ressaltar que os números são desproporcionais, por exemplo, a política escravista nos EUAses gerou uma guerra (Secessão, a famosa Guerra Civil de lá) que dividiu o país, teve o conflito urbano por direitos civis, mas lá, existem mídias inteiras pra negros. Eu, a Patroa e as Crianças, Um Maluco no Pedaço, Elas e Eu, Todo Mundo Odeia o Chris e muitos outros produtos do entretenimento não são só protagonizados por negros, são produzidos, nos bastidores deles, nos filmes… A apresentadora mais poderosa de lá é negra, nos filmes, um negro é presidente, médico, deus cristão e muitas outras funções que aqui, no Brasil, não temos a menos que seja um mote da produção. Por exemplo, no Auto da Compadecida, Jesus aparece negro porque o texto pedia esse contraponto entre o senso comum eurocêntrico e a lógica étnica. Isso porque aqui, somos mais de 50% da população, ou seja, mais de 50% da audiência e nos EUAses, negros são pouco mais  de 10%. Aqui, quando temos 20 figurantes brancos e um negro, as produtoras acham que estão fazendo um lindo trabalho de inclusão ‘somos todos humanos’, quando é só sair na rua e ver que essa proporção só existe no condomínio fechado onde eles vivem e não saem nem pela internet pra pesquisar e aprender um pouco da sociedade que estão achando que retratam na tela. Hipócritas vendados e vendidos.

 

Vamos lá, Solange Couto, sabe, a eterna Dona Jura da novela O Clone? Pois é, ela que já foi “mulata” (argh!) do Sargentelli e seguiu carreira de atriz, tem mais de 30 anos de carreira e só ano passado, durante a campanha ‘senti na pele’ no mês da consciência negra, a atriz percebeu que de seus 37 personagens, apenas 7 não eram estereótipos do negro pobre e sem núcleo familiar. “É triste”, contou, fazendo a ressalva de que sempre interpretou com o coração, e não tinha se dado conta desses números.

Outro que veio a público e deu seu recado foi Antônio Pitanga, no Vozes do Mundo, onde, em entrevista, o ator fala que acaba virando um ‘ator negro’ e não um ator, pois sempre é relegado aos guetos da novela e perde espaço para o próprio negro mais jovem, enquanto fagundes, tonys e tarcisios sempre aparecem como os felizes e bem sucedidos pais, avós, empresários, etc. Até família eles têm, enquanto o negro é pano de fundo. O empregado sem família, sem procedência que está lá pra ser o malandro mulherengo, a empregada que só abre portas e serve café enquanto ouve atrás das portas. Até aparecem atores negros pra defender o senhor da casa grande, mas como criticar um irmão que depende dessa miséria na carreira que escolheu. Não julgo quem precisa daquele aqué lá, infelizmente, os trabalhos artísticos dependem de uma mídia centralizada, ou a independente que precisa captar investimentos, mas leva mais tempo e nem todos têm o fôlego e a grana.

 

Mas vamos lá pros EUAses e ver o que atores negros já falaram sobre racismo na mídia de lá, que não é de hoje essa conversa, perceba.

Danny Glover

Ainda em 2008, o eterno Roger Murtaugh de Máquina Mortífera, revelou a dificuldade em angariar fundos para por em andamento seu projeto de filme sobre Toussaint L’Overture, herói haitiano na luta contra a escravidão em seu país no século 18. Produtores negaram Glover com o argumento de que não funcionaria no mercado, por não ter um herói branco.

 

Samuel L. Jackson

O ator já deu entrevista falando sobre como o racismo é mais abordado falando-se no passado e não no presente, de forma direta, de modo a realmente trazer para a luz esse debate. Um detalhe, Jackson é um dos atores negros boicotados pela academia este ano. Lembrando que recentemente, Jacson foi confundido com Laurence Fishburne por um apresentador de TV e deu-lhe um sabão para todos aprenderem que negros podem ter traços em comum, assim como todas as etnias entre seus integrantes, mas não somos todos iguais.

 

Henry Lennix

O ator afirma que o filme O Mordomo da Casa Branca trazia tanta imprecisão histórica em seu roteiro que desistiu de fazer parte do trabalho. Ele alegou que aquilo era uma retratação errada da história e da participação do homem negro na história da Casa Branca. Disse que não leu mais que cinco páginas de roteiro e desistiu.

 

Steve Harvey

O ator e apresentador disse que a mídia por lá é mais racista que o país em si, pois, a eleição de Barack Obama para presidente já deveria ter provado que a população mudou, mas coisas como uma atriz ser a primeira mulher negra a protagonizar uma série dramática, caso de Kerry Washington, em 40 anos, chega a ser até loucura.

 

Lonette Mckee

a atriz e roteirista já trabalhou com Spike Lee e já declarou que as dificuldades do diretor em captar investimentos vem de seu ativismo pela população negra e seu discurso sem papas na língua, oque incomoda aos empresários brancos donos da mídia. A saber, Lee, já anunciou que vai boicotar a cerimônia pela ausência de negros entre os indicados, assim como Will e Jada Pinkett-Smith. Will Smith, aliás, outro excluído das indicações deste ano e de todos os outros. Acredita que enquanto tem gente chorando pro Leonardo Dicaprio ganhar uma, Smith nunca nem foi nomeado? É disso que a gente tá falando.

 

Regina King

A atriz se disse impressionada com o Emmy. Até 2008, de mais de 1000 nomeações à premiação, só 53 não eram brancos. Regina fez duras críticas a esse sistema de exclusão da mídia.

 

Terence Howard

O ator comentou sobre a dificuldade de George Lucas em arranjar quem produzisse seu filme Red Tails, protagonizado por negros e com um vilão branco. Lucas, criador de Star Wars e Indiana Jones e branco, encontrou dificuldades com os estúdio e bancou 30 milhões de dólares do bolso pra botar o filme pra frente. Agora ele aprende nosso drama, porque em suas produções nunca aparecem mais que um ou dois negros.

 

 

Janet Hubert

A eterna Tia Vivian já soltou o verbo também sobre a exclusão do negro em Holywood. Se disse enojada com o racismo que exclui o negro das produções e das vistas da audiência. Disse que não se sente representada ao olhar para as telas.

 

Shonda Rhimes

A toda poderosa escritora, autora de How to get away with murder, Scandal e Grey’s anatomy, já questionou a ausência de negros nas telas e seu parecer foi de que o problema da pouquíssima quantidade de negros não é ligado ao talento, mas ao sistema que limita o acesso. Como ela é uma mente por trás das câmeras, com a caneta na mão, ela pode dizer de carteirinha e diz mesmo: “Alguém precisa resolver isso (…) Vale a pena, veja minha audiência”.

Fonte: Monet

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O futuro do carnaval de sambódromo carioca

Candeia escreveu um livro chamado Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz. Isso lá na década de 1970, há quase 40 anos. Naquela época ele já tinha mandado uma carta-manifesto junto de outros integrantes da Portela denunciando a comercialização das escolas de samba e a descaracterização cultural que as mesmas já vinham sofrendo. Então, com base nessa ideia – que é a própria ideia do blog, não é segredo pra ninguém minha admiração por Candeia e seu ativismo cultural negro – vou fazer um exercício de divagação sobre o futuro do carnaval no que se fala em questão de sambódromo, já que falando de rua, a coisa é mais livre e mais independente. Enfim, vamos ao papo.

Primeiro, temos que falar sobre a raiz do samba em foco: Escolas de samba eram para servir de resistência cultural diante da sociedade que exigia que o negro manifestasse sua cultura de maneira controlada pelo governo. Assim, para não ser mais perseguido ou agredido, o negro precisava de uma licença pra colocar seu bloco na rua e esse tipo de manifestação foi se desenvolvendo até que Ismael Silva e a turma do Estácio, criaram um rancho, Deixa Falar, e este serviu como escola de samba. Não só por ser próximo a uma escola ‘de verdade’, mas pra ser o reduto onde se passaria o conhecimento dos mais velhos pros mais novos, dos mais conhecedores para os mais novatos. Faço, particularmente, até a piada de que a Deixa Falar foi a primeira escola de samba, em termos de conceito cultural, mas na verdade era um rancho. E nesse ponto, escolas de samba já não o são. Até algumas possuem esse viés educativo, mas as maiores mesmo só se preocupam com patrocínios e arrecadações. Não vou julgar isso, assim como o tubarão precisa nadar, o ser humano no capitalismo precisa pagar as contas. O problema é que isso está sendo feito de maneira desordenada, ironicamente.

Veja bem, sempre cito aquele episódio de Os Simpsons pra ilustrar: Um dia, a família amarela montou uma quadra de tênis no quintal e virou piada na cidade por terem tudo, mas não saberem jogar. Em um determinado momento, Homer e Lisa contra Marge e Bart, ficam tão obcecados com a competição que substituem parceiros por tenistas profissionais, até que eles mesmos não participam mais, deixando tudo muito competitivo, mas nada divertido ou didático. Só no final, percebem que deixaram pra trás a graça do que os fez montar a quadra. Escolas de samba são assim. O negro era o artista, tinha até a ideia de que ele tinha 4 dias pra ser rei na cidade, até os ricos paravam pra ver. Aí, a intervenção do governo obrigou o sambista a se registrar, condicionou suas letras ao ufanismo e puxação de saco de um país utópico que tinha escravizado nossa gente até algumas décadas antes e o samba ‘vagabundo’ mesmo, tinha virado clandestino

 

O negro deixou de ser o artista nas décadas seguintes, pois em busca de cada vez mais espetáculo pra agradar turista, foram chamando profissionais de outras áreas. Por exemplo, a expressão carnavalesco até que faz sentido, mas se você parar pra pensar, não tem lógica. Carnavalesco é algo relacionado ao carnaval, ou seja, qualquer coisa feita para a festa é carnavalesca. É o mesmo que chamar um técnico de futebol de ‘desportivo’. O que esses profissionais fazem é design. Os designers agem como diretores de cinema, comandam tudo, trazem o tema, a sinopse e vão comandando todo mundo para realizar seu projeto do jeitinho que desenhou. Assim, o negro não toma mais decisões, pois os designers, 99% brancos, vêm de outra classe social pra realizar seu sonho de espetáculo, mas o negro, o artista, a costureira, o passista que criou isso tudo, vira só uma mão-de-obra, só uma ferramenta no meio da engrenagem. Você consegue imaginar? Não? Pense assim: E se colocassem um japonês pra governar a Espanha? Não faria sentido e sempre pareceria que ele iria puxar a sardinha pro seu próprio lado a qualquer momento, né? Pois é.

Tem a questão também da qualidade. Não é porque uma coisa é vendida e industrializada como um produto na prateleira que ela tem que ser necessariamente ruim. Mas é. Ficou. As melodias corridas dentro de um andamento quase dance, acabou a cadência e todos parecem o mesmo. De um ano pro outro, você nem lembra mais a música. Não se canta mais o samba de terreiro pra esquentar a escola, só sambas dos anos anteriores, aqueles que você só lembra se freqüentar a escola, porque nem os intérpretes devem lembrar. Se uma sacada dá certo em uma, todas fazem igual. É o jogo de futebol que de tanto medo de partir pra cima dos times, acaba todo mundo naquele joguinho burocrático de empate, sem arriscar por medo do outro sair na frente. Chato.

 

Nisso, também entra a mídia, a globo detém os direitos exclusivos de transmissão, mas só pra tirar a vez de outras emissoras, pra blindar a audiência. Esse era o motivo de a emissora não passar mais o desfile das campeãs, cedendo para outra emissora, geralmente, pra concorrer com a que estivesse no segundo lugar. Não dando certo ultimamente, a emissora nem cede, nem usa a transmissão. Simplesmente passa num canal fechado do mesmo grupo. Até as escolas nos desfiles oficiais já estão limadas, pra não deixar de passar sua grade gessada, a platinada só passa a partir da terceira escola de cada dia, passando as duas primeiras em forma de compacto quando o dia amanhece. Tá pouco respeito ou dá pra perder mais?

Então, amizades, fica assim, banaliza-se a cultura, vende-se a mão-de-obra, usurpa-se o protagonismo do dono da cultura e a cereja do bolo é aquela bizarrice de exibição de cada samba na programação da globo. Poucos segundos de samba, demonstrando o quanto se importam com o produto que transmitem. O futuro do carnaval de sambódromo – e todas as suas frentes – é a anulação da cultura, é se plastificar tanto que ser cabide de emprego de subcelebridades vai ser a única função com alguma real valia pra alguém. É como servir lasanha congelada requentada no microondas pra um italiano e achar que ele não vai perceber a diferença disso pra um prato legítimo feito ao natural.

 

Carnaval era confete e serpentina, hoje, virou espuma química.

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Hoje é dia de Samba, bebê!

Metalinguagem é aquela parada maneira que um autor pode escolher usar em sua própria peça pra falar dela mesma. Por exemplo, quando um filme faz alguma menção de que sabe que é um filme. Eu explico melhor: Naquele clássico episódio de Chaves em que Chapolin vai parar na vila, Chaves, num determinado momento, olha para a câmera e diz: “Gosto dele como se fosse eu mesmo”. Pronto, você já sacou, né? Mas essa introdução toda parece lenga-lenga, mas é só pra falar do Samba (oh, que surpresa!) e sua própria característica de metalinguagem.

Vamos lá, o samba, muito comumente, é citado em muitas canções, quando compositores se valem de suas próprias letras pra falar nada mais do que do veículo cultural que está ali (no caso, as músicas) e é nessa qualidade que eu venho mencioná-lo. Veja bem, há exatos 4 anos (2011, dah!), eu tinha uma missão que envolvia nervosismo, ansiedade, quebra de rotina e… pra falar a verdade, dependendo disso, foi quase um dia normal na minha vida. Rá! Mas não foi. Eu chegava ao topo de uma escalada que começou, a bem da verdade, pelo menos, um ano antes. Explico, é que conforme a faculdade de Comunicação Social avançava, mais se falava no temido TCC (trabalho de conclusão de curso ou a famosa monografia). E nada de sair aquele milagre de só apresentar um trabalho e receber a nota pra passar.

Não veio aquilo que eu achava que seria um milagre de natal, mas voltando um pouco, eu tinha feito uma matéria que servia como um ensaio para o TCC, onde escolhi tratar de jornalismo colaborativo, já que era algo que eu já fazia há alguns anos, colaborando pra sites nerds, colunas próprias onde cabia espaço e até uma coluna fixa sobre comportamento urbano num site de utilidade pública (R.I.P São Gonçalo em Foco – de onde eu descaradamente ‘chupinhei’ o complemento do nome deste blog). O que aconteceu foi que a professora da vez aconselhou que falássemos de um assunto que nos interessasse muito a ponto de não desanimarmos, então, o que poderia ser mais interessante pra um aluno de jornalismo do que falar de jornalismo? Seria uma metalinguagem e tanto, né? Pois errei garbosamente. Eu praticava o jornalismo, mas vi que teria que me aprofundar em questões que me eram muito intuitivas.

Sendo assim, depois de passar raspando na matéria, desencanei do assunto e fui me sitraindo entre facul, trabalho e os pagodes da vida. Até que numa feliz coincidência, quando fui chamado – em âmbito familiar – de ‘pesquisador’ por não só buscar músicas pra aprender a cantar e tocar, como mergulhava nas histórias de artistas, grupos e tals. Nessa hora, decidi que o samba era a tal coisa, aquele quê que me faz bem e que eu falaria por horas – e folhas – sem cansar. Deu um trabalho ter que formatar toda essa paixão em um trabalho metódico, afinal, não daria pra apresentar uma crônica minha pra uma banca, né? Passei seis meses só adquirindo livros, lendo e assistindo nas interneTES da vida até que chegou mesmo o último semestre, quando o trabalho ia ser pra valer e não só a festa que estava. Escolhi uma orientadora de fé, que não à toa, era a professora que eu mais confiava pra me por nos eixos de formatação e, diante de sua relutância por não entender do meu tema, combinei com ela “só me passa as regras, de conteúdo eu entendo”. Fomos trabalhando pelo período todo até a apresentação, onde fiquei surpreso que meu trabalho foi classificado como ‘mais antropológico do que jornalístico’ e isso foi uma crítica, academicamente, mas me caiu como um elogio, como uma das professoras da banca insinuou, deduzindo que pode ter sido minha intenção velada e inconsciente o tempo todo.

Eu só ri, porque era algo surreal demais, ser um dos poucos de minha família a concluir uma faculdade, fazer isso falando do que mais amo, da nossa cultura e ancestralidade e o mais legal: NO DIA DO SAMBA. Como eu publiquei assim que cheguei emocionado em casa, doido pra espalhar a notícia: HOE É DIA DE SAMBA, BEBÊ! Como eu falei, o samba é uma metalinguagem dele mesmo, da vida e da nossa sociedade, especificamente. Como apresentei, ele foi modificando a sociedade e se modificando em resposta a isso, daí, temos o gênero musical rentável, mas também temos uma cultura fora da mídia que ferve praticamente todo dia da semana em todo canto. E a maior de todas as metalinguagens é quando a gente fala da metalinguagem do samba na sociedade no dia nacional do samba.

formatura jornalismo

Chega, parei por aqui, porque já nem sei mais o tamanho do texto, apenas soltei os dedos no velho teclado e deixei a emoção fluir. Enfim, dia 2 de dezembro, pra mim, é muito mais do que o dia do samba, é quando Candeia falou diretamente pra mim: “E cante samba na universidade e verás que teu filho será príncipe de verdade”. O samba é a metalinguagem da minha vida.

E também, óbvio, vou lembrar de Agoniza, mas não morre, que foi epígrafe do meu TCC com sua metalinguagem sobre o próprio samba e a frase irônica, de quem viu tantas vezes o samba ser dado como morto pra mídia, mas sempre sendo “socorrido” antes de fecharem o caixão.

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Axé! Onde se pinta o respeito, se apaga a intolerância

Pra começar, acho o termo tolerância/intolerância um tanto quanto bobo e desmotivador. Porque acho que ou você tem respeito ou você não respeita, independente de agir incisivamente contra o coleguinha ou apenas desprezá-lo. O tal desprezo até poderia ser mais lucrativo, já que não envolve apanhar ou ouvir besteiras de preconceituosos, mas vai chegar uma hora que a gente, enquanto sociedade, vai precisar interagir, como em ambientes de trabalho, estudo, lazer, comércios, etc. Então, acho que apenas tolerar não nos faz evoluir enquanto sociedade, apenas mantém as diferenças escondidas, criando julgamentos e isolando grupos. Como eu falei no outro texto, tolerar, você tolera um peido no coletivo, porque não tem jeito, mas respeitar é outra coisa. Exige humanidade e cidadania. Sou o idealista do bom convívio, guardadas particularidades de comportamento para os ambientes e grupos que estejam de comum acordo com isso ou aquilo. Por exemplo, eu não vou querer encher a cara de cerveja na sala de espera do médico assim como não vou achar muito adequado o vizinho passear com o cachorro na areia que eu deito na praia, e que já não é bem cuidada nem por pessoas. Cada coisa em seu momento, seu lugar, etc.

Kailane Campos, carioca de apenas 11 anos, já sofreu com essa selvageria covarde que chamamos bonitamente de ‘intolerância’. Como eu digo, você não vê igreja atacada, mas uma menina de 11 anos leva uma pedrada na cabeça, vinda de um fanático ‘cristão’. Segura no axé, Kai, estamos todos nessa luta.

Dito isto, gostaria de lembrar que já escrevi aqui mesmo, no ano passado, sobre o 21 de janeiro, o dia internacional contra a intolerância religiosa. Deram esse nome esquisito de intolerância, mas eu o tolero (eita!) porque já é um começo. E essa data nasceu de sofrimento e dor, quando, a 21 de janeiro, do ano 2000, a yalorixá Gildásia dos Santos, a Mãe Gilda de Ogum, sofreu violência física e moral (chegou a ser matéria de uma Folha Universal como praticante de charlatanismo) por sua religião. Ela viria a falecer antes que o processo por ‘intolerância religiosa’ tivesse um desfecho e a data ficou como marco de combate ao preconceito religioso, já que a própria constituição federal nos permite liberdade de culto religioso. E nem adianta eles falarem cagando regra sobre o que é e o que não é religão. Isso é uma infantilidade tão besta que não dá vontade nem de rebater, apenas debochar. Mas, bem, esse sou eu, tem gente que é muito mais envolvida com as religiões de matriz africanas (sou umbandista, mas não sou filho de casa nenhuma, por orientações do lado de lá).

Sou do axé e ando com Seu Zé. Quem se esconde, justifica o preconceito.

Sou do axé e ando com Seu Zé. Quem se esconde, justifica o preconceito.

Agora, vamos falar de coisa boa, vamos falar de tekpix, não sei quem foi essa pessoa linda que criou essa campanha ‘Onde se pinta o respeito, se apaga a intolerância’, mas já quero abraçar e agradecer pela linda ideia – e atitude, lógico. Já tinha ouvido falar, mas vi com meus próprios olhos que algumas daquelas falácias fanáticas fundamentalistas cristãs foram cobertas com o mais puro amor à cultura, à ancestralidade africana e à cidadania. Onde havia “só Jesus expulsa demônios das pessoas”, agora tem ‘respeite o meu axé que eu respeito a sua fé’. Isso, naquele muro gigante de comprido que beira e cerca a linha férrea dos ramais Santa Cruz/Japeri. As que vi foram nos bairros de Bento Ribeiro, Marechal Hermes e Ricardo de Albuquerque (onde dei um click todo orgulhoso da façanha de não sei quem, mas sei que admiro).

É assim, eles criam seus fantasmas, bruxas e demônios desde a era medieval, profanam templos afro, quebram esculturas, apontam e julgam como se a religião afro fosse o inimigo. Automaticamente, presumo que na deles não há defeito, já que outra cultura é o que deveria ter ali. Como sempre falo, seria como Os X-men (Marvel Comics) fossem apontados pela DC Comics como os demônios inimigos do Superman, astro maior da editora. Percebe o absurdo? Então, eles se deixam orientar por seres humanos iguais a eles, que interpretam livros escritos por seres humanos iguais a eles atribuindo algum poder divino sobre essas pessoas, não questionam que não tem mulher iluminada pelo deus deles, além das que pariram seus homens divinos, mas é candomblé que é o mal sobre a Terra? Ah, vá, né? Eu respeito todo mundo – quem me conhece sabe, e até diz que eu sou bobo por isso – mas se me chamar de ‘macumbeiro’ com aquele tom de desprezo, vou chamar de crentelho e quero ver me fazer desdizer.

Muito orgulho dessa campanha. Adoro atitudes positivas e afirmativas.

Muito orgulho dessa campanha. Adoro atitudes positivas e afirmativas.

Feito o desabafo, vamos de conclusão porque se não a matraca virtual não para e você vai ter que ler uma bíbl… uma enciclopédia de tanta falação. Enfim, religiões de matriz africana são muito mais antigas que qualquer protestantismo, cristianismo ou fanatismo euro-descendente, então, já podemos concluir que essa de difamar nossa praia é pra que a deles ganhe público através do medo, saca, aquele lance de compensação/castigo. Quando você entra nessa, vai achar que um tropeço é um teste divino e que o tropeço do colega é punição por ele pensar diferente do que você achou que deveria ser, mas que não tem direito nenhum, nem de julgar, nem de tomar conta. Vamos que vamos e que essa atitude de pintar o amor próprio religioso seja botão de partida pra mais outras idéias, porque defender o nosso é resistência, é amor, é força, é poder e toda palavra de ordem que nos mantenha na direção da igualdade e do respeito.

Um site bem legal que achei enquanto procurava elementos pra agregar neste texto é o Dossiê Intolerância Religiosa. Lá tem bastante coisa sobre legislação, cultura, denúncia e até orientações, do site do Senado, sobre como agir diante da violência religiosa dos fanáticos, como esse quadro abaixo:

 

Axé!

 

ATUALIZAÇÃO

Pra quem quiser dar uma olhada mais detalhada, aqui está o álbum de fotos da iniciativa.

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Cabelo crespo é bom… e o Bombril?

 

Qual a diferença entre o poste, a mulher grávida e o Bombril?

O Poste dá luz em cima, a mulher dá à luz embaixo…

–E o Bombril, Saga?

Bem… tenho certeza de que você não entendeu nada com essa piada velha e levemente modificada, né, saganauta? (saga o quê?!). Enfim, vai fazer sentido lá na frente, mas você tem que confiar em mim. Confia? Confia?! Prossigamos.

Essa é uma questão que eu tenho de tempos em tempos, como muitas outras que eu já falei e vou falar por aqui assim que organizar os pensamentos de maneira inteligível e não com a verborragia incontida que dá quando o brainstorm dispara. Além de minha matraca tagarela não sossegar muito, a mente também não facilita, meio que ligada no 220v. Então, vou lançar uma divagação que tive outro dia e tive que lançar no primeiro sinal de que meu cabelo seria mais uma vez alvo de ofensas pra vagabundo se sentir superior.

crespo

Alguém mais já reparou que o tal do bombril (esponja de aço em geral) NÃO SE PARECE com o cabelo crespo? Quer dizer, acredito que a popularização da ofensa tenha se dado muito mais pelo trocadilho ‘cabelo bom/cabelo bom(bril)’ do que pela semelhança física. Ok, ainda não melhora em nada a intenção dessa falácia, até porque ainda é objetificar nossa textura, mesmo que não tenha nada a ver visualmente. É como chamar um carro de banheira: Não parece, mas nega sua ‘identidade’ e é o mesmo princípio de nos chamar de macacos ou coisa do tipo. Lembrando que a escala de valor social do cabelo determina o bom e o ruim de acordo com o padrão europeu do pente. Inventam um pente pra eles, logo, onde esse pente não funcionar da mesma maneira que pra eles, ali será atribuída a ofensa que inferioriza. Se África tivesse dominado o mundo como os europeus fizeram, o pente garfo é que seria a lei e não a revolução, saca?

E tinha também o pente flamengo, que eu achava que deveria ser vermelho e preto por motivos óbvios. Não era. Nada a ver.

O que me faz lembrar que no comercial do remédio contra piolhos, o negócio só poderia ser aplicado em crianças de cabelos lisos, vide as propagandas. Acho que se eu tivesse tido piolho alguma vez na vida, teria que ter raspado a cabeça. Acho que essa era a mensagem subliminar: Não é liso, raspa.

Vixi, divaguei sério agora… Então, voltando, quando eu olho meu cabelo, por exemplo, ele é cheio de voltas e curvas, fios finos que criam uma malha, uma trama muito mais complexa do que essas fibras (que não têm curvas) feitas em forma de bobina. Lembram daquele estilista que pôs modelos brancas com esponjas de aço na cabeça e ainda teve a pachorra de falar que era uma homenagem ao cabelo crespo? Pois é, repare que elas não se parecem com cabelos crespos.

2015-11-01 16.52.39

Viu como não parece? Então, pra mim, esse mito caiu e passa a me incomodar mais pela falta de semelhança – e consequente demonstração de que a pessoa que fala isso é burra e ainda maldosa – do que por ser uma piadinha sem graça por si só. Nunca é por acaso que usam expressões racistas.Você não fica xingando seus entes queridos pra depois pedir que levem na boa porque foi sem maldade, não é? Já imaginou, você chega pra sua santa mãezinha, ofende-a enquanto mulher e depois vira pro amiguinho e fala “eu xinguei, mas eu não tenho nada contra não, adoro ela”. Tá, vá…

 

Enfim, o cabelo do negro, estou falando do crespo, óbvio, porque negros de cabelos lisos não ouvem essas palhaçadas, é uma das primeiras características étnicas a ser ofendida, porque é muito visual, dá muito na cara, então, ver o negro desfazendo sua textura é a alegria do racista, porque enquanto dominante da sociedade, ele não tem pra onde ir, não tem identidade a afirmar, logo, ele é o normal, o comum, enquanto nós, que somos chamados de exóticos, mesmo sendo maioria, acabamos por incomodar com nossa presença e a demonstração de que não precisamos da aceitação deles ou da autorização deles para sermos. Cada vez que um crespo se assume, é um racista que morre – mais – por dentro. É a prova pra ele de que não nos sujeitamos a nos deformarmos pra caber na vidinha comum de casa grande que levam. Quanto mais fala do meu cabelo, mais o meu cabelo cresce.

cabel crespo sucesso

Enquanto isso, e o Bombril?

É Bombril, Senhor Senor! Pra fazer aquilo mesmo que a piada sugere, bem na parte do fim das costas garganta dos racistas que não têm o que falar, acabando por falarem m… Bilíngues analfabetos funcionais: Falam Português e várias bostas.

Por isso que eu sou da UNEGRO-RJ.

Então, pra concluirmos os trabalhos por agora: CABELO CRESPO É CABELO BOM SIM! VAI TER E SE RECLAMAR, VAI TER MUITO MAIS!


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Quando grandes sambistas gravam outros grandes sambistas e você nem sabe

A partir da esquerda: Candeia, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.

Ufa, titulozinho safado de comprido, mas a ideia é um pouco complexa de se explicar, mas muito simples de se entender. Saca quando você tem um determinado compositor tão em alta conta que nem para pra pensar que aquela bela canção que ele gravou nem é dele, mas de outros? Pois é, lembre de alguns casos assim, um deles eu conversei nos coments de algum post relativamente recente daqui mesmo.

Dona Zica e Cartola.

Como acontece: Você tá lá e aprende as músicas do artista e vai se acostumando com sua voz, seus trejeitos, coisa e tal. Até que um dia, você para pra reparar nos créditos de um disco/dvd ou em alguma matéria e – ZAZ! – percebe que atribuiu a autoria ao conceituado artista e nem se ligou que poderia ser de outro, óbvio, pelo talento comprovado do ser humano.

 

Um grande exemplo é Preciso me encontrar. Muita gente ainda não sabe que a canção é de Candeia (igual Conto de Areia, eternizado por Clara Nunes), pois, sabemos, a versão mais famosa é de Cartola, outro monstro sagrado de nossa cultura. Também temos um outro exemplo envolvendo o mestre da Estação Primeira, dessa vez, com Meu Drama (Senhora Tentação), que é de autoria de Silas de Oliveira.

Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola.

Aliás, Silas de Oliveira passa por fenômeno parecido, mas em vez de ser creditado por algo dos outros (ou vice-e-versa), ele tem canções muito executadas até hoje em pagodes da vida (está uma modinha hoje em dia de cantar as mesmas três músicas relacionadas ao tema). Trata-se de Rádio Patrulha (“agora que eu quero ver/quem é malandro não pode correr…”), que muita gente acha que já nasceu ponto cantado de malandro na umbanda, mas é um samba. Mas estou divagando…

 

É que acho interessante como muita gente se acostuma com uma realidade e não a questiona por entender que ela é bem lógica pra se questionar. Eu mesmo me surpreendo o tempo todo, pois, adoro fuxicar em autorias e canções que a maioria nem conhece, só o que vem pelas rádios ou ondas de pagodes do momento. Vai dizer qeu não reparou que de tempos em tempos, escolhe-se apenas uma ou duas músicas antigas e só elas parecem despertar o interesse momentâneo, aí, passam uns meses e descobrem outra música. Imagine se cada um que segue a trilha do primeiro resolvesse ouvir um disco inteiro das antigas por conta própria e cada um resgatar a sua… pois é, teríamos tantos tesouros descobertos e valorizados que o espaço ia ficar curto na mídia. Mas confesso que gosto do núcleo cultural, não precisa quantidade, só o amor pela arte de quem se envolve nesse universo.

Da esquerda pra lá: Mano Décio, Silas de Oliveira, Noel Rosa de Oliveira, Dona Ivone lara e Cartola.

Enfim, esse texto nasceu de um pensamento e uma lembrança. O pensamento eu já falei, a coisa de ouvir ‘ué, essa não é daquele artista que gravou não?’. A lembrança é do ano de 2008, quando umas amigas ficavam enlouquecidas comigo, quando eu cantava minhas ‘músicas de velho’ enquanto elas queriam os grupos melosos da moda. Até que um dia elas me ouvem cantar uma canção e rapidamente pararam pra pegar no meu pé ‘ué, você não gostava disso!’. Eu disse que gostava sim. O que eu não sabia é que um desses grupos ‘new generation’ do pop de pandeiro tinha regravado a música, que, pra elas, era gravação original da tal garotada que realmente estava com mais mídia em cima do que o grupo original – e pioneiro – que a gravou (inclusive, sendo de autoria de alguns dos integrantes).

Fundo de Quintal na formação (clássica) que prevaleceu de início dos anos ’80 ao início dos ’90.

Elas tiveram que engolir que por um segundo, curtiram um ‘samba de velho’ e nem doeu, como elas faziam parecer pelas caras ao som dos meus pagodes da mais fina raiz, do puro suco. Rá!

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África: Povo Jarawas e a colonização em tempo real

O texto original está no Instituto Nzinga Mbandi e foi publicado em 2012.

Nas Ilhas Andaman, ilhas localizadas próximo à Birmânia e à Índia, existem povos que migraram voluntariamente de África pra lá há 60.000 anos. Vou fazer uma pausa dramática pra você mensurar o que são SESSENTA MIL ANOS pra uma espécie que vive, em média aleatória, menos de um século, por indivíduo, como é o caso da raça humana. Já refletiu? Pois bem, em 1789, os primeiros invasores britânicos chegaram lá e deliberadamente acabaram com muitos daqueles povos através de suas doenças trazidas de casa, violência de todo tipo, exploração sexual, mudanças alimentares e vícios, com a introdução de tabaco e álcool.

Para entendermos melhor o pan-africanismo, devemos estudar sobre esse ódio por África e seus descendentes. Diversas nações europeias espalharam africanos pelo mundo por meio da escravidão. Não foi uma coincidência, foi para estabelecer dominação da supremacia branca. E para ilustrar, vamos falar agora, um pouco dos Jarawas, povo que passa por isso ainda hoje, para mostrar aos que fingem não ver, que o racismo é algo institucional e não ações isoladas. Essa é sua crueldade e descaramento, estar tão na nossa cara que parece que nem existe… de tão natural.

Placa dando instruções de como agir durante as visitas turísticas. Um safari de gente, na verdade. Instruções semelhantes você vê no desenho do Zé Colmeia, como não dê alimentos, não tire fotos, etc…

Desde 1998, os jarawas estão ameaçados criticamente de extinção. Gente, pessoas, um povo que vive da natureza, pra ticamente e que está sendo sistematicamente eliminado. Vivem em grupos de 30 a 40 indivíduos, numa população que não passa de 300. São expostos a doenças, surtos de sarampo, por exemplo, exploração turística nos famosos ‘zoo humanos’ e destruição cultural por intermédio de grupos de evangelização (com alvo especial em crianças), que são proibidos pelo governo indiano de estarem ali, mas vão assim mesmo, assim como empresas interessadas nos recursos naturais e empreitadas comerciais da região.

Sim, gente boa, estamos já estamos na segunda década do século 21 e ainda tem povo preto sendo extinto pelo mundo. Não é só no perímetro urbano que somos expurgados. A diferença é que aqui se tem a ilusão de que é pelo bem da segurança e lá, a mentira é que é pelo bem do progresso. Até quando? Provavelmente sempre. eles têm o dinheiro, as armas e a mídia, pra empurrar seu modus operandi como natural e benevolente.

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