Carnaval de rua elitizado

Sebastiana: Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

Sebastiana: Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro

Sempre que eu critico o modo como o carnaval de sambódromo e de rua do Centro/Zona Sul do Rio, vem alguém pra me criticar por ‘não gostar de carnaval’. É aquele pensamento infantilóide de quem não analisa uma afirmação ou não sabe a diferença entre criticar e detestar. Sim, eu gosto de carnaval e não seria um criminoso se não gostasse, mas não gosto é da industrialização que assolou tanto as super escolas de samba s/a quanto o carnaval de rua. As escolas de samba têm um motivo lógico pra serem vitrines para turistas e celebridades: Patrocínios. Mas o carnaval de rua é um fenômeno mais difícil de notar, porque não é fechado e o patrocínio muito mais disfarçado.

Vamos pelo mais fácil, as escolas de samba já não são escolas culturaiscarnavalderuaelitizado4 e muito menos evidenciam o Samba. Mas, curiosamente, essa forma super acelerada e padronizada, com destaque para sub-celebridades e carnavalescos, em detrimento dos sambistas, bailarinos e costureiros, é que é vendido aos turistas como manifestação popular do Rio e do Brasil. As rodas de samba, com cadências, bailados, batuques, comidas e bebidas típicas não passam nem perto. E o patrocínio é fácil de explicar, já que sempre houve patrocínio, se não de Vargas, com o condicionamento de se promover o fantasioso Brasil trabalhador e em processo de embranquecimento, por parte dos governos e outros tipos de instituição, como rádios, jornais ou clubes. Claro que o patrocínio hoje muda para temáticas aliens para a cultura brasileira com desculpas estapafúrdias, que são apenas eufemismos para “eu pago e você faz”. Dinheiro comanda.

Se a Globo, prefeitura e Sebastiana precisam dizer onde fazer xixi numa campanha, é porque é chegada a hora de sairmos com os dizeres: "Por favor, não mije em mim!".

Se a Globo, prefeitura e Sebastiana precisam dizer onde fazer xixi numa campanha, é porque é chegada a hora de sairmos com os dizeres: “Por favor, não mije em mim!”.

Agora, a dominação do carnaval de rua é que chega a ser maquiavélico de tão sutil que é. Eu já tinha falado ano passado sobre a cerveja ser Boa e a cobrança ser Devassa. Hoje, latões de cerveja a 4 reais em camelôs credenciados pela prefeitura e  só de uma marca, a mesma que ilustra as barraquinhas e quiosques nos locais do “carnaval de rua”, mas só do Centro e da Zona Sul. Podem me chamar de neurótico e paranóico, mas como não fazer a ligação com o pequeno detalhe da Sebastiana, por exemplo. Se o carnaval de rua é tão democrático e espontâneo, porque ele só está onde o governo olha? Por exemplo, Parque de Madureira não é Centro, mas é prefeitura. Fora essas exceções, note até a propaganda didática da TV sobre onde – ou não- urinar é por parte da Sebastiana – a associação de blocos da região Centro/Zona Sul junto à prefeitura.

Os flashes dos repórteres, as efemérides clássicas do carnaval (beijo carnavalderuaelitizado1na boca, fantasias criativas, foliões que fazem maratonas, etc), as reportagens dos programas jornalísticos e/ou matinais domésticos, todos TODOS só freqüentam blocos da Zona Sul que, a despeito do espaço que têm na orla, se sentem muito espremidos com a superlotação dos blocos. Agora que passaram as eleições, somente locais como Madureira é que vão ter ainda alguma atenção por causa das áreas de lazer e escolas de samba que ali se localizam, pois, o resto, podem esquecer, porque turista não costuma saber que existe carnaval longe do centro do rio (menos Will Smith que veio aqui no Méier pra comer bolinho de bacalhau – ele é da Filadelfia, né?) e nem ano de eleição é. Ou seja, perdeu subúrbio.

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Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
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