Tia Doca: A incrível história do Samba que virou Pagodez

pagode da Tia Doca

 

Já levantei a questão lá na minha timeline do facebook, mas ainda quero discorrer sobre o assunto. Desde sempre eu conhecia o Pagode da Tia Doca, primeiro de nome, depois de faixas gravadas e histórias contadas por conhecidos e, por fim, fui lá. Já tem anos isso, mas por ser aos domingos, eu nem sempre ia pra poder acordar minimamente apresentável, então fui me contentando em passar pela porta, ficar um pouquinho e bastava… Até que por volta de 2013, passei lá em frente (morar perto tem dessas frequências) e vi um letreiro anunciando a abertura do espaço aos sábados para assistir aos jogos da Copa das Confederações e ainda rolava um projeto “acústico”, segundo o próprio letreiro, servia para deixar a ‘comercialidade’ do domingo correr com o comando do Nem (filho da pastora que fundou o clássico pagode) enquanto o da véspera viria com a proposta de se aproximar mais da raiz da coisa, dos tempos que começou, no quintal e tals…

 

A brincadeira acontecia no terceiro sábado de cada mês e ficava realmente boa. Sequências que até hoje têm resquício em muitas outras rodas (aquele CD de 2002 é empolgante demais #saudades) e um repertório bacana, resgatando muita coisa esquecida/ignorada pela grande mídia. Tipo, aquela que o Zeca gravou no lado B de um disco de 1987, ou aquela do Fundo de Quintal ainda com Almir Guineto cantando, músicas ainda anteriores à fase ‘cacique’ e convidados bem legais, que estão fora do circuito business (uma vez, um integrante do Exportasamba cantou ‘Se gritar pega ladrão’, faça a ideia!). Bons tempos.

Aí, não sei se por crescer o olho na rentabilidade da novidade ou se por algum planejamento mais profundo (UIA!), a visibilidade provocou mudanças meio salgadas, como o preço da cerveja (trocou de garrafa por latão 473ml, mas manteve o preço), o tradicional macarrão com carne moída (porque à bolognesa é frescura, rá!) passou a sair já lá pro final, o horário legal de 18h (com fim pontual à 0h) passou a concentrar faixas mais tardias até que hoje, está praticamente a mesma coisa de domingo. Ou seja, Nem canta o tempo todo na ordem que quiser, o trecho da música que quiser, o acústico que já era bem plugado pra ter esse nome no início, agora tem até microfones divididos nos vocais, o local sofreu uma reforma monstro (a única vantagem, não é mais um aperto se locomover) e, por fim, chegamos à cereja do bolo: O repertório.

 

Não só o repertório, como o modo como ele é conduzido. Um lugar com aquela aura de raiz, aquele pé no passado, na cultura que originou tudo isso e os caras cantam cada um uma frase, deixam a galera pra cantar o resto, ficam apelando pra músicas que já são repetitivas até em rodas mais afobadas (cof pagodez cof) e a velocidade alucinante com que se canta ali. Parece um cavaleiro do zodíaco sob efeito de red Bull. Cadência? Descanse em paz. Canta-se com a mesma pressa de acabar tanto músicas românticas de Jorge Aragão quanto o clássico ‘É hoje’, da União da Ilha de 1982. O insulto geral era o que estivesse ao microfone na vez, acelerando, perdendo o tempo da métrica, atravessando pior que tomates naquela piadinha infame e ainda mandando, com o pouco fôlego que dava, uns ‘canta aí, gente’. Não dava NÃO DA-VA! As poucas pessoas que cantavam ,só agüentavam o refrão ou algum verso mais animado (mesmo porquê muitas músicas nem chegam ao final, mudando do nada, como se todos os compositores do mundo só tivessem escrito refrões), depois, era dar um gole, dar um beijo, porque acompanhar mesmo tava tenso. E nem falei dos que cismavam de sambar. Metade daquele povo deve ter acordado com câimbras.

Teve também um problema muito pontual que já me fez me ‘demitir’ de grupos e recusar propostas de outros: A falta de uma personalidade musical. Oras, se o lugar é o famoso Pagode da Tia Doca, porque haveria a necessidade de se misturar num só set canções de cunho meloso (cof pagodez cof), versões modernosas de sambas antigos e Djavan? É o Soul Mais Samba? E parecia meio que um desespero de manter a galera antenada no mestre de cerimônias – que antes mal dava as caras aos sábados, no máximo puxando umas 5 e seguindo no controle administrativo antes de partir – mas o efeito era o contrário. Pra que serve um pagode que você não consegue cantar e dançar? Cansa mais cedo e pede pra ir embora, né. O intervalo com charme/hip hop/R&B continua… continua longo até vir gente te perguntar se já acabou o evento. Vara madrugada (UIA!²) e você morrendo de cansaço no meio das escolhas batidas e/ou fora de contexto da rapaziada. Enfim, parecia uma festa particular que os donos queriam que nós, penetras, fossemos embora pra ficarem mais à vontade.

 

Enfim, dá uma dor no coração pensar que um lugar que poderia ser cada vez mais um pólo cultural, numa região que além de ser historicamente um berço do samba, também é muito carente desse tipo de visão cultural ancestral, tenha se rendido ao business barato dessa maneira. Não julgo você querer ver o lado lucrativo do comerciante, assim como não julgo um tubarão por morder, mas se fosse qualquer outro lugar fuleiro, desesperado pra não fechar, eu entenderia de coração, mas um lugar que já foi freqüentado pela nata do samba, que ainda tem tantos contatos pra agitar as noites por ali, tenha ficado assim, comum. O que vi ali no último fim de semana, eu já vi em bares ou quintais pequenos, feito por gente que está tão sedenta por dinheiro e espaço que até justifica, afinal, vive de música e de cultura é complicado, mas não queria ver isso na Tia Doca, afinal, o nome do lugar chegou a ser ‘complementado’ como ‘Centro Cultural Tia Doca’.

 

Tá parecendo o Botequim do Império, que se desfez de uma roda firme de exaltação aos baluartes pra fazer seu ‘lelelê’ e tentar arrumar uns caramingués. Na boa, caras, eu costumo falar sempre (e já lancei essa ideia no Samba da Filosofia, roda que estamos começando entre Campinho e Valqueire), público de Samba é fiel. Pode não vir aos milhões da juventude, mas quem chega, gostando do que vê, vai sempre guardar um espaço no coração e na agenda pra dar um pulo aqui e ali. Apelar pro modismo é perigoso, pois o público da moda vai pra onde a moda mandar, o do samba vai onde o samba estiver.

Por isso que chamam qualquer coisa de samba, desde que tenha um pandeiro e alguém com um chapéu imitação de Panamá e roupas coloridas falando gírias que aprendeu nas músicas e ignora na hora de formular sequências musicais. Pô, o que não faltam são tons e temas riquíssimos pra se levar uma roda por uma noite inteira. No último Filosofia, acabaríamos lá pela meia-noite, acabamos indo até quase 1h, e ainda tivemos tempo pra cantar nossas autorais do movimento Aos Novos Compositores, do qual alguns de nós fazemos parte também. Onde, aliás, nosso padrinho, Chiquinho Vírgula, já cansou de cantar sua autoria que nos inspirou o nome do movimento: “…para acabar com o argumento de quem diz que o samba não frutificou, só tem raiz…“.

 

É isso, enquanto chamam Luís Carlos (Raça Negra), Alexandre Pires (Só Pra Contrariar) e Belo (Soweto) de Gigantes do Samba, o Pagode da Tia Doca vai caindo no poço fundo do pagodez. Armadilha auto-imposta, pois uma vez que você se prende a essa necessidade de agradar a todos os gostos imediatistas, restringe seu repertório, diversifica o público, mas perde a identidade.

 

Agora fique com o verdadeiro clima do Pagode da Tia Doca neste link, onde a própria pastora fala sobre como começou e qual era o clima da coisa:  https://www.youtube.com/watch?v=ca1AAFZCWms#t=39

 

E dê uma ouvida naquele lance legal e mágico que a roda tinha:

 

Samba agoniza, mas não morre? A gente se esforça, mas é cada neura que aparece. A plastificação do samba começa assim, um mistura aqui, outra mistura ali e já se foi o caminho mudado.

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Vitrola de ficha: Sorriso Novo (1985) – Almir Guineto

 

Esse disco é pedrada e agrupa alguns dos clássicos do mestre salgueirense que, olhando hoje, a gente pode nem lembrar (ou nem saber, como muitos), vendo hoje quase como uma coletânea instantânea.

É, hoje ainda tem alguns que conseguem, mas como essa geração, não tem igual. Tantos sucessos e outros que a gente vai lembrando nas rodas e abre um sorrisão quando vê que outros estão por perto com o mesmo olhar de admiração do tipo “cara, tu conhece essa também?”. Rá, adoro.

Só pra tu ter noção da tijolada que esse disco é, estão nele “apenas”: Jiboia, O Destino de Maria, Dalila, Cadê Guará, Insensato Destino e A Vaca. Aliás… é pedrada do início ao fim. #mestre #almir #sorrisonovo

Chega de papo, ouve aê.

 

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Vitrola de Ficha: Eu Prefiro Acreditar – Zeca Pagodinho

 

Eu Prefiro Acreditar (Zeca Pagodinho-Arlindo Cruz-Marquinho PqD)

 

Eu prefiro acreditar
Do que duvidar de alguém
Eu não sou de criticar
Sou de elogiar, falar bem
Com amigos que me deram a mão
Aprendi a dar a mão também
Lutar sem perder a fé
Sem desrespeitar ninguém
Medi o valor da amizade
E vi que a falsidade
Não vale um vintém

Palavra é coisa abstrata
Mas na hora exata que a verdade vem
Quem maldiz a vida alheia
Todo mal semeia e não colhe o bem
Por isso não guardo em meu peito
Virtude ou defeito que me magoou
Não guardo remorso na minha lembrança
Desejo a bonança pra quem me ajudou
Eu prefiro acreditar…

Se queres ter minha amizade
Use lealdade de agir mano a mano
Nunca me deixe sozinho
E chegue juntinho em todos os planos
Seja um fiel companheiro
Sem dúvidas nem mais desenganos
O amigo das horas felizes
Divide os tormentos, as perdas e danos
Eu prefiro acreditar…

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Top 10: Países mais ricos de África

Patrícia Abravanel, quem diria, me inspirou! Me inspirou a localizar dados que mostrem como África é um continente – e não um país – e como a civilização colonizada pela Europa lá também segue o modelo ‘cidade buscando desenvolvimento eurocêntrico’. Indo contra as declarações infelizes que a moça fez associando ao continente-mãe aquela visão retrógrada e racista de que tudo que vem de lá é miséria e rituais ‘primitivos’. Bom, quando uma pessoa evangélica quer ofender, geralmente ela vai pelo lado europeu da coisa e persegue mesmo tudo que lembra África como polo cultural (explorado pelo branco desde séculos atrás). Será que isso é tudo pra manter as pessoas afastadas da raiz de nossa cultura? Ainda descendentes morais do colonizador, que precisam diminuir uma etnia inteira pra se sentirem menos inferiores? Enfim, vai pensando nisso enquanto lê.
10º Etiópia
PIB: US$ 48 bilhões ( equivale a Porto Alegre )

População: 92 milhões

IDH: 0,435 baixo

Capital: Adis Adeba

9º Líbia
PIB: US$ 50 bilhões ( equivale a Manaus )
População: 7 milhões
IDH: 0,784 alto

Capital: Trípoli

8º Quênia
PIB: US$ 63 bilhões ( equivale a Curitiba )

População: 45 milhões
IDH: 0,569 médio
Capital: Nairóbi

7º Sudão
PIB: US$ 67 bilhões ( equivale ao Amazonas )

População: 46 milhões
IDH: 0,473 baixo
Capital: Cartum

6º Marrocos
PIB: US$ 104 bilhões ( equivale ao Espírito Santo )

População: 38 milhões
IDH: 0,617 médio
Capital: Rabat

5º Angola
PIB: US$ 132 bilhões ( equivale ao Goiás )
População: 21 milhões

IDH: 0,526 médio
Capital: Luanda

4º Argélia
PIB: US$ 228 bilhões ( equivale a cidade do Rio de Janeiro )

População: 35 milhões
IDH: 0,717 alto
Capital: Argel

3º Egito
PIB: US$ 285 bilhões (equivale ao Rio Grande do Sul )

População: 87 milhões

IDH: 0,682 médio
Capital: Cairo
2º África do Sul
PIB: US$ 342 bilhões ( equivale a Região Metropolitana do Rio de Janeiro )

População: 51 milhões

IDH: 0,658 médio

Capitais: Pretória, Cidade do Cabo, Bloemfontein

1º Nigéria
PIB: US$ 595 bilhões ( equivale a região Nordeste )

População: 175 milhões
IDH: 0,504 baixo
Capital: Abuja

É óbvio que no continente existem os locais onde a miséria é altamente incidente e também os locais onde a economia está mais para subdesenvolvimento, mas ao contrário do que a patricinha pensa (?!), o continente não pode ser julgado por alguém sem preparo como se fosse um só país ainda em moldes pré-históricos. A visão dela beira o fascismo. Drogas: Diga não. E o que ela falou foi digno do nobel de química.
Fonte: Tudo Listas (originalmente publicado)
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Jogo do Bicho, Carnaval e Natal

Origem do jogo

Foto antiga do antigo zoo, em Vila Isabel.

Pra falarmos de origem do jogo do bicho, precisamos falar primeiro de João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond (sim, o que virou nome da famosa praça 7, ali de frente para o Morro dos Macacos). Aliás, tudo ali é parte dessa história. Drummond comprou um pedaço de terra da Imperial Quinta do Macaco, colado ali no Morro dos Macacos, em Vila Isabel. Tornou ali um pequeno pedaço da França, depois que ficou impressionado com o estilo arquitetônico de Paris. Seu gosto por animais o levou a montar um zoo e como tinha a amizade do imperador D.Pedro II, importava seus espécimes numa boa. Numa boa, mas…

Barão de Drummond

Veio a cambalhota da monarquia, os militares da vez, capitaneados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, derrubaram a família imperial do poder e proclamaram a república. Perdendo o apoio do governo, Drummond se viu com pouca verba pra manter seu Jardim Zoológico e bola a ideia de uma loteria. Essa tal loteria visava entregar um bilhete a cada freqüentador do zoo. Cada bilhete tinha um bicho e um número e às 17h dos dias, um pano era descido revelando o ‘bicho do dia’. Quem tivesse o tal bicho em seu bilhete, ganhava vinte vezes o valor da entrada. Tipo, paga 1$ pra entrar e sai com 20$, tipo uma rifa, saca?

Exemplar de bilhete da mania que começou junto com a república.

Veja o que documentou o Jornal do Brasil em 04/07/1892:

“(…) a empresa (Jardim Zoológico) organizou um prêmio diário que consiste em tirar à sorte dentre 25 animais do Jardim Zoológico o nome de um, que será encerrado em uma caixa de madeira às 7 horas da manhã e aberto às 5 horas da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com bilhete que tiver o animal figurado tem o prêmio de 20$. Realizou-se ontem o 1o sorteio, recaíndo o prêmio no Avestruz, que deu uma recheiada poule de 460$000 (…)”.

 

Contravenção

Apenas duas semanas. Foi esse o período na história em que o jogo do bicho não foi considerado contravenção. Na verdade, a coisa saiu do controle, pois, no início, diversos comerciantes usavam esse artifício de trocar vantagens com os clientes, como brindes, descontos, etc. Para driblar a crise que veio na transição da monarquia para a república (hoje, chamada de velha). O jogo do bicho veio nesse embalo, mas logo mudou o esquema de um bilhete por pessoa para quantos as pessoas quisessem comprar. Assim, as pessoas já estavam indo ao zoo apenas pelo jogo. Esse misto de misticismo de sorte, interpretação de sonhos e a ilusão de se ganhar dinheiro fácil fez a polícia considerar a pequena loteria um jogo de azar, coisa proibida no Brasil. Aí, começou o bicho pegar pro jogo do bicho. Mas como o bicho é danado, ele escapou pelo muro do zoológico (hoje chamado de antigo zoológico, desde que a atividade foi transferida para a Quinta da Boa Vista, no bairro imperial de São Cristóvão) e ganhou as ruas. Mais de 120 anos de contravenção. Pense em como o negócio deu certo, amigues.

Crescimento

 

Com a proibição do jogo em 1895, os bilhetes passaram a ser revendidos pela cidade e não demorou a ocorrerem sorteios fora do zoo, por conta própria de várias bancas pela, então, capital de recém instaurada república. O crescimento do jogo se deu porque ele é a cara da população mais pobre. Veja bem, o jogo fomenta o imaginário da sorte, a ilusão de que uma hora você ganha “só ganha quem joga”, aquela esperança de pobre de que a vida está aguardando o momento certo para sorrir brilhante e o misticismo de interpretação de sonhos, como o próprio samba da Beija-Flor (de 1976, falo mais dele lá na frente) ‘sonhar com rei dá leão’. Isso criou uma ligação muito próxima entre o jogo e a população, essa informalidade, a coisa do apontador, muitas vezes, ser um amigo da vizinhança e tals… E ainda viria a relação quase marital entre jogo do bicho e carnaval.

 

Origem da ligação com o carnaval

Eu me lembro que eu era menino e do seu Natalino, já ouvia falar” (Malandros Maneiros – Zé Luiz do Império e Nei Lopes)

Se a origem do jogo do bicho remonta os tempos do Barão de Drummond, a aproximação do bicho com o carnaval vem um pouco depois, na década de 1930 com Natalino José do Nascimento. Natal da Portela, o homem de um braço só da escola de Paulo, Rufino e Caetano, teve infância pobre, mas chegou a ser funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil. Devido a um acidente nos trilhos, onde perdeu o braço direito, foi demitido por invalidez depois de seis anos de serviços prestados. Isso o levou a viver de alguns biscates até começar como apontador do bicho. Sua escalada foi rápida e notória até chegar a banqueiro do jogo do bicho em Madureira.

A ligação com o samba vem aí, com a proximidade de Natal com a Portela, estando presente nas rodas de samba – praticamente em sua rua – no então bloco (ou rancho, sei lá) chamado Vai como Pode, que mais tarde viria a se chamar Portela. Em homenagem ao amigo Paulo da Portela, Natal injetou grandes investimentos na escola de Oswaldo Cruz/Madureira, tornando-se pioneiro no que hoje é prática comum nas escolas do grupo especial: A figura do bicheiro patrono de escola de samba. E Natal fez isso muito bem, levou a Portela a lugares que uma escola de samba não estaria acostumada até então. Chegou a ser convidado pelo, então, ministro das relações exteriores, Negrão de Lima (aquele mesmo que nomeia o viaduto mais famoso do subúrbio, em Madureira, onde rola o clássico baile Charme) para apresentar sua escola no Palácio do Itamaraty em 1959 (à época, a sede oficial de seu ministério era no Rio de Janeiro, então capital federal).

Essa postura de herói contraventor não só elevou Natal a um status de benfeitor da região de Madureira como mostrou a outros bicheiros que poderiam ganhar a população pelo mesmo filão. A partir de Natal, vários outros bicheiros pegaram o grande ‘fica a dica’ deixada no ar por ele e começaram a tradição de escolas profissionalizadas, super escolas de samba s/a escondendo gente bamba em prol de mais e mais gigantismo, espetáculo pra turista e orgia desatada de dinheiro injetado. É uma pena que tanta grana tenha vindo pra justamente afastar a raiz da escola de samba.

 

Do porão pra apuração

Na época da ditadura, essa prática de aliar bicho com escola de samba cresceu exponencialmente. Não é por coincidência que Candeia tenha se afastado da Portela e do carnaval em geral, no circuito oficial, pois avaliava que as escolas de samba estavam crescendo muito em dinheiro, mas perdendo – ou seria vendendo barato – sua raiz, o sambista, o compositor, o passista, a costureira. Nem precisa ser estudioso do assunto pra perceber o quanto se valoriza o designer chamado de carnavalesco e como os componentes viraram meãs peças e não foliões num carnaval. O livro Os Porões da Ditadura fala exatamente sobre isso.

E a ditadura fez mais, pois, muito político e militar veio dos porões da repressão pra lado do bicho, tornando a coisa numa verdadeira guerra. Uma mão lavando a outra, as escolas institucionalizadas em porta-vozes das famílias dos bicheiros e da ideologia ufanista do governo, o que resultou na não coincidência de brotarem tantos sambas de exaltação a um país que estava matando adoidado nas câmaras de tortura. Carnaval, futebol e jogo do bicho. Ainda te parece uma feliz mistura de esporte e lazer? Humpf… vai lendo mais que você vai sabendo mais… e eu vou te acompanhando. Rá! Agora você já pode parar com a ideia de que as coisas acontecem por debaixo dos panos por incompetência de político, né? A coisa acontece exatamente porque eles têm interesses ali. Sabe quando, em menor escala, alguém consegue fazer algo ilegal por vista grossa, arrego e tals? É tipo isso.

Criticaram a Beija-Flor por ganhar um carnaval com apoio e homenagem a um país sob regime de ditadura, mas esquecem que todo o esquema da liga, do carnaval oficial é baseado nisso. Sem contar que os bicheiros não fazem nem questão de se esconderem, aliás, vira e mexe as escolas até os estampam em carros, esculturas, como destaques, diretoria, etc. O primeiro carnaval da Beija-Flor como campeã foi justamente o Sonhar com rei dá leão, como eu mencionei lá no começo.

 

Conclusão

 

Um jogo que começou como um jeitinho, quase inocente, de driblar uma dificuldade financeira, hoje se tornou uma verdadeira loteria, com sorteios regulares e até com referência no circuito oficial. Movimenta uma grana violenta, sustenta o carnaval do grupo especial no braço e já entrou para o subconsciente popular como uma espécie de ‘poderoso chefão’ dos trópicos. Enfim, o jogo do bicho já é parte da cultura brasileira, seja pro bem, seja pro mal. Ironicamente o jogo do bicho entrou para o carnaval através do Natal. Rá! #sagairônico.

Fontes:

http://www.ojogodobicho.com/historia.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jogo_do_bicho

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista_Viana_Drummond

http://www.pedromigao.com.br/ourodetolo/2014/01/historias-brasileiras-natal-da-portela-a-beija-flor-e-o-jogo-do-bicho/

http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-a-origem-do-jogo-do-bicho

https://pt.wikipedia.org/wiki/Natal_da_Portela

http://www.jogodobicho.net/novidades/o-carnaval-e-o-jogo-do-bicho

https://livreopiniao.com/2015/11/26/os-poroes-da-contravencao-livro-revela-ligacoes-entre-bicheiros-e-agentes-da-ditadura/

http://jornalggn.com.br/noticia/os-poroes-da-contravencao-um-livro-essencial

http://oglobo.globo.com/brasil/bicho-cresceu-no-rio-com-ajuda-de-torturadores-10267365

http://blogs.odia.ig.com.br/leodias/2015/11/23/livro-polemico-garante-ligacao-do-jogo-do-bicho-com-a-ditadura-militar/

 

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Roberto Ribeiro – Arrasta Povo (1976)

 

Demerval, aquele que você conhece como Roberto Ribeiro, é um dos artistas populares mais valiosos de nossa cultura. E digo é, mesmo sabendo que já passa de 20 anos o tempo de saudade daquele talento nato. E, na minha inútil, porém embasada, opinião, o disco que descrevo a seguir tem todos TODOS os motivos para explicar não só o talento, como o sucesso do artista. Antes, só digo que este não é o único, é apenas o que tenho mais carinho por N motivos, como disse, mas ainda falarei em outras oportunidades de outros, sobretudo da década de 1970, quando o guri tava enjoado de tão produtivo. Comparo à década seguinte com Fundo de Quintal e metade dela para frente com Zeca Pagodinho. Mas calma, que se não a gente destoa e perde a toada. Rá! O papo neste momento é Roberto Ribeiro e seu Arrasta Povo.

Primeiramente, Ribeiro era compositor, em bem menor escala do que cantor/intérprete, óbvio, mas neste disco, ele só participa de UMA canção na parte da escrita, mas você vai ver que isso não traz o menor prejuízo, pois outro motivo de glorificar a arte de Robertão era sua ótima escolha de time. Falei em time só porque queria mencionar que por pouco ele não foi jogador profissional. Mas a questão é que, como é típico de muitos grandes, ele se cercou de gente muitíssimo boa pra compor seu repertório. Vamos dar só uma passada naquelas que tem algum diferencial?

 

Tempo Ê abre o disco como quem vai se chegando num ambiente num misto de preguiça e uma falsa cautela, do tipo que quando se soltar, vai fazer a festa acontecer. Palmas pra Zé Luis do – Glorioso – Império e Nelson Rufino, dupla sempre afinada na caneta nervosa. Então, a segunda música não deixa fôlego a tomar (UIA!), pois é simplesmente Acreditar, da outra dupla pólvora pura na escrita, Dona Ivone e Delcio Carvalho. Não precisa falar muito dessa, né? Aí, vem O Quitandeiro de outra dupla clássica: Monarco e o lendário Paulo da Portela. A quarta obra é Samba do Irajá, de Nei Lopes, no estilão do autor quando gosta de declamar versos sobre algo. E que refrão gostoso de cantar para o subúrbio bem representado. Tá bom pra você só esse time? Dá chilique não que ainda tem mais peso pesado pra eu citar neste singelo disco, neste pequeno objeto do entretenimento popular. Calma aê que eu volto no próximo parágrafo.

Daniel de Santana e Comprido são as fontes de uma das minhas mais preferidas da discografia do cantor: Podes Rir. Essa, particularmente, eu junto com outros petardos de outros discos pra compor uma série de canções em tons e temáticas parecidas (por exemplo: Propagas, Triste Desventura e Favela). Música triste, mas em tom de e desabafo desaforado. Então, vem, na sequência, a tal única composição a compor (hein?!) o álbum por parte de Roberto como compositor (chega de usar derivados dessa palavra por enquanto).  Em tempo, Império Bamba é parceria de Roberto com Joel Menezes e é uma belíssima homenagem à escola de nossos corações (Roberto Ribeiro, meu e de um monte de gente aí, rá! ;p ). Falando em Império, lá vem o próprio Império Serrano e na canetada do maior de todos: Silas de Oliveira, em parceria com Joacyr Santana, com Glórias e Graças da Bahia, enredo da própria escola, como imaginam. João de Aquino e Paulo Frederico trazem Lua Aberta, outra daquelas que eu digo sobre Podes Rir. Clima resignado e um repique-de-anel (instrumento comum nas gravações de Ribeiro) inspirado e cadenciado.

Rose, de Nelson Rufino e Ederaldo Gentil, é uma música diferente das que eu já tinha ouvido, pelo menos quando a ouvi pela primeira vez, pois ela é uma reflexão/divagação sobre a tal Rose e que vira uma declamação por alguém, notavelmente, querida. O solo que inicia e encerra a canção é lindo. E que refrãozinho cativante! Na reta final do disco, vem a obra de dois malandros da composição irreverente: Geraldo Babão e Dicró. Eles são criadores do sagaz Samba do Sofá, que papai Sagatiba até hoje cita quando nos deparamos com situações em que alguém toma uma atitude idiota pra resolver um problema mais sério:

“Ontem, eu a encontrei beijando outro em meu sofá

Veja que raivas eu senti

Hoje bem cedo, peguei o sofá e vendi

 

Tipo, se vem um furacão, você se preocupa em pegar o tapete pra não molhar? Rá! Enfim, impagável no mesmo nível que Só pra Chatear, também gravada pelo intérprete imperiano. Meu Pranto Continua é densa, melódica, mas com uma cadência até pra cima, se reparar. Viola de 7 cordas que o diga. A cozinha eu nem falo nada, que é redondo demais. Cama perfeita pra Roberto deitar seu vozeirão e a letra? Melodia com poesia na filosofia de Jorge Lucas e Walter de Oliveira. Então, pra dar um gran-finale pra um disco de 12 canções, mas que parecem 200 de tanta riqueza que possui, vem Wilson Moreira na autoria de Moda-ruê. Roberto canta África, nossa ancestralidade, nossa contemporaneidade que seguiu com bases nas raízes do samba, lá desde quando brotaram as origens de nossa cultura aqui. É pé no chão no chão duro de terra e cheiro de mato, parceiro. Nada mais a falar, ouve aí que música a gente pode explicar um lance ou outro, mas só ouvindo pra degustar em todos os nossos sentidos.

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Glória Maria: A exceção que distorcem pra parecer regra

 

Uma minoria da população do Brasil é rica, dessa minoria, pouquíssimos são negros. Dizem que o dinheiro faz do negro transparente, numa alusão à hipocrisia de se aceitar uma pessoa por interesse em sua grana. Não é bem isso, Maju, Taís Araújo, Cris Vianna e muitos outros que o digam em termos de dinheiro, fama e ainda assim, racismo…

Agora, essa foto da Glória Maria com esse questionamento mesquinho e maldoso do tipo ‘negros também fazem isso’ é de lascar e eu já digo porquê. Pra parecer que as situações se equivalem, usam uma negra, uma global negra, a jornalista gabaritada Glória Maria. Ela não é só uma patroa negra, é uma pessoa de mídia, famosa e rica.

Queria ver quantas patroas negras mais eles acham pra poder se comparar com as tantas que rolam por aí, tanto de famosas quanto de anônimas.

E tem mais, a patroa negra ainda vai ser ofendida por ser negra ao passo que empregadas brancas não. Pelo contrário, já vi gente dizer que negro tem cara de empregado e branco tem cara de rico.

Vamos lá, já que é pra se meter em assunto que não conhece, pelo menos mostrem alguma boa vontade: Fotos e mais fotos de patroas negras com empregadas brancas. porquê mostrar só uma UMA e sendo a jornalista mais poderosa da globo não é informação estatística, é desespero pra desviar de um assunto tornando-o imbecil.

Tô esperando.

 

Comunicação UNEGRO

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