Então, Saga, o ‘pagode’ não presta mesmo?!

 

Bem, como tudo em volta do Samba cultural e seus derivativos comerciais, a resposta poderia ser um simples ‘sim’ ou até um ‘sim, mas…’, porém, exatamente pelo mesmo motivo, a resposta exige uma explicação, dada a profundidade de questões que aborda.

 

A primeira de todas é falar que, hoje em dia, o âmbito comercial está bem diferente. Era uma coisa quando Donga gravou o maxixe Pelo Telefone, era outra quando Wilson Batista fez Lenço no Pescoço e assim foi, passando pela linha do tempo do Samba, a cada, digamos, geração, a coisa mudava de modo significativo a ponto de ouvirmos e sabermos de que época era pelo tipo de linguagem ou até a qualidade da gravação. Então, chegamos à década de 1980, pegando a cauda de cometa do enorme sucesso comercial que o samba fazia nas mãos de Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara e outros, nos anos anteriores, veio a ‘onda do pagode’.

 

O termo pagode, não canso de bater na tecla, já era usado muito antes, dando contornos rurais ao que viria a ser o samba urbano. Esse termo explodiu comercialmente quando o Fundo de Quintal despontou para o grande público em fins de ’70, início de ’80. Daí, possivelmente, por uma jogada de marketing, aquela sonoridade e estilo diferente ganhou uma identidade toda própria. Uma inovação que não se encaixava na mesma prateleira que o bom e velho samba, mas que, como sempre, tinha tudo a ver, afinal, era a mesma raiz, só que tocada um pouco diferente.

 

E o termo pagode pegou, avançou, trouxe diversos nomes à superfície da mídia… Tanto que começou a virem uns caronas, uns pingentes e usurparam o nome pra si. O FDQ não é totalmente isento desse desdobramento, já que incorporou a seu estilo instrumentos que não eram comuns no samba, talvez, pra dar uma diluída disfarçada e atrair o público que poderia se afastar se falassem ‘olha, gente, é samba, aquilo que os mais velhos fazem’. Isso é um repelente de público jovem, o que mais consome jogadas comerciais de rádios e casas de espetáculo.

 

Bem, no embalo de pagodes e sucessos instantâneos, o termo pagode começou a empregar um outro tipo de sonoridade, já distante do samba e mais próximo do pop. Na virada da década de 1980 pra 1990, até Zeca Pagodinho, em torno de seus 30 anos de idade, já soava ‘coisa de velho’ pra juventude que curtia os dances estrangeiros e rocks remanescentes da explosão ‘ploc 80’ (rá!). Aí, os teclados, contra-baixos e baterias tomaram à frente de viloa de 7 cordas, tantãs e repiques. E isso ficou sendo chamado de pagode, ao passo que o FDQ e sua geração, virou ‘pagode raiz’ ou, o mais comum, ‘samba de raiz’. Nem preciso dizer a redundância, né? Se é samba, É raiz. Seria como dizer ‘planta vegetal’.

 

Mas, vamos lá, o termo pagode vendia como água no deserto e a nova geração que se apropriou, criou seu estilo próprio. Beeeem diluído se compararmos com o samba, mas até que merecia um OK, pela revolução comercial que causou. Ainda não tinha sido visto com frequência um tipo de música tipicamente brasileiro tomar as paradas de sucesso, invadir casas de show, programas de TV, rádio, matérias em jornais, revistas, produção de ídolos instantâneos e até de apelo ‘sexy symbol’. De música era bem nhé, mas no conjunto da obra, temos que admitir, levou muito ‘pagodeiro’ a ser introduzido (UIA!) ao verdadeiro samba.

 

Afinal, pra quem passou por aquela época e não se ligava em encartes de CDs, por exemplo, Arlindo Cruz e Jorge Aragão são apenas dois exemplos de gente da pesada que abastecia frequentemente o repertório daquela turma lá. E até músicas dos, então, garotos, foram adotadas por eles e outros. Em algum momento, havia essa ligação, pros mais velhos não se arriscarem a ficar relegados a nichos esquecidos da mídia, e pros mais novos ganharem um peso a mais no currículo. Como aquele coroa que anda com a galera e vira o tiozão legal, saca? Rá!

 

Então, sim, o ‘pagode’ presta, mas já passou. Foi uma moda. Hoje, alguns sobreviventes ainda faturam vivendo daquela febre e da nostalgia, estilo ‘ploc 80’, ou aquelas coletâneas da jovem guarda. O que veio depois do início dos anos 2000, melhor nem falar. Já era um outro desdobramento que nem a batida conseguia mais imitar e muito menos o teor das letras honrava. Aí, já começa uma outra coisa chamada, hoje, de pagodez/PG10, etc. O pagode 90, como chamam hoje, foi importante para a arte feita por pretos pobres e deu moral pra muita gente (pra você que pensa que a união Arlindo Cruz-Péricles-Esquenta é novidade). Um trabalho artístico de nicho popular dominou a mídia por anos.

 

O de hoje não, é uma batidinha aguada feita nos moldes do R&B estadunidense que, por um acaso, ainda insiste em botar um pandeiro, ou algo que pareça. Já não tem mais identidade ou mera semelhança com samba, não toca em rodas de samba nem de zueira e só serve pra adolescentes acharem que seus sentimentos conflitantes nos hormônios possuem uma vasta experiência em amores mal resolvidos. Ah, e levantar o copo pra elevar a voz nos refrões extremamente sofridos.

 

Se antes a poesia estava empobrecendo em nome das vendas instantâneas em massa, hoje, nem existe mais ‘pagode’. O último foi o Exaltasamba e, mesmo assim, acabou quando deixou sua própria identidade ‘pagode’ pra se tornar mais um meloso de vocal uivante trabalhado no grito e no falsete (sim, Thiaguinho, estou apontando pra você agora – Rá!). Caras de quase 50 cantando com gel adolescente no cabelo letras de jovens empolgados com cerveja e cantadas baratas não dá, né? Alô, Péricles! – Rá!²

 

Pagode 90 é legal pra mim, é nostálgico e pra quem não pegou aquela época, também cai bem… Vai cair melhor quando decidirem resgatar outras músicas além das mesmas já manjadas de sempre. Mas repertório é assunto pra um texto um outro dia. Por hora, pagode é legal e já tá virando ‘coisa da antiga’, como um amigo mais novo falou… Já fiquei velho. Eeeeitaaaa!

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Para Além das Estrelas – Wilson das Neves

Certa vez, assistindo a um documentário, se não me engano – há alguns anos – lembro que Das Neves era um dos homenageados naquela oportunidade e dizia – com seu característico humor refinado, sutil, porém afiado – que gostara da situação, pois depois que você não está mais aqui, que vira nome de avenida, de viaduto, não adianta, que não vai poder curtir a festa que fazem por você. E é verdade, nada melhor que homenagear alguém que se admira enquanto essa pessoa está aqui pra sentir esse carinho. Mas tem horas que não tem jeito, ninguém sabe ao certo a hora derradeira, quando a sina da natureza vai nos chamar, então, presto minha homenagem junto com minhas condolências, peito ainda apertado e resignado.

Acho que uma das primeiras vezes que ouvi o som quente é o Das Neves foi numa gravação com Beth Carvalho, aliás, regravação de Degraus da Vida, de Nelson Cavaquinho, quando, humildemente, ele termina o fonograma dizendo que Beth teria arranjado mais um afilhado, arrematando com descontração a faixa com seu clássico ‘Ô sorte!’. Depois, passei a reparar que eu já tinha ouvido sua arte de forma involuntária por aí, até reconhecer que conhecia algo de seu trabalho mas sem saber que era trabalho dele. Era um gingado diferente, uma coisa cautelosa e ao mesmo tempo impetuosa, livre, bem como o mestre demonstrava ser. Não convivi com ele, mas as vezes que estivemos no mesmo ambiente, pareceu ser assim, um comedido de personalidade marcante. Até o momento em que o vi emocionado e chorei, na quadra do Império Serrano (escola de samba da nossa paixão), em homenagem durante o evento Resenha Imperial.

“Ô sorte!”. Das neves contava que Roberto Ribeiro não sabia que ele era imperiano também até vê-lo tocar tamborim na Sinfônica do Samba (bateria do Império, da qual Das Neves era padrinho) e, percebendo sua presença, exclamou ‘Ô sorte!’. Em entrevista radiofônica há anos, ele explicava, se bem lembro, à MPB FM, ele disse algo como ‘Aí, a gente ficava ‘Ô sorte’ pra lá, ’ ‘Ô sorte’ pra cá, ele morreu, eu fiquei’. A explicação jocosa ganhava ares mais sérios e mais solenes quando ele também falava que sua expressão famosa era uma forma de agradecer à natureza, aos orixás, por tudo que tinha em sua vida. Dizia que não tinha nada de mais, que por ser mais antigo, acabava gerando a ideia de referência, humilde que só, e apenas considerava que estava apenas fazendo seu trabalho.

E que trabalho! Mais de 60 anos de carreira, de talento prestando serviço aos mais variados artistas de diversas gerações do Brasil e do mundo. Foi músico de estúdio, de orquestra, de conjunto pra show, turnê, participou de filme, compositor rico e cantor de estilo altamente próprio (quem nunca cantou suas músicas imitando aquelas notas prolongadas que ele fazia que me atire uma pedra! Rá!). Além disso, já foi motivo de homenagem em documentários, enredo de escola de samba e referenciado por muitos dos artistas que tiveram a honra de ter suas baquetas à sua disposição. Aliás, baquetas essas que sempre estarão em suas mãos, como diz seu mais famoso samba.

Tem sido um ano difícil pro Império Serrano, pro Samba e pra música em geral, mas, como se diz, só morre quem tá vivo e todo dia há despedidas, mas não é pra desanimar. Pelo contrário, por um lado, o céu tá numa cadência linda pra dizerem por lá ‘Ô sorte!’, aqui também temos a honra de ter recebido de graça um dos maiores talentos já vistos nesse país… Ô Sorte! É uma responsabilidade, honrar esse legado e reverenciar o provedor desse legado. Temos sorte de ter tido Wilson das Neves entre nós. Se estamos chorando hoje, é de saudade, de emoção, gratidão, mas nunca de tristeza, pois cumpriu sua missão aqui o samba é essa família reunida. Choramos os que partem, mas depois ficam as histórias, a alegria de sua presença mesmo que não física. Ô Sorte! Vá em paz, mestre!

Fontes:

https://samba.catracalivre.com.br/geral/samba-na-net/indicacao/wilson-das-neves-fala-sobre-biografia-memorias-de-um-imperador-o-sorte-em-entrevista-exclusiva/

http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/baterista-que-cantava-wilson-das-neves-sai-de-cena-no-rio-aos-81-anos.html

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Zé do Caroço: O Samba Político de Leci Brandão

 

Não vou nem enrolar, vou direto no material tamanha a euforia que me dá em falar no assunto. Zé do Caroço foi um serviço de auto-falante, assistência social e militância em prol do mais pobre quando ainda não existia todo esse conceito de lutas sociais, na verdade, bem pelo contrário, pois era tempo de ditadura militar e ideológica, fazendo o Brasil crer que tudo estava bem, como na novela, onde o bandido carregava um crachá de bandido e o mocinho era o inconfundível branco de classe média, hétero e católico – mesmo que não declaradamente, etc…

Bem, Zé do Caroço – José Mendes da Silva – veio da região Nordeste do Brasil para o Rio de Janeiro, mais precisamente, para o bairro de Vila Isabel, especificamente para o Morro do Pau da Bandeira, comunidade vizinha ao Morro dos Macacos (que você deve conhecer de composições de Martinho da Vila, onde é citado seu nome).

Zé do Caroço, segundo seu filho, no documentário Zé do Caroço: A Voz do Pau da Bandeira (2011), teria ganho o apelido devido a um problema de saúde que o conferia caroços em todas as juntas do corpo. Ainda jovem, foi policial civil e, tendo se aposentado muito mais cedo que o normal – justamente por causa do tal problema nas juntas – foi dono de um bar na comunidade, onde iniciou o tal do serviço de auto-falante, que seria uma espécie de precursor das atuais rádios-comunitárias.

O auto-falante na lage de casa, no morro, se tornou famoso por alguns fatores que faziam de Zé do Caroço um líder comunitário no melhor sentido da palavra. Seu, já citado filho, diz que ele tinha o dom de pedir, então, sempre conseguia ajuda e mutirões para virar uma laje aqui, uma pintura de paredes ali, etc. E em seu auto-falante, ele prestava todo tipo de noticia que pudesse ajudar a melhorar a vida na comunidade. Desde preços atrativos na feira até a serviços de ação comunitária.

E o mais interessante é que esse serviço podia vir a qualquer hora que Zé achasse importante repassar suas novidades ao morro, mas seu horário preferido era no horário da novela, pois, segundo o documentário mencionado, era o horário que as famílias se reuniam diante da TV, meio que facilitando a centralização da informação, mas também porque ele queria falar ao povo num momento em que a TV estava tentando iludir o cidadão com um mundo fictício que não condizia com as dificuldades da maioria do povo.

Nesse contexto, Zé se tornou um herói para o Pau da Bandeira, mas um incômodo para a esposa de um militar que, em plena ditadura (não perca de vista, eram os anos 70’s, repressão correndo solta) se queixava que a voz do morro vizinho atrapalhava sua novela. Essa história chegou aos ouvidos de Leci Brandão que, num bate-pronto, bolou a letra em cima de uma melodia que já se desenhava na região cérebro-espiritual que chamo de ‘inspiração’.

E aí, negada, é Leci + Samba + Causas Sociais = Zé do Caroço. Precisa de mais? Ela criou a pérola em 1978 e tentou gravar, sendo censurada pela gravadora Polydor. Rescindindo com a empresa, migrou para a Copacabana Records, onde só conseguiu gravar em 1985. Aliás, a canção é a mais regravada de Leci nos últimos tempos. Já serviu de amuleto de sorte para os debuts de Art Popular, Revelação, Mariana Aydar e ainda a releitura que fez escola por parte de Seu Jorge, no DVD em parceria com Ana Carolina. Mas eu ainda prefiro a versão original. Seguida pela do Revelação, nem tanto pela paradinha funk, mas pelo tantã do Rogerinho mesmo. Rá!

Ps.: Zé do Caroço faleceu no início da década de 2000, tendo tido a oportunidade de ver seu nome e sua luta eternizados num dos maiores sambas de todos.

 

Fontes:

 

 

http://osomdacoisa.blogspot.com.br/2012/01/samba-e-politica-em-mais-um-ze-o-ze-do.html

 

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Prefeitura do Rio libera rodas de samba da obrigação de alvará

 

Bem, na verdade, são os eventos audiovisuais que ganham desburocratização através do sistema Rio Ainda Mais Fácil Eventos – RIAMFE, da prefeitura carioca, onde produtores culturais foram informados, por meio de audiência pública, neste dia (19/07/2017) sobre os meios de se organizar eventos de forma mais ágil e simplificada.

 

Mencionou-se que os eventos de natureza religiosa não precisarão de consulta prévia ou emissão de autorização transitória – incluindo religiões de matriz africana. Bem como as rodas de samba, que não sofrerão – segundo a prefeitura – e quero muito acreditar que é pra valer – qualquer proibição ou obrigação de alvará para serem realizadas.

 

Em meio a diversos memes, boatos, exageros e conversas sobre orçamento e seu uso no campo do entretenimento, acho que essa é uma questão que merece ser observada. Veja bem, é muito bom pensar que nossas rodas de samba continuam com a possibilidade de sere, pois sabemos – ou deveríamos saber – que o samba carrega uma história e uma cultura muito maiores do que uma mera festinha de bebida e curtição.

 

No mais, gostei disso, acho que a prefeitura não precisa criar polêmicas desnecessárias com eventos ‘mundanos’ pelo simples fato de o prefeito ter outra postura – até porque o prefeito não vira dono da cidade só porque foi eleito pela maioria – e é pra dar a César o que é de César e ao povo o que é de seus orixás, morou?

 

Fontes:

 

http://www.jb.com.br/rio/noticias/2017/07/19/prefeitura-faz-reuniao-com-produtores-culturais-para-esclarecer-decreto/?from_rss=rio

 

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-19/rodas-de-samba-de-rua-estao-liberadas-de-alvara-da-prefeitura.html

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Crivella promete cortar verba das escolas de samba… Vai prestar?

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Prefeito Crivella está incisivamente minando investimentos em eventos culturais (falo pelo lado do Samba que é o que eu entendo e acompanho). Não quero pensar que é por ele ser um líder religioso dentro da religião dele que ele toma atitudes drásticas que deixam eventos festivos não-religiosos capengando. E o pior é que ainda usa argumentos demagógicos, por exemplo: O corte pela metade na verba distribuída às escolas de samba do grupo especial com o intuito de direcionar essa quantia para bancar o custo diário de crianças em creches particulares conveniadas com a prefeitura. E é sobre isso que eu quero falar.

 

Bem, de bancar evento cultural na rua eu entendo alguma coisa, pois faço parte de dois além das dúzias de pessoas que eu conheço que vivem essa realidade e muitos, diferente de mim, vivem efetivamente de música, de produção, fornecimento de estrutura e serviços relacionados, pois, você sabe, existe todo um universo em torno e que está correndo em areia fofa. Mas vamos falar sobre o universo específico do carnaval carioca. Bem, carnaval, aqui, não é só escola de samba, na verdade, é muito mais carnaval de rua, de salão, shows, enfim…

 

Esse tipo de festa movimenta milhões, bilhões de reais com a freqüência nativa (olha nós aê!) e muita, mas muita coisa mesmo vem de turistas. O turismo fatura muito para a prefeitura e esse é o principal argumento da LIESA (a liga das escolas de samba do grupo especial carioca) para tentar convencer o prefeito religioso conservador a reconsiderar sua decisão. Por outro lado, a conversa do Crivella é que investir na educação é mais relevante e eu já digo porquê acho essa história muito controversa.

 

Bem, baseado no que li, e no que papeei recentemente com amigos leigos, religiosos, músicos, educadores e admiradores tanto de investimentos em causas sociais quanto dee eventos culturais, juntei tudo com algo que eu já ensaiava em escrever e saiu a grande impressão de que o prefeito queria uma desculpa pra passar o cerol no carnaval e derivados. Sim, porque pra investir em educação, ele não falou em construir nada, nem creche, nem escola, nem em material para os que já existem, mas para custear crianças em creches particulares… oi?

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Como seria se o poder público ficasse bancando a iniciativa privada? O que sobraria para o poder público fazer? Será que ele pensa em abdicar dos investimentos no município pra dar uma ajudinha? Tipo, a terceirização voltou com uma maquiagem mais atual, meio que hoje não é rouge, é blush, mas faz a mesma coisa? Essa é uma linha de raciocínio minha, não ouvi ninguém falar isso e é uma espécie de paranóia aquariana minha.

 

O engraçado é que ele vai cortar metade da verba do carnaval pra bancar crianças em creches particulares. Ok! Muito evangélico e muito não-folião achou linda essa ideia e até já promete votar no prefeito na próxima eleição, afinal, quem não fica bem na foto com a política pública da propaganda ‘salvem as criancinha’? É lindo, até o Pelé já mandou esse papo, mesmo que não tenha sido homem pra reconhecer uma filha, nem os netos da falecida.

 

O problema é que se parar pra pensar, o que o carnaval arrecada com turismo é bem superior ao que Crivella promete cortar das escolas de samba. Um dia de desfile no sambódromo lucra muito mais do que o milhão que o político-bispo. Será que não seria mais jogo investir no carnaval e pegar desse retorno financeiro até mais dinheiro pra bancar as criancinhas em creches particulares?

 

Culturalmente, eu nem ligaria muito pra redução de subsídios ao carnaval de sambódromo, isso por questão ideológica. Há décadas que escolas viraram empresas apenas pra capitalizar a folia. O pobre continua pobre e as escolas não reinvestem nelas mesmas enquanto instituições culturais, pra dar uma bola na comunidade, serviço social, etc. Aliás, algumas até fazem sim, mas o foco é botar pena de faisão marciano no biquíni da subcelebridade que tiver mais dinheiro pra aparecer. Luxuoso demais, caro demais, samba de menos e o propósito das escolas já dançou faz tempo.

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Mas tem esse lado do dinheiro. Oras, se é dinheiro que importa, porque não investe 10, pra fazer 1000 em vez de cortar 5 da verba básica? Mesmo que as escolas façam desfiles menos luxuosos, acho que o carnaval ainda assim rende bastante e não há problema em usar isso pra investir em outros campos que precisem. Ou tá rolando uma falha grave de planejamento aí, ou uma nítida má fé com relação ao carnaval.

 

Em todo caso, seja lá o que for, às vezes é preciso deixar a coisa dar bem ruim pra que a opinião popular possa se posicionar e os governantes se mancarem. Por exemplo, muito músico vai encarar dificuldade de trabalho no setor do samba, sobretudo de rua, sendo que a vida de músico, da maioria, é dureza, é correria pra conseguir se sustentar, lucrar já é outra história.

 

Também tenho a opinião de que se as escolas realmente cumprirem de não desfilar, que se apresentem para suas comunidades. Vou adorar ver meu Império Serrano pelas ruas de Madureira, ou mesmo lá no Morro da Serrinha. Imagina o que a escola não ganha se colocar eventos regulares na quadra, na Casa do Jongo, ou na rua?

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Aguardemos cenas dos próximos capítulos. Eu acho que por agora é melhor nem debater muito, porque pode ter blefe aí, pode ter alguma negociação em breve e, no ruim de tudo, a coisa se confirmar, mas até lá, ainda falta uma penca de meses. Mas o camarada já mandou migué pra não ir ao sambódromo e iniciar o carnaval oficial entregando a chave da cidade para o Rei Momo, então, vamos ficar de olho. Quem sabe, daí, a megalomania do carnaval não volta a botar o pé no chão. Oremos.

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Sambas Que Não Passariam: Já Foi Uma Família – Fundo de Quintal

Esta seção vai ser tipo ‘EsmiuSaga’, mas em vez de escolher alguma canção que traga muita informação sem detalhamento (como Rio Antigo, que eu já esmiucei em post passado), vou discorrer sobre o conteúdo de músicas que em seu tempo foram gravadas como ‘normais’, mas que hoje, com a evolução dos meios de comunicação e a conscientização de parte da população mundial (geralmente, a parte oprimida por preconceitos e injustiças), hoje, não passariam nem pela seleção pra um CD. Na verdade, se algum autor tivesse cara de pau de publicar uma obra dessas, certamente ia arrumar problemas em qualquer roda de samba ou seleção de repertório da vida. Em suma, estou falando aqui de letras de teor preconceituoso, conservador e até diretamente ofensivo mesmo. Tipo piadas d’Os Trapalhões sobre homossexualidade, racismo, machismo e outras, que na época até arrancavam risadas, mas hoje tem resposta direta dos grupos atingidos. Sem delongas, só mostrando mesmo.

 

Bem, pra começar, a música – de Arlindo Cruz, Franco e Marquinhos PQD – já sugere o que está por vir no título. Quando se fala ‘já foi uma família’, mesmo sem saber o que a letra tem a dizer, já parece que é algo que era pra ser bonito e tradicional e não é mais. Algo menos trágico que ‘Éramos Seis’, mas na mesma linha nostálgica. E a parada já começa nessa linha mesmo, quando dizem que as coisas estão diferentes de quando o tradicional era a família se reunir numa mesa, domingão, o mais velho contando história e passando adiante os costumes de seu tempo. Ainda na ‘primeira’ da música, já se ‘denuncia’ que estão acabando com essa ‘instituição’, claramente, se referindo à família como algo em perigo diante do presente (vamos considerar 1987, ano de lançamento do disco Do Nosso Fundo de Quintal, que contém a gravação original).

 

E a letra vai explicando com exemplos o que está acontecendo com essa família pra que os autores alertem ao mundo que esse patrimônio da humanidade está caindo em desgraça. Ele começa avisando que o vovô, aquele que sentava à cabeceira da mesa pra ensinar as tradições, agora só quer dar role por aí, na gandaia e tals. Já aí, temos a noção da pegada da música, quando o coro vem meio que constatando, meio que se lamentando que o que se chamava de família, mudou muito, ou seja, se mudou daquele modelo outrora conhjecido, hoje, não é mais. “Mudou bastante, mas já foi uma família”, ou seja, nada de pensar que se mudou, é uma família diferente, não, pro narrador, se mudou, já era, não é mais o que costumava, acabou.

 

Não contente em entregar os novos hábitos de vovô, já vem logo a caguetação sobre vovó, que estaria se relacionando com um rapaz bem mais novo. Novamente, o coro reforça que isso não é mais uma família. A mãe, por ter se dado conta de que não é só uma secretária doméstica do marido, necessariamente, segundo o narrador, se tornou uma radical da causa feminista. E a visão do feminismo é tão estereotipada aqui pelo olhar machista que até misturam o feminismo com guerrilha e anarquia, ou seja, a mãe não só quer igualdade e respeito, como quer acabar com o mundo sócio-político conhecido na bala, ou sei lá com que arma. Mudou bastante… E ainda tem o pai, que sai para casos extra-conjugais e nem se preocupa em esconder as evidências da luxúria externa.

Depois de uma relembrada na primeira, ou seja, na estrofe que determina o tema do partido alto que segue, é avisado que o irmão ‘solta a franga’ e ainda usa um nome feminino na ‘praça’, ou seja, se tornou travesti, ou uma mulher trans que não mudou oficialmente seu nome. Na verdade, pelo modo como é descrito, o irmão, é visto pelo narrador como uma caricatura, desserviço prestado pela mídia e senso comum que desumaniza e evita que a população trans seja vista como cidadã e não mero mote pra piada. Mas, prossigamos, pois a ‘irmã’ joga futebol, numa posição que exige uma postura mais ‘durona’ em campo, mas, ao contrário do irmão, não quer ser lembrada de que é uma mulher. Não é mais uma família, afinal, uma moça jogando bola era se meter nas coisas ‘de menino’. Pô, mana, vai brincar de Barbie e fazer biscoitos pros meninos.

 

Depois de falar que o tio e a tia estão envolvidos com drogas, vem a prima que era bela, recatada e do lar, e agora demonstra gostar de sexo sem fingir ser a santa que a sociedade quer. Julgamento tão cruel quanto o do primo que dança balé. Chega a ser dito que ele ‘ERA’ de fé, ou seja, se vai usar um colant e sapatilha, perdeu a moral com a galera. Depois, é um aviso que vai dar problema com a desunião da turma se pintar motivo de repartir os bens, mas até aí, o patrimônio imaterial já desmoronou moral e bons costumes a baixo, né?

Conclusão

A canção é muito envolvente na musicalidade, na estrutura de partido alto com refrão em coro reforçando a ideia geral do que é detalhado em cada verso. Particularmente, eu gosto muito dessa estrutura, dessa métrica típica de letras em que o Arlindo participa, meio Nei Lopes, de causar duas rimas seguidas antes da rima que combina com o refrão, enfim, se não fosse a letra, a música seria perfeita.

 

Não, não sou moralista, nota-se, mas também não é que eu ache a letra necessariamente ruim, ela seguiu um costume da época, de tratar tudo com uma pseudo-irreverência, mas que ofende dolorosamente pela falta de tato, pela visão egocêntrica, baseada em um padrão falso moralista. Porque falso moralista? Porque nossa sociedade foi estruturada, como conhecemos, pela Europa, em especial, pelo português.

Caras… alguém aqui já estudou um pouquinho só sobre a família real/imperial portuguesa? Já notaram que muito antes dos autores nascerem, aliás, muito antes até que o Brasil pensasse em se tornar uma república, já tinha um irmão tarado, uma mãe ninfomaníaca, um pai guloso, uma avó louca e por aí vai? Isso só pra citar o que é de amplo conhecimento, imagina o que não rolou pelos baixos de panos e atrás das colunas dos bailes da corte real? Sim, danadinhos.

 

Enfim, a letra soa moralista, preconceituosa e não passaria pra um CD em tempos que Marina Íris e Nina Rosa, por exemplo, gravam ‘pra matar preconceito, eu renasci’. Não é que eu seja contra a família tradicional brasileira, mas a noção de família não pode ser medida como um padrão sitcom estadunidense. O tal American Way of Life não atende nem a eles, que dirá de nós. Eu, por exemplo, no ano em que a canção saiu em LPs e K7s nas lojas, já tinha meus pais divorciados e não me sinto criado num lar desestruturado.

Não podemos viver com esse complexo de culpa inventado pelas camadas ricas e religiosas da Europa medieval. Isso impede – e muito – o nosso subconsciente de entender a felicidade como algo que simplesmente satisfaz a nós e não ao modo como seremos julgados pelos outros.

Não rotulemos e nem excluamos só porque a novela mostrou outra estrutura. Novelas são só ficção baseadas no que os autores ricos viveram ou observaram. Quem sabe nós somos nós. Família é família até com duas pessoas só e nem precisam ser do mesmo sangue ou com as mesmas opiniões. E fique com a música em si… A letra, você vê aqui.

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Pode isso? Mocidade Independente co-campeã 2017

 

 Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Mocidade Independente de Padre Miguel é nomeada campeã, ou melhor, co-campeã do carnaval de 2017, junto da Portela. Isso poderia ser só um adendo na história do carnaval de sambódromo pra turista ver e não deveríamos levar tão a sério, pois sabemos que esse universo que orbita a LIESA se importa com tudo, menos com a festa popular de onde se apropriaram, não é verdade? Pois é… não é assim.

Acontece que essa decisão da LIESA mexe com alguns fatores a mais doque simplesmente um não que virou um sim, ou, no caso, um décimo que virou campeonato. Todo mundo sabe que sou imperiano de fé e também, quem esteve em Madureira naquela quarta-feira de cinzas, 1º de março, viu que o papo geral era como depois de tanto tempo, Madureira estava em festa pelo Império e pela Portela e um dos comentários legais era que a escola de Paulo e Claudionor não ganhava sozinha já há quase 50 anos. Bem, isso acaba de ser revogado e tem coisas mais sérias envolvidas além do que diz respeito diretamente à escola da águia altaneira.

Primeiro, ficou uma impressão enorme daqueles momentos que uma criança chora, a tia vai lá e tira o brinquedo da mão de uma pra outra brincar. Sei que a Portela não perde o campeonato com isso, mas tirou muito da graça de ganhar ali na hora. Afinal, quantas vezes já aconteceu de uma decisão posterior alterar um resultado já sacramentado? Não estou discutindo os méritos da Mocidade, mas a verdade é que já vimos demais outras bizarrices no passado que ninguém juntou numa reunião um mês depois pra arbitrar mudanças. Não se volta atrás numa decisão assim. Quantos anos e quantas escolas não se deram bem ou mal por resultados assim e ninguém se importou voltar atrás? Porque agora?

Veja bem, sem qualquer menção de que o tempo voltaria pra mudar uma decisão de jurados, já vimos bastante:

  1. Escola ‘pequena’ dar show, levantar a avenida e ser rebaixada;
  2. Escola grande e desfilar com ala incompleta e sem fantasias acabadas ficando longe dos últimos lugares;
  3. Jurado dar dez pra quesitos defeituosos só porque não precisava justificar a nota máxima;
  4. Pontos tirados por birra de jurado contrariado…

E por aí, vai… Eu citaria aqui pelo menos um exemplo pra cada um desses itens por ano, mas como já escrevi sobre o assunto (dá uma passeada pela seção ‘falando nisso’ e ‘carnaval’ que tu vê), vou apenas lembrar casos como Lucinha Nobre, uma verdadeira baluarte na arte de porta-bandeira, sempre 10 na Mocidade, há alguns anos, defendeu a Inocentes de Belford Roxo e não levou um 10 sequer. Ao passo que Vila Isabel já desfilou com a bateria quase de bermudão e nem suou pra ficar no grupo especial.

Justificativa tosca sobre condições da cabine do jurado, alguns anos atrás.

Já que entrei nessa seara, vamos falar sobre as conseqüências dessa atitude da LIESA. Em primeiro lugar, abriu um precedente perigoso, como a reavaliação de pontos e critérios. Pensa só, é mole dar uma alegria à Mocidade por causa de um décimo… mas será que foi só esse décimo? Digo, se a escola mandou um livro errado pra depois mandar um correto (ou a escola ou a LIESA vacilou) e isso resultou numa nota ‘ruim’, quem garante que a falta desse 0,1 é que decidiu o certame? E se algum outro jurado alterasse a nota com o livro certo? Será que só isso seria alterado? Será que o jurado não acharia algum outro defeito? Enfim… é na base do ‘E se’ que essas divagações funcionam.

 

Você já viu juiz de futebol voltar atrás e decidir por votação dos outros clubes que um gol foi mal anulado ou ilegalmente validado? Já viu final de campeonato voltar porque quem perdeu, de repente, ganhou? E voltam as mesmas indagações: Será que seria só o lance do gol? Será que uma falta antes não marcada não atrapalhou…? E lá vamos nós de novo… Falo isso porque um mísero décimo retroagiu pra beneficiar, por votação e tals… mas este ano também vimos duas escolas provocarem acidentes e uma decisão do tipo ‘vamos juntar e tirar uma presidenta legitimamente eleita porque queremos’. Simplesmente, decidiram que ninguém cairia e agora, que duas são campeãs. Quer dizer… regras e justiça são como a paz mundial: Você até sabe que poderia ter, mas não dá a mínima porque acostumou a viver sem.

 

Novamente, não é contra a Mocidade, pois quem me conhece desde pequeno sabe dos anos em que fui encantado pela Mocidade e sua vanguardista bateria nota 10 (Salve, salve, Mestre André!), não é defendendo a Portela, por bairrismo e aquelas coisas de Paris… a questão é que quando começa a alterar resultados de forma arbitrária, qualquer coisa pode acontecer. E eolha que eu achava que a LIESA estava buscando um caminho justamente ao contrário, em prol de transparência, reaproximação com o povão… mas já vi que vai continuar esse carnaval de sambódromo nutella mesmo, huh?

 

Sim, é um negócio milionário que já ignora há muitos severos anos a cultura de onde se apropriaram pra faturar com turistas e direitos de imagem na TV, mas talvez seja esse tempo, ou é o fim do mundo chegando ou até, quem sabe, a volta de Darth Vader, mas o fato é que a sociedade tem setores que estão descaradamente demonstrando como sunciona o sistema sócio-político geral: Eles podem, eles fazem e você (nós, o povão) que chupe o dedo.

 

No mais, Alladin tinha direito a 3 desejos… quais serão os outros dois?

 

E… Portela, fica de olho, se não, alguém vem e liesa você.

*lesa

Corretor ortográfico safado.

Rá!

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