21 de julho – Jovelina, A Pérola Negra

Nesta data, Jovelina faria 71 anos de idade e em novembro deste mesmo ano, completam-se 17 anos sem ela. Então, em homenagem à cantora, compositora, versadora e verdadeira jóia rara de nossa cultura popular, vou falar sobre sua vida e carreira. A saber, minha visão aqui é de um fã, um sambista jornalista, mas ainda um fã, então, não me pegarei tanto em dados cadastrais quanto faço com minhas impressões acerca da artista que me causa admiração. Sendo assim, prontos pra decolar.

 

Jovelina Faria Belford, a Pérola Negra, teve uma carreira relativamente curta (entre seu debut, aos 40 anos de idade, no Raça Brasileira e seu último disco lançado, Samba Guerreiro, foram apenas 11 anos), mas muito intensa. Isso se deve ao enorme carisma da eterna baiana do Império Serrano e ao fato de, assim como muitos de sua geração, ter se cercado de gente muito boa. É só reparar que em todo disco lançado (7 em carreira solo), ela deixou algum clássico que permeia rodas de samba até hoje e sempre permeará, sem dúvidas. Então, esses 11 anos de discografia inédita e esses 17 de saudades, noves fora, temos aí uma vasta obra que só reafirma a administração pela cantora e compositora (e partideira e pastora).

 

Com um timbre bem peculiar (desde que a ouvi na infância, nunca ouvi outra voz sequer parecida no meio musical), sua voz forte parece ter nascido pra cantar samba. É como dizem, por mais esforçado que seja o artista, às vezes, na hora de cantar samba, acaba, no máximo, sendo ‘bem cantado’, mas não com aquele clima de ‘caras, quero ir pro samba agora sentir esse clima’. Dona ‘Jove’ tinha esse quê a mais, pra nos deixar no mesmo manto, com o sorriso aberto, cantando ao sorriso de um banjo, banho de felicidade pra amante do pagode nenhum botar defeito. Rá! Várias referências.

Pra se ter noção da força que essa mulher tinha em personalidade e talento, veja só os sucessos que deixou ao longo da carreira – e pra vida toda – nos dando a impressão de que sempre esteve aí e nunca deixou de estar. Pra começar, no Raça Brasileira (1995), já citado aqui e resenhado em um texto recente aqui mesmo no blog, ela já lançou o autoral Feirinha da Pavuna e ainda deixou o emblemático Bagaço da Laranja (parceria com Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz). Depois, veio o debut solo com o perfeitamente apropriado título de Pérola Negra (1986), onde já dava tijoladas musicais condizentes com sua força no pagode, como O dia se zangou (Mauro Diniz e Ratinho), Menina Você bebeu (Acyr Marques, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço) e É isso que eu mereço (dela mesma e Zeca Sereno).

 

Em seguida, mandou o emblemático Luz do Repente (1987), que além da faixa título (Marquinho PQD, Arlindo Cruz e Franco) ser um clássico (e me entristece muito quando a música fica banalizada, reduzida apenas a refrão de embalo de pot-pourris); temos ainda Filosofia de bar (Everaldo da Viola), Sem amor sou ninguém (Ivone Lara e Delcio Carvalho), Banho de Felicidade (Adalto Magalha e Wilson Moreira), Garota Zona Sul (também creditada, às vezes, como Sonho Juvenil, do clássico compositor Guará) e Feira de São Cristóvão (Beto Sem Braço e Bandeira Brasil). Respirou fundo? Pois logo depois, ela joga pra jogo o clássico Sorriso Aberto (1988). Bem, dispensaria apresentações, né? Outra vez uma faixa título (de Guará) entra pra história do samba e nunca mais que larga uma roda de samba. Entre outras, também tem Precipício (Beto Sem Braço), outra que não falta em rodas de samba onde o samba da antiga e mais ‘lado B’ é cultuado.

Falei em Guará, então, é válido mencionar que em Amigos Chegados (1989) saiu Poeta do Morro (Jovelina e Carlitos), uma emocionante homenagem ao compositor de Sorriso aberto (“depois de nivelar a vida em alto astral, foi para o universo sideral…”). Em 1991, veio Sangue Bom, com No mesmo manto (Beto Corrêa, Lúcio Curvelo), Sarau (dos ‘Betos’ Corrêa e Sem Braço), Pelourinho, Negritude e Magia (Geraldo Lima e Labre) e Catatau (Guará). O LP Vou na fé (1993) trouxe Malandro também chora (Mauro Diniz), Peruca de Touro (Jovelina e Carlito Cavalcanti), a própria Vai na fé (Agnaldo, Jorge Carioca e Marquinho PQD) e a emblemática Sorriso de banjo (Fidelis Marques, Bira da Vila e Melodia Costa), além de um clássico, ganhou uma releitura bem legal pela jovem cantora Andreia Caffé.

 

Então, veio Samba Guerreiro (1996) com Rima do êta (Marco Aurélio FM), Fala tu que eu to cansado (Edésio Só) e Amante do Pagode (Tiãozinho de Guadalupe e Anacleto). Esse foi o último registro de nega Jovelina até que em 2 de novembro de 1998, Jovelina também iria, assim como Guará, depois de nivelar a vida em alto astral, para o universo sideral. Foi um pouco mais de 10 anos de carreira para o grande público, mas se você reparar, praticamente todo ano tinha disco novo com muito material bom, pra se divulgar de forma esmiuçada até além. Como curiosidade inusitada, diz-se que, durante uma temporada no Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, Centro, RJ), Jovelina teria pedido um adiantamento, ao que lhe foi concedido e informado que o depósito seria feito em seu borderô (documento onde são relacionados cheques de pagamentos). Diante disso, Jove teria respondido: “Ninguém põe no meu borderô! Nem meu marido! Tá pensando que é assim?”.

Deixando uma herança musical marcante (tanto que a filha Cassiana e a neta, Kamilla, seguiram cantando e homenageando a mãe/avó), Jovelina está imortalizada no cancioneiro popular assim como sua ‘antecessora’, Clementina de Jesus, no que diz respeito à tradição sambista de revelar mulheres de forte identidade vocal e uma ginga toda própria. Eu mesmo confesso que adoro ouvir e repetir aqueles momentos de suas gravações como ‘segura, malandragem!’ e o clássico ‘é, é…’. Enfim, se for falar do quanto admiro Jovelina vou ficar escrevendo o dia inteiro, contando histórias e mais um monte de coisas que você também acaba fazendo por ela ou outro artista saudoso que tenha deixado tanta coisa boa. É isso, neste dia, que seria seu aniversário, fica a homenagem a um dos grandes nomes de nossa cultura popular, sobretudo, da explosão que foi o chamado pagode de fundo de quintal.

 

 

Fontes: Som Negro

Dicionário Cravo Albin da MPB

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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