Império Serrano – 68 Anos

De uma dissidência da Prazer da Serrinha, nasceu o Império Serrano, pelas mãos de Mano Décio da Viola, Silas de Oliveira, Sebastião “Molequinho” de Oliveira, entre outros, na casa de Dona Eulália. Isso, a 23 de março de 1947. Tá beleza, todo mundo sabe – ou deveria – saber disso. A questà é que contar a história é legal, mas pouco ilustrativo, e quando rola de ser bem ilustrativo, acaba ganhando mais em imagem e som do que em informação, ou quando junta tudo, fica meio enjoativo pra muitos, pois fica informação demais. Também vou evitar o lugar-comum de elencar as músicas mais clássicas relacionadas à escola, porque aí, algumas que são amplamente conhecidas do grande público poderiam tirar lugar de algum samba de terreiro que merece também a propagação. Então, pensando em fazer o que o Samba tem de melhor, vou contar um pouco da história da escola JUSTAMENTE com músicas em sua homenagem (da escola, não de você, leitor. Rá!). Então, lá vai: Sambas de exaltação ao Império Serrano.

 

Sou Imperial  (Avarese)

Eu sou de lá / Eu vi o Império nascer / Eu vi o Império lutar / Eu vi, Iaiá / Eu vi o mistério crescer / Ao som dos tamborins imperiais / Já foram ganhos vários carnavais / Samba no Império  é diferente / Tem mistério / Vem com a gente / Sou imperial

 

O Imperador  (Paulo Debétio / Paulinho Rezende)

Essa é uma homenagem direta e pessoal ao pai de Jorginho do Império (gravado originalmente pelo mesmo), Mano Décio da Viola, que além do trocadilho perfeito (“Mano Décio, desce os dedos na viola…”), relata por tabela – ou nem tanto assim – a própria história da escola:

Você que fundou o império / E não se vestiu de imperador.
Ficou sendo um lá do serrano / Apena um mano poeta e cantor
De braço com o Mestre Fuleiro / Molequinho e outros bambas
Na casa da dona Eulália / Pintaram de verde e branco
A bandeira do samba

Menino de 47  (Molequinho / Nilton Campolino)

Menino de 47 / de ti ninguém esquece
Serrinha, Congonha, Tamarineira
nasceu o Império Serrano
o reizinho de Madureira

 

Serrinha (Mauro Duarte / Paulo César Pinheiro)

(…) Império Serrano é a minha / Escola que dá prazer

É o prazer da Serrinha  / E nos orgulhamos de dizer
Imperial / Imperial / Eu sou também / É voz geral
Por isso vem / Vem pessoal
E vamos jurar a bandeira imperial

 

Serra, Serrinha, Serrano (Roberto Ribeiro / Toninho Nascimento)

Serra, Serrinha, Serrano / Eis o berço imperiano / Onde tudo começou

Terra de sambistas e de jongueiros / São Jorge é meu padroeiro

Molequinho Batizou (…)

 

Serra dos Meus Sonhos Dourados (Carlinhos Ben-Te-Vi)

Serra dos meus sonhos dourados
Onde nos fomos criados
Hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mais vem

 

Prazer da Serrinha (Hélio dos Santos / Rubens da Silva)

A menção honrosa obrigatória, afinal de contas, o Império Serrano nasceu do Prazer da Serrinha (nossa, só depois de ler o que escrevi percebi os vários sentidos poéticos e factuais dessa frase. Rá!).

Qualquer criança / Toca um pandeiro, um surdo e um cavaquinho

Acompanha o canto de um passarinho / Sem errar o compasso |
Quem não acreditar Poderemos até provar,  / Pode crer, porque
Nós não somos de enganar, / Melodia mora lá
No prazer da serrinha!

 

Saudações imperianas!

sagatiba imperiano

Rá!

Axé!

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Noel Rosa de Oliveira

Além do nome muito familiar, que me causou muita confusão em idos tempos, esse artista (Noel Rosa como o da Vila Isabel e Oliveira como Silas e Molequinho, do Império Serrano e ainda o Angenor ‘Cartola’ de Oliveira – eita, família grande, Rá!), fez escola no Salgueiro.

Literalmente, ele foi um dos fundadores. Ele já freqüentava rodas de partido alto com o pai, era o mascote da turma, já compunha para blocos aos 13 anos de idade e foi levado à Unidos do Salgueiro, onde se tornou diretor de harmonia aos 19 anos, por ninguém menos que o lendário Casimiro Calça Larga – amigo de seu pai e co-fundador do Salgueiro junto com Noel e pai de Jorge Calça Larga, falecido baluarte da escola da Tijuca.

Autor de diversos sambas no contexto carnavalesco, tinha um grande parceiro, também grande nome da Academia, Anescarzinho do Salgueiro. Com ele compôs sua canção mais conhecida, a vitoriosa Chica da Silva (campeão do carnaval de 1963 e regravado por Alcione anos depois). Fez sucesso comercial com O Neguinho e a Senhorita (no vozeirão de Noite Ilustrada e, mais tarde, por Elza Soares e depois Neguinho da Beija-Flor) e Vem Chegando a Madruga, parceria com Zuzuca do Salgueiro (gravada por Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso, Roberto Ribeiro e, mais recentemente, Zeca Pagodinho em momentos diferentes, todos com grande sucesso).

Um dos principais compositores e admirado melodista (um dos principais) do Salgueiro e do Samba. Hoje faz 27 anos que nos deixou seu legado.

Chica da Silva

O Neguinho e a Senhorita

Vem Chegando a Madrugada

 

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Wilson Batista: O Malandro, o Bonde e o Trabalho

Wilson Batista foi um dos grandes do Samba, lá quando o Samba ainda não tinha o glamour que a indústria fonográfica se apropriou. Eram tempos em que um sambista era visto como vadio (existia prisão por esse motivo) e, como toda coisa nascida das classes mais populares, negras e essas bossas, só veio a despertar um interesse, minimamente, construtivo, quando Gegê (Getúlio Vargas pros íntimos – UIA!) botou em prática seu plano de governo, uma ideologia que tinha algumas premissas bem interessantes – e que vemos os reflexos até hoje como moldes sociais. Por exemplo, ele fundou o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda que nada mais era do que um órgão censor. Tudo que se propagava pelas ruas do país tinha que passar pelo crivo deles lá. Música? Principalmente, pois, Gê (fiquei mais íntimo agora – UIA!²) foi o primeiro a pegar o filão do Samba, usando sua popularidade pra atingir a massa popular, ganhando assim, sua simpatia. Lembre-se, ele ficou conhecido como ‘pai dos pobres’.

 

 

Acontece que em meio a essa nova cultura de ideologia voltada pro trabalho (muita gente, sobretudo ex-escravos e seus descendentes) viam com olhos desconfiados essa coisa de buscar um trabalho e realizar todos os seus sonhos, pois o negro era – e ainda é – maioria da população, sendo a camada mais atingida pela pobreza, justamente, por ter saído das senzalas para os cortiços e, logo depois, com a perseguição ao que não era bem visto pelo governo ‘Estado Novo’ de Vargas, foi empurrado para as favelas. Essa é a própria história do Samba. Perseguido por, até então, falar da vida do pobre e suas mazelas entre goles, cigarros e jogatinas, o Samba era a tradução do que ‘não prestava’, da selvageria que o governo queria esquecer, ou melhor, varrer pra debaixo do tapete. Lembre que Pereira Passos já tinha limpado as ruas com seus designs eurocentrados, botando abaixo muita moradia que lembrava o passado recente da escravidão, dependência rural e pouca industrialização.

 

 

 

Nesse varredor que fizeram, Getúlio foi esperto. Catou o Samba como quem abraça um amigo bêbado na festa e começou a censurar as letras que não enalteciam o trabalho, o brasileiro mestiço feliz, festeiro e conformado. Pura maquiagem, é daí que vêm os grandes sambas-exaltação como Aquarela Brasileira. Basicamente, tinha que falar que o Brasil era lindo e o povo era feliz. Essa era a batida do Estado Novo em 1937. Então, faça ideia de como eles reagiriam se isso tivesse sido instaurado uns 4 anos antes, quando Wilson Batista lançou, na gravação de Silvio Caldas, Lenço no Pescoço. A letra é uma direta apologia à malandragem, universo adorado por Batista, tanto que andava de terno branco e uma navalha no bolso, que nem usava, mas cumpria a indumentária de forma completa (rá, esse cara era demais!). Veja só:

 

Silvio Caldas.

 

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso


Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha andar no miserê
Eu sou vadio porque tive inclinação (…)

 

 

Perceberam, amigos? Na letra ele fala justamente do que o povo pobre e negro padeceu, fora das senzalas, dentro das cozinhas ricas: Falava-se tanto em trabalhar pra enobrecer, mas a pobreza não mudava. Bem, daí, seguiu a famosa “polêmica” com Noel Rosa (já falo dele num artigo próximo), aquele ‘duelo’ radiofônico e tals. Dizem que começou por causa de mulher e que os dois eram bem camaradas, mas estou divagando. Enfim, Wilson mandou a letra, fez sucesso, mas o Estado Novo, através do DIP já não deixava esse tipo de ‘valorização da criminalidade’ passar.

 

Eis que, em 1940, veja bem, quando a política do Presidente Vargas já estava estabelecida na nossa cultura social, Wilson teve problemas com a publicação de uma de suas letras. Modificações feitas pra se adequar à censura, saiu Bonde São Januário, em parceria com o grande Ataulfo Alves e gravada por este. A letra já é um discurso beeem diferente da composição passada de Wilson Batista. Confira antes, pra gente papear a respeito:

Ataulfo Alves.

 

Quem trabalha é quem tem razão
Eu digo e não tenho medo de errar

O Bonde São Januário leva mais um operário
Sou eu que vou trabalhar

Antigamente eu não tinha juízo
Mas hoje eu penso melhor no futuro
Graças a Deus sou feliz, vivo muito bem
A boemia não dá camisa a ninguém

 

 

Repararam que é uma letra bem direta também? Aliás, característica artística de Batística… quer dizer, Batista era essa coisa sem rodeios de suas letras. É ouvir e saber do que, pra quem, porque ele escreveu. Não está nítido que o Bonde é uma alusão direta a ele mesmo? Senhorxs, nunca NUNCA que ele teria um Lenço no Pescoço publicado naqueles anos de 1940, e até dizem que a letra original dizia – ou diria – “O Bonde São Januário / leva mais um OTÁRIO operário / Sou eu que vou trabalhar”. O que se diz é que ele teve uma letra modificada pra caber na censura e, cabendo, foi aprovada. Então, em Bonde… Wilson demonstrou gratidão e compôs um pedido de ‘muito obrigado, desculpa qualquer coisa’.

 

 

Então é isso, amizade gente boa, vimos no episódio de hoje como se faz pra ser aceito no mainstream da sociedade. Fazer o jogo de quem tem a faca e o queijo na mão pra poder botar seu trabalho na praça. E, com ele mesmo teria dito ao pai, quando saiu de Campos e veio pro Rio tentar a vida, estourou seu samba na praça. Pena que quando o Samba amargou um certo ostracismo frente à bossa nova, jovem guarda e outras modas, o artista nunca mais se reergueu, morrendo em dificuldade financeira.

 

Em 1948, após o Estado Novo, Batista ainda escreveu, com Roberto Martins, o Pedreiro Waldemar, outra denúncia social.

 

Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece? Mas eu vou lhe apresentar
De madrugada toma o trem da Circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar
Leva marmita embrulhada no jornal
Se tem almoço, nem sempre tem jantar
O Waldemar que é mestre no oficio
Constrói um edifício e depois não pode entrar

 

Mas isso eu falo outra hora, porque sobre esse assunto eu já pincelei em algum outro texto.

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Vitrola de Ficha: A Humanidade (Velha Guarda do Império Serrano)

Aluízio Machado e o disco da Velha Guarda.

 

Este mundo está complicado faz – literalmente – séculos, mas vou falar de um problema bem específico, mesmo que seja abrangente. Estamos diante de um levante hipócrita fascista em que pessoas de ódio irracional e sem alvo, direcionam-se à figura da presidente do país, culpando-a por tudo de ruim que acontece e esquecendo tudo que melhorou – e o que nem existia, mas foi criado – durante seu governo e de seu partido. Vou defender? Por a mão no fogo? NÃO! Mas tenho uma capacidade humana que prezo muito: A curiosidade, então, vou lá, leio (busco pontes de pesquisa e não reportagens, porque, gente, palavra de jornalista formado, uma reportagem já sai da redação pronta e com um objetivo, não existe imparcialidade em meios de comunicação que dependem e defendem interesses de patrocinadores, empresas e empresários muito, muito ricos).

 

Isso nos leva até o tal ódio que eu falei, é um idiota bolando alguma baboseira e um monte de gente indo atrás. Tenho gente assim até no meu convívio pessoal. Fotos de páginas tv-revoltadas online sem qualquer base para a informação que prestam, mas como é discurso de ódio, vai a pessoa lá e curte, compartilha e ainda comenta “é assim mesmo”. Nessa, a pessoa foi feita de palhaço, sabe porquê? Porque quem cria isso tem um objetivo, quer minar a confiança do governo, põe holofotes sobre os problemas e cobre com um lençol as qualidades. Temos um exemplo bem clássico, de um grande conglomerado televisivo multimidiático e uma revista de fofocas de grande circulação, que têm por filosofia deturpar a realidade e, no ruim de tudo, apenas pedem desculpas numa pequena nota perdida.

 

Aí, chegamos à pérola do dia, uma linda canção de Aluízio Machado, gravada pela Velha Guarda do – meu querido – Império Serrano, no disco Um Show de Velha Guarda – Documento Histórico (Gravadora: Biscoito Fino/Associação Cultural Cachuera! / Ano: 2006 / Projeto de Carmo Lima e Zé Luiz do Império). A música é A Humanidade que, como o autor já fez em Efeitos da Evolução, fala num sentido amplo e humanitário dos caminhos que a sociedade toma envolvida nos próprios vícios. Essa letra fala muito bem do momento em que vivemos, quando gente rica reclama de barriga cheia porque se incomoda com o pobre acessando mais mundos que não apenas a miséria. Aluízio simplesmente descreve o que um ser humano de bem realmente tem no coração e não uma briga imbecil por uma cadeira presidencial, já que a briga é por poder e não pela chance de fazer mais pela população. Dá-lhe Aluizão, dá-lhe Velha Guarda do – meu querido – Império Serrano.

 

Os direitos humanos são iguais

Mas existem as classes sociais

Eu não sou de guerra, sou de paz
Quero trabalhar para poder ter
É tendo que a gente pode dar
Eu quero ser livre e liberar
Eu quero estudar e aprender
Eu só quero aprender para ensinar

 

Ah, fique com a canção aí:

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Aquela Música: Samba do Sofá (Roberto Ribeiro)

Por esses dias, li uma notícia na facebookiana página Sarau do Escritório, donde transcrevo o teor logo abaixo:

 

Atendendo aos pedidos de um pequeno grupo de moradores sob a alegação de que os bancos serviam como “moradia de mendigos”, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, por intermédio da Subprefeitura do Centro e Centro Histórico, resolveu sentar a marreta nos assentos da Praça João Pessoa, na Lapa.

O mesmo governo responsável pela derrubada do Anfiteatro do Largo da Lapa, e pela gourmetização do bairro, parece desconhecer completamente a importância de uma praça como espaço de encontro democrático e espontâneo. Não podemos permitir que esse vire mais um grande calçadão onde bares tomam conta com mesas e cadeiras, e cercam o acesso dos populares com grades, e a já tradicional segurança privada.

Outra questão polêmica é a forma como a prefeitura trata a população em situação de rua. A política é totalmente pautada na segregação, e em atitudes higienistas. Como avançar se não há diálogo, mudança, ou vontade de transformação?

O espaço público é nosso, e estão a todo custo querendo tirar isso da gente. Ocupar é transformar… queremos a praça funcionando como praça, e com os seus bancos de volta!

O protesto, óbvio, tem meu apoio, mas o que me impressionou foi o descaramento da prefeitura em fazer um serviço, no máximo – pra não ofender muito – genérico e paliativo. Oras, senhorxs, como que arrebentar bancos de uma praça a marretadas vai resolver o problema dos sem teto ou da criminalidade? Palhaçada pra fingir que agiu e não tomar qualquer medida na fonte do problema, pois, sabemos que educação de base é dever da prefeitura e do governo estadual, mas, assim como em campanha adoram levantar um monumento e uma obra, pra enrolar, adoram também destruir o que não vai fazer diferença.

 

Em todo caso, este episódio carioca só me fez lembrar do Samba do Sofá, gravado lindamente por Roberto Ribeiro (um segundo pra bater no peito e falar ‘esse era f…da’), onde o personagem da letra diz que pegou a mulher beijando outro no sofá e pra resolver… vendeu o sofá. Rá! Vejam, amigolhes sambísticus irônicus, se não é o mesmíssimo tipo de atitude que não resolve nada. Mas, pra nossa felicidade, na canção, ainda temos o viés irônico e uma bem humorada peça sambística pra nos deleitarmos… quanto ao governo municipal… bem… em 2018 a gente tem outra chance de fazer só pouca m… diante das urnas. Oremos. Rá!²

 

Agora, a música (achou que eu ia te deixar aguando, né? Nem me conhece! haha):

 

 

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Andrezinho da Mocidade é demitido… er… da Mocidade

Parece que a injeção de gás na Mocidade Independente de Padre Miguel tem se tornado uma grande garrafa de refrigerante… Ah, não sacou? Sabe quando você vai abrir aquele refrigerante, pensa que ele vai estourar de tanto gás e não dá em nada? Tipo isso. Só pressão, muita expectativa e resultados pouco expressivos (tipo o carro que seria explodido no desfile desse ano e o que vimos foi um brinquedo de isopor pulando 10 centímetros).

A agremiação de vanguarda perdeu Paulo Barros (e suas invencionices cinematográficas) para a Portela, depois de o mesmo ter garantido que ficaria na Zona Oeste carioca. Tudo bem, chumbo trocado não dói, então, o novo designer carnavalesco de Padre Miguel será Alexandre Louzada, vindo diretamente da Portela. Cláudia Leittttte continua como rainha de bateria… bleh! Uma rainha que põe tampões de ouvido pra não ouvir seus ritmistas e nem aparece na apuração, diferentemente da cabine de transmissão da Globo, pra onde correu pra chorar e presepar como sempre.

Por falar em bateria, Andrezinho da Mocidade foi demitido. O filho do lendário Mestre André, criador das paradinhas, líder da bateria que criou tamborins com baquetas triplas, surdo de terceira e outras bossas, foi dispensado do cargo de diretor de bateria justa e ironicamente por resultados pífios (este ano, só tirou um UM dez).

Houve quem se manifestasse na internet apoiando a decisão da escola, afirmando que a Não Existe Mais Quente precisa mesmo se renovar e não viver de passado. Eu, particularmente, acredito em renovação pra sobreviver. Afinal, a bateria conhecida por inovar pra se destacar, tem mesmo que se desafiar pra vislumbrar o futuro. De qualquer forma, Andrezinho tem lugar garantido na história da escola, além, é claro, de ter sempre as portas abertas na sua escola de coração e sobrenome artístico.

Bem, mudaram a diretoria da bateria, mas a rainha é a mesma. Torço por uma recuperação dos brios da escola, mas não vou fazer projeções.

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Resenha: Sambas-enredo Carnaval 2015 – Grupo Especial (SP)

Mocidade Alegre

Nos Palcos da Vida, Uma Vida no Palco… Marília!

Samba legal, refrão fácil e direto já lançando a homenageada sem cerimônias… Talvez porque o restante da melodia venha justamente mais à vontade apenas esmiuçando a biografia da atriz Marília Pera (como curiosidade, é a terceira atriz homenageada por uma escola, depois de Dercy e Bibi Ferreira (ambas homenagedas pela Viradouro). Gostei da cara de ‘samba’ que esse samba tem (hein?!). É que hoje em dia existe uma tendência grande a sambas-enredo ficarem viciados nos mesmos lances, viradas e melodias… clichês. Mas este é um que foge pro lado oposto. Linha reta e com mudanças melódicas pertinentes. Não tem cara de colcha de retalhos, saca? Samba pra carnaval tem que ser assim. Já imaginei na avenida.

 

Rosas de Ouro

Depois da Tempestade, O Encanto!

Falando em contos de fadas que envolvem superação (dah, praticamente todos, né?). Gostei muito da linha melódica. A harmonia tem umas dissonâncias que gosto muito em qualquer música, mas em se tratando de samba, dá uma emoção pela música em si. Sei lá explicar, não tenho formação técnica, mas acho que valoriza muito a canção. Samba curto, hein! Falando de chuva, temporal… hmm, em termos de carnaval, sempre dá um medo de falar em chuva… haha. Brincadeira. Como eu disse, samba curto, mas envolvente. Achei tão direto que nem dá pra sentir (UIA!), mas é legal que não enjoa. Se vai ter esse efeito durante todo o desfile, não sei, mas está muito bom.

 

 Águia de ouro

Brasil e Japão – 120 anos de União

Normalmente, eu não sou chegado nesses enredos com cara de guia turístico, ainda mais quando fala de lugares fora do Brasil, mas, em se tratando de São Paulo, acho mais do que natural a cultura do país ser abordada. É parte da própria identificação Brasil-Japão. Gostei do samba, tem uma melodia sólida e me faz lembrar de alguns sambas dos anos ‘90s, quando a alegria das melodias ainda era mais importante do que as politicagens.

 

Acadêmicos do Tucuruvi

Entre confetes e serpentinas: Tucuruvi relembra as marchinhas do meu, do seu, do nosso Carnaval’

Samba homenageando as marchinhas de carnaval clássicas. Já mencionei isso nas outras duas resenhas que fiz (RJ), pode parecer meio deitão, mas eu adoro esses sambas que usam a própria letra pra citar outras letras. Quase uma metalinguagem. Estilão União da Ilha, a diversão leve do carnaval. Tomara que no desfile, a escola saiba aproveitar, porque sempre tem o risco de não ter fôlego pra manter um tema tão simples, mas a canção, pra mim, tá maneira.

 

Dragões da Real

Acredite se puder

Antes, uma observação específica da gravação: Se o esquenta tiver essa longa introdução, vai estourar o tempo. Rá! Brincadeira, pra mim, que não conheço muito do carnaval de Sampa, fiquei esperando o refrãozinho acabar pra saber de que escola se tratava… mas enfim… Samba motivacional falando em acreditar nos sonhos. Sei lá, não que eu achasse fraco, mas acho que o tema tá muito em aberto, sem um fio condutor. Até faz sua menção ao sonho de gritar ‘é campeão’, mas não me diz muito sem ver o desfile pra ilustrar. Enquanto música, achei meio genérico.

 

Acadêmicos do Tatuapé 

Ouro, símbolo da riqueza e ambição

Intro feita por Leci Brandão e pelo encrenqueiro do Wander Pires. Enredo sobre ouro (inshalá!), já começa citando a mãe africana do ouro, o orixá Oxum. A curiosidade fica por conta da frase “o sonho de gritar ‘é campeão’”, dita também no refrão da Dragões da Real (tipo, não estão contendo o desejo pelo título, né?). E outra, boa parte do samba está em tom menor, o que, pra mim, é muito lindo, ainda falando em orixá, folclore e assuntos que abordam cultura em geral.

 

Tom Maior 

Adrenalina

Samba falando de adrenalina já me promete (mesmo que ninguém se importe, rá!) um desfile empolgado e com alegorias bem diretas no que diz respeito à comunicação com o público, e enquanto música, até gostei, mas achei a melodia meio comunzona em alguns momentos. Nada que atrapalhe e as viradas da bateria dão uma quebrada nessa retidão melódica. Talvez seja apenas uma expectativa inconsciente que eu tenha criado entre o enredo e a música, mas gostei sim, não critico negativamente não.

 

Império de Casa Verde

Sonhadores do mundo inteiro: uni-vos!

Ok, eu já superei a ironia do verde no nome e o azul no pavilhão. Mais uma escola com tema lírico de sonhos e tals… Tô reparando um padrão ou é só paranóia minha? Bem, pelo menos, a abordagem aqui tem uma direção. Cita Bob Marley, Zumbi, Mandela, então, já percebemos que o sonho não é apenas uma espécie de delírio e sim as inspirações artísticas, sociais, culturais e essas bossas. A melodia também subverte certas expectativas que ela mesma lança, levando a melodia para outro caminho, fazendo com que a música tenha uma maior intensidade, já que lances diferentes não dão de cara o destino da canção. E outra: Mais uma a falar em ‘sonho de ser campeão’. Minha paulistada querida tá com sangue nos zóio pra levantar o troféu. Rá!

 

Vai-Vai 

Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo

Samba de homenagem biográfica a Elis Regina. Não precisa falar mais nada, né? A história da pimentinha dá muito enredo. Nota: A intro de Maria Rita citando trecho de Maria, Maria deve ter exigido uma força que a cantora não faz nem em suas próprias músicas… Deve ter dormido três dias descansando a voz. Rá! Melodia simples e bonita. E toda gravação que mete (UIA!) um banjo na levada de samba-enredo me causa admiração (porque eu não sou de fazer, então reconheço a beleza da atitude, haha). Esse samba e esse tema não tinham como dar errado, pelo menos na música, e não deu. Agora é correr pra avenida e valorizar a bela canção.

 

Gaviões da Fiel 

No jogo enigmático das cartas, desvendem os mistérios e façam suas apostas, pois a sorte está lançada!

É, vai falar de baralho (tipo a Grande Rio, aqui no Rio de Janeiro), então, mais do que esperado falar em apostar, jogar, ganhar e… er… curinga, né? Enfim, o samba tá legal, tem umas nuances maneiras de outras melodias deste ano, mas cada uma fazendo do seu jeito. Não soa como imitação, talvez uma tendência otimista de vários compositores tentando fugir dos clichês. Tô gostando.

 

X-9 Paulistana 

Sambando na chuva, num pé d’ água ou na garoa. Sou a X-9 numa boa

Gosto muito quando os caras pegam um tema e metem nossa cultura lá no meio (UIA!). Fala de chuva, vai ter Iansã (eparrei!), no mínimo, né? Rá! Tem trovão, tem água, vem orixás afro e eu gosto muito, porque sempre enriquece muito nosso carnaval, nosso samba. Tem uma parte lá no refrão que é impossível ficar alheio à melodia, acho que é porque meio que invoca a ancestralidade, falando em orixá, a bateria fazendo uma levada de afoxé… Enredo muito rico e melodia bonita.

 

Nenê de Vila Matilde 

Moçambique – A Lendária Terra do Baobá Sagrado

Tem banjo na intro dessa, o que dá um colorido diferente, mas isso é só observação de um aficcionado. Nenê vem com África, especificamente, Moçambique. Adoro enredo afro. Abordagem histórica, valorizando nossos ancestrais, mas também leva – numa melodia envolvente – até a contemporaneidade e faz projeções de um futuro de desenvolvimento para o país. Não preciso falar muito, melhor ouvir direto o samba, porque tá tudo ali. Muito bonito!

 

Unidos de Vila Maria 

Só os diamantes são eternos na química divina

A exemplo da Tatuapé, vem falando em riqueza, mas não tanto pro lado folclórico, aqui, a Vila Maria fala do diamante, o samba é legal, mas achei comunzão. A melodia não me oferece grandes desafios pra se ‘degustar’ com os ouvidos, tem lá seus momentos bonitos, mas acho que me chamou mais à atenção a letra um tanto quanto genérica. Frases muito diretas, mas sem muita referência, meio que se garante demais no título pra ir falando o que veio na pesquisa e tals… Não gostei, nem desgoetei. Foi mais um ‘nhé’. Como destaque, cito que é mais uma escola a falar em ‘é só acreditar!’.

 

Mancha Verde

 Quando surge o Alviverde Imponente… 100 anos de lutas e glórias

Outra que veio homenageando o clube esportivo que a originou. Outra que fala no desejo de gritar ‘é campeão’.  E já foi traçado o perfil da disputa este ano na terra da garoa. Aqui é o cenário do Palmeiras. Acho legal, esses refrões de exaltação. A melodia chama a escola a cantar de coração. Nada mais que isso. De letra, é uma homenagem ao Palmeiras, em melodia tem uma retidão que não chega a enjoar, mas também não é um achado, é uma música competente no que se propõe.

 

 

Afora a regularidade, estão todas bem equilibradas, com uma ou outra destoando pra cima ou pra baixo, acho que o grande traço deste carnaval em São Paulo vai ser um grupo especial com muita vontade de levar o título na base do sonho de possibilidade de ser campeão. Muitos sambas falam isso diretamente. Bem, até aí, ninguém disputa um carnaval só pra competir, tem muita coisa envolvida, mas se declarar assim, sonhadores, guerreiros, e esse desabafo direto na letra… Sei não, acho que quem ganhar, vai precisar tomar um maracujá, porque a galera parece bem inflamada pra esse carnaval.

E, é claro, os sambas:

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