Roberto Ribeiro – Arrasta Povo (1976)

 

Demerval, aquele que você conhece como Roberto Ribeiro, é um dos artistas populares mais valiosos de nossa cultura. E digo é, mesmo sabendo que já passa de 20 anos o tempo de saudade daquele talento nato. E, na minha inútil, porém embasada, opinião, o disco que descrevo a seguir tem todos TODOS os motivos para explicar não só o talento, como o sucesso do artista. Antes, só digo que este não é o único, é apenas o que tenho mais carinho por N motivos, como disse, mas ainda falarei em outras oportunidades de outros, sobretudo da década de 1970, quando o guri tava enjoado de tão produtivo. Comparo à década seguinte com Fundo de Quintal e metade dela para frente com Zeca Pagodinho. Mas calma, que se não a gente destoa e perde a toada. Rá! O papo neste momento é Roberto Ribeiro e seu Arrasta Povo.

Primeiramente, Ribeiro era compositor, em bem menor escala do que cantor/intérprete, óbvio, mas neste disco, ele só participa de UMA canção na parte da escrita, mas você vai ver que isso não traz o menor prejuízo, pois outro motivo de glorificar a arte de Robertão era sua ótima escolha de time. Falei em time só porque queria mencionar que por pouco ele não foi jogador profissional. Mas a questão é que, como é típico de muitos grandes, ele se cercou de gente muitíssimo boa pra compor seu repertório. Vamos dar só uma passada naquelas que tem algum diferencial?

 

Tempo Ê abre o disco como quem vai se chegando num ambiente num misto de preguiça e uma falsa cautela, do tipo que quando se soltar, vai fazer a festa acontecer. Palmas pra Zé Luis do – Glorioso – Império e Nelson Rufino, dupla sempre afinada na caneta nervosa. Então, a segunda música não deixa fôlego a tomar (UIA!), pois é simplesmente Acreditar, da outra dupla pólvora pura na escrita, Dona Ivone e Delcio Carvalho. Não precisa falar muito dessa, né? Aí, vem O Quitandeiro de outra dupla clássica: Monarco e o lendário Paulo da Portela. A quarta obra é Samba do Irajá, de Nei Lopes, no estilão do autor quando gosta de declamar versos sobre algo. E que refrão gostoso de cantar para o subúrbio bem representado. Tá bom pra você só esse time? Dá chilique não que ainda tem mais peso pesado pra eu citar neste singelo disco, neste pequeno objeto do entretenimento popular. Calma aê que eu volto no próximo parágrafo.

Daniel de Santana e Comprido são as fontes de uma das minhas mais preferidas da discografia do cantor: Podes Rir. Essa, particularmente, eu junto com outros petardos de outros discos pra compor uma série de canções em tons e temáticas parecidas (por exemplo: Propagas, Triste Desventura e Favela). Música triste, mas em tom de e desabafo desaforado. Então, vem, na sequência, a tal única composição a compor (hein?!) o álbum por parte de Roberto como compositor (chega de usar derivados dessa palavra por enquanto).  Em tempo, Império Bamba é parceria de Roberto com Joel Menezes e é uma belíssima homenagem à escola de nossos corações (Roberto Ribeiro, meu e de um monte de gente aí, rá! ;p ). Falando em Império, lá vem o próprio Império Serrano e na canetada do maior de todos: Silas de Oliveira, em parceria com Joacyr Santana, com Glórias e Graças da Bahia, enredo da própria escola, como imaginam. João de Aquino e Paulo Frederico trazem Lua Aberta, outra daquelas que eu digo sobre Podes Rir. Clima resignado e um repique-de-anel (instrumento comum nas gravações de Ribeiro) inspirado e cadenciado.

Rose, de Nelson Rufino e Ederaldo Gentil, é uma música diferente das que eu já tinha ouvido, pelo menos quando a ouvi pela primeira vez, pois ela é uma reflexão/divagação sobre a tal Rose e que vira uma declamação por alguém, notavelmente, querida. O solo que inicia e encerra a canção é lindo. E que refrãozinho cativante! Na reta final do disco, vem a obra de dois malandros da composição irreverente: Geraldo Babão e Dicró. Eles são criadores do sagaz Samba do Sofá, que papai Sagatiba até hoje cita quando nos deparamos com situações em que alguém toma uma atitude idiota pra resolver um problema mais sério:

“Ontem, eu a encontrei beijando outro em meu sofá

Veja que raivas eu senti

Hoje bem cedo, peguei o sofá e vendi

 

Tipo, se vem um furacão, você se preocupa em pegar o tapete pra não molhar? Rá! Enfim, impagável no mesmo nível que Só pra Chatear, também gravada pelo intérprete imperiano. Meu Pranto Continua é densa, melódica, mas com uma cadência até pra cima, se reparar. Viola de 7 cordas que o diga. A cozinha eu nem falo nada, que é redondo demais. Cama perfeita pra Roberto deitar seu vozeirão e a letra? Melodia com poesia na filosofia de Jorge Lucas e Walter de Oliveira. Então, pra dar um gran-finale pra um disco de 12 canções, mas que parecem 200 de tanta riqueza que possui, vem Wilson Moreira na autoria de Moda-ruê. Roberto canta África, nossa ancestralidade, nossa contemporaneidade que seguiu com bases nas raízes do samba, lá desde quando brotaram as origens de nossa cultura aqui. É pé no chão no chão duro de terra e cheiro de mato, parceiro. Nada mais a falar, ouve aí que música a gente pode explicar um lance ou outro, mas só ouvindo pra degustar em todos os nossos sentidos.

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Glória Maria: A exceção que distorcem pra parecer regra

 

Uma minoria da população do Brasil é rica, dessa minoria, pouquíssimos são negros. Dizem que o dinheiro faz do negro transparente, numa alusão à hipocrisia de se aceitar uma pessoa por interesse em sua grana. Não é bem isso, Maju, Taís Araújo, Cris Vianna e muitos outros que o digam em termos de dinheiro, fama e ainda assim, racismo…

Agora, essa foto da Glória Maria com esse questionamento mesquinho e maldoso do tipo ‘negros também fazem isso’ é de lascar e eu já digo porquê. Pra parecer que as situações se equivalem, usam uma negra, uma global negra, a jornalista gabaritada Glória Maria. Ela não é só uma patroa negra, é uma pessoa de mídia, famosa e rica.

Queria ver quantas patroas negras mais eles acham pra poder se comparar com as tantas que rolam por aí, tanto de famosas quanto de anônimas.

E tem mais, a patroa negra ainda vai ser ofendida por ser negra ao passo que empregadas brancas não. Pelo contrário, já vi gente dizer que negro tem cara de empregado e branco tem cara de rico.

Vamos lá, já que é pra se meter em assunto que não conhece, pelo menos mostrem alguma boa vontade: Fotos e mais fotos de patroas negras com empregadas brancas. porquê mostrar só uma UMA e sendo a jornalista mais poderosa da globo não é informação estatística, é desespero pra desviar de um assunto tornando-o imbecil.

Tô esperando.

 

Comunicação UNEGRO

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Negro racista? O que seria racismo reverso?

Singela postagem minha no Facebook, recortada pra cá pra efeitos futuros, já que minha linha do tempo é mio movimentada e eu posso acabar perdendo ela de vista em algum tempo. Um ensaio bem do meu estilo de divagações metafóricas sobre o que seria um sistema racista por parte do negro sobre o branco, já que muita gente acha que um caso isolado aqui pode ser usado como exemplo de equiparação a uma situação que foi criada pelo europeu há 400 e ainda perdura só num formado ligeiramente diferente. Vamos lá? Vamos.

“Por Fernando Sagatiba:

negro brasil

* Vi um cara branco ser dispensado de uma entrevista de emprego pelo gerente negro que não gostou de seu cabelo liso.
* Vi uma moça branca ser tratada como iguaria sexual pelo turista negro que ouviu falar das brancas tipo exportação do pop/rock.
* Vi um garotinho branco ser expulso de uma loja porque o vendedor negro achou que ele era um pivete/pedinte.
* Vi um programa na televisão onde dos 90 atores do elenco, apenas 5 eram brancos em papéis secundários de empregados, bandidos e alívio cômico.
* Vi uma jovem branca usando itens de vestimenta típicos da Europa e disseram que ela era exótica.
* Vi a polícia chamar ‘bandido/suspeito’ todo jovem branco que agride ou mata sem maiores investigações.
* Vi um menor infrator branco acorrentado a um poste e linchado por playboys negros.
* Vi um grupo de brancos defendendo sua identidade cultural e a camada dominante da sociedade, negra, se sentiu ameaçada, respondendo ‘volta pra Europa!’.
* Vi dar uma polêmica da porra quando a única época em que uma mulher branca pode se destacar é dançando seminua no carnaval e disseram que ela era feia porque não tinha traços ‘finos’.
* Vi as mulheres brancas serem estupradas, gerando filhos mestiços e ainda as culpei por desencaminhar os homens negros de família.
* Vi meu amigo negro dizer que adora uma branca, mas na hora de assumir um relacionamento maior que puro sexo, apresentou uma negra à mesa como mãe de seus filhos e rainha de seu lar.
* Minha mulher negra me gritou ‘eu não sou tuas brancas’ quando discutíamos, pois, é histórico que muitos homens negros arrumavam amantes brancas na rua até pra iniciar seus filhos negros.
* Falei pro meu amigo branco que minha tataravó é branca pra dizer que minhas piadas de branco não são racistas.
* Vi as religiões re origem europeia serem discriminadas e tratadas como demoníacas porque a maioria da classe dominante negra não aceita o que vem daquele continente.
* Vi a população branca ser liberta da escravidão, mas sem plano social algum de inclusão, tendo que povoar até lotar cortiços e favelas.
* Escrevi um programa de TV onde as mulheres brancas são miseráveis e só pensam em arrumar um marido negro pra sustentar seus 15 filhos no lugar do pai branco que as abandonou.
* Vi a população branca ser empurrada para a miséria com expectativa de vida baixa, sem condições mínimas de vida e, quando resolveram dar seu jeito por vias não legais, disse que escolheram ser bandidos e que não são vítimas de um sistema antigo, porque só vejo o hoje como história real.
* Vi isso tudo e, como não sofri nada disso na pele, falei que eram brancos vitimistas e que somos todos humanos, sem qualquer diferenciação étnica/racial.
* Vi isso tudo e me calei, afinal, o racismo é um problema do branco e não meu, que não ouço essas ofensas, nem descendo da camada violentada da sociedade armada pelos portuga, espanhóis, franceses, holandeses, etc.
* Falei pro meu amigo branco ‘para de falar em racismo que isso tudo desaparece’, como quem esconde uma fratura exposta atrás de uma gaze.
* Depois, falei que cotas para brancos é o verdadeiro racismo, pois todos tivemos as mesmas condições e o branco, depois de tudo que veio passando na sociedade, ainda quer esse favorecimento, passe pra vida mansa em cima dos meus esforços e méritos próprios.

“Ain, Saga, isso é mentira, porque nada disso aconteceu”.

Pois é, gafanhoto, racismo não é um mero preconceito onde alguém te discrimina, é um sistema que existe há séculos e se beneficiou da escravidão tanto quanto hoje se beneficia da exclusão do negro. Por isso que nossa identidade valorizada por nós mesmos os assusta. Olhe pro lado, um deles pode estar aí. Essa é a verdadeira razão pra se referirem aos negros como ‘escravos’, mas não falam dos brancos como ‘escravizadores’. Crime sem culpado? Racismo reverso? Duendes? Não se iluda, duendes são os únicos da lista que existem.”

Fonte: Meu perfil no Facebook.

 

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Balanço geral do carnaval 2016

Agora que o carnaval parece ter realmente acabado (sei lá, daqui a pouco pipoca outro bloco, outro pagode e começa tudo de novo)… vamos Às considerações (algumas):
1) Justiças ou injustiças rolando, escola de samba é aquilo, não conta a avenida, conta o jurado e que interesse ele tem. Aliás, é sempre estranho ver pessoas torcendo sendo que as notas já estão lançadas. É só esperar pra ver, não adianta rezar que o papel não vai se escrever sozinho conforme a vontade da pessoa. Rá!
2) Quem ganha tira onda, quem perde ou reconhece ou se ressente. Não muda. O que também não muda é resultado NUNCA retroagir pra retificar uma injustiça. Tipo gol de impedimento que não é anulado depois que o jogo acaba.
3) Enredo de carnaval tem que remeter à cultura e não ao cenário pop. Ou se faz uma crônica do cotidiano, como nos bons tempos da Caprichosos, ou se homenageia os nossos que embasaram isso tudo, tipo o Império Serrano com Silas de Oliveira ou nossos elementos culturais, tipo Salgueiro com a malandragem.
4) Na carona do item anterior, nunca vou reconhecer um enredo que enalteça artistas populares que nunca falaram uma vírgula pra enaltecer o samba e só dizem adorar pra fazer média e fazer o papel do barra limpa no ano da homenagem. Quando passa, tudo vira cinza, tudo volta ao normal e continuam a ignorar a existência do Samba. Vampiros.

Não pense que só os filhos de Francisco entram na lista de artistas marketeiros do carnaval. Muito cantor metido a rei e gente de outras áreas também pegam carona por conveniência. Mas eu me incomodo é com quem convida.

5) Não vou ser repetitivo de falar em como o carnaval perdeu a essência na maior parte da mídia, mas tá começando a irritar a falta de sambas com cara de samba e menos cara de jingle. Ou melhor, perdão aos jingles, eles ainda têm a vantagem de ser cativantes, coisa que muito samba enredo não vai ter nem de longe daqui um mês. Na verdade, acho que muito integrante – dos que decoraram seus sambas – já deve ter esquecido melodias ao passar pela Praça da Apoteose. Samba a toque de caixa.
Por fim, saudações à transmissão do desfile das campeãs pela TV Brasil, nada mais justo e nada mais coerente, afinal, uma emissora de concessão pública brasileira exibir uma das mais conhecidas manifestações culturais do Brasil é pra glorificar de pé. Há anos que não víamos um início de desfile na TV, que não nos sentíamos um pouquinho na Sapucaí. Ninguém aguenta mais essa palhaçada de perder as primeiras escolas por causa de novelas que se repetem ad eternum, onde um capítulo não faz diferença alguma.
A coisa de pegar um desfile no início, a escola formando, a possibilidade de ver um amigo, um parente, isso tudo morre na Globo, e já pegamos as escolas com uma ponta já na Apoteose e talvez, dê pra pegar a outra na concentração ainda, pra vermos perguntas cretinas e piadinhas tão ruins que nem eu sei contar. Isso que dá, transmissão por quem não entende e nem se interessa. Acomodou no monopólio, alô globo, vamos repensar isso aí.
Mas, voltando:
6) Quando escolas se preocupam mais em cabides de emprego pra (sub)celebridades, tem mais é que comer o pão que o tinhoso amassou.
7) Escola que só põe destaques caucasianxs entre alas já deveria cair na hora do desfile, pra aprender o que é uma escola de samba e respeitar quem foi que amargou perseguição, censura e porrada pra estarem hoje deitados em berço esplêndido. Negro é raiz e vocês fingindo que não notamos como viramos mera mão-de-obra e ferramenta pra seu rico dinheirinho cair no bolso.
Tipo isso.
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A mídia é excludente com o negro

Reparou que o título não tem interrogação? Então, não é uma pergunta. A tal da polêmica do Oscar só estourou agora, mas é uma queixa do povo preto há tempos. Tudo bem, eu sei que a cultura racista de lá é diferente daqui, mas só por dados que não influenciam o fato de ser a mesma m… na essência fétida. Quer ver um exemplo? Independente das pessoas que vêm dar seu parecer raso, idiota e debochado do tipo ‘negro reclamar de racismo é racismo reverso’, temos várias outras evidencias pra informar, minimamente, aquele coleguinha que é racista por inércia do senso comum. Já aqueles que se contentam com o racismo porque conseguem se esquivar, se auto-declarando não negros ou o próprio branco que está contente em fazer parte da minoria que domina/se parece com quem domina.

 

Ainda vale ressaltar que os números são desproporcionais, por exemplo, a política escravista nos EUAses gerou uma guerra (Secessão, a famosa Guerra Civil de lá) que dividiu o país, teve o conflito urbano por direitos civis, mas lá, existem mídias inteiras pra negros. Eu, a Patroa e as Crianças, Um Maluco no Pedaço, Elas e Eu, Todo Mundo Odeia o Chris e muitos outros produtos do entretenimento não são só protagonizados por negros, são produzidos, nos bastidores deles, nos filmes… A apresentadora mais poderosa de lá é negra, nos filmes, um negro é presidente, médico, deus cristão e muitas outras funções que aqui, no Brasil, não temos a menos que seja um mote da produção. Por exemplo, no Auto da Compadecida, Jesus aparece negro porque o texto pedia esse contraponto entre o senso comum eurocêntrico e a lógica étnica. Isso porque aqui, somos mais de 50% da população, ou seja, mais de 50% da audiência e nos EUAses, negros são pouco mais  de 10%. Aqui, quando temos 20 figurantes brancos e um negro, as produtoras acham que estão fazendo um lindo trabalho de inclusão ‘somos todos humanos’, quando é só sair na rua e ver que essa proporção só existe no condomínio fechado onde eles vivem e não saem nem pela internet pra pesquisar e aprender um pouco da sociedade que estão achando que retratam na tela. Hipócritas vendados e vendidos.

 

Vamos lá, Solange Couto, sabe, a eterna Dona Jura da novela O Clone? Pois é, ela que já foi “mulata” (argh!) do Sargentelli e seguiu carreira de atriz, tem mais de 30 anos de carreira e só ano passado, durante a campanha ‘senti na pele’ no mês da consciência negra, a atriz percebeu que de seus 37 personagens, apenas 7 não eram estereótipos do negro pobre e sem núcleo familiar. “É triste”, contou, fazendo a ressalva de que sempre interpretou com o coração, e não tinha se dado conta desses números.

Outro que veio a público e deu seu recado foi Antônio Pitanga, no Vozes do Mundo, onde, em entrevista, o ator fala que acaba virando um ‘ator negro’ e não um ator, pois sempre é relegado aos guetos da novela e perde espaço para o próprio negro mais jovem, enquanto fagundes, tonys e tarcisios sempre aparecem como os felizes e bem sucedidos pais, avós, empresários, etc. Até família eles têm, enquanto o negro é pano de fundo. O empregado sem família, sem procedência que está lá pra ser o malandro mulherengo, a empregada que só abre portas e serve café enquanto ouve atrás das portas. Até aparecem atores negros pra defender o senhor da casa grande, mas como criticar um irmão que depende dessa miséria na carreira que escolheu. Não julgo quem precisa daquele aqué lá, infelizmente, os trabalhos artísticos dependem de uma mídia centralizada, ou a independente que precisa captar investimentos, mas leva mais tempo e nem todos têm o fôlego e a grana.

 

Mas vamos lá pros EUAses e ver o que atores negros já falaram sobre racismo na mídia de lá, que não é de hoje essa conversa, perceba.

Danny Glover

Ainda em 2008, o eterno Roger Murtaugh de Máquina Mortífera, revelou a dificuldade em angariar fundos para por em andamento seu projeto de filme sobre Toussaint L’Overture, herói haitiano na luta contra a escravidão em seu país no século 18. Produtores negaram Glover com o argumento de que não funcionaria no mercado, por não ter um herói branco.

 

Samuel L. Jackson

O ator já deu entrevista falando sobre como o racismo é mais abordado falando-se no passado e não no presente, de forma direta, de modo a realmente trazer para a luz esse debate. Um detalhe, Jackson é um dos atores negros boicotados pela academia este ano. Lembrando que recentemente, Jacson foi confundido com Laurence Fishburne por um apresentador de TV e deu-lhe um sabão para todos aprenderem que negros podem ter traços em comum, assim como todas as etnias entre seus integrantes, mas não somos todos iguais.

 

Henry Lennix

O ator afirma que o filme O Mordomo da Casa Branca trazia tanta imprecisão histórica em seu roteiro que desistiu de fazer parte do trabalho. Ele alegou que aquilo era uma retratação errada da história e da participação do homem negro na história da Casa Branca. Disse que não leu mais que cinco páginas de roteiro e desistiu.

 

Steve Harvey

O ator e apresentador disse que a mídia por lá é mais racista que o país em si, pois, a eleição de Barack Obama para presidente já deveria ter provado que a população mudou, mas coisas como uma atriz ser a primeira mulher negra a protagonizar uma série dramática, caso de Kerry Washington, em 40 anos, chega a ser até loucura.

 

Lonette Mckee

a atriz e roteirista já trabalhou com Spike Lee e já declarou que as dificuldades do diretor em captar investimentos vem de seu ativismo pela população negra e seu discurso sem papas na língua, oque incomoda aos empresários brancos donos da mídia. A saber, Lee, já anunciou que vai boicotar a cerimônia pela ausência de negros entre os indicados, assim como Will e Jada Pinkett-Smith. Will Smith, aliás, outro excluído das indicações deste ano e de todos os outros. Acredita que enquanto tem gente chorando pro Leonardo Dicaprio ganhar uma, Smith nunca nem foi nomeado? É disso que a gente tá falando.

 

Regina King

A atriz se disse impressionada com o Emmy. Até 2008, de mais de 1000 nomeações à premiação, só 53 não eram brancos. Regina fez duras críticas a esse sistema de exclusão da mídia.

 

Terence Howard

O ator comentou sobre a dificuldade de George Lucas em arranjar quem produzisse seu filme Red Tails, protagonizado por negros e com um vilão branco. Lucas, criador de Star Wars e Indiana Jones e branco, encontrou dificuldades com os estúdio e bancou 30 milhões de dólares do bolso pra botar o filme pra frente. Agora ele aprende nosso drama, porque em suas produções nunca aparecem mais que um ou dois negros.

 

 

Janet Hubert

A eterna Tia Vivian já soltou o verbo também sobre a exclusão do negro em Holywood. Se disse enojada com o racismo que exclui o negro das produções e das vistas da audiência. Disse que não se sente representada ao olhar para as telas.

 

Shonda Rhimes

A toda poderosa escritora, autora de How to get away with murder, Scandal e Grey’s anatomy, já questionou a ausência de negros nas telas e seu parecer foi de que o problema da pouquíssima quantidade de negros não é ligado ao talento, mas ao sistema que limita o acesso. Como ela é uma mente por trás das câmeras, com a caneta na mão, ela pode dizer de carteirinha e diz mesmo: “Alguém precisa resolver isso (…) Vale a pena, veja minha audiência”.

Fonte: Monet

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O futuro do carnaval de sambódromo carioca

Candeia escreveu um livro chamado Escola de Samba, Árvore que Esqueceu a Raiz. Isso lá na década de 1970, há quase 40 anos. Naquela época ele já tinha mandado uma carta-manifesto junto de outros integrantes da Portela denunciando a comercialização das escolas de samba e a descaracterização cultural que as mesmas já vinham sofrendo. Então, com base nessa ideia – que é a própria ideia do blog, não é segredo pra ninguém minha admiração por Candeia e seu ativismo cultural negro – vou fazer um exercício de divagação sobre o futuro do carnaval no que se fala em questão de sambódromo, já que falando de rua, a coisa é mais livre e mais independente. Enfim, vamos ao papo.

Primeiro, temos que falar sobre a raiz do samba em foco: Escolas de samba eram para servir de resistência cultural diante da sociedade que exigia que o negro manifestasse sua cultura de maneira controlada pelo governo. Assim, para não ser mais perseguido ou agredido, o negro precisava de uma licença pra colocar seu bloco na rua e esse tipo de manifestação foi se desenvolvendo até que Ismael Silva e a turma do Estácio, criaram um rancho, Deixa Falar, e este serviu como escola de samba. Não só por ser próximo a uma escola ‘de verdade’, mas pra ser o reduto onde se passaria o conhecimento dos mais velhos pros mais novos, dos mais conhecedores para os mais novatos. Faço, particularmente, até a piada de que a Deixa Falar foi a primeira escola de samba, em termos de conceito cultural, mas na verdade era um rancho. E nesse ponto, escolas de samba já não o são. Até algumas possuem esse viés educativo, mas as maiores mesmo só se preocupam com patrocínios e arrecadações. Não vou julgar isso, assim como o tubarão precisa nadar, o ser humano no capitalismo precisa pagar as contas. O problema é que isso está sendo feito de maneira desordenada, ironicamente.

Veja bem, sempre cito aquele episódio de Os Simpsons pra ilustrar: Um dia, a família amarela montou uma quadra de tênis no quintal e virou piada na cidade por terem tudo, mas não saberem jogar. Em um determinado momento, Homer e Lisa contra Marge e Bart, ficam tão obcecados com a competição que substituem parceiros por tenistas profissionais, até que eles mesmos não participam mais, deixando tudo muito competitivo, mas nada divertido ou didático. Só no final, percebem que deixaram pra trás a graça do que os fez montar a quadra. Escolas de samba são assim. O negro era o artista, tinha até a ideia de que ele tinha 4 dias pra ser rei na cidade, até os ricos paravam pra ver. Aí, a intervenção do governo obrigou o sambista a se registrar, condicionou suas letras ao ufanismo e puxação de saco de um país utópico que tinha escravizado nossa gente até algumas décadas antes e o samba ‘vagabundo’ mesmo, tinha virado clandestino

 

O negro deixou de ser o artista nas décadas seguintes, pois em busca de cada vez mais espetáculo pra agradar turista, foram chamando profissionais de outras áreas. Por exemplo, a expressão carnavalesco até que faz sentido, mas se você parar pra pensar, não tem lógica. Carnavalesco é algo relacionado ao carnaval, ou seja, qualquer coisa feita para a festa é carnavalesca. É o mesmo que chamar um técnico de futebol de ‘desportivo’. O que esses profissionais fazem é design. Os designers agem como diretores de cinema, comandam tudo, trazem o tema, a sinopse e vão comandando todo mundo para realizar seu projeto do jeitinho que desenhou. Assim, o negro não toma mais decisões, pois os designers, 99% brancos, vêm de outra classe social pra realizar seu sonho de espetáculo, mas o negro, o artista, a costureira, o passista que criou isso tudo, vira só uma mão-de-obra, só uma ferramenta no meio da engrenagem. Você consegue imaginar? Não? Pense assim: E se colocassem um japonês pra governar a Espanha? Não faria sentido e sempre pareceria que ele iria puxar a sardinha pro seu próprio lado a qualquer momento, né? Pois é.

Tem a questão também da qualidade. Não é porque uma coisa é vendida e industrializada como um produto na prateleira que ela tem que ser necessariamente ruim. Mas é. Ficou. As melodias corridas dentro de um andamento quase dance, acabou a cadência e todos parecem o mesmo. De um ano pro outro, você nem lembra mais a música. Não se canta mais o samba de terreiro pra esquentar a escola, só sambas dos anos anteriores, aqueles que você só lembra se freqüentar a escola, porque nem os intérpretes devem lembrar. Se uma sacada dá certo em uma, todas fazem igual. É o jogo de futebol que de tanto medo de partir pra cima dos times, acaba todo mundo naquele joguinho burocrático de empate, sem arriscar por medo do outro sair na frente. Chato.

 

Nisso, também entra a mídia, a globo detém os direitos exclusivos de transmissão, mas só pra tirar a vez de outras emissoras, pra blindar a audiência. Esse era o motivo de a emissora não passar mais o desfile das campeãs, cedendo para outra emissora, geralmente, pra concorrer com a que estivesse no segundo lugar. Não dando certo ultimamente, a emissora nem cede, nem usa a transmissão. Simplesmente passa num canal fechado do mesmo grupo. Até as escolas nos desfiles oficiais já estão limadas, pra não deixar de passar sua grade gessada, a platinada só passa a partir da terceira escola de cada dia, passando as duas primeiras em forma de compacto quando o dia amanhece. Tá pouco respeito ou dá pra perder mais?

Então, amizades, fica assim, banaliza-se a cultura, vende-se a mão-de-obra, usurpa-se o protagonismo do dono da cultura e a cereja do bolo é aquela bizarrice de exibição de cada samba na programação da globo. Poucos segundos de samba, demonstrando o quanto se importam com o produto que transmitem. O futuro do carnaval de sambódromo – e todas as suas frentes – é a anulação da cultura, é se plastificar tanto que ser cabide de emprego de subcelebridades vai ser a única função com alguma real valia pra alguém. É como servir lasanha congelada requentada no microondas pra um italiano e achar que ele não vai perceber a diferença disso pra um prato legítimo feito ao natural.

 

Carnaval era confete e serpentina, hoje, virou espuma química.

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Hoje é dia de Samba, bebê!

Metalinguagem é aquela parada maneira que um autor pode escolher usar em sua própria peça pra falar dela mesma. Por exemplo, quando um filme faz alguma menção de que sabe que é um filme. Eu explico melhor: Naquele clássico episódio de Chaves em que Chapolin vai parar na vila, Chaves, num determinado momento, olha para a câmera e diz: “Gosto dele como se fosse eu mesmo”. Pronto, você já sacou, né? Mas essa introdução toda parece lenga-lenga, mas é só pra falar do Samba (oh, que surpresa!) e sua própria característica de metalinguagem.

Vamos lá, o samba, muito comumente, é citado em muitas canções, quando compositores se valem de suas próprias letras pra falar nada mais do que do veículo cultural que está ali (no caso, as músicas) e é nessa qualidade que eu venho mencioná-lo. Veja bem, há exatos 4 anos (2011, dah!), eu tinha uma missão que envolvia nervosismo, ansiedade, quebra de rotina e… pra falar a verdade, dependendo disso, foi quase um dia normal na minha vida. Rá! Mas não foi. Eu chegava ao topo de uma escalada que começou, a bem da verdade, pelo menos, um ano antes. Explico, é que conforme a faculdade de Comunicação Social avançava, mais se falava no temido TCC (trabalho de conclusão de curso ou a famosa monografia). E nada de sair aquele milagre de só apresentar um trabalho e receber a nota pra passar.

Não veio aquilo que eu achava que seria um milagre de natal, mas voltando um pouco, eu tinha feito uma matéria que servia como um ensaio para o TCC, onde escolhi tratar de jornalismo colaborativo, já que era algo que eu já fazia há alguns anos, colaborando pra sites nerds, colunas próprias onde cabia espaço e até uma coluna fixa sobre comportamento urbano num site de utilidade pública (R.I.P São Gonçalo em Foco – de onde eu descaradamente ‘chupinhei’ o complemento do nome deste blog). O que aconteceu foi que a professora da vez aconselhou que falássemos de um assunto que nos interessasse muito a ponto de não desanimarmos, então, o que poderia ser mais interessante pra um aluno de jornalismo do que falar de jornalismo? Seria uma metalinguagem e tanto, né? Pois errei garbosamente. Eu praticava o jornalismo, mas vi que teria que me aprofundar em questões que me eram muito intuitivas.

Sendo assim, depois de passar raspando na matéria, desencanei do assunto e fui me sitraindo entre facul, trabalho e os pagodes da vida. Até que numa feliz coincidência, quando fui chamado – em âmbito familiar – de ‘pesquisador’ por não só buscar músicas pra aprender a cantar e tocar, como mergulhava nas histórias de artistas, grupos e tals. Nessa hora, decidi que o samba era a tal coisa, aquele quê que me faz bem e que eu falaria por horas – e folhas – sem cansar. Deu um trabalho ter que formatar toda essa paixão em um trabalho metódico, afinal, não daria pra apresentar uma crônica minha pra uma banca, né? Passei seis meses só adquirindo livros, lendo e assistindo nas interneTES da vida até que chegou mesmo o último semestre, quando o trabalho ia ser pra valer e não só a festa que estava. Escolhi uma orientadora de fé, que não à toa, era a professora que eu mais confiava pra me por nos eixos de formatação e, diante de sua relutância por não entender do meu tema, combinei com ela “só me passa as regras, de conteúdo eu entendo”. Fomos trabalhando pelo período todo até a apresentação, onde fiquei surpreso que meu trabalho foi classificado como ‘mais antropológico do que jornalístico’ e isso foi uma crítica, academicamente, mas me caiu como um elogio, como uma das professoras da banca insinuou, deduzindo que pode ter sido minha intenção velada e inconsciente o tempo todo.

Eu só ri, porque era algo surreal demais, ser um dos poucos de minha família a concluir uma faculdade, fazer isso falando do que mais amo, da nossa cultura e ancestralidade e o mais legal: NO DIA DO SAMBA. Como eu publiquei assim que cheguei emocionado em casa, doido pra espalhar a notícia: HOE É DIA DE SAMBA, BEBÊ! Como eu falei, o samba é uma metalinguagem dele mesmo, da vida e da nossa sociedade, especificamente. Como apresentei, ele foi modificando a sociedade e se modificando em resposta a isso, daí, temos o gênero musical rentável, mas também temos uma cultura fora da mídia que ferve praticamente todo dia da semana em todo canto. E a maior de todas as metalinguagens é quando a gente fala da metalinguagem do samba na sociedade no dia nacional do samba.

formatura jornalismo

Chega, parei por aqui, porque já nem sei mais o tamanho do texto, apenas soltei os dedos no velho teclado e deixei a emoção fluir. Enfim, dia 2 de dezembro, pra mim, é muito mais do que o dia do samba, é quando Candeia falou diretamente pra mim: “E cante samba na universidade e verás que teu filho será príncipe de verdade”. O samba é a metalinguagem da minha vida.

E também, óbvio, vou lembrar de Agoniza, mas não morre, que foi epígrafe do meu TCC com sua metalinguagem sobre o próprio samba e a frase irônica, de quem viu tantas vezes o samba ser dado como morto pra mídia, mas sempre sendo “socorrido” antes de fecharem o caixão.

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