Herivelto Martins e a Praça Onze

Herivelto Martins, grande compositor, cantor e violonista. Isso, entre outros talentos não artísticos que desenvolveu na vida para se sustentar, principalmente quando veio para o Rio de Janeiro sozinho a fim de conseguir independência e sucesso na carreira artística. Tendo morado em várias cidades do Rio de Janeiro, foi na própria capital (até então, da república também) que ele encontrou seu amor mais conhecido: Dalva de Oliveira. A carreira do casal é notória, mas uma paixão em especial na vida de Herivelto tocou o coração do público enquanto carioca, mas o objeto desse amor não era uma pessoa e, sim, um lugar: Praça Onze.

 

A Praça Onze tem uma história muito presente na cultura carioca (até mesmo brasileira), pois, foi naquela região que se originou o Morro da Providência (à época também conhecido como Morro da Favela, de onde o nome passou a designar aquele tipo de moradia irregular). A população negra, com o advento da abolição e a reforma urbanística promovida pelo prefeito Pereira Passos, passou a habitar as encostas dos morros e a frequentar a área da Praça Onze. Desses hábitos, foi nascendo o samba. Ali era o palco para desfiles de carnaval, que perduraria por anos até a redução do espaço da Praça para a construção da Avenida Presidente Vargas. Tais alterações desfigurariam a região e, o mais importante aqui neste contexto, o carnaval seria fortemente modificado.

Com a notícia de que a Praça Onze seria demolida para a construção da Avenida Presidente Vargas, o ator – e amigo de Herivelto – Grande Otelo, decidiu escrever um samba protestando contra o fim do reduto carnavalesco do Rio. Herivelto, a princípio não mostrou interesse, mas diante da insistência do amigo, reescreveu a letra de acordo com o tema sugerido por Grande Otelo. A música Praça Onze foi gravada em 1941, convocava os foliões e sambistas a guardarem seus instrumentos num misto de admiração e e resignação pela “partida” deste “ser”. O sucesso alcançado surpreendeu até mesmo seus autores. Este “personagem”, chamado Praça Onze, ainda teria frequência em outras obras de Herivelto, mostrando o quanto tomava espaço nos pensamentos inspirados do compositor. Muitas vezes, claro, em parceria com Grande Otelo.

Um ano depois, em 1942, foi gravado o samba “Laurindo”, Laurindo era personagem recorrente em sambas daquela época, e nessa canção, o rapaz não acredita no fim da Praça e desce para desfilar e, chegando lá, se decepciona. “Bom dia Avenida” mostra a aceitação da Avenida Presidente Vargas por ser parte do progresso e o questionamento se o carnaval continuará na nova avenida, citando o que se perdeu com o fim da Praça Onze. “Mangueira não!”, em que se assume um tom de hipérbole acatando que se derrubem outros redutos do samba – como Estácio, por exemplo –  mas que se preserve Mangueira, pelo menos (Herivelto era mangurirense). Em “Carnaval com quem?”, a dupla de admiradores da Praça Onze retorna com passagens de outros sambas lembrando da saudade da antiga praça do carnaval.

Desde o sentimento quase melancólico de Praça Onze, Herivelto, como dito anteriormente, mesmo sem muito interesse em escrever a letra, demonstrava um grande apreço pelo principal palco do carnaval da época. Sua preocupação com o que seria feito do carnaval e a presença que a Praça Onze ainda teria em sua vida passam toda a sensibilidade da admiração pelo local. A despedida emocionada de um amor que foi correspondido.

Fonte: http://www.receitadesamba.com.br/2012/01/herivelto-martins-e-praca-onze.html

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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