Zé do Caroço: O Samba Político de Leci Brandão

 

Não vou nem enrolar, vou direto no material tamanha a euforia que me dá em falar no assunto. Zé do Caroço foi um serviço de auto-falante, assistência social e militância em prol do mais pobre quando ainda não existia todo esse conceito de lutas sociais, na verdade, bem pelo contrário, pois era tempo de ditadura militar e ideológica, fazendo o Brasil crer que tudo estava bem, como na novela, onde o bandido carregava um crachá de bandido e o mocinho era o inconfundível branco de classe média, hétero e católico – mesmo que não declaradamente, etc…

Bem, Zé do Caroço – José Mendes da Silva – veio da região Nordeste do Brasil para o Rio de Janeiro, mais precisamente, para o bairro de Vila Isabel, especificamente para o Morro do Pau da Bandeira, comunidade vizinha ao Morro dos Macacos (que você deve conhecer de composições de Martinho da Vila, onde é citado seu nome).

Zé do Caroço, segundo seu filho, no documentário Zé do Caroço: A Voz do Pau da Bandeira (2011), teria ganho o apelido devido a um problema de saúde que o conferia caroços em todas as juntas do corpo. Ainda jovem, foi policial civil e, tendo se aposentado muito mais cedo que o normal – justamente por causa do tal problema nas juntas – foi dono de um bar na comunidade, onde iniciou o tal do serviço de auto-falante, que seria uma espécie de precursor das atuais rádios-comunitárias.

O auto-falante na lage de casa, no morro, se tornou famoso por alguns fatores que faziam de Zé do Caroço um líder comunitário no melhor sentido da palavra. Seu, já citado filho, diz que ele tinha o dom de pedir, então, sempre conseguia ajuda e mutirões para virar uma laje aqui, uma pintura de paredes ali, etc. E em seu auto-falante, ele prestava todo tipo de noticia que pudesse ajudar a melhorar a vida na comunidade. Desde preços atrativos na feira até a serviços de ação comunitária.

E o mais interessante é que esse serviço podia vir a qualquer hora que Zé achasse importante repassar suas novidades ao morro, mas seu horário preferido era no horário da novela, pois, segundo o documentário mencionado, era o horário que as famílias se reuniam diante da TV, meio que facilitando a centralização da informação, mas também porque ele queria falar ao povo num momento em que a TV estava tentando iludir o cidadão com um mundo fictício que não condizia com as dificuldades da maioria do povo.

Nesse contexto, Zé se tornou um herói para o Pau da Bandeira, mas um incômodo para a esposa de um militar que, em plena ditadura (não perca de vista, eram os anos 70’s, repressão correndo solta) se queixava que a voz do morro vizinho atrapalhava sua novela. Essa história chegou aos ouvidos de Leci Brandão que, num bate-pronto, bolou a letra em cima de uma melodia que já se desenhava na região cérebro-espiritual que chamo de ‘inspiração’.

E aí, negada, é Leci + Samba + Causas Sociais = Zé do Caroço. Precisa de mais? Ela criou a pérola em 1978 e tentou gravar, sendo censurada pela gravadora Polydor. Rescindindo com a empresa, migrou para a Copacabana Records, onde só conseguiu gravar em 1985. Aliás, a canção é a mais regravada de Leci nos últimos tempos. Já serviu de amuleto de sorte para os debuts de Art Popular, Revelação, Mariana Aydar e ainda a releitura que fez escola por parte de Seu Jorge, no DVD em parceria com Ana Carolina. Mas eu ainda prefiro a versão original. Seguida pela do Revelação, nem tanto pela paradinha funk, mas pelo tantã do Rogerinho mesmo. Rá!

Ps.: Zé do Caroço faleceu no início da década de 2000, tendo tido a oportunidade de ver seu nome e sua luta eternizados num dos maiores sambas de todos.

 

Fontes:

 

 

http://osomdacoisa.blogspot.com.br/2012/01/samba-e-politica-em-mais-um-ze-o-ze-do.html

 

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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Uma resposta para Zé do Caroço: O Samba Político de Leci Brandão

  1. Marcio Ramos disse:

    Muito bom . Valeu demais este texto. Um VIVA a criatividade do povo.

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