Unidos da Tijuca lidera manifesto para salvar Grande Rio do rebaixamento

Em 2017, não sabiam quem ficaria em último lugar no carnaval carioca, mas decidiram que ninguém cairia, porque certamente, seria a Unidos da Tijuca, que, junto com a Paraíso do Tuiuti, causaram acidentes gravíssimos – e até fatais – em plena avenida.

Protegida do rebaixamento ano passado, agora a própria Tijuca vem encabeçando um manifesto pra proteger a Grande Rio, pois, segundo a escola originária do Morro do Borel, jurados tiraram pontos da agremiação de Caxias por uma alegoria que não passou, o que não estaria previsto no regulamento.

Bem, eu sou bem leigo nos critérios dos jurados, mas pela lógica, se uma alegoria inteira não passou, acho que a história prevista na sinopse do julgador já teria alguma diferença, né? Sem contar o buracão que ficou e o atraso de cinco minutos por conta do tempo que a escola tentou colocar a tal alegoria, um carro alegórico gigante, pra passar.

Pois bem, a questão é que nem com acidentes graves se rebaixam escolas, então, pelo que entendi do presidente tijucano, Fernando Horta, de repente, na visão dele, um carro que não atropelou nem matou ninguém não deveria ser motivo de perda de pontos, não é? Se a Mocidade conseguiu ganhar no tapetão alegando que os jurados estavam com uma sinopse desatualizada, é só a Unidos do Projac Grande Rio lançar esse caô de que o papel tava errado e entregar outro manipulado, oras! #SagaIrônico

Eu, enquanto imperiano de fé praticante, reconheço que minha escola não fez um desfile impecável e reconheço diversas falhas apresentadas, embora não deixe de ressaltar que muito do julgamento se dá diretamente visando a bandeira, e como meu Império esteve por tempo demais no grupo de acesso, já era esperado que a caneta vermelha estivesse afiada pra tirar muitos décimos do meu brasão. Mas se a Grande Rio não cair, o Império também não deveria.E já explico.

Ano passado só uma cairia e escolas como a Paraíso do Tuiuti e São Clemente estariam mais do que cotadas pra isso, afinal, têm bandeiras de menor expressão no disputado e milionário carnaval carioca. Mas a Tijuca tem nome, tem dinheiro, tem prestígio, e devido ao acidente, passaria a “disputar” com as menores pra não cair.
Perceba que mesmo merecendo uma colocação bem baixa pela severa perda de décimos relacionados ao carro defeituoso e ao atraso, por um momento, a Grande Rio ainda escaparia do rebaixamento, passando à frente da já citada São Clemente, que passou perfeita, no sentido de não ter incidentes e acidentes no percurso. Parece tendencioso não é? É tipo juiz que marca a falta em cima do jogador estrela e não do anônimo pra ficar bem com a maior torcida.

Até onde vi, as outras escolas não estariam a favor de salvar a Grande Rio se não salvar o Império também. A meu ver, faz sentido dentro dessa bagunça, porque se uma escola pode passar comprovadamente com um carro a menos e o presidente da escola salva ano passado diz que não poderia perder pontos, quem garante que as notas do Império também não foram sem critério?

Enfim, é mais uma divagação. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Lembrem-se, a Mocidade ano passado, desfilou em fevereiro, foi campeã em março e o troféu só chegou em outubro. Então, temos tempo.

 

Fonte:

https://oglobo.globo.com/rio/manifesto-circula-entre-escolas-do-especial-na-tentativa-de-salvar-grande-rio-do-rebaixamento-22405856

 

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Império Serrano e outras observações sobre o carnaval 2018

O Império Serrano cometeu erros grotescos na caminhada desde escolha de um enredo frio para a cultura brasileira, sobretudo no carnaval até o modo como se comportou na avenida no desfile do último domingo. Como assim, a escola de Silas e Mano, Molequinho e Fuleiro, Dona Ivone e Jovelina, Aluísio e Beto, Arlindo e Roberto e tantos outros gigantes do nosso samba… como assim, essa escola singular me passa dois minutos antes do tempo regulamentar na avenida? A Sinfônica não podia ficar fazendo umas bossas até cumprir o cronômetro? Ninguém olhou pro cronômetro, qualquer um dos vários na avenida? Enfim, já até saiu comunicado do conselho deliberativo anunciando que a diretoria de harmonia foi destituída e eu não vou entrar nesse tema, até porque a diretoria foi demitida, provavelmente, por quem a contratou lá atrás, ou seja, uma nova equipe escolhida pelas mesmas pessoas.

 

Sim, estou ciente que entre mancadas e tropeços, meu Império caiu. Não vou dar uma de componente revoltado que xinga a instituição, a diretoria ou a presidente. Que sirva de exemplo pra que se busque novos caminhos e políticas pra levar a escola ao seu lugar entre as melhores do carnaval de sambódromo, assim como já é na cultura popular e como já foi num passado distante. Também não vou falar de ninguém em específico de fora da minha escola, mas há que se fazer algumas observações sobre o carnaval 2018, me baseando na minha escola como exemplo de vítima, culpada, modelo, motivo e simbologia do que a festa do povo se tornou. São vícios irritantes que me deixam bem descontente com o evento. Só mesmo o costume e a memória afetiva me fazem ainda me envolver com a coisa.

 

Carnaval 2017

Você não leu erra e eu não me enganei com o ano do subtítulo. É que meu Império vacilou e levou tombo, mas não esqueçamos que a tão (merecidamente) festejada Paraíso do Tuiuti provocou grave acidente na avenida ano passado, aliás, ela e a Unidos da Tijuca foram responsáveis por uma verdadeira tragédia e a solução da liga foi que ninguém iria cair. Estou dizendo que se elas caíssem ano passado, estaria melhor pro Império? Não mesmo. Mas também não foi justo. Aliás, se falei da Tuiuti e da Tijuca com seus desfiles desastrosos sem punição (ao contrário, foram beneficiadas), o que dizer da Grande Rio, que por um momento, chegou a nem estar na ‘zona de rebaixamento’, tendo passado com um carro a menos, o óbvio buraco entre alas e 5 (disse CINCO) minutos de atraso do tempo regulamentar? Pois é.

 

Apuração

O Império ainda pegou o ranço de ser a ‘escola que acaba de subir’, ou seja, aquela que até se for perfeita, dificilmente levaria meia dúzia de notas 10. E foi o que aconteceu. Jurado dando 10 pra escolas com problemas visíveis e tirando décimos onde a minha foi bem. A verdade triste é que o Império é tratado, em termos de sambódromo, como escola pequena, aquela que, parece, pensam que vive confortável no acesso, portanto, sempre é empurrado pra lá. Não que a escola não tenha cavado o próprio buraco onde tropeçou, mas a apuração nitidamente não é justa. Se a escola é de expressão e rica, as notas são bem mais gentis do que as agremiações menos abastadas. Lembram-se da porta-bandeira que só tirou 10 numa escola grande e no ano seguinte, não tirou um 10zinho sequer, estando numa escola pequena? Pois é. Aliás, fica aquele monte de jurado com cara de que está mais analisando uma peça de museu contemporâneo do que um desfile numa festa popular. As notas nunca fazem sentido na comparação de umas com as outras.

 

Carnaval popular acabou

Meio forte falar isso, mas a festa popular é só na rua mesmo, porque no sambódromo, o que vemos é um monte de burocrata tomando decisões sobre as escolas, designers de belas artes com poder de diretor de cinema comandando shows pirotécnicos, sambas encomendados e enredos patrocinados e o sambista mesmo, o folião, vira apenas a peça no tabuleiro. O peão. Não é mais rei nem na folia. Alguém mais reparou que, talvez, com uma UMA exceção (não tenho certeza), TODOS os jurados são brancos? Em algum momento, como diria Candeia e Isnard Araújo, a escola de samba é uma árvore que esqueceu da raiz. Fez lembrar um protesto de Paulo César Caju, ex-jogador da seleção brasileira, que comenta que a maioria dos jogadores é preta, mas na hora de dar um cargo de comando, quase que só os brancos são contratados pra técnicos e dirigentes.

 

Então, Saga?

Bom, a queda é dura mas o Império é mais forte e minha escola verá dias melhores, só não sei quando ainda, mas tenho fé. Mas uma coisa é certa: Não dá pra nem pensar em voltar pro especial ano passado. E não é porque teremos a companhia ilustre da rica Grande Rio e sua sub-escola interna Unidos do Projac (Rá!), também não é porque o Império não tenha capacidade, mas ficou claro como cristal que ainda não temos estrutura pra subir e subindo, pra se firmar entre os cachorros grandes e ricos da madame Globo. Sobre o Império, ainda tem que ter uma revolução de atitudes e procedimentos pra sonharmos em voltar pro grupo especial fazendo jus ao nome do grupo.

 

Já sobre o carnaval em si… Parabéns à Beija-Flor, Paraíso do Tuiuti, Mangueira e Salgueiro por trazerem para a avenida, em rede nacional, novamente o protesto social. Carnaval não é só entretenimento, é cultura também e botar na tela da TV temas como crítica à corrupção, política de interesses, a luta do negro e exploração trabalhista é pra se emocionar. A apuração, aquela festa do arroz, o 10 já se desenha sozinho pra “quem de direito” e as frações já tatuadas e carimbadas no passaporte das menos ricas pra descer de grupo.

 

Ano que vem tem mais. Aliás, meu palpite é que a gente estique o carnaval até 2020, assim, o prefeito fica esperando a festa acabar pra voltar de seu retiro espiritual anual na Europa. Deixa com a gente, Criva, ‘nóix dá conta’. Rá!

 

Ps: Uma menção honrosa, minha solidariedade à Unidos do Jacarezinho, que não bastasse ter perdido seu presidente – nosso querido compositor e amigo Barbeirinho do Jacarezinho (Quintal do Zeca), ainda  amarga um rebaixamento, para o grupo C, da Intendente Magalhães. Força, Jaca! Esteja em bom lugar, Barbeiro!

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Para Além das Estrelas: Ivan Paulo

Ivanovich Paulo da Silva nasceu a 19 de agosto de 1937 (Santos/SP) e nos deixou neste dia 7 de fevereiro de 2018 (Rio de Janeiro/RJ).

Ivan Paulo, como era conhecido no meio artístico, era filho do Maestro Carioca, trombonista e orquestrador, e foi presença constante em trabalhos importantes de alguns dos maiores representantes da música popular brasileira, como arranjador e produtor de discos, sobretudo de samba.

Basta falar que entre os artistas produzidos por Ivan estão nomes como Roberto Ribeiro, Clara Nunes, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Alcione e até gente de gerações mais recentes, como Diogo Nogueira e Léo Russo.A produção de Ivan focou Clara Nunes e Alcione no samba – ambas sempre fizeram questão de se denominar cantoras de música boa e não só de samba – sendo o responsável, inclusive, pelo disco As Forças da Natureza, de Clarinha guerreira.

Ivan Paulo parte, deixando uma obra extensa e grandiosa, aos 80 anos, vítima de câncer. Mas sua contribuição para a música, principalmente o samba, perdurará, porque o que é clássico vive pra sempre.

Como exemplo, vamos deixar aí, então, As Forças da Natureza, na voz de anjo de Clara Nunes.

 

Fonte: https://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/ivan-paulo-grande-produtor-e-arranjador-de-discos-de-samba-sai-de-cena-no-rio.ghtml

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Vitrola de Ficha: Mutirão de Amor (Jorge Aragão)

Vamos ser diretos: Natal é sobre a religiosa concepção católica de que Jesus Cristo nasceu, trazendo sua mensagem divina de amor, paz, perdão e fazer o bem sem olhar a quem. Bonito, não é? Sim. Mas sabe o que é bem feio? Deixar esses sentimentos benevolentes (pra quem dá e pra quem recebe) só pra essa época de fim de ano.

 

Na bela composição de Jorge Aragão (em parceria com Zeca Pagodinho e Sombrinha), a letra é um manual do bom ser humano. Pra ser sincero, acho que só essa mensagem já bate qualquer demagogia. E não tem ocasião direcionada. Eles apenas falam em distribuir amor onde formos que isso se multiplica. Nem vou enrolar, fique com o vídeo, abaixo, sobre a mensagem que citei. E, pra provar que é natal, também tem a ver com esse bom velhinho, rechonchudo, de barba branca, sorridente e que nos faz sentir bem e inspirados com sduas mensagens de bondade. Sim: Papai Noel Jorge Aragão! (Rá!)

Proponho aqui, não um mutirão de amor, porque isso, Aragão e Zeca já fizeram na bela canção, mote deste humilde texto, mas uma reflexão pra tirar o vício de só ser legal e tenro no natal: Jesus teria nascido a 25 de dezembro, né? Pois bem, nosso calendário é uma criação romana, um império europeu e não judaico, como a origem de Jesus. O calendário conta do nascimento de Cristo, ou seja, 2017 anos atrás. Só que os anos, no nosso calendário gregoriano (romano) começam em 1º de janeiro e não em 25 de dezembro.

OPA!

Uai! Se o calendário conta do nascimento de Cristo, como o ano não começa no seu aniversário? Calma, que eu explico: Existem inúmeras influências de outras culturas em cima do que conhecemos como natal, como comércio, crenças pagãs, conveniências governamentais/religiosas, interpretações ideológicas e muito mais. E, sendo assim, nunca saberemos a data exata de nascimento de Jesus, até porque, José – nem deus – fez selfie alguma pra postar no insta com data nem localização… Então, faça seu mutirão de amor pessoal, com seu pessoal a qualquer hora do ano.

Deixar pra propagar mensagens bonitas de amor e fé só porque a tradição da data pede é como dar sopa aos desabrigados no natal e atravessar a rua quando vê um no resto do ano. Aquele amor forçado, sabe? Como diria uma tradição de fim de ano da minha infância, o filme ET: Seja bom!

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Delegado Chico Palha, Censura à Cultura na Rua e o Samba na Praça Tiradentes

Primeiramente, Fora Temer, as casas de espetáculo e bares, EM GERAL, estão rebolando para se manter, assim como os artistas de rua, de bar de esquina e todos. É a tal da crise. Se tá difícil pra uma badalada casa de show, imagina pro mambembe pobre que ganha numa noite o que vai lhe garantir alimento, roupa e moradia apenas por alguns dias, se chegar a tanto. Eventos de rua não tiram o público das casas de show. Na verdade, na gestão anterior da mesma prefeitura da mesma cidade do Rio de Janeiro, a mesma manifestação cultural na mesma Praça Tiradentes, era tida como um dos maiores expoentes culturais da região (sem falar no retorno financeiro, né?).

 

Um lugar que, até alguns anos era horrendo de violência, insegurança, insalubridade, etc, tornou-se uma praça no sentido real, no bom sentido e abrigou eventos lindos, que movimentavam – e movimentam – muita gente e muita grana, empregos, socialização e cidadania. Como que isso tudo, em um ano, de repente, se torna inimigo público das casas de espetáculo da Lapa? Nos 8 anos anteriores, não tinha essa inimizade, não tinha essa ‘roubalheira’ de público e renda.

 

O que parece é que depois de se apropriar da arte dos outros, essa gente quer se fechar num cartel, onde a grana rola solta entre eles com exclusividade e a gente, os ‘neguim’ do morro que vem pra rua, fica com as migalhas dos trocados que não querem. Porque duvido muito que eles nos deem algum desses empregos que eles alegam que estamos ameaçando com nosso modo ‘de rua’. Aliás, nem vejo essa concorrência toda com ele. Parece aquele povo que acha que cota para negros está tirando vaga do branco que teve a vida e a grana toda pra estudar.

 

Voltando, se um bacana que frequenta a casa elitizada da Lapa para na Tiradentes apenas pra economizar um a mais, acho que não estamos falando do mesmo público. E outra, o camelô que circunda a praça também é concorrente da roda na Praça. É só frequentar algumas semanas seguidas os eventos ali que você nota o padrão de PM querendo embargar o evento e, quando tudo se acalma, integrantes da roda cansam de pedir que o público consuma no bar da própria festa, afinal, é dali que sai a grana pra pagar os músicos e sustentar a roda em si.

 

As incongruências começam no primeiro parágrafo, aliás, minto, no primeiro parágrafo, vem a opinião, quase isenta de ligações diretas, de que não é o caso de uma defesa assim gratuita do Polo Novo Rio Antigo (ainda que venha uma pequena carteirada afirmando os 20 anos e os tubarões que fazem parte da associação e a ampla relevante região que comandam comercialmente). Aquela intenção de parecer apenas uma opinião que tanto conhecemos. Nada tendencioso, né? Sigamos e prossigamos.

 

Vamos fingir, por um mísero instante, que as palavras não denunciam a enorme parcialidade da opinião do autor, já jogando em médio tom a ligação entre o comércio, a associação de comerciantes e a prefeitura que dá a palavra final. É como uma galera lojista atacar o camelô, mas sem querer nem saber pra onde esse camelô iria pra poder fazer algo de bom da vida pra sobreviver. Mas estamos falando de uma outra camada, de cultura popular, de um direito do cidadão.

 

Querem monopolizar, achando inocentemente que o público da Tiradentes iria procurar a Lapa e suas caras casas com o mesmo pique do playboy que pode bancar aquilo ali toda semana. Pobre também tem direito a diversão e não só na periferia. A cidade toda é de todos. Não à elitização e ao monopólio/cartel. Não adianta tentar parecer mediador alegando reconhecer o caráter agregador e democrático da roda de samba na Tiradentes, quando nem se sabe – ou nem se parece (querer) saber – que não é só uma roda de samba que acontece ali. Nem no mesmo dia.

 

O que se prega no texto do nobre colega é que a democracia seja feita restringindo a escolha do público entre essa ou aquela casa de show que, no fim, estão todas, sob o mesmo domínio. É o que isso? Uma milícia? Um poder paralelo sobre a cultura na cidade? Se for ver o perfil da maioria do público de samba, o que estão propondo é que eu me despenque pra uma casa cara (Centro ou Zona Sul, sendo que moro no subúrbio da Zona Norte), pague altos preços apenas pra passar na porta e ficar lá me sentindo um ser exótico, um preto pobre no meio dos empresários e consumidores classe média remediada e classe alta? Não, obrigado. Ostentação é pra artistas e subcelebridades (quem?). Eu tenho contas pra pagar e não me nego a um pouquinho de diversão descompromissada.

 

A visão empresarial e corporativa que o escriba deixa é que não é contra a roda de samba… desde que seja aquela que ele supervisiona e lucra forte em cima. Manifestação cultural é outra coisa, povo na rua, consumindo, cantando (e não fazendo protestos, às vezes até violentos) é o que interessa a todos. As casas de samba referidas no texto (Semente e Gafieira) fecharam as portas por qualquer motivo, mas duvido totalmente que tenha sido por ter rodas de samba na Tiradentes. Chega desse golpe hipócrita, de fingir a culpa do outro pra ataca-lo.

 

E, para completar, o samba nunca vai morrer, ele ‘agoniza’, na letra (irônica) de Nelson Sargento, é por causa de gente desse calibre, de gente que quer lucrar com o filão popular e sabe que sempre vai ter público. Mas pra eles não interessa o pobre, que fomenta a cultura desde que ela surgiu, nas mãos do próprio pobre. O que querem é pegar o que construímos, capitalizar e manter o poder em suas mãos. Quer comprar um pão? Tem, mas só nas padarias dele. O barraqueiro da esquina, eles querem detonar e jogar pra marginalidade, jogar pro quinto dos infernos, mas não quer ali, porque ele acha que seremos ‘concorrência’.

 

Se panelas, pelo lado artístico do samba, já é bem feio, e exclui quem não puxa saco ou se submete aos caprichos de uma galera fominha, imagina pelo lado corporativo que nem a desculpa esfarrapada do interesse na arte tem! Que papelão, hein, apelão? Se uma roda de rua e uns camelôs em torno são sua concorrência, já entendi que as 80 casas são todas da mesma galera… só não entendi porque com tanta casa, ninguém pensou em fazer um marketing legal pra abranger a todos. Não é acabando com a manifestação popular na rua que vocês vão lucrar.

Fontes:

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-07-29/policia-militar-impede-realizacao-da-roda-de-samba-pede-teresa.html

http://odia.ig.com.br/opiniao/2017-11-30/carlos-thiago-cesario-alvim-atravessaram-o-samba.html

 

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Botequim do Império voltou! Ô Sorte!

E essa imagem homenageando Seu Das Neves… O coração chega palpita.

Botequim do Império voltou! Não só o nome, mas a proposta, a intenção, a efervescência, aquilo que o Império Serrano representa desde sua fundação. A valorização do samba, da liberdade de se reverenciar os mais antigos que pavimentaram o chão pra estarmos ali curtindo a herança cultural que nos deixaram e nos deixam.

 

“A volta dos que não foram” é a primeira coisa que penso quando lembro que do imbróglio ocorrido em fins de 2014, com a diretoria da escola modificando a proposta, trocando o samba pelo que chamamos, vulgarmente, de pagodez (pg10 e outros apelidos pra linha pop com pandeiro que emula a batida, mas não a cultura do samba), nasceu – ou pelo menos, se consolidou – o Samba na Serrinha. Por isso friso tanto o retorno do Botequim. Não foi só o evento imperial que voltou, foi a configuração musical e o tema de Samba que voltaram. Não teria esse fervor em minhas palavras pra falar que o Botequim voltou só com o nome, tendo o recheio apenas uma música que escutamos até em camelô do ‘podcast da Penha’ (não desfazendo de ninguém, apenas enfatizando que é o conteúdo e não a capa, o importante aqui).

Justamente num ano de festejos pelo feliz retorno ao grupo especial… O Império retorna à chamada elite do carnaval e o Botequim retorna ao Império em moldes que remetem à sua origem. Mesmo que a configuração da roda não seja toda imperiana, isso pouco importa, diante do tipo de evento que foi produzido neste último dia 19 de novembro. Aliás, o currículo sambístico pessoal de cada um ali dá mais do que credenciais pra justificar todas as presenças assinadas naquela mesa.

 

Desde o último 1º (perdão pelo trocadilho) de março que não se via aquela quadra como o caldeirão de emoções, cerveja gelada e samba no pé (e gogós). E desde 2014 que o Botequim não tinha essa veia de samba autêntico, sem poluição. Bem, o carvão foi abanado e o momento foi mais do que propício. Naquele ano de 2014 – em que cheguei a fazer um texto bem enfático sobre minha insatisfação com a mudança na proposta do evento – o cenário era um pouco diferente. Hoje, o Samba na Serrinha – que, enquanto grupo, era a base (e intenção) naquele Botequim – é uma instituição imperiana, mas que não é ‘do Império’, no que diz respeito à sua independência e autonomia da maioria dos eventos da quadra da escola. Claro, ainda se respeitam os ensaios (quem nunca viu um samba na casa do jongo ter músicos e plateia correndo pra descer a Av. Edgard Homero pra ensaiar na escola? Ou quem também não foi esse integrante?) e até a tradicionalíssima feijoada pra São Jorge (que pela data que ocorre, pode coincidir com o dia do samba).

Mas o importante é celebrar. O evento foi um sucesso e quem estava lá ainda viu Sr. Aluízio Machado se apresentar, dando uma canja de seus sucessos imperianos e brasileiros de modo geral. Ainda tivemos o ensaio do Império na sequência… beeem coladinho com o Botequim. Tão coladinho que o baluarte nem terminou sua saideira e já lhe puxaram a cadeira pra varrer o chão de rodo, surdo, chocalhos e agogôs. Um contratempo bem notório, mas que, diante da celebração que foi o retorno do bom filho, é um pormenor. Pareceu aquela briga de parentes no fim da festa e auge da bebedeira. Quem tava lá viu, quem não estava… Perdeu o Botequim, Mané! Rá! Tô brincando. Isso é detalhe pra outro texto, quem sabe. Por hora é hora de agradecer ao deus samba pela volta às raízes do nosso querido Botequim do Império. Isso é Império Serrano. Via-se gente de talento reconhecido na comunidade sambista, via-se artistas anônimos ilustres e muita gente amiga cantando e se divertindo como se não houvesse amanhã. Quase não se pensava na chuva torrencial que caía lá fora. Talvez até a chuva tenha caído na cadência e na empolgação do samba que rolava quadra adentro.

 

Ainda foi só a reestreia do evento e muita água tem pra rolar além da humilde tempestade que se fez na noite daquele domingo primaveril de novembro, mas, como diz uma de nossas máximas, ‘imperiano de fé não cansa’, então, perseveramos torcendo e trabalhando pra que o samba seja mais um sucesso, como acontecia há algumas décadas e ficou intermitente de uns tempos pra cá. É um momento bem gratificante pro Império e para os imperianos, afinal, mesmo que Império seja Império pra além do carnaval e muito mais abrangente do que a quadra física da escola, quem tem o império no coração (imperiano ou não), faz muita fé que a cada edição a coisa só melhore. A organização tava linda e os pequenos percalços não tiraram nem de perto o brilho da festa.

Eu, que não sou bobo, tava lá na quadra do meu amado Império. Com minha amiga, Rose Mallet, autora desses registros visuais do retorno do gigante. Valeu, minha querida!

Muito feliz por esse reencontro do Império com o Botequim e o samba de verdade. Para o alto e avante, pois o Império é patente. O reizinho voltou e essa volta vai atrair muitas outras voltas, como essa do Botequim do Império. Salve o Império Serrano, salve o Samba, maiúsculo e que nos honra a todos cada vez que é honrado por nós e pelos nossos.

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Então, Saga, o ‘pagode’ não presta mesmo?!

 

Bem, como tudo em volta do Samba cultural e seus derivativos comerciais, a resposta poderia ser um simples ‘sim’ ou até um ‘sim, mas…’, porém, exatamente pelo mesmo motivo, a resposta exige uma explicação, dada a profundidade de questões que aborda.

 

A primeira de todas é falar que, hoje em dia, o âmbito comercial está bem diferente. Era uma coisa quando Donga gravou o maxixe Pelo Telefone, era outra quando Wilson Batista fez Lenço no Pescoço e assim foi, passando pela linha do tempo do Samba, a cada, digamos, geração, a coisa mudava de modo significativo a ponto de ouvirmos e sabermos de que época era pelo tipo de linguagem ou até a qualidade da gravação. Então, chegamos à década de 1980, pegando a cauda de cometa do enorme sucesso comercial que o samba fazia nas mãos de Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Clara Nunes, Alcione, Dona Ivone Lara e outros, nos anos anteriores, veio a ‘onda do pagode’.

 

O termo pagode, não canso de bater na tecla, já era usado muito antes, dando contornos rurais ao que viria a ser o samba urbano. Esse termo explodiu comercialmente quando o Fundo de Quintal despontou para o grande público em fins de ’70, início de ’80. Daí, possivelmente, por uma jogada de marketing, aquela sonoridade e estilo diferente ganhou uma identidade toda própria. Uma inovação que não se encaixava na mesma prateleira que o bom e velho samba, mas que, como sempre, tinha tudo a ver, afinal, era a mesma raiz, só que tocada um pouco diferente.

 

E o termo pagode pegou, avançou, trouxe diversos nomes à superfície da mídia… Tanto que começou a virem uns caronas, uns pingentes e usurparam o nome pra si. O FDQ não é totalmente isento desse desdobramento, já que incorporou a seu estilo instrumentos que não eram comuns no samba, talvez, pra dar uma diluída disfarçada e atrair o público que poderia se afastar se falassem ‘olha, gente, é samba, aquilo que os mais velhos fazem’. Isso é um repelente de público jovem, o que mais consome jogadas comerciais de rádios e casas de espetáculo.

 

Bem, no embalo de pagodes e sucessos instantâneos, o termo pagode começou a empregar um outro tipo de sonoridade, já distante do samba e mais próximo do pop. Na virada da década de 1980 pra 1990, até Zeca Pagodinho, em torno de seus 30 anos de idade, já soava ‘coisa de velho’ pra juventude que curtia os dances estrangeiros e rocks remanescentes da explosão ‘ploc 80’ (rá!). Aí, os teclados, contra-baixos e baterias tomaram à frente de viloa de 7 cordas, tantãs e repiques. E isso ficou sendo chamado de pagode, ao passo que o FDQ e sua geração, virou ‘pagode raiz’ ou, o mais comum, ‘samba de raiz’. Nem preciso dizer a redundância, né? Se é samba, É raiz. Seria como dizer ‘planta vegetal’.

 

Mas, vamos lá, o termo pagode vendia como água no deserto e a nova geração que se apropriou, criou seu estilo próprio. Beeeem diluído se compararmos com o samba, mas até que merecia um OK, pela revolução comercial que causou. Ainda não tinha sido visto com frequência um tipo de música tipicamente brasileiro tomar as paradas de sucesso, invadir casas de show, programas de TV, rádio, matérias em jornais, revistas, produção de ídolos instantâneos e até de apelo ‘sexy symbol’. De música era bem nhé, mas no conjunto da obra, temos que admitir, levou muito ‘pagodeiro’ a ser introduzido (UIA!) ao verdadeiro samba.

 

Afinal, pra quem passou por aquela época e não se ligava em encartes de CDs, por exemplo, Arlindo Cruz e Jorge Aragão são apenas dois exemplos de gente da pesada que abastecia frequentemente o repertório daquela turma lá. E até músicas dos, então, garotos, foram adotadas por eles e outros. Em algum momento, havia essa ligação, pros mais velhos não se arriscarem a ficar relegados a nichos esquecidos da mídia, e pros mais novos ganharem um peso a mais no currículo. Como aquele coroa que anda com a galera e vira o tiozão legal, saca? Rá!

 

Então, sim, o ‘pagode’ presta, mas já passou. Foi uma moda. Hoje, alguns sobreviventes ainda faturam vivendo daquela febre e da nostalgia, estilo ‘ploc 80’, ou aquelas coletâneas da jovem guarda. O que veio depois do início dos anos 2000, melhor nem falar. Já era um outro desdobramento que nem a batida conseguia mais imitar e muito menos o teor das letras honrava. Aí, já começa uma outra coisa chamada, hoje, de pagodez/PG10, etc. O pagode 90, como chamam hoje, foi importante para a arte feita por pretos pobres e deu moral pra muita gente (pra você que pensa que a união Arlindo Cruz-Péricles-Esquenta é novidade). Um trabalho artístico de nicho popular dominou a mídia por anos.

 

O de hoje não, é uma batidinha aguada feita nos moldes do R&B estadunidense que, por um acaso, ainda insiste em botar um pandeiro, ou algo que pareça. Já não tem mais identidade ou mera semelhança com samba, não toca em rodas de samba nem de zueira e só serve pra adolescentes acharem que seus sentimentos conflitantes nos hormônios possuem uma vasta experiência em amores mal resolvidos. Ah, e levantar o copo pra elevar a voz nos refrões extremamente sofridos.

 

Se antes a poesia estava empobrecendo em nome das vendas instantâneas em massa, hoje, nem existe mais ‘pagode’. O último foi o Exaltasamba e, mesmo assim, acabou quando deixou sua própria identidade ‘pagode’ pra se tornar mais um meloso de vocal uivante trabalhado no grito e no falsete (sim, Thiaguinho, estou apontando pra você agora – Rá!). Caras de quase 50 cantando com gel adolescente no cabelo letras de jovens empolgados com cerveja e cantadas baratas não dá, né? Alô, Péricles! – Rá!²

 

Pagode 90 é legal pra mim, é nostálgico e pra quem não pegou aquela época, também cai bem… Vai cair melhor quando decidirem resgatar outras músicas além das mesmas já manjadas de sempre. Mas repertório é assunto pra um texto um outro dia. Por hora, pagode é legal e já tá virando ‘coisa da antiga’, como um amigo mais novo falou… Já fiquei velho. Eeeeitaaaa!

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