Xangô da Mangueira: O velho batuqueiro

Xango-da-Mangueira-morre-aos-85-anos-no-RioXangô da Mangueira é um ilustre desconhecido para a maioria dos “leigos”, tenta falar sobre um dos maiores sambistas da história com quem não conhece o Samba intimamente pra ver se você não constata um enorme ponto de interrogação na testa da pessoa (em algumas, pode ser que o referido sinal apareça sobre a cabeça, mas o efeito é o mesmo). Apesar de ter músicas gravadas por Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Sombrinha, Xangô não usufrui de uma fama além-fronteiras no que diz respeito ao samba tradicional. Mas, vá lá, vamos falar de um grande mestre na arte da simpatia e do talento nato para o meu querido Partido Alto.

Nascido Olivério Ferreira, aos 19 dias de janeiro de 1933, nem era orixá (será que não? Pelo menos no Samba, foi elemental) nem era mangueirense no seu começo de carreira. Quando jovem, Olivério viveu pelo subúrbio do Rio de Janeiro, nasceu no Rio  Comprido, tendo morado em Rocha Miranda, Sampaio, Pavuna e Irajá – provavelmente foi daí que veio seu “sotaque” especial pra falar do suburbano de outrora, além de ter crescido em Paracambi, Baixada Fluminense. Filho de mãe mineira e pai paulista, seu conhecimento do interior e tradições regionais era empírico e seu estilo todo autêntico vem da junção desses diversos fatores.

Xang+da+Mangueira+xangodamangueira1Olivério se tornou Xangô, quando um colega novo na fábrica de tecidos Nova América (Del Castilho) percebeu que o rapaz era o engraçadinho da turma definindo apelidos para todos, mas ele mesmo não tinha. Ao aplicar o apelido de ‘Macumba’ no novo colega, recebeu em troca o de ‘Xangô’. Dedicou mais de 5 décadas à Estação Primeira de Mangueira, sendo, inclusive, antecessor de Jamelão como intérprete dos sambas da escola e depois, diretor de harmonia. O curioso aqui é que, antes disso, Xangô era da Portela (que completa 90 anos também este ano) e mais curiosamente ainda, é que ele foi parar lá por ser discípulo de Paulo da Portela, tendo se encaminhado para Mangueira com o aval de seu mestre.


A história de Xangô da Mangueira é muito interessante quando se fala no caminho pelas escolas de samba que marcaram sua vida e carreira. No tempo em que o nome ‘escola de samba’ ainda tinha ênfase em ser escola e em fazer samba, Xangô participou da Unidos de Rocha Miranda, de onde saiu para colar com Paulo da Portela e os bambas daquele lugar. Quando do afastamento de Paulo da Portela da… er… Portela, Xangô acompanhou o mestre para a pequena Lira do Amor, do bairro de Bento Ribeiro. Mas sua passagem pela escola foi curta e logo ele começou a se aproximar de gente de Mangueira, e comunicou a Paulo que gostaria de freqüentar a escola. Paulo não só apoiou sua ideia, como avalizou sua ida, pois tinha muita amizade por Cartola, tendo dado boas referências dele.

Xango da Mangueira - Rei do Partido Alto 1972

Aí, sim! Xangô passou a ser da Mangueira. Ele gravou 4 discos solo. Recomendo muito que quem não conhece, procure ouvir O rei do partido-alto (1972), O velho batuqueiro (1975), Chão da Mangueira (1976) e Xangô da Mangueira Volume 3 (1982). Confesso que conheci a borá do mestre quase que por acaso – se é que isso existe – quando procurando músicas antigas, esbarrei em uma composição dele. A princípio, a música foi ficando lá jogada pelas pastas do meu PC. Até que fui ouvir pra decidir se deletava ou agregava de vez aos meus favoritos. Daí, tudo que eu ouvia era pouco e Velho batuqueiro se tornou meu disco preferido. Cada disco é uma aula de Partido Alto.

Xangô nos deixou em 7 janeiro de 2009, aos 85 anos, mas está mais do que vivo no coração de quem ama o samba, sobretudo o Partido Alto. Veja uma pala do grande Xangô da mangueira.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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