Vitrola de Ficha: Muito Embora Abandonado (Velha Guarda da Portela)

A sugestão de música boa de hoje fica por conta da Velha Guarda da Portela. Mas ela toda, Muito Embora Abandonado é uma canção de Mijinha e Chico Santana (respectivamente nas fotos lá embaixo) e eu particularmente conheci naquele clássico documentário de Leon Hirszman sobre Partido Alto, que tem como fio condutor Antônio Candeia Filho. Lá pela segunda ou terceira parte do documentário, vemos um então jovem Paulinho da Viola conversando sobre partido alto com uns bambas da Portela e uma das canções que rola ao fundo é justamente essa. Ali eu me apaixonei pela melodia, mas não sabia o nome da canção ainda. Mas só recentemente me deparei com ela num samba aqui perto, em Madureira (valeu, Batucada Sport Clube, valeu Felipe D’Lelis e todo mundo), quando me reacendeu aquele amor por uma melodia tão rara e daquelas tipicamente clássicas, das que não se faz mais.

Enfim, chega de papo, fique com um video que exemplifica justamente o que eu dizia lá no começo do texto. Lembra? Ah, não? Eu espero você ler de novo pra se inteirar do assunto. Já? Se trapacear eu tenho como saber (mentira). Eu falei que essa sugestão trazia toda TODA a Velha Guarda da Portela porque além dos compositores serem da escola, ela está interpretada pela própria Velha Guarda ao lado de Paulinho da Viola. É bonito demais, Monarco, Argemiro, Casquinha, Osmar e todo mundo cantando no quintal da saudosa Tia Doca. Aprecie do jeito que sentir melhor.

 

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Zeca Pagodinho – Zeca Pagodinho (1986)

 

Vamos falar de estatísticas não exatas aqui? (até porque eu sou de humanas… Rá!). A questão é que poucos artistas mantêm/mantiveram coerência em suas carreiras. Muitos começam de um jeito, passam a outro com o tempo, não que esteja errado, apenas ressalto que muitos o fazem por não ter uma autenticidade, fazendo apenas o que o mercado ‘pede’. Outros, acabam nunca mudando, o que também não é sinal exato de que tudo correu bem, pode ser falta de adaptação e muitos deles somem. Agora, estamos aqui falando de Zeca Pagodinho, um desses poucos artistas de grande destaque que consegue, ao mesmo tempo, mudar conforme os tempos e nunca perder a essência que fez dele ser, como diz Nei Lopes, uma das poucas representatividades artísticas a alcançar o patamar de celebridade, praticamente, unanimidade (praticamente e não absoluta, pois sabemos que toda unanimidade é burra, né, Nelson Rodrigues?).

Pois bem, depois dessa intro cheia de enrolação e babação de ovo, estou aqui hoje pra falar de Zeca Pagodinho. Não o artista, mas o disco homônimo, seu debut em carreira solo (antes, ele havia participado de Camarão que dorme a onda leva, num disco de Beth carvalho em 1983 e do disco ‘pau-de-sebo’ Raça Brasileira, de 1985). Zeca Pagodinho, de 1986, é um petardo, é uma pérola, é algo tão grandioso que, se pararmos pra pensar no contexto, um jovem sem técnica musical alguma, mas com um talento nato pra compor e interpretar o samba, era pra, na melhor das projeções, ele ser um esforçado sambista daqueles que a gente se agrada por falar nossa língua. Mas não, o cara ali já tinha plantado elementos que, na minha opinião, são das coisas mais bonitas de se ver na vida e obra de um artista. E eu já falo. Fique por aí.

 

Bem, um diferencial na carreira de Zeca é que além de um ótimo compositor, ele realmente é envolvido com a temática do povão, não aquela demagogia que se vê de dizer que adora pobre e favelado de dentro de seu castelo rico e enfeitado. Ele é o cara que pega o quadriciclo e corre Xerém após uma tempestade e abre a casa pra abrigar quem perdeu tudo na chuva. Agora, o que marca mesmo o artista Zeca, é sua generosidade também com seus compositores amigos. Não é segredo pra ninguém que ele abre mão até de suas próprias composições pra gravar um amigo e, se for sucesso, esse amigo acaba nem precisando entrar nas famosas disputas de repertório no ainda mais famoso ‘quintal do Zeca’. Exemplos não faltam: Monarco, Mauro Diniz, Arlindo Cruz, Nei Lopes, Serginho Meriti e vários outros.

E nesse disco de estréia, amigo sambista, tem toda essa galera aí que eu falei no parágrafo anterior. E não é só isso, tem essa galera toda e se você reparar bem no setlist do disco, é um daqueles exemplos de campeonato invicto, pois, todas TODAS as músicas são sucesso até hoje e não é raro você estar numa roda de samba arrumada e acabar ouvindo todas elas em algum momento, mesmo eu, obviamente, fora da ordem originalmente gravada. Se duvida, se não conhece, dê um confere no link ao final do texto, porque ficar aqui descrevendo seria a mesma coisa que te dizer como uma comida é gostosa sem te orientar onde fazer seu prato. Sim, prato, é um prato cheio, esse disco, é pra degustar com os ouvidos, seu cérebro te agradecerá e você vai ficar com vontade de correr pro samba mais próximo. A exemplo de Seja sambista também, do Fundo de Quintal e vários outros, esse disco é um daqueles que tem sucesso em todas as faixas e, talvez por isso, pareça que passa voando. Tenho esse aqui em casa na forma de vinil (não tava nem perto de termos CDs na época).

 

Veja só algumas das canções que o iniciante trazia: SPC, Coração em desalinho (que Monarco queria levar pra Martinho da Vila, mas Rildo Hora prometeu que o novato também dava conta do recado), Quintal do Céu, Quando eu contar (Iaiá), Casal sem vergonha, Brincadeira tem hora e… chega, só ouvindo. Nada mal pra um disco de estréia de um cara que mal pensava em ser profissional (lembrando que chegou a ser cogitado para o Fundo de Quintal, mas, segundo o próprio Zeca, ele teria ‘estragado’ tudo por não ser disciplinado). Hoje é general, tem uma sólida reputação que caminha lado a lado com sua fama de boêmio malandro, sendo pai de família e um representante do povo na nossa música. Bem, chega de falatório, curta o disco logo abaixo:

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Resenha Imperial – Tia Maria do Jongo

 

Uma das mais novas de treze irmãos, uma das fundadoras do Império Serrano (a última remanescente) e principal nome na multiplicação do jongo da Serrinha para o mundo, para que nossa cultura não se perca.

Numa entrevista leve e rápida (tinha que ter umas duas horas só de material editado, nem que já fosse com João, Matheus e Tia Maria bocejando de tanto falarem. Rá!), a matriarca imperial conta sobre sua infância, fundação do Império Serrano, o relacionamento com outras escolas e outros jongos, costumes, cenários e fatos de antigamente e sua participação no Jongo da Serrinha enquanto ONG. Enfim, ficar falando levaria horas porque essa verdadeira griot inspira mesmo. E parafraseando Wilson das Neves (próximo homenageado da Resenha Imperial, anunciado na própria quadra da escola durante o evento do último dia 24 de maio): “Depois que vira viaduto não tem graça”, o negócio é homenagear também aqueles que estão entre nós.

 

 

 

Postado originalmente na página do Império Serrano – Museu Virtual

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Banjo: Coisas da pele

A conta do Almir

 

Bem, gente, lá se vão pouco mais de dois anos desde meu último texto sobre banjo, falando dos cuidados que o instrumento demanda para uma boa sonoridade característica. Volto ao assunto agora, pois agreguei uns conhecimentos que acho que podem ser úteis pra quem, assim como eu, não possui conhecimentos de luthier nem tem um à disposição, dependendo mais do boca-a-boca (UIA!) com os camaradas mais experientes ou internet pra quê te quero. Sendo assim, vou dizer o que eu tinha antes e o que mudou, ou melhor, se desenvolveu, pois senti uma falta danada de mais gente falando no assunto e, quem sabe, a partir daqui alguém mais fala, pois, com sinceridade, ou eu caía de volta a meus próprios textos ou eu tinha que procurar cuidados com peles de percussão. Mas tudo bem, o fundamental da ressonância do banjo é mesmo a pele, é o que o faz ser considerado uma espécie de híbrido harmônico percussivo (esse simpático frankenstein como eu disse no outro texto). Pois bem, olha que bicho deu.

 

O que era?

Esse foi o couro que acabei estragando, mas valeu a pena pelo que aprendi com minha curiosidade. Agora sei exatamente o som que quero tirar do banjo.

Meu antigo Rozini e sua pele natural de fábrica.

Antes, eu tinha um Rozini de couro natural, modelo estúdio, com plugue e uma sonoridade relativamente baixa. Eu achava que era talvez falta de prática, força na palhetada, mas não. Numa roda de samba que eu toco todo ano, me deparei com um rapaz com um banjo de bojo mais largo que tirava um som bem mais alto. Não tive dúvidas, achei que só conseguiria com um banjo maior, mas depois, aprendi que a pele influenciava. Pois então, pus a pele pra curtir numa solução que achei na internet. O que eu não sabia é que aquele era um tratamento para peles naturais ‘in natura’ e não as industrializadas, como parecia ser o caso da minha. Resultado, a pele ficou frouxa – pois dali ela seria posta num aro e tirado o excesso – e não ficou legal na regulagem, já que sobrava demais. Comprei uma sintética, apelando pro volume acima da média, mas ainda não fiquei satisfeito com o som de cavaquinho amplificado (é, sou chato pra caramba quando cismo com algo e sei o que quero). Por fim, comprei uma outra pele, esta assumidamente percussiva (dito isso até no nome desenhado sobre ela ‘percussion’). Achei que a pele ficou ainda folgada, isso juntando com os parafusos ruins de regulagem e minhas ferramentas inadequadas que terminaram por estragar tudo, não permitindo uma regulagem legal.

 

O que houve?

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Meu Del Vecchio e sua pele natural de fábrica.

Durante esse impasse, eu comprei um cavaco eletro-acústico e ia fazendo gracinhas por aí, o que me ajudou a espairecer da angústia do meu banjo sofrido. Mas eis que, um dia, num horário de almoço num lugar que trabalhei no Centro da cidade, encontro de bobeira, batendo perna, um Del Vecchio (meu sonho de menino) na Casa Oliveira, ali na Rua da Carioca, perto da Praça Tiradentes. Só tinha ele e o resto eram Carlinhos Luthier’s (muito bons também, mas a marca emblemática popularizada por Almir Guineto e Arlindo Cruz me chamava). Comprei, com case, afinador eletrônico e tudo. Ainda ganhei uma palheta de brinde (Rá!). A pele natural dele, sem mexer, já permitia um som gostoso e bem alto. Parecia que não precisava de mais nada.Mas em alguns ambientes, talvez por mudança climática ou a falta de uma regulagem mais exigente, achei que o som estava se perdendo, principalmente se comparando com outros banjos numa mesma roda. Cisma minha, nada que eu fosse tirar da cabeça à toa.

 

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Meu Del Vecchio e sua pele natural curtida em dendê. O que a experiência e umas besteiras feitas antes não fazem pelo ser humano, huh?

Recentemente, comecei a dar uma calibrada no couro, mas acho que por ele já ter vindo com o banjo (tenho este há pouco mais de 2 anos), pode ser que já estivesse velho e sem pressão, até porque, sabe lá zambi por quanto tempo essa pele já estava ali. Resultado da equação: Estraguei mais uma pele (sorry), pois ela ia cedendo mesmo que a regulagem já tivesse muito mais alta que o aro, até que rasgou. Comprei outra idêntica a pele ‘percussion’ que comprei para o banjo anterior na mesma loja em Madureira. Mas, dessa vez, eu tinha achado duas dicas muito legais e que, até agora, parece ter resolvido dois problemas numa palhetada só. A primeira foi a qualidade e tratamento da pele. Aprendi a passar azeite de dendê na pele, dos dois lados (mas só passar com um algodão e não ensopar o troço, lembre-se, é pra curtir o couro, não fritar acarajé). Deixei quase 24h curtindo ‘a frio’, ao ar livre na varanda, mas não descoberto pra não correr o risco de ensopar com sereno. Razoavelmente seco (porque ainda fica meio oleoso), coloquei no aro e fui apertando os parafusos, ora em X, ora intercalando parafuso sim, ou tro não e invertendo a ordem. Tudo pra não regular desigual e acabar empenando a afinação.

 

Pois então, consegui, ficou como deve ser, no limite do aro, cavalete ajeitado, porque tava 2015-05-21 00.52.10com marcas viciadas de cordas frisando, então lixei, som bem alto e, pra reforçar o aspecto seco do som, aprendi num vídeo a colocar fita naquele espaço das cordas depois do cavalete até as rodelinhas que as prendem. Isso resolve mais dois problemas numa só palhetada: O som ‘harmônico’ que fica ressoando desnecessariamente (como se estivesse amplificado ao lado da caixa de som) e deixando o som mais abafado, mais direto e conciso. Enfim, não sei o que vou inventar depois, mas dou uma dica, além de pessoas que trabalham com peles trabalhadas de maneira artesanal, há algumas dicas dessas pessoas, luthier a dar com pau por aí (só no facebook eu conheço meia dúzia entre famosos e anônimos) e, porque não, vendedores de lojas de instrumentos Às vezes possuem contatos legais. Pro caso das peles, especialmente, temos amigos percussionistas que dão dicas interessantes. Essa do dendê eu já tinha ouvido em papo de atabaque, mas achei na internet um método que usei e gostei. O negócio é não se acomodar. Não ficou do jeito que queria? Procura, pergunta, pesquisa no google e essas coisas.

 

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Vitrola de Ficha: Roberto Ribeiro – Tempo Ê

 

A sugestão da vitrolinha de hoje é Tempo Ê, autoria da sempre eficaz dobradinha Nelson Rufino e Zé Luiz do Império. Zé Luiz chegou a gravar, mas vou destacar aqui a versão gravada por Roberto Ribeiro no clássico Arrasta Povo (1976), que de tão bom, você toca o disco todo e ainda parece uma coletânea de tanto clássico junto. Recomendo muito, mas vamos à canção do texto.

É uma bela lição sobre o respeito ao tempo que começa exemplificando ‘um amigo’ (que a gente sempre acha que é o próprio autor com vergonha de admitir uma mancada – Rá!) que tentou alguma coisa por afobação, até que entendeu que tudo tem seu momento. Na segunda estrofe, vem um exemplo prático de que, entre “mil exemplos”, é citado o processo de ‘madurar’ de uma fruta, não ficando com o mesmo sabor da que passa por isso de forma in natura. Bem, chega de papo, fique com a música aê.

 

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3 sambas mais representativamente negros que Liberdade, Liberdade

 

Quero falar, já de início, que não acho o samba Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós… ruim. Só não é representativo. Foi uma fantasia de carnaval, e como tal eu respeito, além de admirar a bela melodia, mas enquanto peça histórica, não serve de nada. Eu posso usar os outros dois sambas desta lista como exemplos numa aula de história ou sociologia, como mote pra um debate, mas o referido campeão da Imperatriz Leopoldinense 1989 não. Aliás, só pra mostrar como ao longo de décadas a população vem sendo alienada com a ilusão de que o negro apenas fez “vir” pro Brasil aceitando a escravidão e aceitando, depois, a libertação por uma família real que nunca fez nada pela nossa população (o que automaticamente, já cofigura fazer contra, mas que se comprove que não fizeram uso da mão de obra escrava – o que duvido com fervor). Enfim, pra falar em luta por direitos, respeito e igualdade, não se aceita favor, a gente vai lá e busca. Como fez Zumbi, Dandara e tantos outros. A ordem não importa muito, só um critério que usei e digo lá na frente.

13 de maio não nos representa, mas há que se fazer uma exceção por ser o dia tradicionalmente consagrado a se homenagear nossos pretos velhos.

 

Kizomba, a Festa da Raça – Vila Isabel 1988 (Luíz Carlos da Vila / Rodolpho de Souza / Jonas Rodrigues)

Este, obviamente, sempre vai aparecer quando o assunto for representatividade, porque ao contrário de Liberdade, Liberdade, ele enaltece a cultura negra e a história onde Zumbi aparece como representante da luta contra a opressão do sistema escravagista e não Isabel como a heroína que levantou do sofá um dia aí e cismou de libertar os escravos que ficavam ali, sentados esperando favores. Kizomba é quilombo, não é espaço de fugitivos, é comunhão e irmandade por uma vida sem coleiras e grilhões físicos e mentais.

Trecho que destaco (mas é pra ouvir tudo): “Valeu Zumbi / O grito forte dos Palmares / Que correu terras, céus e mares / Influenciando a Abolição

 

Heróis da Liberdade – Império Serrano 1969 (Silas de Oliveira / Mano Décio da Viola / Manoel Ferreira)

Esta pérola aqui fala da luta pela liberdade lembrando um fato muito importante que os livros de história suprimiram por décadas: A participação das outras classes sociais no combate abolicionista. Intelectuais, políticos, escravos, populares, a abolição já ocorria há muito tempo em gestos, atitudes, inclusive na clandestinidade até por doutores que acobertavam fugas e populares que alimentavam quilombos. Senhores escravistas que temiam as retaliações de seus escravos rebeldes e de fugitivos com saques, agressões e até assassinatos de opressores e suas famílias. Os heróis da liberdade não foram os líderes do sistema, foram aqueles que o contestavam por mais humanidade. Detalhe, mesmo na cara que o samba é uma afronta às aulinhas de moral e cívica impostas pela própria ditadura (o A I-5 acabara de ser cuspido na nação), a única coisa que foi modificada pela censura foi ‘evolução’ no lugar de ‘evolução’. Samba atemporal.

Trecho que destaco (mas é pra ouvir tudo): “Ao longe soldados e tambores / Alunos e professores / Acompanhados de clarim / Cantavam assim / Já raiou a liberdade / A liberdade já raiou / Essa brisa que a juventude afaga / Essa chama que o ódio não apaga pelo universo…

 

 

Cem anos de abolição: Realidade ou ilusão? – Mangueira 1988 (Hélio Turco / Jurandir / Alvinho)

Normalmente, eu colocaria o samba do Império na frente por ser perfeito, mas esse da Mangueira tem um quê de desabafo, diferente do Império que se mostra mais um documentário ‘abra os olhos’ e não há juízo de valor aqui, apenas um critério emocional sobre o tom do samba, da letra em forma de contestação, desabafo que é a tônica do que fazemos até hoje nesta data. O samba contesta porque é sua função levantar a questão, mas nós que debatemos sobre isso o ano todo, sabemos que a realidade é uma enganação histórica.

Trecho que destaco (mas é pra ouvir tudo): “Pergunte ao Criador, pergunte ao criador /  quem pintou esta aquarela / Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da favela” 

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Nei Lopes e a industrialização da cultura negra

nei utopia

Em fevereiro de 2013, Nei Lopes (ele de novo, o homem não sossega, graças a Olorum!) concedeu entrevista a Ricardo Rabelo, para o site do Bafafá On Line onde, dentre outras coisas, falou de sua infância, trajetória profissional até chegar a ser o músico e escritor que conhecemos.

Aí, chega um momento em que ele menciona o eterno preconceito que o Samba sofre (assim como todos os elementos da cultura afro quando é exercida pelo seu povo ‘nativo’, o negro, não por coincidência). Ele diz assim:

“Samba era coisa de “crioulo do morro” – o que não era o nosso caso, lá em casa. A rua tinha uma subidinha, mas não chegava a tanto. Então, imagina o quê que eu tive que fazer pra assumir esse gosto. Mas consegui.”

Nessa hora não posso estar mais feliz em ser um dos administradores da página facebookeana Nego do Morro, pois o objetivo lá é justamente esse, o quilombismo, não com o sentido de fuga de flagelado da escravidão, mas como espaço livre para a manifestação cultural e política do negro, uma irmandade, um refúgio no sentido de quartel-general, ou filial, o que é mais cabido aqui.

Nei também traça um perfil do que o mercado fonográfico e indústria cultural entendem por público de Samba:

“(…) eles (gravadoras, mídia e a turma da “cultura”) acham que Samba é coisa de preto, velho e pobre (…) Eles não sabem o que estão perdendo!”

E é verdade, até parece que é só velho que dá camisa ao Samba, isso acontece porque o Samba é uma cultura e não só um gênero musical pra se vender na prateleira da lojinha ou da megastore (só um adendo: não cabe ficar especificando ‘de raiz’ ou ‘de verdade’, porque Samba é Samba e ponto. O resto nem merece esse nome). Samba é passado para os mais novos, só que você não vê no mercado a menos que seja filho de artista da mídia. Sem falar em apropriação – ainda – note os locais de samba como vivem cheios, inclusive de pagodeirinhos-modinha que querem tirar selfie e pagar de deXXXcolado (imagine meu sotaque carioca mais carregado agora).

Fique agora com uma ilustração do público sambista para o mercado ‘cuscuz de geladeira’:

E como a gente vê essa ‘coisa de velho':

E uma piadinha muuuuito infame:

Como se chamaria a escola de Laíla se Nei fosse o dono?

R: Beija-Flor de Nei Lopes.

Rá!

Não me odeiem.

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