A mídia é excludente com o negro

Reparou que o título não tem interrogação? Então, não é uma pergunta. A tal da polêmica do Oscar só estourou agora, mas é uma queixa do povo preto há tempos. Tudo bem, eu sei que a cultura racista de lá é diferente daqui, mas só por dados que não influenciam o fato de ser a mesma m… na essência fétida. Quer ver um exemplo? Independente das pessoas que vêm dar seu parecer raso, idiota e debochado do tipo ‘negro reclamar de racismo é racismo reverso’, temos várias outras evidencias pra informar, minimamente, aquele coleguinha que é racista por inércia do senso comum. Já aqueles que se contentam com o racismo porque conseguem se esquivar, se auto-declarando não negros ou o próprio branco que está contente em fazer parte da minoria que domina/se parece com quem domina.

 

Ainda vale ressaltar que os números são desproporcionais, por exemplo, a política escravista nos EUAses gerou uma guerra (Secessão, a famosa Guerra Civil de lá) que dividiu o país, teve o conflito urbano por direitos civis, mas lá, existem mídias inteiras pra negros. Eu, a Patroa e as Crianças, Um Maluco no Pedaço, Elas e Eu, Todo Mundo Odeia o Chris e muitos outros produtos do entretenimento não são só protagonizados por negros, são produzidos, nos bastidores deles, nos filmes… A apresentadora mais poderosa de lá é negra, nos filmes, um negro é presidente, médico, deus cristão e muitas outras funções que aqui, no Brasil, não temos a menos que seja um mote da produção. Por exemplo, no Auto da Compadecida, Jesus aparece negro porque o texto pedia esse contraponto entre o senso comum eurocêntrico e a lógica étnica. Isso porque aqui, somos mais de 50% da população, ou seja, mais de 50% da audiência e nos EUAses, negros são pouco mais  de 10%. Aqui, quando temos 20 figurantes brancos e um negro, as produtoras acham que estão fazendo um lindo trabalho de inclusão ‘somos todos humanos’, quando é só sair na rua e ver que essa proporção só existe no condomínio fechado onde eles vivem e não saem nem pela internet pra pesquisar e aprender um pouco da sociedade que estão achando que retratam na tela. Hipócritas vendados e vendidos.

 

Vamos lá, Solange Couto, sabe, a eterna Dona Jura da novela O Clone? Pois é, ela que já foi “mulata” (argh!) do Sargentelli e seguiu carreira de atriz, tem mais de 30 anos de carreira e só ano passado, durante a campanha ‘senti na pele’ no mês da consciência negra, a atriz percebeu que de seus 37 personagens, apenas 7 não eram estereótipos do negro pobre e sem núcleo familiar. “É triste”, contou, fazendo a ressalva de que sempre interpretou com o coração, e não tinha se dado conta desses números.

Outro que veio a público e deu seu recado foi Antônio Pitanga, no Vozes do Mundo, onde, em entrevista, o ator fala que acaba virando um ‘ator negro’ e não um ator, pois sempre é relegado aos guetos da novela e perde espaço para o próprio negro mais jovem, enquanto fagundes, tonys e tarcisios sempre aparecem como os felizes e bem sucedidos pais, avós, empresários, etc. Até família eles têm, enquanto o negro é pano de fundo. O empregado sem família, sem procedência que está lá pra ser o malandro mulherengo, a empregada que só abre portas e serve café enquanto ouve atrás das portas. Até aparecem atores negros pra defender o senhor da casa grande, mas como criticar um irmão que depende dessa miséria na carreira que escolheu. Não julgo quem precisa daquele aqué lá, infelizmente, os trabalhos artísticos dependem de uma mídia centralizada, ou a independente que precisa captar investimentos, mas leva mais tempo e nem todos têm o fôlego e a grana.

 

Mas vamos lá pros EUAses e ver o que atores negros já falaram sobre racismo na mídia de lá, que não é de hoje essa conversa, perceba.

Danny Glover

Ainda em 2008, o eterno Roger Murtaugh de Máquina Mortífera, revelou a dificuldade em angariar fundos para por em andamento seu projeto de filme sobre Toussaint L’Overture, herói haitiano na luta contra a escravidão em seu país no século 18. Produtores negaram Glover com o argumento de que não funcionaria no mercado, por não ter um herói branco.

 

Samuel L. Jackson

O ator já deu entrevista falando sobre como o racismo é mais abordado falando-se no passado e não no presente, de forma direta, de modo a realmente trazer para a luz esse debate. Um detalhe, Jackson é um dos atores negros boicotados pela academia este ano. Lembrando que recentemente, Jacson foi confundido com Laurence Fishburne por um apresentador de TV e deu-lhe um sabão para todos aprenderem que negros podem ter traços em comum, assim como todas as etnias entre seus integrantes, mas não somos todos iguais.

 

Henry Lennix

O ator afirma que o filme O Mordomo da Casa Branca trazia tanta imprecisão histórica em seu roteiro que desistiu de fazer parte do trabalho. Ele alegou que aquilo era uma retratação errada da história e da participação do homem negro na história da Casa Branca. Disse que não leu mais que cinco páginas de roteiro e desistiu.

 

Steve Harvey

O ator e apresentador disse que a mídia por lá é mais racista que o país em si, pois, a eleição de Barack Obama para presidente já deveria ter provado que a população mudou, mas coisas como uma atriz ser a primeira mulher negra a protagonizar uma série dramática, caso de Kerry Washington, em 40 anos, chega a ser até loucura.

 

Lonette Mckee

a atriz e roteirista já trabalhou com Spike Lee e já declarou que as dificuldades do diretor em captar investimentos vem de seu ativismo pela população negra e seu discurso sem papas na língua, oque incomoda aos empresários brancos donos da mídia. A saber, Lee, já anunciou que vai boicotar a cerimônia pela ausência de negros entre os indicados, assim como Will e Jada Pinkett-Smith. Will Smith, aliás, outro excluído das indicações deste ano e de todos os outros. Acredita que enquanto tem gente chorando pro Leonardo Dicaprio ganhar uma, Smith nunca nem foi nomeado? É disso que a gente tá falando.

 

Regina King

A atriz se disse impressionada com o Emmy. Até 2008, de mais de 1000 nomeações à premiação, só 53 não eram brancos. Regina fez duras críticas a esse sistema de exclusão da mídia.

 

Terence Howard

O ator comentou sobre a dificuldade de George Lucas em arranjar quem produzisse seu filme Red Tails, protagonizado por negros e com um vilão branco. Lucas, criador de Star Wars e Indiana Jones e branco, encontrou dificuldades com os estúdio e bancou 30 milhões de dólares do bolso pra botar o filme pra frente. Agora ele aprende nosso drama, porque em suas produções nunca aparecem mais que um ou dois negros.

 

 

Janet Hubert

A eterna Tia Vivian já soltou o verbo também sobre a exclusão do negro em Holywood. Se disse enojada com o racismo que exclui o negro das produções e das vistas da audiência. Disse que não se sente representada ao olhar para as telas.

 

Shonda Rhimes

A toda poderosa escritora, autora de How to get away with murder, Scandal e Grey’s anatomy, já questionou a ausência de negros nas telas e seu parecer foi de que o problema da pouquíssima quantidade de negros não é ligado ao talento, mas ao sistema que limita o acesso. Como ela é uma mente por trás das câmeras, com a caneta na mão, ela pode dizer de carteirinha e diz mesmo: “Alguém precisa resolver isso (…) Vale a pena, veja minha audiência”.

Fonte: Monet

Anúncios

Sobre Fernando Sagatiba

Negro, jornalista, sambista, desenhista, sarcástico e um pretenso auto-proclamado observador da problemática contemporânea. Filiado à UNEGRO-RJ.
Esse post foi publicado em Comunicação UNEGRO e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A mídia é excludente com o negro

  1. Pingback: A mídia é excludente com o negro | Desacato

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s