Para Além das Estrelas: Ivan Milanez Maneiro

Já tem muitos anos que conheço Seu Ivan. Exu milanez, como alguns chamam, pela versatilidade incrível que tinha ao se deslocar entre rodas de samba nesse Rio de Janeiro. Tu via o mais velho na Lapa e pegava o busão até Madureira e o cara já tava lá no quintal da Tia Doca e de roupa trocada. Coisas de Seu Ivan. Seu Milanez. Seu Mila.

Eu poderia ficar enumerando seus grandes feitos, muitos dos quais nem reconhecidos pela maioria que achava que ele era só um velhinho simpático e sorridente a perambular pelos pagodes da vida. Desde a Banda Molejo, grupo que acompanhava artistas numa gravadora, aos vários eventos e situações que se não idealizou, estava lá nas origens, ele fez de um tudo. Fez até música.

Mas eu queria falar de um ponto um pouco mais íntimo e pessoal. Ele vivia me chamando de filho e nem preciso dizer o quanto isso estará na minha biografia não autorizada daqui a sei lá quando, né? “Chega pra cá, você é meu, rapaz”. Cria da Serrinha, integrante da segunda formação da Velha Guarda do Império Serrano, compositor, músico e por aí vai… E ainda assim, era fácil encontra_lo aqui por Madureira, Cascadura e lhe pagar um pastel antes de encaminha-lo pra seu ônibus até em casa. Se não, ele ia andando mesmo. E a gente só ia saber que chegou bem na próxima pagodeira, porque não tinha celular.

Aliás, Pés de Caminhador é o nome de uma canção minha e uma noite, no Movimento Cultural Samba na Fonte, ele me viu cantar e me chamando lá fora depois, me recomendou não ficar afobado, pois eu sendo jovem, ainda tinha muito a caminhar nos sambas e na vida. Pausa para as lágrimas.

Ele disse que sempre foi bon vivant e não pensava muito no futuro, que eu tinha que respeitar meu caminhar pra evitar tropeços. Claro, os evitáveis. Enfim…

Na despedida, não há tristeza. Só gratidão e saudades. Meu paizão de samba. Quando a fonte é boa, a gente só tem referencia e reverência. Maneiro, maneiro e chora, malandro.

Anúncios
Publicado em Para Além das Estrelas, Tesouros do Samba | Marcado com , , | Deixe um comentário

E o Samba sambou… de novo

Tirando um minuto antes do fim do mundo só pra refletir sobre a triste ironia do enredo que ilustra este depreciável texto.

 

Agora, reflita você aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

E mais uma virada de mesa. Já é parte do calendário oficial da cidade, pra quem não sabe. No desfile oficial do carnaval carioca de sambódromo, o espetáculo passa correndo pela dispersão e não terá apoteose, só assinaturas, plenárias e um parco de dinheiro. Tamborim que é bom, pra quê? O samba no carnaval oficial carioca não tem nada a ver com música, quiçá, com cultura. A cultura, os instrumentos e o principal, o sambista, aquele de verdade que trabalha pela arte, esse está, há muito, atochado entre alegorias e adereços sob as botas caríssimas dos coronéis. Não coronéis do samba, mas das negociatas.

 

É um jogo de interesses tão ferrenho, que fico até constrangido em apontar essa ou aquela escola pelo posicionamento que tem hoje, sendo que, provavelmente, olhando em outros momentos similares, verei que o posicionamento pode ter sido (e em vários casos foi de fato) oposto do que se mostrou agora. Eu sei que a ironia do ano vai para a escola reeditou o enredo de 1990, ‘E o Samba Sambou’, sobre a industrialização do carnaval, inclusive, com uma criativa comissão de frente encenando/ironizando as tais viradas de mesa que desacreditam o carnaval carioca. Será que foi uma ironia, ou um cavalo de Tróia, se passando de denunciante pra disfarçar passos opostos no futuro? Reflita aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

Bem, pra quem não correu lá no final do texto pra ver os links de referência pra tanto, eu explico: Uma reunião – com a maior cara(-de-pau) de séria – foi feita na última segunda-feira, 3 de junho e, saindo de lá, tivemos a grande nova pro carnaval 2020: A Imperatriz Leopoldinense – rebaixada junto com meu amado Império Serrano – ficará no grupo especial ano que vem. Confesso que fui pego de surpresa, como aquele seu amigo distraído que pergunta ‘que Mário?’, mesmo cansado de conhecer a piada desde tenra infância. Pois é, abstraí da realidade por um instante e quando vi, a dignidade do carnaval carioca foi carcada atrás do armário. E o Império, bem, o Império continua lindo, a Serrinha continua celeiro de bambas, mas tá lá… Nem reclamo, porque mesmo sabendo que minha escola é um boi de piranha carnavalesco há anos, fui contra a virada de mesa.

 

O resultado, vimos, foi o rebaixamento por dois anos seguidos do mesmo grupo por pura vaidade e média política com quem não tem e nem se dá o respeito. Não adiantou alguns dos meus compatriotas ‘arroz-com-couve’ alardearem que a tal virada passada (retrasada, depois de segunda) seria uma espécie de paliativo para todos os anos de injustiças e descaso com a agremiação de Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola, Beto Sem Braço, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz, Dona Ivone, Tia Maria, Roberto Ribeiro e muitos outros que, parafraseando a co-irmã de Madureira, se eu for falar, meu tempo não dá. Mas isso não é sobre Império. Veja bem, minha coroa imperial já tem problemas demais pra administrar e, felizmente, não participou deste circo de horrores. E a mulher barbada veio que veio com os papéis, no final da avenida da regulamentação, pra assinar.

 

Falando em papéis, não ofi ano passado mesmo que se assinou um tratado proibindo as viradas de mesa? Esse deus ex-machina já tá tão banalizado que ninguém nem fez barulho. Apenas os protestos dos mesmos lados, algumas escolas repudiando por escrito e a vida segue. Como eu falei, calendário oficial. Ano que vem a gente já espera, após o ano novo, a abertura dos blocos de rua, ensaios técnicos, desfiles, apuração, virada de mesa e aí, sim, o começo do ano, já que “o ano só começa mesmo depois do carnaval”. A ideia de que o carnaval seria mais uma ferramenta dos poderosos para iludir o povo e adiar o choque de realidade, pobreza, insegurança, violência, falta de saúde, etc, acaba se modificando…

 

Sem citar nomes, cinco grandes escolas se opuseram à virada e as que apoiaram a jogada escusa, provavelmente o fizeram por benefícios anteriores ou visando o mesmo a posteriori. Isso já dá um panorama, por alto, de cinco escolas que podem estar entre as prejudicadas ano que vem, pois, já percebemos que umas três foram impedidas de cair diretamente e uma outra que correu por fora, agora está, da noite para o dia, dando o que falar a cada carnaval recente. Tem outra que não foi salva de rebaixamento, mas ganhou troféu de campeã meses depois da apuração dividindo o pódio com a vencedora de fato. A pergunta é infame: Quem a apura a apuração? Ela ainda vale? Vai valer? Voltará a valer? Ok, muitas perguntas para muitos desdobramentos. Insisto, reflita aí, porque eu já nem penso mais nisso.

 

O lance é que reitero minha opinião idealista radical: Que se explodam de tanta grana e privilégios políticos os coronéis e que a prefeitura invista cda vez menos. Ou a iniciativa privada vai assumir a patuscada em absoluto e o empresariado do carnaval que brinque com seus camarotes pagofunk/pagonejo entre a marcha dos robôs explorados e falidos ou largam de vez o osso. Sempre digo que o dia que o carnaval perder sua vida mansa de trinta milhões de moedas, os urubus interesseiros abrem mão e o povo reemerge da poeira pra fazer um carnaval digno. Vaidade sempre tem, mas quando o dinheiro abastece, o poder corrompe. Nesse ponto, apoio a prefeitura atual. Só nesse e não por preferência, mas por estratégia sócio-cultural idealizada. Um sonho, um devaneio, um delírio, uma viagem na maionese, mas que tem fundamento na paixão pela cultura de um povo rico em história.

 

No mais, torço é pra que o Império desfile toda semana em Madureira e que outras escolas abandonem esse modelo falido de gestão. Até o presidente da Liesa deu no pé por não concordar com as decisões de onde já não apita nada. É cíclico, apocalíptico, as coisas sempre mudam em momentos de grande comoção e acontecimentos absurdos sem controle. A sangria vai estancar e quero estar aqui pra ver que bicho vai dar. Estou curioso. Quem diria que o outro lá faria sentido associando carnaval a golden shower? Aliás, como última reflexão para o momento: Onde certos jogadores fanfarrões são ídolos, uma racista vence o mais famoso reality da TV aberta e o presidente é… bem… você pode estar desesperado com o mundo, mas não pode dizer que não tem sua esdrúxula coerência, né?  Mas, como eu já disse, reflita ae…

Olodum nos proteja, batuquemos, axé!

Fontes: https://www.srzd.com/colunas/rachel-valenca/luto-e-vergonha-por-rachel-valenca/

Luto e vergonha, por Rachel Valença

 

Virada de mesa no samba: a noite das almas vendidas, por Hélio Rainho

Caso de Justiça: Ministério Público tentará anular virada de mesa que salvou Imperatriz

Sambista cria petição pública para evitar virada de mesa no Carnaval carioca

Artigo: O Carnaval do Rio de Janeiro pede socorro!

Carnaval tem terceira ‘virada de mesa’ consecutiva e Imperatriz fica no Grupo Especial

Publicado em Carnaval, Divagações | Marcado com , , | Deixe um comentário

Para Além das Estrelas: Tia Maria do Jongo

É sempre triste ter que se despedir de alguém que se quer tanto bem e tanto bem fez a tantos, mas o momento é de consternação sim, resignação, pois a vida tem dessas coisas e uma hora todos iremos. Mas sempre tem algo mais. Maria de Lourdes Mendes, a Tia Maria do Jongo, se foi para além das estrelas hoje, 18 de maio de 2019, com 98 anos vividos de forma intensa, valente, completa e também com aquele olhar sereno de preta velha, semblante tranquilo de vó e sorriso de pura alegria. Ela era sabedoria, um conhecer cultural riquíssimo e uma humildade impressionante. Humildade mesmo, de saber do seu valor e mesmo assim trazer todo mundo pra um lugar especial só de abraçá-la (e eu abraçava, beijava suas mãos e pedia sua benção.

 

Era um orixá. Tenho certeza. Subiu pra terra de Aruanda quase que num sopro da natureza após sentar-se frente a um tambor de jongo e ensaiar uns toques. A última cofundadora do meu amado Império Serrano se foi. Mas deixou uma missão pra todos nós que amamos a cultura negra, imperianos sambistas jongueiros ou não: Levar a diante o valor cultural do samba e do jongo e da África em geral. Assim como Mestre Darcy fez com ela própria, depois de ele ter recebido a incumbência de sua mãe, Vó Maria Joana. Temos a missão e a noção de que o que se vai com Tia Maria é muito mais do que uma pessoa querida e carismática. Foi um livro que não se escreve, mas trazia um conhecimento ímpar. Em culturas de origem tão antiga, quando e onde não se registrava – apenas se repassava, se aprendia e se ensinava sendo e fazendo – uma griot do grau de Tia Maria era de valor inestimável. Coisas que só ela sabia através dos mais antigos e repassou. Era pra durar mais 200 anos, se a lógica da vida pudesse acompanhar a necessidade que temos de fazer nossa cultura sobreviver sempre. Mas, a vida tem dessas coisas…

 

“A emoção foi geral…”… sempre que um baluarte se vai, os versos iniciais de Silêncio de Bamba (Wilson Moreira), vêm à minha mente. O autor (que passou a ser homenageado também com sua obra, quando de sua partida recente) o fez em homenagem a Candeia, mas as primeiras palavras servem para momentos como este. Ainda um nó na garganta se formando, a ficha não caiu. Conheci Tia Maria pessoalmente quando trabalhava no guichê de informações do Sesc de Madureira e a matriarca da Serrinha entrou pelo portão principal para se apresentar junto ao Jongo da Serrinha num evento cultural na quadra da unidade. Eu que não sou dado a tietagens, pulei do meu cantinho e fui cumprimentá-la pela primeira vez. Ela foi tão atenciosa e gentil que em vez de desconcertado, me senti mais um sobrinho da tia. Pedi uma foto e foi nossa primeira selfie (quando nem se usava a expressão, há coisa de 8 anos). E seguiram-se outras ou na quadra do Império, ou na Serrinha, ou até em eventos mais pessoais da família Oliveira.

 

A velhinha era algo diferente. Quando o Samba na Serrinha não pode mais ser comportado na calçada do bar onde começou, devido ao grande contingente de público admirador que crescia, a roda foi transferida por um bom tempo para o alto da Rua Balaiada (hoje, Rua Tia Eulália, homenageando a ilustre dona, cofundadora e anfitriã da fundação do glorioso Império Serrano). E nunca mais me esqueço da imagem de Tia Maria subindo a rua a pé (quem conhece sabe que é uma ladeira bem íngreme e com uma escadaria depois de mais da metade da ‘rampa’).  Até nisso, ela me passou uma lição de vida. Que dificuldade eu tinha? O que eu podia reclamar do ladeirão que subia, pelo menos, uma vez no mês? Aquela senhora subia sorrindo e se aconchegava numa cadeirinha reservada só pra ela pela rapaziada do samba. E ficava lá como uma rainha em seu trono, acenando para seus súditos. Dava gosto de ver. Da última vez que a vi pessoalmente, nem o temporal que desabou a assustou. Calmamente se levantou da cadeira próxima à entrada da nova Casa do Jongo e, com algumas companhias de cuidadosos, foi amparada para a parte coberta do centro cultural.

 

Ah, o sorriso, o olhar, a energia boa que não conhecia idade, a sabedoria que não se ensina na escola e o conhecimento cultural de outro povo, outra época… A gente não pode ficar triste porque 98 anos é uma vida pra lá de rica e ela fez valer sua estada nesta terra. Assim como eu disse diante da passagem de Dona Ivone, é pra gente celebrar que tivemos aqui Tia Maria e não chorar por ela ter cumprido sua missão e agora, seguir para outra etapa da vida, em uma nação espiritual. Todo orixá tem que retornar à luz do pai maior. A palavra que fica quando lembrar dela sempre será gratidão.

Festa na família Oliveira e Tia Maria sendo saudada pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira do Império.

Por volta de 2015, com as Meninas do Jongo da Serrinha no evento de reinauguração do busto em homenagem a Silas de Oliveira, na quadra do Império Serrano (não era a melhor definição de câmera, mas o registro é importante).

Lá no alto da Rua Balaiada, gravação do clipe de Hamilton Fofão, também cria valorosa da comunidade.

Quando o Samba na Serrinha se ajeitava na Rua Balaiada.

A cadeirinha cativa que eu falei no texto.

Impossível não querer estar perto dela. Um axé só.

Olha o que eu falei. Na casa dos 90 e subindo o morro pra curtir um samba sem reclamar.

Publicado em Para Além das Estrelas | Marcado com , , | 2 Comentários

13 de abril – Dia da Mulher Sambista

 

Em janeiro, saiu a notícia de que a Câmara Municipal de Vereadores do Rio de Janeiro, aprovou a Lei nº 5.146, que inclui o Dia da Mulher Sambista no calendário da cidade. A lei é de autoria do vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ) e seu projeto nasceu de uma sugestão da página Sambistas da Depressão.

 

A ideia do parlamentar é de que haja incentivos a eventos de cultura e debates sobre o lugar ocupado hoje pela mulher no samba, que, assim como na sociedade em geral, ainda é muito limitado pelo machismo. E a data é bem simbólica: 13 de abril. Pra quem não ligou a data ao significado, este foi o dia que, em 1922, nasceu Yvonne Lara da Costa, nossa grande dama, Dona Ivone Lara.

 

Se o sambista já não tinha muitas condições de viver da música sem acabar passando necessidades (vide Cartola que, homem, mesmo sendo O Cartola, viveu e morreu pobre), a mulher passava – e ainda passa – muito mais dificuldades quando se trata de ser respeitada e ter acesso a todo lugar que quiser. Sempre é uma revolução, a mulher fazer coisas que um homem nem liga, mas não quer ver a ‘fêmea’ mostrar que manda bem.

 

Este texto é um gesto de comemoração, mas também de resignação e apoio moral à mulher sambista. Fundamental na essência e desenvolvimento social do Samba, a mulher ganhou o estigma/estereótipo de que ou ela é a tia quituteira com pinta de mãezona acolhedora ou é a gostosa que samba e seduz com seus ‘’requebros febris’’ . Mas a coisa muda quando a mulher tenta ser algo mais que o bibelô, o enfeite da loja de lembranças pra turistas.

 

E não to falando só da mulher instrumentista que toca cavaquinho, violão e pandeiro além do simbólico tamborim ou ganzá. Posições em que a sociedade está mais acostumada a ver mulheres também são alvos de opressão. Mulheres compositoras, professoras e até, pasmem, cantoras são objeto de uma falsa adoração. Quer dizer, a adoração é pra que se sintam tão lisonjeadas que não queriam mais algo que os homens já dominam. Sim, este texto é uma denúncia também.

Tarcísio Motta: O vereador que criou o projeto de lei.

Não são poucas as minhas amizades femininas (axé, Olodum!), sobretudo negras. Muitas das quais figuram compositoras, produtoras culturais, escritoras, atrizes-dançarinas, instrumentistas e, sim, cantoras. Não chegam a ter o prestígio (inter)nacional de Alciones, Beths e Claras, mas representam bem nossa cultura mais perto da nossa realidade da maioria, aquela que corre pra onde tiver um bom samba e, diversas vezes, divide a agenda artística com o ponto e a carteira de trabalho.

 

Então, não vou me estender descrevendo Dona Ivone Lara, até porque já o fiz em outro texto neste blog. Vou falar da importância desta data para a sociedade brasileira em si. Tenha a iniciativa que eu tive de, ora perguntar franca, direta e abertamente sobre a visão dessas mulheres dentro do samba, ora apenas observar o que você tenha ouvido por aí das queixas femininas. Você vai se impressionar em como é possível e natural dois caras baterem de frente e quase saírem no tapa num momento, mas concordarem – mesmo sem se olharem na cara – em manter uma mulher de fora de seu “ phoderoso círculo de poder”.

 

É ridículo, mas há marmanjos adultos aos montes por aí se confabulando para manterem mulheres controladas e seus espaços de acesso afunilados, só pra não chegarem aos montes e ameaçar privilégios. Muita gente que paga de desconstruída aí e no convívio mais básico entrega algumas dessas atitudes machistas. Parafraseando uma amiga, a maioria dos homens nesse meio (e em todos, só mudando o instrumento de trabalho) parecem segurar o próprio ‘pinto’ quando ao microfone. É uma disputa de poder entre si que a mulher acaba sendo vista como o ‘inimigo em comum’.

 

Numa outra comparação que ilustra bem, já viu como brancos disputam entre si seus privilégios sociais, mas ao chegar um negão, eles se juntam pra dizer cinicamente que ‘somos todos humanos’, mas tentam nos convencer de que nosso lugar não é ali? É a mesma coisa? Aliás, falando em privilégios, você pode pensar que ‘hoje tá melhor, antigamente é que tinha machismo’, mas vem comigo no próximo parágrafo que eu te digo direitinho como funciona o esquema.

 

Primeiro, deixa eu te contextualizar. Vou falar da minha escola amada e idolatrada, o glorioso Império Serrano. Minha escola nasceu de uma dissidência contra o autoritarismo, mas mesmo tendo esse viés de resistência contra a opressão, na lista dos quase 30 fundadores, não há uma mulher. Se lembrarmos que foi na casa de Tia Eulália que a agremiação foi fundada, é de se estranhar, né? E se eu te disser que Eulália, figura das mais ativas na escola até sua morte, em 2005 (quase centenária) não tem seu nome na lista, mas tem o de seu marido, pouco atuante?

 

E ainda, o exemplo mais notório, a própria Dona Ivone. Essa, não precisa ser imperiano nem, em geral, sambista. Muita gente ‘leiga’ já ouviu em algum lugar que Dona Ivone precisava apresentar músicas por meio de seu primo, Antonio dos Santos, o Mestre Fuleiro, por que se os outros soubessem que era autoria de uma mulher, não dariam o mesmo valor e atenção. No entanto, com o tempo, foi ganhando respeito e se tornou a primeira mulher a integrar uma ala de compositores em escola de samba. Mas ainda é minoria absoluta.

 

E não é só o acesso direto a áreas ‘de menino’ que limitam o voo das mulheres no samba. Já ouvi relatos e também já reparei (com maior susto e atenção depois de várias conversas) em coisas que soam até infantilóides, do tipo ‘me dá meu brinquedo’, saca? Mulher pedir tom pra cantar e músico não saber (ou não querer) transpor o tom, por exemplo. Bem, eu sou músico de harmonia e sei que não é nada difícil tocar algo em lá menor, mesmo que o senso comum conheça no tom de ré menor, por exemplo. O que poderia atrapalhar seria a pessoa pedir um tom qualquer e cantar em outro.

 

Já vi mulher ser tolhida em roda de samba de outras maneiras. Cantam sozinhas, porque a rapaziada deixa na mão mesmo e corta na metade da música pra outro samba mais ‘testosterona’, já ouvi depoimentos informais de pagamento menor com qualquer desculpa besta, participação reduzida e até diluída (tipo, era pra ser atração e se torna figuração no meio da roda). Já arrumei, literalmente, brigas por causa dessa diferenciação sonsa e os “argumentos” que são usados, mas enfim, não é também um poço de lamentações.

 

A questão aqui é denunciar sim, mas não pra baixar o astral (em .ZIP), é pra demonstrar a importância de termos um dia da mulher sambista. Meninas vão poder ter maior visibilidade das mulheres e escolherem algo mais do que tocar instrumento de figuração numa roda, ser objeto sexual ou cozinheira de mão cheia pra ser respeitada no rodapé da página da história da nossa própria cultura.

 

Conheço muitas mulheres, de idades, localidades e situações diferentes que, por meio do samba, infelizmente, têm as mesmas histórias de exclusão e invisibilidade pra contar. Isso tem que mudar e esta data é muito bem vinda no momento que o país mais precisa. Não posso conceber de boas que uma cultura que aceita tanta coisa de fora (parte disso é inclusive o que compõe o samba) não enxerga a mulher como pilar primordial. Afinal, quando se enche a boca pra falar que o samba é democrático e que aceita a tudo e tods de bom coração, estamos mesmo falando sério, ou só falando bonito?

Mulher é fundamento do Samba. Não tem como ser homem e aceitar de boas que eu seja a cara do glamour (não sou, por mil outras situações, mas fica a analogia) enquanto a mulher é mais requisitada pra backing vocal, passista ou baiana, ali, de lado no palco da própria vida.

Fontes:

https://noticiapreta.com.br/dona-ivone-lara-inspira-lei-do-dia-da-mulher-sambista-no-rio-de-janeiro/

VALENÇA, Rachel & VALENÇA, Suetônio: Serra, Serrinha, Serrano – O Império do Samba (2017, Editora Record)

Publicado em Comunicação UNEGRO, Divagações, Falando Nisso... | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Escolas de samba não recebem mais a mesma grana de antes… E daí?

Há muitos anos, décadas, que o carnaval não é mais o mesmo. E não tô falando só do âmbito geralzão, do tipo, ‘as coisas sempre mudam’. Não. Estou falando do carnaval de sambódromo do Rio de Janeiro. Na rua, sempre vai ter a modinha e o tradicional e o tradicional que adere à moda e a moda que imita o tradicional. Enfim, é sempre aquela bagunça que a gente ama – ou odeia, depende do caso.

 

Agora, trocando em miúdos, vamos ao que interessa: Grana! As escolas do grupo especial não estão recebendo a mesma coisa de antes e as do grupo de acesso nem isso. O que eu acho? Acho bacana! Não, não sou nem de longe apoiador do atual prefeito-político-religioso, mas há uma vantagem irônica no fato de termos um prefeito líder religioso conservador. Ao passo que ele defende legalização de jogos de azar, ele limita demais a subvenção ao carnaval e a beleza nisso, pra mim, é que o gigantismo das escolas fica ameaçado. Não é de hoje que essa galera deita na sopa e só faz carnaval milionário pra turista e o povão mesmo que é a força de trabalho e põe o coração na escola o ano todo só serve de mão-de-obra e figuração na festa que ele mesmo construiu. É como dar uma festa na sua casa e por você pra servir as mesas e limpar o chão. Nada de errado com a função, mas, demonstra a falta de consideração e exploração por parte de quem vem de fora mandar e ficar com o dinheiro.

 

 

Agora, acho que vai ser interessante. Ainda tenho o sonho que as escolas de samba se tornem algo extremamente caro e pouco rentável, pra ver se os interesseiros, empresários, ‘patronos’ e profissionais da moda larguem o osso e devolvam a arte do samba e do carnaval na mão de quem o merece por direito: O povo! Seria um dilúvio, ou, nos moldes da festa da carne, seria Sodoma e Gomorra, algo tão perdido que o Olodum incendiaria pra trazer a reconstrução de um amanhã melhor. Com as escolas mais pobres e sem a mão grande de quem só quer faturar e tirar onda com a cara do pobre, eu sonho que voltaríamos aos tempos em que ninguém tinha dinheiro, mas fazia carnavais inesquecíveis. A maioria das escolas fez seu nome assim. Era um paetê aqui, uma tampinha de garrafa ali e os adereços iam ganhando forma e dando o tom da identidade visual e o simbolismo da festa de ilusão do preto pobre sendo rei por quatro dias onde era servente nos outros 361.

 

 

Não me desce na garganta quando vejo empresários do samba falando que com menos de não sei quantos milhões não se faz carnaval. Vontade de emoldurar uma foto de Paulo da Portela em ferro maciço e dar na fuça de um tipo desses. Antigamente se fazia instrumentos musicais com sucata e a cidade inteira corria pra ver, hoje tem malandro dizendo que não consegue andar pra frente se não tiver pena de faizão albino da indonésia venusiana? Ah, vá… O gigantismo, ou melhor, a megalomania chegou a um ponto que ou o carnaval acaba, pra poder se renovar, ou vamos cansar de ver essas invencionices sem fim. Agora, o papo é que a organização está para ser delegada à produção do Rock in Rio. Nada contra. Empresarial e industrializado como o carnaval de sambódromo está há tempos, nem ligo pra quem vai estar imprimindo os ingressos (ou vendendo online, né, novos tempos). Só sei que pra ter valor cultural de novo, só acabando e começando outra vez. Não dá pra voltar do ponto que está. É muita gente mamando sem ligar pra importância sócio-cultural. Ou vem um messias propriamente dito (cuidado ao usar essa palavra hoje em dia, hein!) e salva a todos nós da perdição insalubre ou começamos um movimento paralelo.

 

Lembrei agora que teve um lance desses que eu li há alguns anos, na Baêa. Se não me engano, era algo do Carlinhos Brown, que reuniria um carnaval num lugar próprio pra valorizar as raízes. Ainda falando de minha amada Bahia, a cantora Sara Jane também se dedica a cultivar o carnaval fora dos cordões caríssimos do carnaval de abadá. Como diria Natiruts em Palmares 1999, vivemos a realidade ‘apesar de ter criado o toque do agogô, fica de fora dos cordões do carnaval de Salvador’. Por mim, a gente faria um sambódromo em frente à Marquês de Sapucaí, só de sacanagem. Rá! Mas estou divagando, este texto é só pra expressar meu desejo sincero de ver tudo definhar como está para renascermos das cinzas do carnaval de pavão e voltarmos a sorrir pelo amor à arte e cultura negra e não porque tem câmera monopolizando desfile na TV. O carnaval é nosso e já deixamos os outros se apropriarem demais por muito tempo. Não precisamos de grana, precisamo de valores. Sacou a sutileza?

 

Bjs nos cérebros!

Publicado em Carnaval, Divagações | Marcado com , , | Deixe um comentário

Vitrola de Ficha: Cada Vida Um Destino (Arlindo Cruz/Gilberto de Andrade)

Estava eu lá estudando as nuances da harmonia do meu cavaco e, aleatoriamente, o youtube me dá de cara Cada Vida Um Destino, de Arlindo Cruz e Gilberto de Andrade. Mas até aí, eu estava satisfeito com a linda versão de Mussum, com participação da cantora Astrid, no disco do sambista trapalhão, Água Benta (1978). Por pura curiosidade musical, lancei mão do link para outras versões e caí na versão do DVD Pagode do Arlindo (2006) e foi aí que me bateu a emoção.

 

Arlindo, estava em plena decolagem de sua carreira solo (para um público mais amplo do que o próprio do samba, uma vez que ele já era altamente respeitado desde a década de 1980, no Fundo de Quintal e 1990 entre seu primeiro LP solo – Arlindinho – e a consagrada dupla com Sombrinha). Pois que esse CD (2003) e DVD (2006) traz músicas que até então não era muito conhecidas no circuito comercial, pelo menos não nas rádios que insistem em massificar sempre as mesmas músicas exaustivamente.

Pérolas como a nova roupagem de Tô a Bangu (incluindo o, hoje famoso ‘ê lalauê’, que não tinha na versão original), são largadas para deleite do bom sambista ajuizado que curte o que o samba tem de bom. E então, chega a versão de “Cada Vida…” com o diferencial que Arlindão canta abraçado a seu primogênito, Arlindinho Neto. A letra é daquelas típicas de quem vê nascer um filho, um afilhado, ou outra criança que já vem muito querida e gera inspiração.

É o pai narrando pro filho das batalhas que ele enfrentará na vida. Sem demagogia, mas com muita poesia, ele dá o papo real, de que vai ter alegrias, mas vai ter dificuldades também. E vendo como a coisa está hoje, com Arlindão debilitado, se recuperando há mais de um ano de um AVC hemorrágico e Arlindinho tendo se tornado seu provedor e protetor, ao lado da mãe (Babi) e irmã (Flora), só consegui parar meu estudo na hora e cair pra cá pra escrever este texto e recomendar a música pra quem curte o melhor da inspiração de Arlindo Cruz.

Sou fã inconteste do pai e admirador do filho, pela postura e pelas atitudes nesse momento de dificuldade do pai e da família como um todo. Força, Arlindo!

P.S: Repare que no final da versão do Arlindo, cantando com Arlindo Neto, ele diz ‘Flora’ em vez de chora. Que, sabemos, vem a ser o nome de sua filha caçula.

P.S: Na dúvida, vou deixar aqui o link das duas versões porque nunca é demais… e ao mesmo tempo são demais! Rá!

Arlindo.

 

Mussum (part.Astrid)

Publicado em Vitrola de Ficha | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Zé Luiz do Império – Malandro Maneiro

José Luiz Costa Ferreira, ou o conhecido Zé Luiz do Império (também creditado como simplesmente Zé Luiz, em diversos lugares) é um cantor e compositor carioca. Nascido a 10 de julho de 1944, no Bairro de Santa Teresa, Centro do Rio de Janeiro. Morou no referido bairro até os 9 anos de idade, quando mudou-se com a família para o bairro de Pilares, Zona Norte da cidade.

Já foi funcionário da Empresa Brasileira de Telecomunicações (EMBRATEL), pela qual é aposentado desde 1997. De presença marcante no Samba, é um dos fundadores, junto a Nei Lopes, Wilson Moreira e outros, da ala de compositores do Grêmio Recreativo de Artes Negras Quilombo e é integrante do (meu amado) Império Serrano, onde figura na ala de compositores e na Velha Guarda da escola. Também foi o fundador do Pagode da Resistência, uma das primeiras rodas de Samba no movimento de revitalização do gênero na década de 1970.

Já foi gravado por vários expoentes da MPB, como: Roberto Ribeiro, Alcione e Fundo de Quintal, tendo ao lado grandes parceiros de composição, como os mais frequentes Nelson Rufino e Nei Lopes, e outros como Ratinho, Wanderley Monteiro e Nelson Sargento… Aqui vão alguns exemplos mais conhecidos:

Tempo Ê (c/ Nelson Rufino)

Prece a Xangô (c/ Nelson Rufino)

Todo Menino é um Rei (c/ Nelson Rufino)

Eu Não Fui Convidado (c/ Nei Lopes)

Malandros Maneiros (c/ Nei Lopes)

Caído com Elegância (c/ Nei Lopes)

Minha Arte de Amar (c/ Nei Lopes)

Nosso Nome: Resistência (c/ Nei Lopes e Sereno)

Dona Zica e Dona Neuma (c/ Carlinhos 7 Cordas e Nei Lopes)

 

Exemplo de imperiano, sambista e ser humano. Quem para perto tem a oportunidade de ouvir um pouco da história do samba orgânica, ativa. Esse é um militante na defesa da nossa cultura e temos a honra de ter uma representatividade desse quilate ao nosso lado.

E tem uma participação do mestre no evento Velhos Malandros, ao lado de Noca da Portela.

 

Fontes:

http://dicionariompb.com.br/ze-luiz-do-imperio

http://www.revistamusicabrasileira.com.br/perfil/ze-luiz-do-imperio

Publicado em Falando Nisso..., Tesouros do Samba | Marcado com , , | Deixe um comentário