Exhibit-B: Não ao Zoo Humano

Ao final do texto, deixarei um link para uma petição que tá rolando de repúdio ao tal Exhibit B (cujo B deve ser de barbárie), uma exibição de atores negros em reproduções do que nossos ancestrais passaram aqui mesmo nessa linda terra hospitaleira chamada Brasil. E fui marcado por uma amiga numa postagem que trazia o link dessa petição em repúdio à ‘manifestação artística’ (já, já eu explico porque isso é tudo, menos artístico), mas queria começar falando sobre um caso particular. Estou há uns dias resolvendo assuntos pessoais, o que me impediu de escrever isso antes, mas há alguns dias, quando rolou a tal marcação, eu tinha acabado de assistir a A Sombra e a Escuridão, aquele filme com Val Kilmer e Michael Douglas, saca? Dos leões terríveis que devoraram dezenas, talvez centenas de trabalhadores da obra de construção da ponte sobre o rio Tsavo, Quenia.

O fato é que eu tenho uma mania de desocupado de ficar ‘google’ nas coisas que assisto ou ouço em meio a minhas leituras e pesquisas, e achei um site bem informativo sobre os leões da vida real, num site que também tem um amplo acervo de imagens e informações sobre guerras e diversos acontecimentos históricos. Neste site (que eu disponibilizo o link lá em baixo também, prometo), tem uma seção de ‘zoo humano’ e vocês vão entender o porquê do boicote a essa violência veladamente descarada que se chama ‘exhibit B’. Vejam algumas imagens do que se entende por cultura européia de zoo humano, ou seja, mostrar etnias diferentes do pseudo padrão euro caucasiano como animais, sub-espécies de humanos que não seriam gente de verdade (motivo real do xingamento ‘macaco’ e não um mero apelidinho aleatório, por exemplo). Veja umas fotos que vão dizer mais que palavras.

 

Pigmeus sendo expostos no Royal Aquarium em 1888

Nativos da África sendo levados para exibições etnográficas em Paris

 

Combater o racismo é algo bem complexo e intenso, porque envolve desconstruir uma série de costumes que a sociedade trata de forma íntima, quase como lei da natureza, em forma de piadas, expressões populares, forma de tratamento, padrões estéticos, religiosos, musicais e entre muitas coisas mais. E em nada acrescenta exibir o negro como uma peça exótica, um show de horrores com o apelo à curiosidade mórbida de se ver como começou esse tipo de tratamento. Isso não é denúncia, não é levantamento de assunto para debate… é apenas uma aberração. Algo que não se faz nem com a comunidade judaica, mesmo tendo tantos registros a mais sobre seu sofrimento durante a segunda guerra mundial. Páginas tão pesadas de nossa história não devem ser resgatadas para o público contemporâneo se não vier com uma carga densa de informação, história e lições que enquanto humanos devemos aprender, de consideração e respeito ao próximo e ao sofrimento que uma parte da sociedade inferiu sobre a outra.

Pôster de um zoológico humano

Enfim, exibir o sofrimento dos outros com tanto racismo ainda por aí, é uma drástica demonstração de insensibilidade racista, de expor o sofrimento alheio e jogar isso nas costas de seus descendentes, bem como as chibatas e demais instrumentos de tortura o faziam até menos de 130 anos, um período muito recente se pararmos pra analisar que uma sociedade, um corpo formado por milhões, levou uns 400 anos se estruturando sobre isso. Temos historicamente muito mais tempo de escravidão nas nossas costas do que “abolição” e o próprio fato de a vida do negro no Brasil ter começado como mercadoria, tendo “precisado” ser liberto séculos depois já é uma violência primordial, resgatar isso de modo a só atrair olhares e causar impressões chocantes é um desserviço. É regredir nossa luta em anos, é trazer de volta aquele ranço de distância, de possíveis pensamentos “olha como era terrível naquele tempo, agradeça à Isabel”.

Exposição no zoológico de Acclimation em Paris

A sociedade, que já se ocupa demais em fingir que não vê racismo em nada, aplicando o discurso reverso de que quem denuncia o crime é que é o culpado, não precisa desse retrocesso. Isso é o tipo de coisa que distancia a história corrente do país de seus reflexos atuais. Essa necessidade sanguinária sociopata precisa parar, muita gente ainda acha que o que aconteceu no passado ficou enterrado lá e não gerou frutos, ainda que estragados. E a escravidão é um dos mais presentes, ao lado do próprio famoso jeitinho brasileiro, ou seja, naturalizações do que o ser humano tem de pior para oferecer ao mundo. Dizemos não a essa bizarrice de zoo humano. Não é engraçado, não é informativo, não é denúncia… e, na eliminação de todas as possibilidades de utilidade pública, ficam apenas meus palpites de irresponsabilidade, psicopatia racista e má fé.

Segue a descrição do manifesto/petição:

Por que isto é importante

Cancelado em Londres e Paris e em grande parte da Europa após expressivas manifestações de repúdio, o espetáculo de Brett Bailey, Exhibit-B, recria as atrocidades sofridas na escravidão com atores negros, mudos, enjaulados, amordaçados, agredidos e torturados num zoológico humano. Acreditamos e defendemos o princípio de que a dignidade humana deve ser defendida e preservada, e que o povo negro, que ainda resiste às sequelas do crime de escravidão, que no Brasil podem ser vistas tanto a olho nu quanto através das estatísticas, não precisa ser retratado num “zoológico”, que reforçará a idéia covarde de que a história do negro começou na escravidão. O povo não precisa ver- se novamente agredido com a reprodução da covardia que foi um dia usada para dizimar milhares de seres humanos, que são assim como seus antepassados. Zoos humanos eram uma prática de entretenimento europeu que exibia negros como sendo uma espécie sub- humana. Cientes do apelo racista que levará curiosos à espiar “essa espécie” sob a (mascarada) licença artística, registramos nosso repúdio absoluto e esforços para impedir que o Brasil seja palco, financiado com dinheiro público, disso. Fora Zoo Humano! #ForaExhibitB #ForaZooHumano #Racismo #ContraExhibitB #ContraoZooHumano #BoicoteExhibitB #BoicoteZooHumano #BrettBaileyRacista
Agora o porquê de eu não gostar dessas manifestações ‘olha como seu cabelo é fofinho’, ‘olha que dente branquinho’, ‘olha que exótico’ e ‘olha que pessoas diferentes';
Essa cultura de diferenciar padronizando pelo estadunidense médio/europeu é a maior piada para um país que deliberadamente fez sua população ser de ampla maioria negra/miscigenada e não quer assumir isso por um complexo de vira-latas infantilóide que o faz tentar a todo custo parecer uma coisa que não é e nunca foi. Vivemos entre trópicos, a diferença já começa aí, lide com isso e boicote exibições de pessoas em situações degradantes pra criar polêmicas imbecis e inúteis.
Citados no texto:
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Porquê haver uma parada do orgulho crespo?

Essa questão é fácil de explicar, mas como a internet permite que qualquer um tenha acesso, então é preciso que usemos nossos argumentos de forma preventiva aos ‘mimimi’ dos racistas que podem – e vão – se contorcer e mover meio mundo de falácias bestas pra tentar parecerem bons cidadãos, na tentativa de jogar a culpa pra cima da vítima do racismo. Assim como muitos defendem que mulher não merece respeito se usar roupa curta, mas estou divagando. Vamos lá: O orgulho crespo, assim como orgulho LGBTTT, por exemplo, é uma medida que visa valorizar e mostrar orgulho por algo que somos/temos por natureza e não recebe o mesmo valor pela sociedade como um todo. Simples assim. A sociedade ignora que descende, em suas classes mais altas, de escravocratas, gente que está se sucedendo em diversas frentes políticas, empresariais e midiáticas perpetuando os preconceitos que criaram há séculos.

Se há menos de 130 o Brasil era o último a largar o osso negro da escravidão perante o mundo, como alguém pode achar que já eliminamos o racismo numa realidade que teve uns 400 anos de escravidão, violência e conceitos culturais deturpados? Eu te falo como: Naturalizando. Quer um exemplo? Trabalhei, há quase um ano, numa empresa terceirizada do Ministério da Educação e, a moça que ministrava o treinamento, junto com uma colega que era admitida junto comigo – ambas brancas de cabelos entre o liso e o ondulado – conversavam sobre como causavam inveja em negras de cabelos crespos em filas de mercados ao ponto de ouvirem ofensas. Uma falou isso e a outra completou dizendo que consolava sua sobrinha pequena por ela ser complexada em ter o cabelo ‘assim, ruinzinho’ (descrevia passando a mão em seus fios com cara de nojo). Dá pra imaginar de onde vem o complexo dessa sobrinha, né? Lembrei agora da pouca representatividade na TV.

Veja o exemplo de Anitta, mal ganhou espaço na mídia, já tratou de fazer um whiteface, embranquecendo, alisando, afinando nariz… É tipo isso que a sociedade faz com nossas meninas, buiscam um modelo que não pertence à maioria da população. Cria uma população de insatisfeitos.

Camila Pitanga está num personagem enérgico, vai onde quiser pra discutir, defender seus pontos, acusar a vilã e… quando sua filha está triste por sofrer racismo na escola, ela a abraça e chora em frente ao espelho… say WHAT?!?!? Não uma visita invocada na escola? Não uma conversa acalorada com a mãe da criança que ofendeu (onde provavelmente a criança aprendeu)? Deixa pra depois pra eu não fugir muito do foco. Voltando à questão da condescendência racista, outro dia, eu buscava sites de dicas para hidratação de cabelos crespos e achei um que insistia em dizer coisas como ‘cuide bem do cabelo ruim de seus filhos’. Na terceira que li isso, abandonei aquela m… e no impulso esqueci até de pegar o nome pra botar na boca do povo (da minha campanha pessoal ‘exponha um racista ainda hoje’). Enfim, sempre tem gente com alguns argumentos bem vazios e eu vou derrubá-los agora:

“Paradas de orgulho de qualquer coisa só servem para separar a sociedade, somos todos humanos”.

Essa é uma bem básica e geralmente usada por quem não sofre na pele determinado preconceito (homem, branco, hétero). Mas, anote aí, não é porque você não leva um tiro, que o coleguinha baleado tenha que sair saltitando ao seu lado pra você não ter que mostrar que não se importa com seu ferimento, ok? Somos todos humanos, mas é o cabelo crespo que é xingado de ‘ruim’ e não o liso. Lembra do Silvio Santos perguntando ‘Com esse cabelo?’ para a atriz Julia Oliver, após a menina dizer que pensava em ser cantora quando crescer? A menina escreveu em seu Twitter que ama seu cabelo e que não é isso que determinará ela alcançar seus objetivos.

“Essas paradas são demonstrações de complexo de inferioridade”.

Novamente, costuma ser dito por quem não sofre na pele. Até porque, por incresça que parível (hein?!), chega bem perto, mas não compreende a causa. É como comer um Big Mac e achar que ficou bem alimentado (Rá!). É por uma questão de inferioridade sim, mas não por sentirmos e sim por demonstrarmos não aceitar isso. É a sociedade dizendo ‘vocês tem o cabelo ruim, o nariz feio, a cor engraçada, a religião do mal e a música barata’ e nós aqui dizendo “não, nós somos lindos, temos nossa própria identidade e sambamos na sua cara. LIDE COM ISSO!”.

Não vou mais enumerar essas frases porque todas redundam muito nesses dois temas, que já são bem ligados. Vou partir para exemplos de efeitos que esses ignorantes não percebem porque não se importam. Tipo, quando resolveram lembrar que há gente passando fome a qui e lá fora só porque uma galera coloriu o avatar de facebook em arco-íris. Só querem reclamar que alguém está se mexendo pra mudar um mundo errado que essas pessoas apenas se deram ao trabalho de se conformar em existir.

Meninos ouvem desde cedo que o cabelo tem que ser curto pra parecer certinho, bonitinho e limpinho. Se é homem e tem cabelo crespo, raspe. Já meninas, essas têm mais trabalho, pois, mulher de cabelo curto, se não for liso, são vistas como menos femininas, então deixam crescer, mas é crespo e é absurdo, mas o pente é um instrumento de tortura para mulheres. Já imaginou isso. A qualidade de um cabelo ser determinada de acordo com a aprovação do pente? Pois é, acontece. Se o pente desliza pelo cabelo, é bom, se não desliza de ponta a ponta, é ruim. Só eu acho isso mais que infantilóide, e sim babaca? Além de injusto, já que pra haver um padrão (o pente, no caso), deveriam ser avaliados todos os tipos diferentes de cabelos e não um só pra ser o ‘certo’.

Novamente, determinar cabelo como ruim por que ele cresce em outra direção é babaca. E cria complexo em nossas meninas, achando que pra serem aceitas, precisam esticar no ferro e na química, pois daí, surgem um problema: O cabelo perde o brilho, perde a textura, fica na cara que é artificial e sem vida logo no dia seguinte à ‘recauchutagem’. Daí, ou a gatinha desembolsa uma grana ferrada pra ficar mantendo esse status ‘não vou aceitar minha textura’, ou o cabelo começa a crescer natural por baixo da parte deformada, criando um aspecto ‘capacete’. E porque usei apelidos grosseiros? Pra ilustrar uma frase que diz exatamente como a sociedade vê esse auto-ódio. Uma conhecida, a mesma da inveja na fila do mercado, descreveu uma ex-colega de trabalho assim: “Ela fazia escova, mas não podia lavar sempre. Realizou o sonho do cabelo liso, mas antes ficasse com o cabelo escroto, mas lavando sempre, limpinho”. É isso, minha gente, você se odeia e eles acham isso legal. Não te respeitam por se odiar, só reforça a certeza deles de que você nunca será como eles.

E porque eu digo isso? Bem, porque sendo sociedade comandada por uma minoria branca e rica, o negro, que traz o ranço do racismo nas costas, reflexos da escravidão, acaba sendo o exótico. Como se fossemos turistas. Assim, o branco é o normal, o cabelo liso é o normal, e olhos claros são lindos. Então, se aparece uma pessoa negra, ela ‘até que é bonita pra uma negra’, ‘tem que abaixar esse volume no cabelo’ e essas coisas. Ou seja, te orientam a desfazer de suas características, mas sabem que não vai ser igual a eles. O problema mesmo é que o dito normal não tem porque se rebelar, ele já está no topo da pirâmide social. Só que quando a parcela ‘de baixo’ reivindica seu direito a figurar lá em cima também, aí incomoda, porque o que esse normal tem? O topo, mas o que nós temos? Temos orgulho do que ele aprendeu a vida toda que é ruim, feio, demoníaco, exótico e caricato. Isso cria um complexo na pessoa que ela não entende como podemos ter orgulho de cabelos crespos, como é o tema desse texto, entre outras diversas características culturais e étnicas de matriz afro.

Muito ‘’amigo’’ aí se revela racista quando resolve abrir a boca sobre o assunto. Essa é minha teoria de porque tantos evitam falar no assunto, pois sabem que vão se revelar, então ficam desconfortáveis com isso. É por isso que muito negro também evita, alivia o coleguinha porque não pensa num mundo em que ele é a pessoa por quem vão fazer de tudo pra ficar ao lado, quiçá, abrindo mão de suas próprias opiniões, como esses negros complexados fazem, defendendo com unhas e dentes o racista. Mas isso é papo pra outra hora, por enquanto, vamos ficar com a motivação real do orgulho crespo: A afirmação de que mesmo diante de todo preconceito racial, estamos aqui pra nos amar e admirar como criações divinas da natureza e que todo racista que se contorcer feito vampiro em água benta venha pra sorrirmos juntos de suas caras.

 

Minha teoria e sugestão é a estratégia Black: Valorize o cabelo crespo, sobretudo na mulher. Porque só uma mulher negra sabe o que é passar pesados fardos sociais sob o machismo e racismo, logo, só uma mulher negra vai ter força pra embasar seus argumentos na mais pura sabedoria, como um diamante que surge depois de uma extrema pressão. Solte o crespo, prenda o racista. Um exemplo é a estadunidense Angelicxa Sweeting, que criou uma boneca com as características de sua filha, Sophia, por passar pelo auto-ódio. “Sophia queria cabelo liso e longo e ela até começou a expressar uma forte antipatia por suas características faciais e tom de pele”, disse Angelica em matéria d’O Globo.

E lembre-se, temos que ter voz, toda vez que a gente se esconde, justifica o preconceito. Não esperemos que esse valor venha das classes mais abastadas, pois estão preocupadas demais garantindo seus privilégios.

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21 de julho – Jovelina, A Pérola Negra

Nesta data, Jovelina faria 71 anos de idade e em novembro deste mesmo ano, completam-se 17 anos sem ela. Então, em homenagem à cantora, compositora, versadora e verdadeira jóia rara de nossa cultura popular, vou falar sobre sua vida e carreira. A saber, minha visão aqui é de um fã, um sambista jornalista, mas ainda um fã, então, não me pegarei tanto em dados cadastrais quanto faço com minhas impressões acerca da artista que me causa admiração. Sendo assim, prontos pra decolar.

 

Jovelina Faria Belford, a Pérola Negra, teve uma carreira relativamente curta (entre seu debut, aos 40 anos de idade, no Raça Brasileira e seu último disco lançado, Samba Guerreiro, foram apenas 11 anos), mas muito intensa. Isso se deve ao enorme carisma da eterna baiana do Império Serrano e ao fato de, assim como muitos de sua geração, ter se cercado de gente muito boa. É só reparar que em todo disco lançado (7 em carreira solo), ela deixou algum clássico que permeia rodas de samba até hoje e sempre permeará, sem dúvidas. Então, esses 11 anos de discografia inédita e esses 17 de saudades, noves fora, temos aí uma vasta obra que só reafirma a administração pela cantora e compositora (e partideira e pastora).

 

Com um timbre bem peculiar (desde que a ouvi na infância, nunca ouvi outra voz sequer parecida no meio musical), sua voz forte parece ter nascido pra cantar samba. É como dizem, por mais esforçado que seja o artista, às vezes, na hora de cantar samba, acaba, no máximo, sendo ‘bem cantado’, mas não com aquele clima de ‘caras, quero ir pro samba agora sentir esse clima’. Dona ‘Jove’ tinha esse quê a mais, pra nos deixar no mesmo manto, com o sorriso aberto, cantando ao sorriso de um banjo, banho de felicidade pra amante do pagode nenhum botar defeito. Rá! Várias referências.

Pra se ter noção da força que essa mulher tinha em personalidade e talento, veja só os sucessos que deixou ao longo da carreira – e pra vida toda – nos dando a impressão de que sempre esteve aí e nunca deixou de estar. Pra começar, no Raça Brasileira (1995), já citado aqui e resenhado em um texto recente aqui mesmo no blog, ela já lançou o autoral Feirinha da Pavuna e ainda deixou o emblemático Bagaço da Laranja (parceria com Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz). Depois, veio o debut solo com o perfeitamente apropriado título de Pérola Negra (1986), onde já dava tijoladas musicais condizentes com sua força no pagode, como O dia se zangou (Mauro Diniz e Ratinho), Menina Você bebeu (Acyr Marques, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço) e É isso que eu mereço (dela mesma e Zeca Sereno).

 

Em seguida, mandou o emblemático Luz do Repente (1987), que além da faixa título (Marquinho PQD, Arlindo Cruz e Franco) ser um clássico (e me entristece muito quando a música fica banalizada, reduzida apenas a refrão de embalo de pot-pourris); temos ainda Filosofia de bar (Everaldo da Viola), Sem amor sou ninguém (Ivone Lara e Delcio Carvalho), Banho de Felicidade (Adalto Magalha e Wilson Moreira), Garota Zona Sul (também creditada, às vezes, como Sonho Juvenil, do clássico compositor Guará) e Feira de São Cristóvão (Beto Sem Braço e Bandeira Brasil). Respirou fundo? Pois logo depois, ela joga pra jogo o clássico Sorriso Aberto (1988). Bem, dispensaria apresentações, né? Outra vez uma faixa título (de Guará) entra pra história do samba e nunca mais que larga uma roda de samba. Entre outras, também tem Precipício (Beto Sem Braço), outra que não falta em rodas de samba onde o samba da antiga e mais ‘lado B’ é cultuado.

Falei em Guará, então, é válido mencionar que em Amigos Chegados (1989) saiu Poeta do Morro (Jovelina e Carlitos), uma emocionante homenagem ao compositor de Sorriso aberto (“depois de nivelar a vida em alto astral, foi para o universo sideral…”). Em 1991, veio Sangue Bom, com No mesmo manto (Beto Corrêa, Lúcio Curvelo), Sarau (dos ‘Betos’ Corrêa e Sem Braço), Pelourinho, Negritude e Magia (Geraldo Lima e Labre) e Catatau (Guará). O LP Vou na fé (1993) trouxe Malandro também chora (Mauro Diniz), Peruca de Touro (Jovelina e Carlito Cavalcanti), a própria Vai na fé (Agnaldo, Jorge Carioca e Marquinho PQD) e a emblemática Sorriso de banjo (Fidelis Marques, Bira da Vila e Melodia Costa), além de um clássico, ganhou uma releitura bem legal pela jovem cantora Andreia Caffé.

 

Então, veio Samba Guerreiro (1996) com Rima do êta (Marco Aurélio FM), Fala tu que eu to cansado (Edésio Só) e Amante do Pagode (Tiãozinho de Guadalupe e Anacleto). Esse foi o último registro de nega Jovelina até que em 2 de novembro de 1998, Jovelina também iria, assim como Guará, depois de nivelar a vida em alto astral, para o universo sideral. Foi um pouco mais de 10 anos de carreira para o grande público, mas se você reparar, praticamente todo ano tinha disco novo com muito material bom, pra se divulgar de forma esmiuçada até além. Como curiosidade inusitada, diz-se que, durante uma temporada no Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, Centro, RJ), Jovelina teria pedido um adiantamento, ao que lhe foi concedido e informado que o depósito seria feito em seu borderô (documento onde são relacionados cheques de pagamentos). Diante disso, Jove teria respondido: “Ninguém põe no meu borderô! Nem meu marido! Tá pensando que é assim?”.

Deixando uma herança musical marcante (tanto que a filha Cassiana e a neta, Kamilla, seguiram cantando e homenageando a mãe/avó), Jovelina está imortalizada no cancioneiro popular assim como sua ‘antecessora’, Clementina de Jesus, no que diz respeito à tradição sambista de revelar mulheres de forte identidade vocal e uma ginga toda própria. Eu mesmo confesso que adoro ouvir e repetir aqueles momentos de suas gravações como ‘segura, malandragem!’ e o clássico ‘é, é…’. Enfim, se for falar do quanto admiro Jovelina vou ficar escrevendo o dia inteiro, contando histórias e mais um monte de coisas que você também acaba fazendo por ela ou outro artista saudoso que tenha deixado tanta coisa boa. É isso, neste dia, que seria seu aniversário, fica a homenagem a um dos grandes nomes de nossa cultura popular, sobretudo, da explosão que foi o chamado pagode de fundo de quintal.

 

 

Fontes: Som Negro

Dicionário Cravo Albin da MPB

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Ousadia de Malandro

De autoria minha, essa canção, Ousadia de Malandro, fala daquele tipo de malandro que não se vê muito mencionado no meio do samba. Muito se fala do malandro que só é valente na rua, que em casa é cordeirinho, do malandro que sapateia no coração da mulher, do malandro que vira capacho na mão de mulher, mas não se fala muito no malandro que encontra uma contraparte feminina dele e harmoniosamente vão seguindo suas vidas.

 

Há quem diga que a música é auto-referente, mas aí, é uma história mais complexa entre a concepção e o registro final da música. Rá! Um dia eu conto, se for pra enriquecer a ideia original da música. Por enquanto, deixo meu link no Sound Cloud para essa faixa. Lá é meu canal para divulgação de músicas para que as pessoas conheçam meu lado compositor, sobretudo de samba. E, artistas que vejam ali potencial para adicionar a seu trabalho, estou aberto(UIA!) a conversações a respeito. No mais, #ousadiademalndro, “é que esse José encontrou sua Maria”. Lembrando que o espaço é tipo mercado em obras, ao mesmo tempo que está sendo construído, já vai funcionando pra ganhar tempo.

 

 

Ousadia de Malandro (Fernando Sagatiba)

Todo malandro de fé

Um dia comete a ousadia

De ser só de uma mulher

Demonstrando valentia

 

É sério, não tem mistério

O seu critério é seu valor

Vem a amada idolatrada

Aconchegada, curtir seu calor

 

Todo malandro de fato

Ajeita o sapato com atenção

Pois sabe que ali na sola

Rola a batida do seu coração

 

O pisante tem que estar macio

Pra pisar nesse terreno

A malandrinha já lhe fez provar

Do seu próprio veneno

 

Sujou pra você, malandro

Nem você sabe o que aconteceu

E te prepara, o cara, encara

A marra dela é que prevaleceu

 

Nunca mais se viu o malandro só

Dizem até que ele se perdeu

E não é só companhia na boemia

É que esse José encontrou sua Maria

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Palavras de origem africana no vocabulário brasileiro

Afora o Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Equatorial, que adotou o idioma como oficial recentemente. Timor-Leste é o único a ter o Português como língua oficial na Ásia. Nossos irmãos africanos fazem parte do PALOP, acrônimo que significa justamente Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Tudo obra de Portugal, responsável por essa bagunça chamada lusofonia (o conjunto dos países que possuem Português como língua oficial) que acabou dando seu jeito de seguir caminho. Mas, diferente do Brasil, onde línguas nativas ficaram restritas a suas tribos indígenas, nos países euro-colonizados da África, ainda se falam línguas nativas (nagô, ioruba, quicongo, umbundo e quimbundo). Só pra constar.

Rolou uma marmota por parte dos invasores que misturavam africanos de diversos países e culturas (sim, porque África é um extenso continente com 54 países culturalmente diversificados e não um país restrito de miséria como a grande mídia te acostumou a ver) com intenções de que com a confusão cultural, eles não pudessem se unir entre si para se rebelar. Até certo ponto, rolava, como ainda acontece, de haver desunião entre as classes menos abastadas da sociedade, mas isso não significou a morte por abandono dessas línguas. Ao contrário, a partir dali, surgiria uma cultura praticamente nova com os elementos que sobreviveram ao tráfico negreiro. Muita coisa de nossa cultura vem de África e dos africanos que foram seqüestrados para cá (dos quais descendemos em maioria, já que no auge do crime da escravidão, a população negra era, como se manteve, maioria).

A linguagem é um dos pontos altos das coisas cotidianas que trazemos do continente-mãe. E como a cultura negra é a essência do Samba, ou seja, é a raiz do Samba, então, não falar necessariamente do samba musical não é fugir do foco, não é mesmo? Então, vamos a um dicionário improvisado que fui reunindo em diversos sites educacionais e culturais internet afora. Você vai notar que muitas dessas palavras, tu tá aí falando adoidado todo dia e nem sabe que vêm de dialetos africanos. Muito interessante, pois somos acostumados a não buscarmos o passado, como se o jornal da TV já bastasse pra gente estar informado. Mas é pegar num livro, num artigo de internet e a gente voa no conhecimento. Veja aí que nem só dentro do samba e do candomblé estão palavras africanas da diáspora. Use e abuse do CTRL+F e saia buscando suas palavras mais usadas e/ou preferidas, porque tem coisas muito interessantes nesse “dicionário” que eu montei na base do ‘cataqui/catali’. Rá! (Lembrando que como foi uma pesquisa de internet, algumas coisas podem não estar condizentes, mas eu atualizo conforme me avisam, ok?).

A

ABADÁ – Túnica folgada e comprida. Atualmente, no Brasil, é o nome dado a uma camisa ou camiseta usada pelos integrantes de blocos e trios elétricos carnavalescos.

ABARÁ – Quitute semelhante ao acarajé. A massa feita de feijão fradinho e os temperos são os mesmos. Os bolinhos envoltos em folhas de bananeira são cozidos em banho-maria.

ACARÁ – Peixe de esqueleto ósseo.

ACARAJÉ – Bolinho feito de massa de feijão-fradinho frito no azeite de dendê e servido com camarões secos.

AFOXÉ –  Dança, semelhante a um cortejo real, que desfila durante o carnaval e em cerimônias religiosas.

AGOGÔ – Instrumento musical formado por duas (ou três) campânulas ocas de ferro.

ALUÁ – Bebida feita de milho, arroz cozido ou com cascas de abacaxi.

AMUO  – sm. Mau humor passageiro, revelado no aspecto, gestos ou silêncio; arrufo, calundu.

ANGOLA – Nome dado a uma das mais conhecidas modalidades do jogo de capoeira e, também, a um dos cinco países africanos de língua portuguesa.

ANGU – Massa de farinha de milho ou de mandioca. Angu-de-caroço: Coisa complicada.

AXÉ – Saudação; força vital e espiritual.

AZOEIRA – Barulhada, zoeira, bagunça.

B

BABÁ – Ama-seca; pessoa que cuida de crianças em geral; pai-de-santo; a origem é controvertida sendo, para alguns estudiosos originária do quimbundo, e para outros do idioma iorubá.

BABACA – Tolo; boboca.

BAGUNÇA – Baderna, desordem.

BALANGANDÃS  – Enfeites,originalmente de prata ou de ouro, usados em dias de festa.

BAMBAMBÃ ou BAMBA – Maioral, bom em quase tudo que faz.

BAMBERÊ – Cantiga de ninar entoada por negras velhas da Região Amazônica. (“Bamberê, bamberá / criança que chora quer mamá / Moça que namora quer casá / Galinha que canta quer botá / Bamberê, bamberá)

BAMBOLÊ – Aro de plástico ou metal usado como brinquedo.

BANCAR – Fazer o papel de; fazer-se de.

BANGÜÊ – Padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana.

BANGUELA – Desdentado. Os escravos trazidos do porto de Benguela, em Angola, costumavam limar ou arrancar os dentes superiores.

BANGULÊ  – Dança de negros ao som da puíta, palma e sapateados.

BANTO  – Nome do grupo de idiomas africanos em que a flexão se faz por prefixos.

BANTOS – Povos trazidos do sul da África, principalmente de Angola e Moçambique, que espalharam sua cultura, idiomas e modos.

BANZAR – Meditar, matutar.

BANZÉ – Confusão.

BANZO – Tristeza fatal que abatia os escravizados com saudades de sua terra natal.

BAOBÁ – Árvore de tronco enorme, reverenciada por seus poderes mágicos.

BATUQUE – Dança com sapateado e palmas, com som de instrumentos de percussão. É uma variante das rodas de capoeira, praticada pelos negros trazidos de Angola para o interior da Bahia. No sul do Brasil, é sinônimo de rituais religiosos e, no interior do Pará, é uma espécie de samba.

BERIMBAU – Instrumento musical, composto de um arco de madeira com uma corda de arame vibrada por uma vareta, tendo uma cabaça oca como caixa de ressonância.

BIRITA – Cachaça; gole de cachaça.

BITELO – Grande; de tamanho exagerado.

BOBÓ – Um tipo de purê feito de aipim ou inhame.

BOCA-DE-PITO – Pitada; tragada em cigarro, charuto ou cachimbo; disposição para fumar provocada pela ingestão de café ou bebida alcoólica.

BOMBA – Certo doce de forma cilíndrica ou esférica feito de massa cozida e glaçado na parte superior.

BOROCOXÔ – Molenga. Entristecido.

BRUACA –  Espécie de mala ou sacola que se levava no lombo de animais.

BUGIGANGA – Objeto de pouco ou nenhum valor ou utilidade.

BUNDA – Nádegas, na língua falada pelos bundos de Angola.

BÚZIOS – Conchas marinhas usadas antigamente na África como moedas e, em nossos dias, em cerimônias religiosas e em jogos de previsão.

C

CAÇAMBA – Balde para tirar água de um poço; local onde se depositam detritos.

CACHAÇA – Bebida alcoólica; pinga; durante muito tempo, os negros escravizados, banhados em suor, giravam manualmente as rodas dos engenhos de açúcar e, do vapor originário da fervura do caldo da cana, escorria pela parede e pingava do teto (daí o porque o nome “pinga”)a bebida de sabor clássico, que ardia nos olhos e foi batizada de “pinga”.

CACHIMBO – Tubo de fumar, com um lugar escavado na ponta para se colocar o tabaco.

CACIMBA – Poço ao ar livre, onde se retém a água da chuva para diversas finalidades. Cova que recolhe água de terrenos pantanosos.

CAÇULA – O mais novo.

CACULÉ – Cidade da Bahia.

CACUNDA – Corcunda. Corcova. Costas.

CAFIFE – Diz-se de pessoa que dá azar.

CAFOFO – Lugar que serve para guardar objetos usados; nos dias atuais, serve também para designar moradia pequena, mas aconchegante.

CAFUÁ – Esconderijo. Casebre.

CAFUCA – Centro; esconderijo.

CAFUCHE – Irmão do Zumbi.

CAFUCHI – Serra.

CAFUNDÓ – Lugar afastado, de acesso difícil.

CAFUNÉ – Coçar a cabeça de alguém.

CAFUNGÁ – Pastor de gado.

CAFUZO – Mestiço de negro e índio.

CALANGO – Lagarto. Dança afro-brasileira.

CALOMBO – Inchaço. Quisto, doença.

CALUMBÁ – Planta

CALUNDU – sm. Mau humor; amuo.

CALUNGA – sf. 1. Coisa qualquer de tamanho reduzido. 2. Boneco pequeno. O mar; boneca carregada pelas damas do paço nos desfiles de reis e rainhas dos Maracatus de nação em Pernambuco; símbolo da realeza e do poder dos ancestrais.

CAMUNDONGO – Rato pequeno.

CANDOMBLÉ – Casas ou terreiros de diferentes nações – Angola, Congo, Jêje, Nagô, Ketu e Ijexá – onde são praticados os rituais trazidos da África. Esses cultos são dirigidos por um Babalorixá (pai-de-santo) ou por uma Ialorixá (mãe-de-santo). Um dos mais tradicionais é o de Gantois,em Salvador, na Bahia. No passado, o candomblé foi muito perseguido.

CANDONGA – Intriga, mexerico.

CANGA – Tecido com que se envolve o corpo. Peça de madeira colocada no lombo dos animais.

CANJERÊ – Feitiço, mandinga.

CANJICA – Papa de milho verde ralado.

CAPANGA – Guarda-costas. Bolsa pequena que se leva a tiracolo.

CAPENGA – Manco. Com andar de bêbado.

CAPOEIRA – Jogo de corpo, agilidade e arte, que usa técnicas de ataque e de defesa com os pés e as mãos. As rodas são acompanhadas por palmas, pandeiros, chocalhos, berimbaus e cânticos de marcação.

CARIMBO – Instrumento de borracha. Marca. Sinal.

Carimbó – Tipo de dança afro-brasileira originária da região norte do Brasil.

CARURU – Iguaria da culinária afro-brasileira, feita com folhas, quiabos e camarões secos.

CASSANGUE – Grupo de negros da África.

CATIMBA – Manha. Astúcia.

CATIMBAU – Prática de feitiçaria.

CATINGA – Fedor; mau cheiro.

CATITA – Pequeno, baixo, miúdo. Nome dado no Nordeste a um ratinho novo.

CATUNDA – Sertão.

CATUPÉ – Cortejo afro-mineiro. As fardas de seus integrantes são enfeitadas de fitas, sendo que dançam e cantam acompanhados por instrumentos de percussão.

CAXAMBU – Grande tambor usado na dança harmônica.

CAXANGÁ – Jogo praticado em círculo. Os versos de uma velha cantiga, baseada nessa brincadeira, são bem populares.

CAXIXÍ – Chocalho pequeno feito de palha.

CAXUMBA – Inflamação das glândulas salivares.

CAZUMBÁ – Negro velho, personagem do Boi-Bumbá paraense.

CAZUMBI – Alma penada.

CHILIQUE – Desmaiar. “Ter um troço”.

CHUCHU – Fruto comestível.

COCHILAR – Breve soneca. Sono leve.

CONGADAS ou CONGOS – Danças dramáticas com enredo e personagens característicos, como reis, rainhas, príncipes, princesas, embaixadores, chefes de guerra e guerreiros, que se despedem, no final das apresentações, cantando.

COQUE – Bater na cabeça com o nó dos dedos. Tipo de penteado onde o cabelo é todo preso num arranjo único no alto da cabeça; há uma corrente que acredita ser o nome proveniente do inglês “cock”, que significa galo, e outra que associa o nome a barulho que é feito e também ao “galo” na cabeça.

CUBATA – Choça de pretos; senzala. Palhoça

CUÍCA – Instrumento musical que emite um ronco peculiar.

CUMBA – Forte, valente.

CUMBE – Povoação em Angola.

D

DENDÊ – Fruto de uma palmeira (dendezeiro), de onde é extraído o azeite.

DENGO – Gesto de carinho. Manha, birra.

DENGOSO – Manhoso. Chorão.

DIAMBA – Um tipo de erva alucinógena.

E

EBÓ – Oferenda feita aos orixás para se resolver os mais diferentes desejos e problemas.

EFÓ – espécie de guisado de camarões e ervas, temperado com azeite de dendê e pimenta.

EMBALAR – Acalentar; balançar; fazer adormecer.

EMPACAR – Não continuar. Não prosseguir. Diz-se quando o animal firma teimosamente as patas para não prosseguir viagem.

ENCABULAR – Envergonhar-se. Ficar vexado por algum motivo.

ENGABELAR – Enganar. Iludir jeitosamente. Trapacear. Engodo. Embuste.

ESCANGALHAR – Desordem. Confusão. Desmantelo. Dano causado por estrago.

ESPANDONGADO – Desajeitado. Defeituoso. Arruinado. Desarrumado. Relaxado. Descomedido. Arreliado.

EXU – Divindade que é considerada o intermediário entre o Céu e a Terra. Aquele que está em todos os lugares. Dono das encruzilhadas. Representa a ambivalência humana, os comportamentos e desejos contraditórios.

F

FAROFA – Mistura de farinha com água, azeite ou gordura.

FOFOCA – Intriga. Mexerico

FUÁ – Briga. Rolo. Desordem. Intriga. Diz-se também do eqüino arisco.

FUBÁ: Farinha de milho.

FULEIRO – Reles. Ordinário. Sem Valor. Farrista.

FULO: Irritado. Zangado.

FURDUNCIO – Também pronunciado e escrito como “Forduncio”, significa festança popular. Divertir-se com alarido. Barulho. Desordem.

FUNGAR – Fazer ruído com o nariz ao inspirar o ar. Assoar o nariz. Coriza na fossa nasal. Fuçar.

FUTUM – Mau cheiro. Fedor. Peixe morto na superfície da água.

FUXICO – Falar mal dos outros. Artesanato popular feito com pedaços de panos. Costurar superficialmente. Alinhavar. Amarrotar.

FUZARCA – Farra. Desordem. Bagunça.

FUZUÊ – Festa. Confusão. Turbilhão nas águas de um rio.

G

GALALAU – Pessoa muito alta.

GAMBÉ – Designação de um policial na gíria dos travestis, menores e delinqüentes em geral.

GANDAIA – Farra. Bagunça. Vadiagem. Ofício de trapeiro. Pessoa sem préstimo. Inerte.

GANGA ZUMBA – Título dado aos chefes guerreiros. Um dos mais famosos líderes da confederação de Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.

GANZÁ – Chocalho.

GARAPA – Caldo da cana. Bebida formada pela mistura de mel-açúcar-água.

GERINGONÇA – Coisa malfeita e de duração precária. Objeto ou coisa estranhos cujo nome e finalidade não se conhece.Ginga – Bamboleio. Balanço com o corpo. Dançar com o corpo ao som de uma música ou instrumento. Movimento corporal na capoeira, na dança e no futebol. Sacerdotisa do culto Omolocô. Remo que se usa para fazer a embarcação balançar.

GINGA – Movimento corporal na capoeira, na dança e no futebol.

GOGÓ – Pomo-de-Adão. Garganta. Laringe

GONGUÊ – Instrumento musical semelhante ao agogô.

GOROROBA – Comida feita com restos de diversos alimentos. Diz-se também do indivíduo lento, molengão ou covarde.

GRIGRI – Amuleto que protege o seu possuidor.

GUANDU – O mesmo que andu (fruto do anduzeiro), ou arbusto de flores amarelas, tipo de feijäo comestível.

GUIMBA – Resto ou ponta do cigarro.

H

– Interjeição de surpresa, espanto ou de admiração entre os Iorubás. Manifestação de incompreensão. Não entendimento.

I

IAIÁ – Tratamento dado às moças e meninas na época da escravidão. Na Luanda antiga, era o tratamento respeitoso que as filhas e netas dos escravos davam às patroas.

IEMANJÁ: deusa africana, a mãe d’água dos iorubanos.

IMPALA – Espécie de antílope africano. O nome batizou também um modelo de automóvel da Chevrolet.

IMPLICAR – Provocar. Amolar. Intrometer. Contender. (Atualização, a etimologia da palavra vem do Latim).

INHAME – Designação comum de um tipo de tubérculo comestível menor que a mandioca; homem de corpo defeituoso. Coisa ou objeto disforme ou deformada.

IORUBANO – Habitante ou natural de Ioruba (África).

J

JABÁ – Suborno oferecido a programador de emissora de rádio ou televisão para que inclua na programação determinada obra musical. Certo tipo de abóbora.

JABACULÊ – Gorgeta. Propina. Dinheiro.

JAGUNÇO – Capanga. Combatente das forças de Antonio Conselheiro na Guerra de Canudos. Cangaceiro.

JEGUEDÊ – Dança negra.

JERERÊ – Nome dado ao cigarro de maconha. Faísca. Centelha.

JERIBATA – Álcool; aguardente.

JILÓ – Fruto verde de gosto amargo.

JONGO – Dança tradicional afro-brasileira.

L

LAMBADA – Golpe dado com o chicote, tabica ou rebenque. Copo ou gole de bebida alcoólica. Dança de salão de origem amazônica. Significa bater, castigar, ferir, atingir com golpe ou pancada.

LAMBANÇA – Desordem. Sujeira. Serviço malfeito. Embuste. Trapaça em conversa ou jogo.

LAMBÃO – Indivíduo que não sabe lidar com as coisas sem sujar-se.

LAMBUJA – Vantagem que um jogador concede ao parceiro ou rival. Aquilo que se ganha ou dá além do combinado.

LAPADA – Lambada. Bofetada. Espécie de pá semelhante ao remo.

LARICA – Apetite desenfreado após a ingestão da maconha. Dificuldade. Aperto. Apuro.

LENGA-LENGA – Conversa, narrativa ou discurso enfadonho.

LERO-LERO – Conversa fiada. Palavreado vazio.

LIBAMBO – Bêbado (pessoas que se alteram por causa da bebida).

LUNDU – Primitivamente dança africana.

M

MAASSAGANA – Confluência, junção de rios em Angola.

MACULELÊ – Folguedo popular de origem baiana, misto de jogo de dança com bastões ou facões.

MACUMBA – Nome pejorativo dado aos cultos afro-brasileiros. Audaz. Ousado. Certo tipo de reco-reco. Cada uma das filhas de santo nos terreiros de origem Banta. Antigo jogo de azar. Antiga denominação que se dava à maconha.

MACUMBEIRO – adj. sm. Diz-se de, ou praticante da macumba. .

MALUCO – Alienado mental. Endoidecido.

MALUNGO – Título que os escravos africanos davam aos que tinham vindo no mesmo navio; irmão de criação.

MAMONA – Fruto da família das esforbiáceas. Rícino.

MAMULENGO – Fantoche. Teatro de fantoches.

MANDINGA – Bruxaria. Feitiço. Talismã. Qualidade de jogo de capoeira.

MANGAR – Zombar. Caçoar.

MANGUE – Comunidade geográfica localizada em áreas onde o solo é formado por uma lama escura e mole. Terreno lamacento.

MANHA – Choro infantil sem causa. Birra. Malícia. Ardil. Artimanha. Habilidade manual.

MARACATU – sm. Oriundo da região do Estado de Pernambuco (PE), é um cortejo carnavalesco que segue uma mulher que, num bastão, leva uma bonequinha enfeitada, a calunga. 2. Certo tipo de dança afro-brasileira. Em Recife/PE, os maracatus de nação representam embaixadas africanas com todo o séquito real.

MARACUTAIA – Trapaça. Embuste. Engodo. Golpe.

MARAFA(O) – Vida desregrada. Licenciosa. Cachaça. Vinho. Diz-se também do tipo de vida, por exemplo: “Viver na marafa…”, viver entregue ao vício da bebida e da vadiagem.

MANO – Tratamento respeitoso entre os antigos sambistas cariocas (“Mano” Elói, “mano” Décio etc.). Irmão.

MARIMBA– Peixe do mar. 2. Artifício de amarrar uma linha a algum objeto (pedra, garrafa, etc) para resgatar pipas onde não se alcança com as próprias mãos (RJ).

MARIMBONDO – Certo tipo de vespa.

MATUTO – Indivíduo que vive no mato. Na roça. Pessoa ignorante e ingênua.

MAXIXE – Fruto do maxixeiro. Certo tipo de chuchu espinhoso. Dança brasileira de salão.

MIÇANGA – Conta de vidro miúda. Ornatos feitos com esse tipo de conta. Colar.

MILONGA – Desculpas descabidas. Manhas. Dengues. Mexericos. Intrigas. Feitiço. Sortilégio Bruxedo. 2. Música e dança de origem platina.

MINGAU – Papa de farinha de cereais com leite, açúcar e outros ingredientes. Em língua oeste-africana, era um tipo de milho cozido em água e sal. Na linguagem Banta, é o ato de molhar o pão no pirão ou molho. (Retificação: Esta palavra vem do Tupi).

MOCAMBO – Cabana. Palhoça. Habitação miserável. Couto de escravos fugidos na floresta.

MOCHILA – Alforge. Bornal que se leva às costas.

MOCORONGO – Mulato escuro. Caipira. Indivíduo natural de Santarém/PA. Palhaço da folia de reis. Mosquito transmissor do impaludismo.

MOCOTÓ – Pata de bovino utilizada como alimento. Tornozelo.

MOLAMBO – Trapo. Pano velho rasgado ou sujo. Roupa esfarrapada. Indivíduo fraco e sem caráter. Corpo velho, cansado, moído.

MOLENGA – Mole. Indolente. Preguiçoso. Medroso e covarde.

MOLEQUE – Negrinho. Indivíduo irresponsável. Canalha. Patife.

MONDONGO – Indivíduo sujo e desmazelado. Boneco de pano sem governo.

MONGO – Sujeito bobo. Moleirão. Débil mental.

MOQUECA – Guisado de carne ou peixe tradicional da culinária afro-brasileira.

MORINGA – Garrafão ou bilha de barro para conter e refrescar água potável. Cântaro.

MUAMBA – Cesto ou canastra para transporte de mercadorias. Furto de mercadorias nos portos. Contrabando. Negócio escuso. Do Quimbundo: Carga.

MUCAMA – Escrava doméstica. Concubina. Escrava que era amante do seu senhor.

MULUNGA – Árvore.

MUNGUZÁ – Iguaria feita de grãos de milho cozido, em caldo açucarado, às vezes com leite de coco ou de gado. O mesmo que canjica.

MUQUIFO – Lugar sujo e em desordem. Palavra ligada ao Kicongo, significa também latrina. Casebre. Choupana

MURUNDU – Montanha ou monte; montículo; o mesmo que montão.

MUTAMBA – Árvore.

MUTRETA – Trapaça. Confusão.

MUVUCA – Confusão. Algazarra.

MUXIBA – Pelanca. Pedaços de carne magra. Retalhos de carne que se dá aos cães. Mulher feia. Bruxa. Seios flácidos de mulher.

MUXINGA – Açoite; bordoada.

MUXONGO – Beijo; carícia.

N

NENÊ – Criança recém-nascida ou de poucos meses. Provém do Umbundo “nene”, que quer dizer pedacinho, cisco.

O

ODARA – Bom. Bonito. Limpo. Branco. Alvo.

OGUM ou OGUNDELÊ – Deus das lutas e das guerras.

ORIXÁ– Divindade de religiões afro-brasileiras. Divindade secundária do culto jejênago, medianeira que transmite súplicas dos devotos suprema; divindade desse culto; ídolo africano.

P

PAMONHA – Certo tipo de iguaria derivada do milho. Diz-se também da pessoa molenga. Inerte. Desajeitada. Preguiçosa. Lenta.

PATOTA – Turma. Grupo.

PENDENGA – Litígio. Rixa. Contenda.

PERRENGUE – Dificuldade ou aperto financeiro. Diz-se também da pessoa fraca. Covarde. Animal imprestável.

PIMBA – Pênis de menino

PINDAÍBA – Falta de dinheiro. Miséria feia. (Atualização: Esta palavra é de origem Tupi).

PINGA – Aguardente extraída do caldo da cana.

PIRÃO – Papa grossa de farinha de mandioca. (Atualização: Esta palavra é de origem Tupi).

PITO – Cachimbo. Cigarro. Repreensão. Censura. Dar bronca.

PITOCO – Objeto ou utensílio o qual já falta uma parte essencial. Parte amputada ou a restante no corpo humano.

PUITA: corpo pesado usado nas embarcações de pesca em vez fateixa.

Q

QUEIMANA – Iguaria nordestina feita de gergelim .

Quenga – Guisado de quiabo com galinha. Mulher prostituída. Meretriz.

QUENGO – Cabeça. Região próxima da nuca.

QUIABO – Fruto de forma piramidal, verde e peludo.

QUIBEBE – Papa de abóbora ou de banana.

QUIBUNGO – Invocado nas cantigas de ninar, o mesmo que cuca, festa dançante dos negros.

QUILOMBO – Valhacouto de escravos fugidos. 2. Quer dizer acampamento ou fortaleza. Folguedo popular alagoano em forma de dança dramática.

QUIMBEBÉ – Bebida de milho fermentado.

QUIMBEMBE – Casa rústica, rancho de palha.

QUIMGOMBÔ – Quiabo.

QUINDIM – Doce feito com a gema do ovo, côco e açúcar. Na Bahia significa também meiguice, dengo, encanto, carinho.

QUITUTE: Comida fina, iguaria delicada. Iguaria. Acepipe. Canapé.

QUIZÍL(I)A – Antipatia ou aborrecimento. Ojeriza. Aversão. Implicância.

QUIZUMBA – Confusão. Briga.

R

REQUENGUELA – Engelhado. Encolhido. Tímido. Fraco. Sem substância.

S

SAMBA – Dança cantada de origem africana de compasso binário (da língua de Luanda, semba = umbigada). Nome genérico de um ritmo de dança afro-brasileiro.

SAPECA – Diz-se de moça muito namoradeira ou assanhada. Diz-se também da criança muito arteira.

SARAPATEL – Guisado feito com sangue e miúdos de certos animais, especialmente o porco.

SARARÁ – Alourado. Arruivado.

SARAVÁ – Palavra usada como saudação nos cultos afro-brasileiros, significa “salve”.

SENZALA: alojamento dos escravos.

SERELEPE – Vivo. Buliçoso. Astuto. Esperto.

SOBA – Chefe de trigo africana.

SONGAMONGA – Pessoa dissimulada. Sonsa. Débil. Boba.

SOVA – Dar pancadas com a mão. Espancar.

T

TAGARELA – Pessoa que fala muito e à toa.

TANGA – Pano que cobre desde o ventre até as coxas.

TANGO – Dança argentina popularizada no Brasil, proveniente do espanhol “tango” e do Kimbundo “tangu” (pernada), que era uma forma de bailado de negros ao som de tambores e outros instrumentos.

TRAMBIQUE – Negócio fraudulento. Vigarice. Logro.

TRIBUFÚ – Maltrapilho. Negro feio.

TU – Diz-se do negro tido como sendo bruto. Boçal. Grosseiro. Oposto ao negro bom e passivo; “…Este samba/que é misto de maracatú/é samba de preto velho/ samba de preto TÚ…”; Pode ser também uma redução de Bantú.

TUNDA – Surra. Sova. Crítica severa.

TUTANO – Substância mole e gordurosa no interior dos ossos.

TUTU –  Maioral. Manda-chuva. Indivíduo valente e brigão. Feijão cozido e refogado ao qual se vai adicionando farinha até dar a consistência de pirão. Dinheiro. Grana.Suborno. 2. Iguaria de carne de porco salgada, toicinho, feijão e farinha de mandioca.

U

URUCUBACA – Azar. Má sorte. Diz-se também de uma praga rogada por pessoa inimiga.

URUCUNGO –  sm. Berimbau (instrumento musical).

 

V

VATAPÁ – sm. Da culinária (comida), iguaria de origem africana, à base de peixe ou galinha, com camarão seco, amendoim etc., temperada com azeite de dendê e pimenta.

X

XARÁ – Pessoa que tem o mesmo nome que outra.

XENDENGUE: magro, franzino.

XEPA – As últimas mercadorias vendidas nas feiras livres, mais baratas e de qualidade inferior. Sobras. Coisa inferior.

XODÓ – Amor. Sentimento profundo que se demonstra por algo ou alguém. Carinho.

Z

Zabumba – Tambor grande. Bumbo.

ZAMBI ou ZAMBETA: cambaio, torto das pernas. zumbi: sm. Fantasma que vaga pela noite, segundo lenda afro-brasileira. Nota: Nome do herói nacional Zumbi dos Palmares.

ZANGAR – Causar zanga (de zangado). Mau humor. Birra. Irritação. Diz-se também de coisa estragada ou azeda.

ZANZAR – Andar à toa. Sem destino.

ZIQUIZIRA – Doença ou mal-estar cujo nome não se conhece.

ZOEIRA – Conhece-se também por Azueira. Algazarra. Falatório.

ZOMBAR – Tratar com descaso. Escarnecer. Gracejar.

ZUNZUM – Boatos. Cochichos. Mexericos.

Fontes: Nossa Língua

Geledés

Educação UOL

Dicas de Português

África no brasil

Aldeia Numaboa (atualizações)

Pai Paulo de Oxalá (Jornal Extra).

Angola Bela

Capoeira Patrimônio Brasil

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Grupo Y-No – Pagode japonês

Naturalmente, eu não vou te indicar nada do site deles, porque afora katana, domo arigato e dengeki sentai changeman, meu repertório de palavras em japonês é limitadíssimo.

Naturalmente, eu não vou te indicar nada do site deles, porque afora katana, domo arigato e dengeki sentai changeman, meu repertório de palavras em japonês é limitadíssimo. Sobretudo ideogramas.

Vou falar agora de um assunto esdrúxulo, mas tão esdrúxulo que eu vi um tremendo de um sentido. A influência brasileira na música no exterior. O fio condutor e objeto de análise aqui será o grupo Y-no, um grupo de pagode formado por jovens japoneses. Mas observe bem, são jovens japoneses e não jovens descendentes de japoneses. E eu falo isso por mim mesmo, pois quando ouvi falar deles, à primeira vez, achei que fosse algum grupo de São Paulo (onde há a população japonesa e descendente mais conhecida). Enfim, vamos falar sobre o curioso fato de jovens do outro lado do mundo se interessarem por nossa música.

 

Antes, eu digo uma coisa: Eu entendo perfeitamente esses jovens. Afinal, eu gosto de música de lugares onde os próprios habitantes nem são tão chegados (lembrei de um casal alemão com quem fiz amizade na Lapa uma vez e achavam totalmente underground um som que eu gosto bastante e achava que bombava por lá). E o que me chama à atenção é que os japoneses do grupo Y-no são bons. Digo, tocam muito bem e captaram, na maior parte do tempo, a essência da nossa batucada. Claro, ainda são muito baseados no pagode que se popularizou na virada dos anos ’80 pra ’90, então são vários efeitos e uma levada mais pop do que um partido alto (mas aí, também seria exigir demais, já que muito brasileiro não sabe fazer isso, rá!).

Um ponto interessante é pensar no que eles passam e que muita gente aqui não valoriza. Pra eles lá, é raro encontrar lojas confiáveis com instrumentos bons, não falam nossa língua, então dependem dos amigos que eventualmente tenham estudado Português e a situação mais óbvia, se é inusitado que japoneses se encantem pelo nosso pagode, imagina encontrar um público que os acompanhe por lá, né? Pois se aqui, suas letras ficam meio enroladas (parece mistura de Português com Japonês, no melhor estilo “tema de abertura do Jaspion”) o que pode acabar dando um ar caricato a eles, por lá, deve ser estranho para a vizinhança, por exemplo. Eles devem ser os caras do underground de lá nesse ponto. Aliás, falei da letra, mas ainda vou falar mais.

 

Não sei se as legendas atribuídas aos clipes oficiais estão dizendo o que estão dizendo, acredito que até faça sentido na maioria, porque como eles não falam português, acredito que role aquele processo de quem aprende um idioma por letra de música e depois faça sua própria organização das letras e frases de modo a contar sua história. Típico de quem decora algo que não nasceu fazendo. Eu mesmo, aprendi inglês assim. Construía frases com o que conhecia e ia variando, andando com dicionário pra lá e pra cá e saía, nada muito elaborado, mas eficiente pra mim, à época. Eles alegam que escrevem e passam pros parceiros que traduzem, mas não têm muita certeza se alcançaram o que queriam, apesar de a essência estar ali. E você nota, se não notou, vai notar no vídeo abaixo, como você entende a essência ‘mela cueca’ de Querido meu amor, mas pra nós que falamos Português – e já temos esse estilo defasado aqui – nem foge tanto assim à proposta de um Exaltasamba da vida.

Aliás, as influências deles explicam um pouco seu estilo. Fundo de Quintal, Beth Carvalho, Alcione, Zeca Pagodinho, Art Popular, Pique Novo, Revelação, além de também curtirem hip hop e axé. Muito embora, sua sonoridade soe mais, pra mim, como aquelas músicas pop de séries dos anos 80 do Japão. Deve ser uma espécie de sotaque musical deles, sei lá, mas como aqui também tem essa variação que apenas pega a batucada, mas a música é pop, então, eu to de boas. E tem uma coisa que eles se encantaram, desde que se conheceram num clube especializado em música brasileira, em 2007, samba é acessível, não que seja fácil, mas eles são músicos, né? Então, se você tiver um chocalho e começar a chocalhar, já tá no andamento pra fazer um pagode. Juntando isso à beleza melódica que eles reconheceram e se identificaram, os fez dar esse passo de se tornar um grupo.

 

Enfim, é muito legal ver como uma coisa tão especificamente brasileira chega do outro lado do mundo e inspira pessoas de uma cultura completamente diferente. Apesar de achar a música deles um tanto quanto peculiar, não deixo de tentar captar o que eles estavam sentindo pra passar na música. Veja bem, a divisão verbal e rítmica deles é bem diferente da nossa, tem horas que as frases nem parecem o que está escrito na legenda, mas está muito bem tocado, só que com o sotaque nipônico. Essa mistura deixou o som deles soando tão alternativo pra mim, que acabei me identificando. Pelo menos eles fazem algo autêntico, mesmo que macarrônico, os elementos básicos estão ali, mas não caíram no clichê automático e sem inspiração de muita gente daqui. E ô refrãozinho grudento esse de ‘faz me moer, moer, moer’. Rá!

Analisando musicalmente, a levada é bem puxada pro samba rock, o cavaco elétrico dá uma ambientação meio música de filme oitentista. Estão muuuuito longe de nossa pegada pro samba, mas entenderam benzão as trocas entre tempos e contratempos – o que é mais difícil do que se pensa, pra quem é de fora, que dirá de países distantes. Na verdade, eles fizeram do jeito deles, afinal, samba não é um elemento cultural que eles estão vendo desde pequenos em todo lugar ao redor, né? Pra eles é uma questão de agregar por escolha, por gosto mesmo, coisa que pra muitos aqui é parte da própria vida. Afora algumas escorregas na letra (assim como estamos sujeitos com outros idiomas, eles usam palavras bem incomuns pra nós e em sentidos que agente até que entende). No geralzão, eu gostei, eles entendem de melodia, sacaram o espírito geral da empreitada. P.S.: O do banjo sacou os repiques com a palheta legalzin, meu nobre. Tive que puxar a sardinha, mas realmente, todos são bons (e reparem que num dos vídeos aprenderam um outro vício que já tínhamos importado dos EUAses e suas boy bands: As coreografias engraçaralhas).

No mais, vejam os vídeos deles aqui e tirem suas próprias conclusões.

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Raça Brasileira (Vol.1) – 30 anos

Raça Brasileira (1985, Gravadora RGE) foi mais que um simples projeto, ou coletânea, foi um marco fonográfico e cultural. O que acontecia, o Samba, em sua forma popularmente conhecida como Pagode, ganhava mais e mais espaço na indústria fonográfica, desde a década de 1970, e virou febre no início dos ‘1980 com a profissionalização do Fundo de Quintal, que trouxe aquela dinâmica inovadora que a gente bem conhece. Então, os afluentes começaram a transbordar também, os ‘dissidentes’ como Almir Guineto e Jorge Aragão e crias como Reinaldo, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra. Aliás, estes últimos dois citados, mais Mauro Diniz, Elaine Machado e Pedrinho da Flor é que representaram a Raça Brasileira.

Pra falar de Raça Brasileira, tem que se falar de Milton Manhães, o produtor. Conhecendo essa galera de perto já há um tempo, usou seus contatos com a RGE (além de Som Livre – também grupo Globo – e outros que eu já falo) pra pegar um estúdio emprestado, com disponibilidade para quatro horas por dia, aliás, dia não, madrugada. A coisa foi sendo feita na base do ‘1, 2, 3 e já’. “Aquele trabalho foi muito legal. A gente fazia muita coisa na hora. Às vezes entrava no estúdio com duas musicas e improvisava o resto. Era tudo um aonda”, lembra Zeca Pagodinho. Zeca que, de certa forma, capitaneou na quantidade de composições (participou de 6 das 12 faixas), ficando com uma participação a mais que Mauro Diniz, este, o capitão dos arranjos e do grupo depois, na divulgação e apresentações.

Novamente, Manhães usou seus conhecimentos e o disco teve uma boa repercussão nas rádios do Rio de Janeiro e São Paulo, o que lhe garantiu 100 mil cópias vendidas, um número absurdamente bom para a pouca divulgação que teve por parte da gravadora e a forma quase informal com que foi produzido. Pra se ter ideia da citação ao Zeca no parágrafo anterior, Garrafeiro (Mauro Diniz e Zeca Pagodinho) foi concebida durante o trabalho, como forma de tirar uma com a cara de Garrafa, então técnico do estúdio, depois de os autores terem riscado um fósforo na parte do jornal que o distraído lia. Mas, voltando, o disco deu muito certo e foi dali que saíram petardos de nosso cancioneiro, como Leilão (Beto Sem Braço e Zeca Pagodinho), Feirinha da Pavuna (Jovelina Pérola Negra), A Vaca (Ratinho e Zeca Pagodinho), Bagaço da Laranja (Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho) e a linda canção título Raça Brasileira (Elaine Machado, Mathias de Freitas e Zé do Cavaco).

Um lance que surgiu como um pau-de-sebo (disco de aposta em vários talentos pra ver qual se sobressai pra investimentos futuros) acabou virando uma peça simbólica de toda uma época, tanto que todos, mais ou menos expostos na mídia, estão na ativa (até Jovelina, que já partiu pro lado de lá, depois do disco, seguiu uma sólida carreira que alimenta rodas de samba de forma massiva até hoje e sempre vai). E foi assim, depois do ‘Raça…’, o samba acabou por ganhar mais uma leva de reforço em sua defesa, caminho que veio sendo aberto por Martinho, na década anterior, deu reviravolta com o Fundo de Quintal e, parafraseando o verso de Ubirany em Coisa de Partideiro “seguindo o mesmo caminho, Zeca Pagodinho e a nova geração, na hora do samba versado, quem ficou de lado aprendeu a lição…”. Chega de onda, ouve aí.

 

 

Fonte: Zeca Pagodinho – A vida que se deixa levar (VIANNA, Luiz Fernando. 2003, Ed. Relume Dumará).

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