Delegado Chico Palha, Censura à Cultura na Rua e o Samba na Praça Tiradentes

Primeiramente, Fora Temer, as casas de espetáculo e bares, EM GERAL, estão rebolando para se manter, assim como os artistas de rua, de bar de esquina e todos. É a tal da crise. Se tá difícil pra uma badalada casa de show, imagina pro mambembe pobre que ganha numa noite o que vai lhe garantir alimento, roupa e moradia apenas por alguns dias, se chegar a tanto. Eventos de rua não tiram o público das casas de show. Na verdade, na gestão anterior da mesma prefeitura da mesma cidade do Rio de Janeiro, a mesma manifestação cultural na mesma Praça Tiradentes, era tida como um dos maiores expoentes culturais da região (sem falar no retorno financeiro, né?).

 

Um lugar que, até alguns anos era horrendo de violência, insegurança, insalubridade, etc, tornou-se uma praça no sentido real, no bom sentido e abrigou eventos lindos, que movimentavam – e movimentam – muita gente e muita grana, empregos, socialização e cidadania. Como que isso tudo, em um ano, de repente, se torna inimigo público das casas de espetáculo da Lapa? Nos 8 anos anteriores, não tinha essa inimizade, não tinha essa ‘roubalheira’ de público e renda.

 

O que parece é que depois de se apropriar da arte dos outros, essa gente quer se fechar num cartel, onde a grana rola solta entre eles com exclusividade e a gente, os ‘neguim’ do morro que vem pra rua, fica com as migalhas dos trocados que não querem. Porque duvido muito que eles nos deem algum desses empregos que eles alegam que estamos ameaçando com nosso modo ‘de rua’. Aliás, nem vejo essa concorrência toda com ele. Parece aquele povo que acha que cota para negros está tirando vaga do branco que teve a vida e a grana toda pra estudar.

 

Voltando, se um bacana que frequenta a casa elitizada da Lapa para na Tiradentes apenas pra economizar um a mais, acho que não estamos falando do mesmo público. E outra, o camelô que circunda a praça também é concorrente da roda na Praça. É só frequentar algumas semanas seguidas os eventos ali que você nota o padrão de PM querendo embargar o evento e, quando tudo se acalma, integrantes da roda cansam de pedir que o público consuma no bar da própria festa, afinal, é dali que sai a grana pra pagar os músicos e sustentar a roda em si.

 

As incongruências começam no primeiro parágrafo, aliás, minto, no primeiro parágrafo, vem a opinião, quase isenta de ligações diretas, de que não é o caso de uma defesa assim gratuita do Polo Novo Rio Antigo (ainda que venha uma pequena carteirada afirmando os 20 anos e os tubarões que fazem parte da associação e a ampla relevante região que comandam comercialmente). Aquela intenção de parecer apenas uma opinião que tanto conhecemos. Nada tendencioso, né? Sigamos e prossigamos.

 

Vamos fingir, por um mísero instante, que as palavras não denunciam a enorme parcialidade da opinião do autor, já jogando em médio tom a ligação entre o comércio, a associação de comerciantes e a prefeitura que dá a palavra final. É como uma galera lojista atacar o camelô, mas sem querer nem saber pra onde esse camelô iria pra poder fazer algo de bom da vida pra sobreviver. Mas estamos falando de uma outra camada, de cultura popular, de um direito do cidadão.

 

Querem monopolizar, achando inocentemente que o público da Tiradentes iria procurar a Lapa e suas caras casas com o mesmo pique do playboy que pode bancar aquilo ali toda semana. Pobre também tem direito a diversão e não só na periferia. A cidade toda é de todos. Não à elitização e ao monopólio/cartel. Não adianta tentar parecer mediador alegando reconhecer o caráter agregador e democrático da roda de samba na Tiradentes, quando nem se sabe – ou nem se parece (querer) saber – que não é só uma roda de samba que acontece ali. Nem no mesmo dia.

 

O que se prega no texto do nobre colega é que a democracia seja feita restringindo a escolha do público entre essa ou aquela casa de show que, no fim, estão todas, sob o mesmo domínio. É o que isso? Uma milícia? Um poder paralelo sobre a cultura na cidade? Se for ver o perfil da maioria do público de samba, o que estão propondo é que eu me despenque pra uma casa cara (Centro ou Zona Sul, sendo que moro no subúrbio da Zona Norte), pague altos preços apenas pra passar na porta e ficar lá me sentindo um ser exótico, um preto pobre no meio dos empresários e consumidores classe média remediada e classe alta? Não, obrigado. Ostentação é pra artistas e subcelebridades (quem?). Eu tenho contas pra pagar e não me nego a um pouquinho de diversão descompromissada.

 

A visão empresarial e corporativa que o escriba deixa é que não é contra a roda de samba… desde que seja aquela que ele supervisiona e lucra forte em cima. Manifestação cultural é outra coisa, povo na rua, consumindo, cantando (e não fazendo protestos, às vezes até violentos) é o que interessa a todos. As casas de samba referidas no texto (Semente e Gafieira) fecharam as portas por qualquer motivo, mas duvido totalmente que tenha sido por ter rodas de samba na Tiradentes. Chega desse golpe hipócrita, de fingir a culpa do outro pra ataca-lo.

 

E, para completar, o samba nunca vai morrer, ele ‘agoniza’, na letra (irônica) de Nelson Sargento, é por causa de gente desse calibre, de gente que quer lucrar com o filão popular e sabe que sempre vai ter público. Mas pra eles não interessa o pobre, que fomenta a cultura desde que ela surgiu, nas mãos do próprio pobre. O que querem é pegar o que construímos, capitalizar e manter o poder em suas mãos. Quer comprar um pão? Tem, mas só nas padarias dele. O barraqueiro da esquina, eles querem detonar e jogar pra marginalidade, jogar pro quinto dos infernos, mas não quer ali, porque ele acha que seremos ‘concorrência’.

 

Se panelas, pelo lado artístico do samba, já é bem feio, e exclui quem não puxa saco ou se submete aos caprichos de uma galera fominha, imagina pelo lado corporativo que nem a desculpa esfarrapada do interesse na arte tem! Que papelão, hein, apelão? Se uma roda de rua e uns camelôs em torno são sua concorrência, já entendi que as 80 casas são todas da mesma galera… só não entendi porque com tanta casa, ninguém pensou em fazer um marketing legal pra abranger a todos. Não é acabando com a manifestação popular na rua que vocês vão lucrar.

Fontes:

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-29/policia-militar-impede-realizacao-da-roda-de-samba-pede-teresa.html

http://odia.ig.com.br/opiniao/2017-11-30/carlos-thiago-cesario-alvim-atravessaram-o-samba.html

 

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Botequim do Império voltou! Ô Sorte!

E essa imagem homenageando Seu Das Neves… O coração chega palpita.

Botequim do Império voltou! Não só o nome, mas a proposta, a intenção, a efervescência, aquilo que o Império Serrano representa desde sua fundação. A valorização do samba, da liberdade de se reverenciar os mais antigos que pavimentaram o chão pra estarmos ali curtindo a herança cultural que nos deixaram e nos deixam.

 

“A volta dos que não foram” é a primeira coisa que penso quando lembro que do imbróglio ocorrido em fins de 2014, com a diretoria da escola modificando a proposta, trocando o samba pelo que chamamos, vulgarmente, de pagodez (pg10 e outros apelidos pra linha pop com pandeiro que emula a batida, mas não a cultura do samba), nasceu – ou pelo menos, se consolidou – o Samba na Serrinha. Por isso friso tanto o retorno do Botequim. Não foi só o evento imperial que voltou, foi a configuração musical e o tema de Samba que voltaram. Não teria esse fervor em minhas palavras pra falar que o Botequim voltou só com o nome, tendo o recheio apenas uma música que escutamos até em camelô do ‘podcast da Penha’ (não desfazendo de ninguém, apenas enfatizando que é o conteúdo e não a capa, o importante aqui).

Justamente num ano de festejos pelo feliz retorno ao grupo especial… O Império retorna à chamada elite do carnaval e o Botequim retorna ao Império em moldes que remetem à sua origem. Mesmo que a configuração da roda não seja toda imperiana, isso pouco importa, diante do tipo de evento que foi produzido neste último dia 19 de novembro. Aliás, o currículo sambístico pessoal de cada um ali dá mais do que credenciais pra justificar todas as presenças assinadas naquela mesa.

 

Desde o último 1º (perdão pelo trocadilho) de março que não se via aquela quadra como o caldeirão de emoções, cerveja gelada e samba no pé (e gogós). E desde 2014 que o Botequim não tinha essa veia de samba autêntico, sem poluição. Bem, o carvão foi abanado e o momento foi mais do que propício. Naquele ano de 2014 – em que cheguei a fazer um texto bem enfático sobre minha insatisfação com a mudança na proposta do evento – o cenário era um pouco diferente. Hoje, o Samba na Serrinha – que, enquanto grupo, era a base (e intenção) naquele Botequim – é uma instituição imperiana, mas que não é ‘do Império’, no que diz respeito à sua independência e autonomia da maioria dos eventos da quadra da escola. Claro, ainda se respeitam os ensaios (quem nunca viu um samba na casa do jongo ter músicos e plateia correndo pra descer a Av. Edgard Homero pra ensaiar na escola? Ou quem também não foi esse integrante?) e até a tradicionalíssima feijoada pra São Jorge (que pela data que ocorre, pode coincidir com o dia do samba).

Mas o importante é celebrar. O evento foi um sucesso e quem estava lá ainda viu Sr. Aluízio Machado se apresentar, dando uma canja de seus sucessos imperianos e brasileiros de modo geral. Ainda tivemos o ensaio do Império na sequência… beeem coladinho com o Botequim. Tão coladinho que o baluarte nem terminou sua saideira e já lhe puxaram a cadeira pra varrer o chão de rodo, surdo, chocalhos e agogôs. Um contratempo bem notório, mas que, diante da celebração que foi o retorno do bom filho, é um pormenor. Pareceu aquela briga de parentes no fim da festa e auge da bebedeira. Quem tava lá viu, quem não estava… Perdeu o Botequim, Mané! Rá! Tô brincando. Isso é detalhe pra outro texto, quem sabe. Por hora é hora de agradecer ao deus samba pela volta às raízes do nosso querido Botequim do Império. Isso é Império Serrano. Via-se gente de talento reconhecido na comunidade sambista, via-se artistas anônimos ilustres e muita gente amiga cantando e se divertindo como se não houvesse amanhã. Quase não se pensava na chuva torrencial que caía lá fora. Talvez até a chuva tenha caído na cadência e na empolgação do samba que rolava quadra adentro.

 

Ainda foi só a reestreia do evento e muita água tem pra rolar além da humilde tempestade que se fez na noite daquele domingo primaveril de novembro, mas, como diz uma de nossas máximas, ‘imperiano de fé não cansa’, então, perseveramos torcendo e trabalhando pra que o samba seja mais um sucesso, como acontecia há algumas décadas e ficou intermitente de uns tempos pra cá. É um momento bem gratificante pro Império e para os imperianos, afinal, mesmo que Império seja Império pra além do carnaval e muito mais abrangente do que a quadra física da escola, quem tem o império no coração (imperiano ou não), faz muita fé que a cada edição a coisa só melhore. A organização tava linda e os pequenos percalços não tiraram nem de perto o brilho da festa.

Eu, que não sou bobo, tava lá na quadra do meu amado Império. Com minha amiga, Rose Mallet, autora desses registros visuais do retorno do gigante. Valeu, minha querida!

Muito feliz por esse reencontro do Império com o Botequim e o samba de verdade. Para o alto e avante, pois o Império é patente. O reizinho voltou e essa volta vai atrair muitas outras voltas, como essa do Botequim do Império. Salve o Império Serrano, salve o Samba, maiúsculo e que nos honra a todos cada vez que é honrado por nós e pelos nossos.

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Então, Saga, o ‘pagode’ não presta mesmo?!

 

Bem, como tudo em volta do Samba cultural e seus derivativos comerciais, a resposta poderia ser um simples ‘sim’ ou até um ‘sim, mas…’, porém, exatamente pelo mesmo motivo, a resposta exige uma explicação, dada a profundidade de questões que aborda.

 

A primeira de todas é falar que, hoje em dia, o âmbito comercial está bem diferente. Era uma coisa quando Donga gravou o maxixe Pelo Telefone, era outra quando Wilson Batista fez Lenço no Pescoço e assim foi, passando pela linha do tempo do Samba, a cada, digamos, geração, a coisa mudava de modo significativo a ponto de ouvirmos e sabermos de que época era pelo tipo de linguagem ou até a qualidade da gravação. Então, chegamos à década de 1980, pegando a cauda de cometa do enorme sucesso comercial que o samba fazia nas mãos de Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara e outros, nos anos anteriores, veio a ‘onda do pagode’.

 

O termo pagode, não canso de bater na tecla, já era usado muito antes, dando contornos rurais ao que viria a ser o samba urbano. Esse termo explodiu comercialmente quando o Fundo de Quintal despontou para o grande público em fins de ’70, início de ’80. Daí, possivelmente, por uma jogada de marketing, aquela sonoridade e estilo diferente ganhou uma identidade toda própria. Uma inovação que não se encaixava na mesma prateleira que o bom e velho samba, mas que, como sempre, tinha tudo a ver, afinal, era a mesma raiz, só que tocada um pouco diferente.

 

E o termo pagode pegou, avançou, trouxe diversos nomes à superfície da mídia… Tanto que começou a virem uns caronas, uns pingentes e usurparam o nome pra si. O FDQ não é totalmente isento desse desdobramento, já que incorporou a seu estilo instrumentos que não eram comuns no samba, talvez, pra dar uma diluída disfarçada e atrair o público que poderia se afastar se falassem ‘olha, gente, é samba, aquilo que os mais velhos fazem’. Isso é um repelente de público jovem, o que mais consome jogadas comerciais de rádios e casas de espetáculo.

 

Bem, no embalo de pagodes e sucessos instantâneos, o termo pagode começou a empregar um outro tipo de sonoridade, já distante do samba e mais próximo do pop. Na virada da década de 1980 pra 1990, até Zeca Pagodinho, em torno de seus 30 anos de idade, já soava ‘coisa de velho’ pra juventude que curtia os dances estrangeiros e rocks remanescentes da explosão ‘ploc 80’ (rá!). Aí, os teclados, contra-baixos e baterias tomaram à frente de viloa de 7 cordas, tantãs e repiques. E isso ficou sendo chamado de pagode, ao passo que o FDQ e sua geração, virou ‘pagode raiz’ ou, o mais comum, ‘samba de raiz’. Nem preciso dizer a redundância, né? Se é samba, É raiz. Seria como dizer ‘planta vegetal’.

 

Mas, vamos lá, o termo pagode vendia como água no deserto e a nova geração que se apropriou, criou seu estilo próprio. Beeeem diluído se compararmos com o samba, mas até que merecia um OK, pela revolução comercial que causou. Ainda não tinha sido visto com frequência um tipo de música tipicamente brasileiro tomar as paradas de sucesso, invadir casas de show, programas de TV, rádio, matérias em jornais, revistas, produção de ídolos instantâneos e até de apelo ‘sexy symbol’. De música era bem nhé, mas no conjunto da obra, temos que admitir, levou muito ‘pagodeiro’ a ser introduzido (UIA!) ao verdadeiro samba.

 

Afinal, pra quem passou por aquela época e não se ligava em encartes de CDs, por exemplo, Arlindo Cruz e Jorge Aragão são apenas dois exemplos de gente da pesada que abastecia frequentemente o repertório daquela turma lá. E até músicas dos, então, garotos, foram adotadas por eles e outros. Em algum momento, havia essa ligação, pros mais velhos não se arriscarem a ficar relegados a nichos esquecidos da mídia, e pros mais novos ganharem um peso a mais no currículo. Como aquele coroa que anda com a galera e vira o tiozão legal, saca? Rá!

 

Então, sim, o ‘pagode’ presta, mas já passou. Foi uma moda. Hoje, alguns sobreviventes ainda faturam vivendo daquela febre e da nostalgia, estilo ‘ploc 80’, ou aquelas coletâneas da jovem guarda. O que veio depois do início dos anos 2000, melhor nem falar. Já era um outro desdobramento que nem a batida conseguia mais imitar e muito menos o teor das letras honrava. Aí, já começa uma outra coisa chamada, hoje, de pagodez/PG10, etc. O pagode 90, como chamam hoje, foi importante para a arte feita por pretos pobres e deu moral pra muita gente (pra você que pensa que a união Arlindo Cruz-Péricles-Esquenta é novidade). Um trabalho artístico de nicho popular dominou a mídia por anos.

 

O de hoje não, é uma batidinha aguada feita nos moldes do R&B estadunidense que, por um acaso, ainda insiste em botar um pandeiro, ou algo que pareça. Já não tem mais identidade ou mera semelhança com samba, não toca em rodas de samba nem de zueira e só serve pra adolescentes acharem que seus sentimentos conflitantes nos hormônios possuem uma vasta experiência em amores mal resolvidos. Ah, e levantar o copo pra elevar a voz nos refrões extremamente sofridos.

 

Se antes a poesia estava empobrecendo em nome das vendas instantâneas em massa, hoje, nem existe mais ‘pagode’. O último foi o Exaltasamba e, mesmo assim, acabou quando deixou sua própria identidade ‘pagode’ pra se tornar mais um meloso de vocal uivante trabalhado no grito e no falsete (sim, Thiaguinho, estou apontando pra você agora – Rá!). Caras de quase 50 cantando com gel adolescente no cabelo letras de jovens empolgados com cerveja e cantadas baratas não dá, né? Alô, Péricles! – Rá!²

 

Pagode 90 é legal pra mim, é nostálgico e pra quem não pegou aquela época, também cai bem… Vai cair melhor quando decidirem resgatar outras músicas além das mesmas já manjadas de sempre. Mas repertório é assunto pra um texto um outro dia. Por hora, pagode é legal e já tá virando ‘coisa da antiga’, como um amigo mais novo falou… Já fiquei velho. Eeeeitaaaa!

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Para Além das Estrelas – Wilson das Neves

Certa vez, assistindo a um documentário, se não me engano – há alguns anos – lembro que Das Neves era um dos homenageados naquela oportunidade e dizia – com seu característico humor refinado, sutil, porém afiado – que gostara da situação, pois depois que você não está mais aqui, que vira nome de avenida, de viaduto, não adianta, que não vai poder curtir a festa que fazem por você. E é verdade, nada melhor que homenagear alguém que se admira enquanto essa pessoa está aqui pra sentir esse carinho. Mas tem horas que não tem jeito, ninguém sabe ao certo a hora derradeira, quando a sina da natureza vai nos chamar, então, presto minha homenagem junto com minhas condolências, peito ainda apertado e resignado.

Acho que uma das primeiras vezes que ouvi o som quente é o Das Neves foi numa gravação com Beth Carvalho, aliás, regravação de Degraus da Vida, de Nelson Cavaquinho, quando, humildemente, ele termina o fonograma dizendo que Beth teria arranjado mais um afilhado, arrematando com descontração a faixa com seu clássico ‘Ô sorte!’. Depois, passei a reparar que eu já tinha ouvido sua arte de forma involuntária por aí, até reconhecer que conhecia algo de seu trabalho mas sem saber que era trabalho dele. Era um gingado diferente, uma coisa cautelosa e ao mesmo tempo impetuosa, livre, bem como o mestre demonstrava ser. Não convivi com ele, mas as vezes que estivemos no mesmo ambiente, pareceu ser assim, um comedido de personalidade marcante. Até o momento em que o vi emocionado e chorei, na quadra do Império Serrano (escola de samba da nossa paixão), em homenagem durante o evento Resenha Imperial.

“Ô sorte!”. Das neves contava que Roberto Ribeiro não sabia que ele era imperiano também até vê-lo tocar tamborim na Sinfônica do Samba (bateria do Império, da qual Das Neves era padrinho) e, percebendo sua presença, exclamou ‘Ô sorte!’. Em entrevista radiofônica há anos, ele explicava, se bem lembro, à MPB FM, ele disse algo como ‘Aí, a gente ficava ‘Ô sorte’ pra lá, ’ ‘Ô sorte’ pra cá, ele morreu, eu fiquei’. A explicação jocosa ganhava ares mais sérios e mais solenes quando ele também falava que sua expressão famosa era uma forma de agradecer à natureza, aos orixás, por tudo que tinha em sua vida. Dizia que não tinha nada de mais, que por ser mais antigo, acabava gerando a ideia de referência, humilde que só, e apenas considerava que estava apenas fazendo seu trabalho.

E que trabalho! Mais de 60 anos de carreira, de talento prestando serviço aos mais variados artistas de diversas gerações do Brasil e do mundo. Foi músico de estúdio, de orquestra, de conjunto pra show, turnê, participou de filme, compositor rico e cantor de estilo altamente próprio (quem nunca cantou suas músicas imitando aquelas notas prolongadas que ele fazia que me atire uma pedra! Rá!). Além disso, já foi motivo de homenagem em documentários, enredo de escola de samba e referenciado por muitos dos artistas que tiveram a honra de ter suas baquetas à sua disposição. Aliás, baquetas essas que sempre estarão em suas mãos, como diz seu mais famoso samba.

Tem sido um ano difícil pro Império Serrano, pro Samba e pra música em geral, mas, como se diz, só morre quem tá vivo e todo dia há despedidas, mas não é pra desanimar. Pelo contrário, por um lado, o céu tá numa cadência linda pra dizerem por lá ‘Ô sorte!’, aqui também temos a honra de ter recebido de graça um dos maiores talentos já vistos nesse país… Ô Sorte! É uma responsabilidade, honrar esse legado e reverenciar o provedor desse legado. Temos sorte de ter tido Wilson das Neves entre nós. Se estamos chorando hoje, é de saudade, de emoção, gratidão, mas nunca de tristeza, pois cumpriu sua missão aqui o samba é essa família reunida. Choramos os que partem, mas depois ficam as histórias, a alegria de sua presença mesmo que não física. Ô Sorte! Vá em paz, mestre!

Fontes:

https://samba.catracalivre.com.br/geral/samba-na-net/indicacao/wilson-das-neves-fala-sobre-biografia-memorias-de-um-imperador-o-sorte-em-entrevista-exclusiva/

http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/baterista-que-cantava-wilson-das-neves-sai-de-cena-no-rio-aos-81-anos.html

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Zé do Caroço: O Samba Político de Leci Brandão

 

Não vou nem enrolar, vou direto no material tamanha a euforia que me dá em falar no assunto. Zé do Caroço foi um serviço de auto-falante, assistência social e militância em prol do mais pobre quando ainda não existia todo esse conceito de lutas sociais, na verdade, bem pelo contrário, pois era tempo de ditadura militar e ideológica, fazendo o Brasil crer que tudo estava bem, como na novela, onde o bandido carregava um crachá de bandido e o mocinho era o inconfundível branco de classe média, hétero e católico – mesmo que não declaradamente, etc…

Bem, Zé do Caroço – José Mendes da Silva – veio da região Nordeste do Brasil para o Rio de Janeiro, mais precisamente, para o bairro de Vila Isabel, especificamente para o Morro do Pau da Bandeira, comunidade vizinha ao Morro dos Macacos (que você deve conhecer de composições de Martinho da Vila, onde é citado seu nome).

Zé do Caroço, segundo seu filho, no documentário Zé do Caroço: A Voz do Pau da Bandeira (2011), teria ganho o apelido devido a um problema de saúde que o conferia caroços em todas as juntas do corpo. Ainda jovem, foi policial civil e, tendo se aposentado muito mais cedo que o normal – justamente por causa do tal problema nas juntas – foi dono de um bar na comunidade, onde iniciou o tal do serviço de auto-falante, que seria uma espécie de precursor das atuais rádios-comunitárias.

O auto-falante na lage de casa, no morro, se tornou famoso por alguns fatores que faziam de Zé do Caroço um líder comunitário no melhor sentido da palavra. Seu, já citado filho, diz que ele tinha o dom de pedir, então, sempre conseguia ajuda e mutirões para virar uma laje aqui, uma pintura de paredes ali, etc. E em seu auto-falante, ele prestava todo tipo de noticia que pudesse ajudar a melhorar a vida na comunidade. Desde preços atrativos na feira até a serviços de ação comunitária.

E o mais interessante é que esse serviço podia vir a qualquer hora que Zé achasse importante repassar suas novidades ao morro, mas seu horário preferido era no horário da novela, pois, segundo o documentário mencionado, era o horário que as famílias se reuniam diante da TV, meio que facilitando a centralização da informação, mas também porque ele queria falar ao povo num momento em que a TV estava tentando iludir o cidadão com um mundo fictício que não condizia com as dificuldades da maioria do povo.

Nesse contexto, Zé se tornou um herói para o Pau da Bandeira, mas um incômodo para a esposa de um militar que, em plena ditadura (não perca de vista, eram os anos 70’s, repressão correndo solta) se queixava que a voz do morro vizinho atrapalhava sua novela. Essa história chegou aos ouvidos de Leci Brandão que, num bate-pronto, bolou a letra em cima de uma melodia que já se desenhava na região cérebro-espiritual que chamo de ‘inspiração’.

E aí, negada, é Leci + Samba + Causas Sociais = Zé do Caroço. Precisa de mais? Ela criou a pérola em 1978 e tentou gravar, sendo censurada pela gravadora Polydor. Rescindindo com a empresa, migrou para a Copacabana Records, onde só conseguiu gravar em 1985. Aliás, a canção é a mais regravada de Leci nos últimos tempos. Já serviu de amuleto de sorte para os debuts de Art Popular, Revelação, Mariana Aydar e ainda a releitura que fez escola por parte de Seu Jorge, no DVD em parceria com Ana Carolina. Mas eu ainda prefiro a versão original. Seguida pela do Revelação, nem tanto pela paradinha funk, mas pelo tantã do Rogerinho mesmo. Rá!

Ps.: Zé do Caroço faleceu no início da década de 2000, tendo tido a oportunidade de ver seu nome e sua luta eternizados num dos maiores sambas de todos.

 

Fontes:

 

 

http://osomdacoisa.blogspot.com.br/2012/01/samba-e-politica-em-mais-um-ze-o-ze-do.html

 

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Prefeitura do Rio libera rodas de samba da obrigação de alvará

 

Bem, na verdade, são os eventos audiovisuais que ganham desburocratização através do sistema Rio Ainda Mais Fácil Eventos – RIAMFE, da prefeitura carioca, onde produtores culturais foram informados, por meio de audiência pública, neste dia (19/07/2017) sobre os meios de se organizar eventos de forma mais ágil e simplificada.

 

Mencionou-se que os eventos de natureza religiosa não precisarão de consulta prévia ou emissão de autorização transitória – incluindo religiões de matriz africana. Bem como as rodas de samba, que não sofrerão – segundo a prefeitura – e quero muito acreditar que é pra valer – qualquer proibição ou obrigação de alvará para serem realizadas.

 

Em meio a diversos memes, boatos, exageros e conversas sobre orçamento e seu uso no campo do entretenimento, acho que essa é uma questão que merece ser observada. Veja bem, é muito bom pensar que nossas rodas de samba continuam com a possibilidade de sere, pois sabemos – ou deveríamos saber – que o samba carrega uma história e uma cultura muito maiores do que uma mera festinha de bebida e curtição.

 

No mais, gostei disso, acho que a prefeitura não precisa criar polêmicas desnecessárias com eventos ‘mundanos’ pelo simples fato de o prefeito ter outra postura – até porque o prefeito não vira dono da cidade só porque foi eleito pela maioria – e é pra dar a César o que é de César e ao povo o que é de seus orixás, morou?

 

Fontes:

 

http://www.jb.com.br/rio/noticias/2017/07/19/prefeitura-faz-reuniao-com-produtores-culturais-para-esclarecer-decreto/?from_rss=rio

 

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-19/rodas-de-samba-de-rua-estao-liberadas-de-alvara-da-prefeitura.html

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Crivella promete cortar verba das escolas de samba… Vai prestar?

cricar2

 

Prefeito Crivella está incisivamente minando investimentos em eventos culturais (falo pelo lado do Samba que é o que eu entendo e acompanho). Não quero pensar que é por ele ser um líder religioso dentro da religião dele que ele toma atitudes drásticas que deixam eventos festivos não-religiosos capengando. E o pior é que ainda usa argumentos demagógicos, por exemplo: O corte pela metade na verba distribuída às escolas de samba do grupo especial com o intuito de direcionar essa quantia para bancar o custo diário de crianças em creches particulares conveniadas com a prefeitura. E é sobre isso que eu quero falar.

 

Bem, de bancar evento cultural na rua eu entendo alguma coisa, pois faço parte de dois além das dúzias de pessoas que eu conheço que vivem essa realidade e muitos, diferente de mim, vivem efetivamente de música, de produção, fornecimento de estrutura e serviços relacionados, pois, você sabe, existe todo um universo em torno e que está correndo em areia fofa. Mas vamos falar sobre o universo específico do carnaval carioca. Bem, carnaval, aqui, não é só escola de samba, na verdade, é muito mais carnaval de rua, de salão, shows, enfim…

 

Esse tipo de festa movimenta milhões, bilhões de reais com a freqüência nativa (olha nós aê!) e muita, mas muita coisa mesmo vem de turistas. O turismo fatura muito para a prefeitura e esse é o principal argumento da LIESA (a liga das escolas de samba do grupo especial carioca) para tentar convencer o prefeito religioso conservador a reconsiderar sua decisão. Por outro lado, a conversa do Crivella é que investir na educação é mais relevante e eu já digo porquê acho essa história muito controversa.

 

Bem, baseado no que li, e no que papeei recentemente com amigos leigos, religiosos, músicos, educadores e admiradores tanto de investimentos em causas sociais quanto dee eventos culturais, juntei tudo com algo que eu já ensaiava em escrever e saiu a grande impressão de que o prefeito queria uma desculpa pra passar o cerol no carnaval e derivados. Sim, porque pra investir em educação, ele não falou em construir nada, nem creche, nem escola, nem em material para os que já existem, mas para custear crianças em creches particulares… oi?

cricar

Como seria se o poder público ficasse bancando a iniciativa privada? O que sobraria para o poder público fazer? Será que ele pensa em abdicar dos investimentos no município pra dar uma ajudinha? Tipo, a terceirização voltou com uma maquiagem mais atual, meio que hoje não é rouge, é blush, mas faz a mesma coisa? Essa é uma linha de raciocínio minha, não ouvi ninguém falar isso e é uma espécie de paranóia aquariana minha.

 

O engraçado é que ele vai cortar metade da verba do carnaval pra bancar crianças em creches particulares. Ok! Muito evangélico e muito não-folião achou linda essa ideia e até já promete votar no prefeito na próxima eleição, afinal, quem não fica bem na foto com a política pública da propaganda ‘salvem as criancinha’? É lindo, até o Pelé já mandou esse papo, mesmo que não tenha sido homem pra reconhecer uma filha, nem os netos da falecida.

 

O problema é que se parar pra pensar, o que o carnaval arrecada com turismo é bem superior ao que Crivella promete cortar das escolas de samba. Um dia de desfile no sambódromo lucra muito mais do que o milhão que o político-bispo. Será que não seria mais jogo investir no carnaval e pegar desse retorno financeiro até mais dinheiro pra bancar as criancinhas em creches particulares?

 

Culturalmente, eu nem ligaria muito pra redução de subsídios ao carnaval de sambódromo, isso por questão ideológica. Há décadas que escolas viraram empresas apenas pra capitalizar a folia. O pobre continua pobre e as escolas não reinvestem nelas mesmas enquanto instituições culturais, pra dar uma bola na comunidade, serviço social, etc. Aliás, algumas até fazem sim, mas o foco é botar pena de faisão marciano no biquíni da subcelebridade que tiver mais dinheiro pra aparecer. Luxuoso demais, caro demais, samba de menos e o propósito das escolas já dançou faz tempo.

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Mas tem esse lado do dinheiro. Oras, se é dinheiro que importa, porque não investe 10, pra fazer 1000 em vez de cortar 5 da verba básica? Mesmo que as escolas façam desfiles menos luxuosos, acho que o carnaval ainda assim rende bastante e não há problema em usar isso pra investir em outros campos que precisem. Ou tá rolando uma falha grave de planejamento aí, ou uma nítida má fé com relação ao carnaval.

 

Em todo caso, seja lá o que for, às vezes é preciso deixar a coisa dar bem ruim pra que a opinião popular possa se posicionar e os governantes se mancarem. Por exemplo, muito músico vai encarar dificuldade de trabalho no setor do samba, sobretudo de rua, sendo que a vida de músico, da maioria, é dureza, é correria pra conseguir se sustentar, lucrar já é outra história.

 

Também tenho a opinião de que se as escolas realmente cumprirem de não desfilar, que se apresentem para suas comunidades. Vou adorar ver meu Império Serrano pelas ruas de Madureira, ou mesmo lá no Morro da Serrinha. Imagina o que a escola não ganha se colocar eventos regulares na quadra, na Casa do Jongo, ou na rua?

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Aguardemos cenas dos próximos capítulos. Eu acho que por agora é melhor nem debater muito, porque pode ter blefe aí, pode ter alguma negociação em breve e, no ruim de tudo, a coisa se confirmar, mas até lá, ainda falta uma penca de meses. Mas o camarada já mandou migué pra não ir ao sambódromo e iniciar o carnaval oficial entregando a chave da cidade para o Rei Momo, então, vamos ficar de olho. Quem sabe, daí, a megalomania do carnaval não volta a botar o pé no chão. Oremos.

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