Identidade – Jorge Aragão

Se preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade (…)“.

Como eu sempre digo, ser negro não é uima questão de cor de pele, nem de vontade (embora muitos tenham vontade de não ser associados à raça por medo de ser discriminado… e acabam discriminando pra se sentirem afastados da raiz, mas deixa pra depois). A negritude é uma ideologia, até porque o país tem uma grande quantidade de gente miscigenada, o que faria automaticamente com que quase todos fossem um pouco negros e ao mesmo tempo quase ninguém.

Então, onde é que entra a questão da identidade que Jorjão fala na letra? É a questão da aceitação e mais, da convicção de que você tem em sua raiz familiar influências de uma cultura riquíssima que já influenciou de um tudo ao redor do mundo, sobretudo no Brasil. Palavras do nosso vocabulário, vestimentas, culinária, música… Tantas coisas que vão desde arte e cultura até geografia e política. A história está aí (e eu falo de fontes de pesquisa fidedignas, não oportunistas que defendem ideais de partidários da ditadura militar reaças metidos a politicamente incorretos).

Voltemos ao ponto, Identidade aborda a questão do preconceito e o modo como um racista pode simplesmente achar que está sendo muito condescendente com o “bicho”(entenda, muitos não se acham racistas porque aprenderam com o senso comum que negro é engraçado pra virar piada, e ninguém admitiria ter um defeito de caráter tão grave). Sabe a professora Srta Morello? Aquela professora que “protege” Chris Rock em Todo Mundo Odeia o Chris? Com certeza é assistir por 5 minutos e perceber como ela acha que está endo uma ótima pessoa ao ‘compreender’ o único aluno negro da escola, pois, ela acha que ele é um pobre coitado com dezenas de irmãos – cada um de um pai diferente – de mãe desempregada e drogada. Mas nós sabemos que ele é filho de um pai esforçado – de DOIS empregos – e uma mãe neurótica em criar filhos com os melhores valores numa sociedade que vai contra eles por causa da cor e do preconceito de achar que é isso que faz um mau elemento.

jorge aragão - identidade

Assim como Paulo Henrique Amorim chamou Heraldo Pereira de ‘negro de alma branca’, muitos acham que melhoram nossa auto-estima ao nos chamar de moreno, marrom-bombom, mulatinho e essas coisas. Fora as referências à cor como se ao invés de melanina, fossemos brancos sujos, tipo, de carvão, tinta, queimadura, café bebido em excesso, ter nascido à noite e as comparações vão ficando mais e mais absurdas, desde que falem da cor. Ainda há bolhas pra acharem que somos todos iguais e que dias como 20 de novembro não deveriam acontecer, como se fosse um favor, um bônus por sermos beneficiados sem motivo. Ignorantes que ignoram literalmente a história como se a escravidão não tivesse reflexos ate hoje no racismo agressivo ou nesse racismo “bem intencionado”.

Como Aragão fala ‘não nos ajuda, só nos faz sofrer’ e não é egocentrismo, como já ouvi de reaças que acham que a luta contra o racismo é mimimi de quem não tem coisa melhor pra fazer. Elevadores são preciosidades em alguns lugares para algumas pessoas, se um negro entra, entre outros ‘tipos’, acaba sendo encaminhado para o de serviço, porque o social não pode receber essa gente. Mas, chega de papo, a letra em si e todo o arranjo e linha melódica já dizem tudo sem precisar esmiuçar muito nessas – virtualmente – mal traçadas linhas. Detalhe para a escolha de imagens de profissionais diversos e artistas negros enquanto a canção rola, no melhor estilo videoclipe, como aquele que já postei no blog com imagens de pessoas escravizadas ao som de Retirantes, de Dorival Caymmi (aquele famoso ‘lerê lerê que todo mundo canta pra debochar que está sendo explorado), tema de A Escrava Isaura.

Desde já, peço desculpas pelo ‘Seu Jorge’, mas a mensagem é boa demais pra não linkar por uma escorregada simples.

https://www.youtube.com/watch?v=VAiFHRFV4WU

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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